terça-feira, 24 de outubro de 2017

DÉCIMO TERCEIRO DIA.

quarta, 13/12/2001
           Tava saindo de casa, chaveando a porta, quando o telefone tocou.
Voltei carregado de mau humor.
Era a Gaudalupe, a secretária da agência.
- Vem trabalhar hoje?
- É claro que eu vou, respondi.
- Claro nada, fofucho, a gente não sabe mais quando você vem ou não vem trabalhar.
Falou que nem sabia mais o que dizer quando ligavam pra lá querendo saber onde eu andava..
- Ta bom, ta bom, hoje eu vou.
Já entendi: estão começando a desconfiar que estou aplicando o golpe do ex fumante outra vez. Mas é que tem dias que eu tenho que enforcar o trabalho por absoluta falta de condições de trabalhar.
Fico em casa nestes dias.
Eles acham que eu me mantenho nesse estado de parar de fumar, recomeçar a fumar, parar de fumar, recomeçar a fumar, só pra me escapar do trabalho.
Alguns setores acham que se trata apenas de um vil truque que eu tô usando pra que todos fiquem com pena de mim. Um truque pra ficar em casa de papo pro ar.
Desfrutando do sossego que todos almejam para suas vidas.
É claro que é mentira.
Intriga da oposição.
Mas o boato anda circulando pelos biombos da agência.
Isso porque, se fumar não é doença, parar de fumar também não é.
Então, toda esta conversa de síndrome de abstinência não passa de engodo para encobrir minha preguiça. Ou quem sabe uma crise de criatividade? Quem sabe só pra encobrir um golpe que eu tô armando com a concorrência?
Paranóicos.
Mal eles sabem o que realmente eu tô passando pra abandonar este vício.
A tortura que é parar de fumar.
Só eu sei o que estou passando.
Às vezes tenho certeza de que o melhor pra mim é ficar afastado daquele ambiente enfumaçado.
Cheguei na agência e o Áureo estava me esperando no bebedouro ao lado do elevador.
- Eles estão te chamando na sala deles.
Fui direto.
Conversa séria na sala do Braga e na presença do Aguiar. Os dois são os cabeças do negócio.
Conversamos.
O Braga sempre me pareceu um cara ponderado. Um cara legal. Bom chefe, sensato, amigo.
Já o Aguiar, sempre me pareceu mais estressado, mais nervoso. Fumante inveterado com úlcera no estômago. Recordista com quatro ou cinco maços de cigarro por dia.
Sendo que esta oscilação dependia do que estivesse acontecendo na agência e como isso atuava no seu estado nervoso.
Ele admirava meu trabalho e, acredito, gostava de mim.
Iniciei a conversa argumentando que tava quase conseguindo. Era apenas uma questão de tempo e eu estaria definitivamente livre do cigarro. Aí, voltaria correndo para a agência diariamente como sempre.
Disse pra ele que estamos vivendo em tempos modernos. Podem me mandar minhas tarefas por e-mail. Posso trabalhar em casa. Envio minha produção pela internet.
Ele argumentou que essa idéia já fora ventilada na última reunião. Porém, havia colegas que discordavam.
- Exigem as mesmas regalias que você.
Disse que eles também querem ficar em casa e trabalhar via internet.
Seu Limeira, o motorista, que tava tentando libertar-se da Igreja Universal, queria ficar em casa porque tem um Templo na frente da agência.
O Villas, colega do arquivo, queria voltar pra Argentina. Mandar o trabalho diário de lá mesmo. Falou que se sentia como um exilado. Só não disse que ninguém forçou ele a vir pra cá.
Até a Guada, Guadalupe Moreno, nossa escultural recepcionista. Ela já foi capa de revista. É ex BBB. Perguntou se poderia fazer a recepção da cada dela. A namorado pitbull dela ficava fazendo marcação cerrada na porta da agência.
Eu quero me livrar dele, entenderam? Ele é o meu vício.
Ela chegou a sugerir que os clientes passassem antes na casa dela e então ela iria encaminhando pra agência.
- Então, como você pode ver, disse o Braga, cada um tem um belo motivo para ficar em casa. Isso tá deixando a Aguiar nervoso. Tá tumultuando os resultados. Não dá pra você aparecer quando quer, porra!, gritou o ponderado Braga, acendendo seu sétimo cigarro.
- Pronto ou não, você tem que vir trabalhar aqui na agência. Tem que trabalhar aqui. Entende: tem que ser aqui. Essa situação já está me deixando muito estressado. Estressado demais.. Compreende? Aqui.
Este foi o texto do Aguiar. Falou isso e acendeu o último cigarro de seu primeiro maço. Amassou a carteira e jogou no lixo. Deu uma longa baforada e atirou uma golfada de fumaça na minha cara.
E olha, que eram ainda nove e dez.
Gentil, ele.
Entendi: não posso mais faltar.
O próprio, Braga ainda me disse que ele próprio estava fazendo uma rigorosa dieta para emagrecer.
- Quero perder vinte e três quilos de excesso.
Disse que gostaria de ficar em casa pra se manter afastado de todas as confeitarias, sorveterias, lancherias, padarias que encontrava pelo caminho.
 Senti que não havia o que fazer senão abandonar o artifício de ficar em casa toda a vez que me sentia muito frágil ou ameaçado a voltar ao cigarro.
Usando todo meu cacife de funcionário antigo e comprometido com os resultados da agência, pedi ao Braga que me desse algum trabalho que não me prendesse a agência. Me deixar livre daquele ambiente carregado de fumantes.
Se eu fosse obrigado a conviver com a carga diária de cigarros consumidos nas dependências da agência, não tinha como eu parar de fumar.
Eu ainda não estava pronto, pois afinal de contas, fazia apenas doze dias que eu estava parando de fumar.
- Pela terceira vez, disse o Braga.
- Teus doze dias já duram mais de setenta. Setenta, retrucou o Aguiar.
E continuou fumando e falando que ninguém era culpado se eu tinha recaídas.
- Ninguém tem culpa se você não consegue ficar mais de quinze dias afastado do cigarro.
Encerrou dizendo que ninguém na agência acreditava mesmo que eu ficaria sem fumar. Que ninguém mesmo tinha nada a ver com isso. Agora, vamos nos preocupar com os problemas de cada uma das pessoas que trabalham na agência? Disse que isso seria um verdadeiro inferno. Todo mundo tem problemas. Então:
- Ema, ema, ema, cada um com seus problemas.
Quase acendi um cigarro no meio da conversa de tão pesado que a assunto já ia ficando.   

DÉCIMO QUARTO DIA.

quinta-feira, 14/12/2001

No dia seguinte o Braga me fez uma proposta:
- Tu vai pra Nova Iorque no lugar do Moreyra, do Jurídico.
Aceitei na hora.
Não perco o emprego e dou uma lustrada na minha imagem de excelente profissional.
 Aceitei de primeira, mas fingi que seria um problema
Eu tinha que tratar de uns negócios urgentes em Nova Iorque.
Acontece que nossa agência, modéstia à parte, era uma das mais importantes da terrinha.
Tínhamos, há anos, um contrato com uma das maiores agências de publicidade norte-americanas. O que nos proporcionava um contato direto com clientes multinacionais que atuavam nos Estados Unidos, no Canadá, na França e no Brasil.
Mais ou menos, a cada três meses um funcionário nosso embarcava para os States com a missão de visitar nossos hermanos ianques publicitários. Trocar figurinhas.
Desta vez eu seria o contato.
Além do mais, disse o Braga, foste tu mesmo quem sugeriu.
Certo quando vai ser?
- No final do mês?
- Não, querido, teu vôo sai amanhã à noite. Vinte e três horas.
Correria total.
Documentos, malas, o que levar, as despedidas, as encomendas, os cheques de viagem, as passagens, o câmbio... Que loucura.
Tudo isso provocava uma excitação extraordinária.
A preparação da viagem quase me fez fumar uma ou outra vez.
Ajudaria a manter a ansiedade sob controle.
Dominei a vontade.
Não fumei.
Mas quando cheguei ao aeroporto, tremi.
Sempre é difícil para mim, embarcar num avião e não poder fumar ao menos um cigarro.
E se for o fim?
E se o avião cair?
E se aquele for meu último cigarro?
Meu último prazer?
De que terá valido tanto sacrifício para passar catorze dias que já são mais de setenta sem fumar e morrer num desastre aéreo?
Só parei de pensar no cigarro quando entrei no avião e me afivelei à poltrona.
Partimos.
No avião, depois de umas duas ou três horas de vôo, era fácil identificar os fumantes: roíam as unhas. Eles tinham caras de desesperados por um cigarrinho. Seus rostos apertados, mãos inquietas.
Passei um longo tempo me divertindo procurando secretamente descobrir, entre os passageiros, quem era e quem não era fumante.

DÉCIMO QUINTO DIA.

sexta-feira, 15/12/2001
O avião não caiu e eu cheguei aos Estados Unidos.
Cheguei na terra de Marlboro. Na Big Apple.
E sem fumar.
Os Estados Unidos são a glória dos não-fumantes.
O paraíso.
Em primeiro lugar porque ninguém mais fuma.
E depois, os lugares para fumantes são tão poucos e tão restritos que a gente se sente livre do vício. Livre da fumaça e do cigarro.
Senti-me moderno e sintonizado com minha época.
Senti-me completamente americano.
Logo eu que, como oitenta por cento dos habitantes planeta, sempre tive uma postura anti-americanista. Sempre considerei que eles eram um povo imperialista, belicista, capitalista selvagem e explorador da humanidade.
E agora me vejo admirando um completo conjunto de leis que protegem aqueles que querem se conservar longe do cigarro.
Eles estão realizando um combate interno que não é contra os fumantes. É contra o fumo. Contra uma droga nociva que causa doenças que causa mortes.
Na real, perceberam que o cigarro causa um rombo enorme no bolso deles. E se toca no bolso eles param pra pensar.
É um conjunto de leis para proteger os não-fumantes. Não querem que eles se transformem em fumantes passivos.
Querem conter a fortuna que gastam com a saúde pública cuidando de doenças relacionadas ao uso do cigarro.
Tive que tirar o chapéu pro Tio Sam.
A gente entra em supermercados, restaurantes, ferragens, barbearias, sex-shop e em nenhum lugar é permitido fumar.
O não-fumante, ou um ex-fumante de apenas catorze dias como eu, sente-se livre para andar pelas ruas. Pelas praças. Nos locais fechados. Sem se preocupar em evitar o cheiro de cigarro. Ser ver cinzeiros atopetados de tocos de cigarros apagados.
Eu senti aquilo como se eles tivessem feito pra mim.
Sabiam que eu estava chegando e aboliram o fumo. Tudo para me agradar. Só porque estou dando um exemplo para a humanidade.
Em minha homenagem proibiram os cigarros em todos os lugares públicos. Só pra evitar que eu caia na tentação de experimentar um cigarro norte-americano.
Bem que eu pensei nisso, mas as restrições são tantas que acabei desistindo.
A primeira vista, parece mais fácil um estrangeiro como eu comprar uma arma calibre 12 ou uma caixa de granadas do que comprar um maço de cigarros.
Só falta você ter de preencher uma ficha dizendo quando e onde você pretende acender um cigarro. Se você vai estar sozinho quando fumar ou se vai ter alguma criança por perto.
E o melhor de tudo é que a lei funciona.
Não se fuma e pronto.
Achei inacreditável quando soube que até na agência de publicidade é proibido fumar. Nem no banheiro. Em lugar algum das dependências da agência.
Fumar somente num box isolado que fica no terraço do prédio de 47 andares.
É pra gente desistir de fumar mesmo.
O fumante não tem saída.
Até no Central Park é proibido fumar.
E dizem que a Associação dos Vizinhos Não-Fumantes e Ex-Fumantes de Vizinhos Fumantes, entrou na justiça com uma petição. Eles querem a proibição de fumar cigarro em casa porque a fumaça do cigarro pode entrar na casa de uma pessoa que não fuma. Poderia prejudicar seriamente a saúde desta pessoa.
As pesquisas afirmam que tem uma grande chance de passar.
Eles não estão brincando em serviço.
Não é como no Brasil que o Governo só toma medidas paliativas e prefere não bater de frente com as companhias de cigarro.

DÉCIMO SEXTO DIA.


sábado, 16/12/2001
Sorry, periferia, eu tava praticando meu jogging nas belíssimas alamedas do Central Park.
Nessa época do ano o clima já apresenta os primeiros sinais de neve. A previsão anuncia um inverno rigoroso.
E, como nos filmes, o Central Park se mantém como um suculento oásis no meio dessa metrópole internacional.
Foi andando no Central Park que me surgiu (em inglês perfeito), o seguinte brilhante pensamento: quem nasceu primeiro o cigarro ou o isqueiro?
Claro, que vocês vão dizer que foi o cigarro.
Todo mundo sabe que foi o cigarro mesmo.
Mas quem nasceu primeiro o cigarro ou o fósforo?
Ah. Esta já é mais difícil, né?
Já mereceria, pelo menos, uma tese de mestrado.
Qual dessas duas coisas foi inventada primeiro pelo cérebro privilegiado do homem?
Fica parecido com a clássica pergunta sobre quem nasceu primeiro: a galinha ou o ovo?
Vira um dilema para filósofos.
Também sobre a minha original pergunta podemos filosofar.
Vamos enunciar novamente minha pergunta: quem nasceu primeiro o cigarro ou o fósforo?
Vamos pegar o fósforo porque é mais difícil de saber a resposta do que com o isqueiro. Porque, sabidamente, o isqueiro é um advento posterior.
Então, está colocado nosso dilema que poderia ser apresentado na forma do seguinte problema:
Quem é mais importante: o cigarro ou o fósforo?
Agora chegamos num momento zen. Esse é o elo entre o cigarro e o fósforo.
Acho que eu estou tão idiotizado pela vontade de fumar que só consigo pensar em idéias idiotas.
Mas, supondo que você é fumante. Supondo que você está andando na rua. Supondo que é muito tarde. Madrugada. Ninguém mais na rua. Tá tudo fechado.
Você tem um cigarro. Tá louco pra fumar e tem cigarros.
Mas... não tem fogo.
Procura nos bolsos. Não tem fósfoto.
De adianta seu cigarro?
Sabe o que você pode fazer com ele?
Quer que eu diga mesmo?
Mas, por outro lado, se você está na rua, de madrugada, na mesma situação. Ninguém na rua, nenhum lugar aberto. Você não tem dinheiro. Mas tem no bolso uma caixa de fósforos. Tá louco de vontade de fumar. Mas não tem um mísero cigarrinho.
Procura baganas pelo chão, mas não tem. O DMLU acabou de passar varrendo tudo.
Do que lhe adianta a caixa de fósforos?
Filosofia Zen.
Enigma totalmente zen.
Como é zen a relação entre o fumante e o cigarro.
Totalmente zen.
Um depende total e integralmente do outro. Um só existe com e através do outro. É zen.
Só quem não está zen sou eu.
Tô louco.
Tô ficando abobado.
Tenho que fumar. Só um cigarrinho. Unzinho só. Só uma tragadinha. Não posso mais... não agüento mais.
- Vou me trancar no banheiro.
Não pra fumar porque aqui eles têm detector de fumaça por toda parte. Vou me trancar pra escapar da vontade desesperada de fumar que eu estou sentindo.
Me diz como é que pode?
Como é que pode o cara, no meio de uma corrida, num parque maravilhoso. Num lugar que o cara não conhece. Cheio de verde. Cheio de crianças. Cheio de baby-sitters americanas com uns baita seios, Nem assim o cara consegue pensar em cigarro?
Imaginem, o cara sai de Porto Alegre com tudo pago para passar três dias em Nova Iorque. Consegue tempo pra correr no parque mais famoso do mundo. Nada menos do que o Central Park. A pracinha da megalópole mais famosa do mundo. E fica pensando em fumar?
Por favor.
A partir de amanhã vou colocar minha camisa de força. Vou botar uma focinheira pra vir correr no Central Park.
Tenho que resistir.
- Não devo fumar. Não devo fumar. Não devo fumar. Não devo fumar. Não devo fumar. Não devo fumar. Não devo fumar. Não devo fumar. Não devo fumar. Devo fumar. Não. Não devo fumar. Não devo fumar. Não devo fumar...

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

DÉCIMO SÉTIMO DIA.

domingo, 17/12/2001

Meu terceiro dia na Big Apple foi uma completa e estafante maratona.
Acordei at seven o’clock e passei a manhã inteira trilhando pela Quinta Avenida e adjacências.
Andei de loja em loja.
Correndo atrás dos itens da minha faraônica lista de compras.
Quer dizer, a minha lista particular de presentes era muito enxuta.
Uma geringonça eletrônica mais modernosas que eu encontrasse para milha filha. Uma jaqueta de grife importante pro meu filho se exibir.
Um brinquedo inédito no Brasil para meu neto.
Uma lembrança pro meu pai.
Aliás, pensei em dar pra ele um cocar legítimo. Um cocar de chefe indígena. Tinha que ser alguma coisa ligada ao velho-oeste.
Claro que tinha que levar algum outro bagulho pra minha mãe.
Era só.
Ah, tinha que levar alguma coisa bem idiota pro meu avô. Para que ele não me deserdasse.
Além disso, tinha que comprar meia dúzia daquelas fatais lembrançinhas para os amigos mais chegados. As lembranças obrigatórias.
Se fosse mesmo apenas isso tudo seria muito mais fácil.
Mas não era.
Mesmo tendo vindo para cá às pressas e avisado apenas algumas poucas pessoas, meu e-mail ficou lotado de encomendas de parentes próximos e distantes, amigos, amigos dos amigos e colegas do tempo do Julhinho.
Então, passei a manhã correndo atrás dos setenta e oito itens variados que compunham a minha lista de encomendas.
Até o guru da amiga da prima da irmã da minha prima Geraldine, que eu não vejo há séculos, tomou a liberdade de pedir que eu lhe trouxesse uns artigos de ocultismo e bruxaria que só se encontram aqui.
Então eu tinha que trazer oito livros técnicos de assuntos diferentes, três canivetes retráteis, dois pares de óculos, quatro pares de raquetes de tênis para a esposa do tio Robério.
Na real, o tio Roberio nunca pisou numa quadra de tênis. Não sabe distinguir entre uma bola de tênis e uma bolinha de ping-pong.
Uma touca de natação especial que só tem aqui para a filha do Braga. Nadadora da SOGIPA.
Um abrigo puma ou nike legítimo, o último filme do Brad Pitt em dvd para a Guadalupe.
Seis cds de seis bandas que não chegavam ao Brasil.
Quatro telefones celulares último tipo com câmera, gravador de cd e dvd, mp3 e wave.
Vários abridores de latas e canivetes suíço.
Três caixas de tinta óleo de cores variadas para o meu ex-cunhado, o Batista.
Uma encomenda especial: material pornográfico inédito no Brasil para o meu outro ex-cunhado (ainda bem que eram somente dois) que trabalha com vídeo pornô.
É o tarado da família.
E o mais engraçado é que nome dele é Bento.
Singelo, não?
O Braga ainda me pediu que comprasse umas novidades de pet shop pro cachorro dele.
O Aguiar não quis nada porque alimenta um ódio mortal por tudo que é americano. Não gosta dos americanos, nem das americanas, nem do cinema americano. Odeia todo american way of life.  Inclusive o Homem Aranha. E, é óbvio detesta o Super Homem.
Se vocês se derem ao trabalho de somar estes itens irão encontrar apenas umas quarenta coisas.
O restante faz parte da listinha da minha querida ex.
Uma lista composta de batons, shampoos, condicionadores, rimel, esmaltes, unhas postiças, cílios postiços, perucas, um kit escova secador e modelador para chapinha, bijuterias variadas, roupas, sapatos e mais uma batelada de coisas verdes, sua cor preferida.
O que mais me impressionou, no meio de tantas mer... mercadorias, foi perceber que, hoje em dia, não existem produtos que sejam tipicamente americanos.
Tirando o Malrboro, o IMac, o hamburger e a Coca-Cola, tudo o mais é japonês, chinês, coreano, hindu ou europeu.
Até o Frank Sinatra foi substituído pelos cantores e cantoras de origem de latinoamerica.
Têm coisas cubanas, colombianas, brasileiras.
Têm coisas mexicanas e muitos mexicanos e mexicanas.
Coisas típicas do mundo inteiro, mas pouquíssimas coisas americanas.
De genuíno, além do dólar, o que mais de singular é americano?
Se eu quisesse levar para o Brasil alguma coisa genuinamente americana teria que levar um cowboy ou um mac donalds.
Ah, é. Tem o Mickey.
Aliás, comprei um boné dele pra levar pro meu pai.
Descarreguei três táxis de compras no hotel.

DÉCIMO OITAVO DIA.


segunda-feira, 18/12/2001

Acordei na segunda ainda cansado.
Tomei um banho e corri para a agência.
Passei o dia em reunião com o pessoal da associada de Toronto.
Na verdade, achei uma lástima que eles viessem a Nova Iorque pra gente se reunir.
Desde que li o “Diário de um Cucaracha”, do Henfil, tenho um desejo e uma curiosidade de conhecer o Canadá. Não será desta vez.
Como será que é o lance do cigarro lá?
Será que fumam muito?
Será que é tão proibido quanto aqui?
Aqui é uma maravilha.
Aqui eu não corro o risco de fumar porque é simplesmente abolido o cigarro.
A reunião transcorreu tranqüila. Relatos, idéias, comunicados, acordos, acertos e apresentação de cases americanos, canadenses e nossos.
Um sucesso.
Encerramos com todos comendo sua porção de comida chinesa.
Meu voo Nova York-Paris era às dezenove e trinta. Mal tive tempo de voltar correndo ao hotel.
Tomei um drink.
Peguei a minha bagagem, que agora havia aumentado em trinta ou quarenta quilos.
Rumei para o aeroporto John F. Kennedy, que fica no Queens.
Fui direto para o check-in. Despachei a enorme bagagem e fui direto ao bar.
Minha ideia era encher a cara o mais rápido possível.
Aplacar um pouco o medo de voar e a vontade de fumar.
Sentado no bar me senti confortável. Relaxei um pouco.
Pensei que eu era mesmo um idiota porque estava indo embora da maior cidade do mundo sem conhecer nada além do Central Park.
Que babaca.
Conheci só lojas e shoppings.
- Merda. Esqueci de comprar uma porcaria pro Áureo.
Ele jamais me perdoaria se eu não levasse alguma coisa pra ele.
Corri para o setor de lojas do aeroporto.
Pra minha sorte (e dele), no quinto andar, encontrei uma loja de produtos astrológicos.
Comprei um conjunto de mapas, livros, cristais, programas de computador e outros trecos de astrologia.
Custou os olhos da cara.
Quando consegui voltar ao bar e me acomodar novamente, chamaram meu vôo.
Adeus, Nova Iorque.  

DÉCIMO NONO DIA.


terça-feira, 19/12/2001

DÉCIMO NONO DIA.

Cinco horas depois, completamente embriagado de tanto champagne que entornei no avião da Air France, desembarquei no Aeroporto Roissy-Charles-de-Gaulle, em Paris.
Ah, quem diria eu em Paris? Na Cidade Luz.
Lembrei da queda da Bastilha.
Liberté, égalité, fraternité.
Os iluministas
Descartes, Zola, Renoir, Foucault, da Belle Époque, do Moulin Rouge, da Mona Lisa.
Lembrei da gostosa da minha professora de francês.
Senti vontade de dar uma de Papa e beijar o chão do Aeroporto.
- É claro que não fiz isso.
Mas tive que me segurar.
Peguei um táxi e lá pelas três da madrugada preenchi a ficha do Hotel Vivaldi.
Quem escolheu foi o pessoal da agência de Paris. Ficava perto do Centro Financeiro La Défense. No mesmo bairro do escritório.
Estranhei porque o Vivaldi era italiano, mas no panfleto dizia que era “une traditionnel hôtellerie française”.
Achei o hotel simplesmente maravilhoso. Majestoso! Me senti o próprio Luís XV.
Uma mistura de Casa de Cultura Mário Quintana com Hotel Plaza São Rafael, só que dez vezes mais pomposo e glamoroso.  
De tanto beber, esqueci de comer.
Larguei a bagagem no quarto e me ataquei de fome.
O porteiro me disse com um inigualável orgulho francês que a cozinha funcionava 24 horas sem parar.
- Nossa cozinha atende não só as necessidades do hotel, como também a demanda do entorno.
- Posso fazer um pedido?
- Infelizmente, não é possível atender agora. Estamos no turno de produção.
Traduzindo para o bom português do Brasil a cozinha que não fechava nunca estava fechada.
O cheiro de pão se alastrava pelo hotel inteiro.
E o pobre e infeliz do hóspede faminto.
Um verdadeiro “arlequino” roendo as próprias tripas, enquanto a cozinha produz para o bairro inteiro.
Será que não tem um funcionário pra te alcançar um mísero baguette, um pedaço de roquefort e duas garrafas de champagne?
No quarto só os indefectíveis salgadinhos duros e chocolates.
É claro que eu podia engolir qualquer coisa, beber uma cerveja, dormir ou até mesmo esperar o café da manhã que não tardaria. Mas eu não queria repetir a experiência de NY, ou seja, ir embora sem conhecer absolutamente nada.
Decidi sair e procurar um café, um bar, qualquer coisa.
Devia ser umas quatro.
Antes das quatro e quarenta eu já estava de volta ao hotel.
O frio era insuportável. Meus ossos pareciam estar congelados.
Não havia uma viva alma nas ruas desertas.
Paris estava dormindo.
Tinha uma neblina espessa, quase londrina baixando em Paris. Não se enxergava um palmo na frente dos olhos.
Bater de cara na Torre Eiffel ou num poste não faria a menos diferença.
Voltei a vida quando consegui atravessar a porta giratória com vidro de cristal e entrar quase petrificado de frio no salão quentinho do Hotel Vivaldi.
Um legítimo hotel francês que havia sido rebatizado com o nome do músico veneziano porque o bistataravô do propriètaire era vidrado em óperas.
Um dia o próprio Vivaldi, de passagem por Paris, na estréia de uma de suas óperas, hospedou-se no antigo Auberge des Flamboyants.
O bisavô determinou a imediata substituição do nome do hotel. Desprezou o antigo nome que tinha mais ou menos uns quatrocentos anos.
Mas, como esta mudança já faz mais de cem anos que aconteceu o Hotel Vivaldi é um dos mais tradicionais de La Defense.
A primeira coisa que vi foi uma garrafa térmica. Voei para ela. Servi o meu primeiro café de Paris.
Aspirei o odor.
Tomei um longo gole do café mais gelado que eu já tomei na minha vida.
Recolhi-me ao meu quarto quentinho e dormi como um anjo faminto e salvo do congelamento total.

VIGÉSIMO DIA.


quarta-feira, 20/12/2001

Impressionante, como se fuma em Paris.
Eu já tinha ouvido falar nisso, mas só vendo para crer.
A quantidade de fumantes é absurda. Todo mundo fuma. Em Paris e na França inteira.
Homens, mulheres, velhos, jovens, todos.
A sensação que se tem é que até mesmo as crianças fumam.
Os bebês fumam em seus carrinhos.
É uma fumaceira só.
Quem não fuma, tá esperando a hora de fumar mais um.
Ou é porque não quer fumar.
Você entra num lugar pra tomar um café que só existe em Paris. Saborear um cafezinho feito com o melhor grão do café brasileiro ou colombiano. E encontra um lugar completamente enfumaçado, defumado.
Acordei às 10h08 minutos.
Tava lavando o rosto e me dei conta de que eu havia perdido o café da manhã incluído na diária do le petit Hotel Vivaldi.
Saí às pressas para o primeiro café que encontrei.
Exatamente ao lado esquerdo do hotel.
Aliás, depois descobri que havia um de cada lado.
Outro na frente e um outro na diagonal.
E, é claro, um dentro do próprio hotel.
Entrei no Le Caffè de Antoine.
Tava entupido de fumantes.
Saí, atravessei a rua e entrei no Caffè de la Bourgeoisie.
Percorri os cinco.
A mesma coisa em todos: hermeticamente fechados. Os aquecedores ligados no máximo por causa do frio intenso. Todos entupidos de franceses que não tomam um banho desde o final do outono.
Você entra e é atacado por uma mistura extravagante composta de fumaça de cigarro e do legítimo bodum francês.
Eu devia ter ficado nos States.
Principalmente neste momento crucial e delicado que estou passando.
Já voltei a fumar por duas vezes, mais ou menos, neste período. E agora caio no meio desta cidade que é um imenso cinzeiro. Aqui os habitantes amam cigarros.
Não quero fracassar outra vez.
Pedi um café e o garçon que o trouxe estava fumando.
Só faltou despejar a cinza no pires.
Eu não consegui nem sentir o cheiro do café.
Comi um croissant com gosto de cigarro.
Uma fatia de Camembert com gosto de cigarro.
Um naco de Gorgonzola com gosto de sovaco.
O dono fuma. O caixa fuma. O garçon fuma. A faxineira fuma. E todos os clientes fumam.
Você pega um táxi e o motorista está fumando.
No metrô todos fumam.
É cigarro por todos os lados.
Um tremendo e bárbaro complô contra a tua pobre e humana força de vontade.
Corri até uma a primeira padaria que encontrei. O estabelecimento era apenas a mais requintada padaria que eu já entrei na minha vida. Era brilhante. Barroca. A mais maravilhosa e completa padaria que eu já pisei.
A pequena Boulangerie du Roi desbancou com larga vantagem a Confeitaria Colombo.
Empolguei-me com o lugar. A esta altura eu já tava com uma fome sobre-humana.
Fiz um rancho como se estivesse no Zaffari Bourbon.
Foi o rancho mais caro que eu já fiz em toda minha vida.
Comprei vários tipos de pães, baguettes, croissants, biscoitos, docinhos variados. Diversos tipos de queijo. Cinco latas de bombons exóticos.
Voltei correndo pro hotel.
Escolhi ficar trancado no quarto já que o quarto era o único em Paris onde não haveria alguém fumando.
Subi para o meu andar com o ascensorista fumando bem normal.
Pelo telefone pedi quatro garrafas do vinho francês mais barato da lista. Custaram os olhos da cara, mas foi o melhor vinho que já tomei em toda minha vida.
Pedi pelo computador meia dúzia de filmes franceses.
A moça da recepção me disse que pelo canal 37, exclusivo do Hotel Vivaldi, eu poderia assistir duas óperas francesas do período renascentista.
Olhei o relógio e eram 12h38.
Cercado por todas as minhas guloseimas, afofei meus oito travesseiros de pena de gansos franceses, e recostei-me na minha cama de legítimo mogno gaulês.
Pela tv visitei a Torre Eiffel. Conheci a Pont-Neuf. Estive no Sacre-Couer. E ainda percorri os arredores de Paris.
Tudo isso, bem abafado, embaixo das minhas quentinhas cobertas parisienses.
O rapaz que me trouxe o vinho estava fumando. Escondeu o cigarro momentos antes que eu abrisse a porta.
Terminou de soltar a última baforada justamente quando eu abri a porta.
O rapaz que trouxe os dvds estava fumando. Continuou fumando descaradamente enquanto fazia a entrega e esperava minha assinatura.
Fechei a porta e me entreguei solitariamente aos prazeres de Paris.

VIGÉSIMO PRIMEIRO DIA.


quinta-feira, 21/12/2001


Na agência todos fumam.
O prédio é maravilhoso. Ultra nouveau riche. Uma arquitetura podre de chic. O auge do contemporâneo num prédio de mais de 300 anos.
O escritório ficava no décimo-sexto andar.
O ascensorista acendeu o cigarro no segundo andar e seguiu fumando.
Mais dois passageiros acenderam seus cigarros.
E todos conversavam como se nada estivesse acontecendo.
A agência era completamente enfumaçada. Do boy ao diretor geral todos fumam.
E o que é pior: todos fumam o tempo inteiro.
Fumam durante o trabalho. Fumam durante as reuniões. E, às vezes, param pra fumar um cigarrinho.
- C’est impressionant!
Faz mais ou menos dois meses que a lei francesa proibiu o fumo em lugares públicos fechados.
Só que eles ainda não se adaptaram as novas determinações. Continuam fumando sem o menor problema na consciência.
Não sei se vocês sabiam, mas os cigarros franceses têm preços deliberadamente baixos. Fazem parte da cesta-básica de primeiro mundo que vigora na França.
Se o Lula sabe disso vai querer instituir no Brasil a bolsa-cigarro.
Fumar é um hábito instaurado, arraigado e absurdamente levado a sério.
Só em Paris existe o Musée du Fumeur. Uma instituição para preservar cinco séculos de iconografia. O Museu demonstra que antigamente o tabaco era visto como uma planta dos deuses. E que reduzir isso apenas ao cigarro é um exagero.
O museu tem uma coleção de fotos de fumantes famosos. Tem uma frequentadíssima sala de fumar.
O caso de amor dos franceses com o cigarro é antigo.
As duas principais marcas de cigarro francesas, a Gauloises e a Gitanes, ganharam um status cultural comparável ao das baguetes, do vinho tinto e do champagne.
É difícil imaginar uma França sem fumantes.
Aliás, estes foram os presentes que eu mais ganhei dos meus colegas publicitários parisienses
Faturei sete garrafas de vinho. Duas garrafas de champagne. Seis pacotes de Gauloises e cinco de Gitanes.
Estava quase completa a encomenda do Braga, que não quis nada dos states, mas pediu que lhe trouxesse de Paris dez pacotes de Gitanes. Que é, apenas, o cigarro mais forte do mundo.
A reunião transcorreu sem incidentes.
Devido ao meu péssimo francês, deixei de entender muitas coisas que eles falaram.
Mas, os franceses me apresentaram uma montanha de gráficos. E gráfico é gráfico em qualquer parte do mundo.
De minha parte, espero que eles tenham compreendido o discurso de apresentação que eu preparei tão meticulosamente.
Os colegas franceses adoraram as garrafas de cachaça e os calendários com motivos brasileiros com que lhes presenteei.
Todos, unanimemente, ficaram muito penalizados com a minha situação. Não conseguiam compreender, de maneira nenhuma, porque uma pessoa quer parar de fumar.
Alguns concluíram que era um alto grau de masoquismo.
Outros disseram que era coisa de brasileiro.
Saí incólume da reunião.
Resisti a todos os cigarros que me foram oferecidos.
De volta ao Hotel Vivaldi, solicitei na portaria que despachassem imediatamente todos aqueles pacotes de cigarro.
Eu não confiava tanto assim em mim mesmo para colocar aquela imensa quantidade de cigarros em cima do criado mudo.
Ao alcance da minha mão.
Seria tentação demais.
Então, pra substituir: mais vinho, mais gulodices, mais petiscos franceses, e mais filmes.