quarta, 13/12/2001
Voltei carregado de mau humor.
Era a Gaudalupe, a secretária da
agência.
- Vem trabalhar hoje?
- É claro que eu vou, respondi.
- Claro nada, fofucho, a gente não
sabe mais quando você vem ou não vem trabalhar.
Falou que nem sabia mais o que dizer
quando ligavam pra lá querendo saber onde eu andava..
- Ta bom, ta bom, hoje eu vou.
Já entendi: estão começando a
desconfiar que estou aplicando o golpe do ex fumante outra vez. Mas é que tem
dias que eu tenho que enforcar o trabalho por absoluta falta de condições de
trabalhar.
Fico em casa nestes dias.
Eles acham que eu me mantenho nesse estado
de parar de fumar, recomeçar a fumar, parar de fumar, recomeçar a fumar, só pra
me escapar do trabalho.
Alguns setores acham que se trata
apenas de um vil truque que eu tô usando pra que todos fiquem com pena de mim.
Um truque pra ficar em casa de papo pro ar.
Desfrutando do sossego que todos
almejam para suas vidas.
É claro que é mentira.
Intriga da oposição.
Mas o boato anda circulando pelos
biombos da agência.
Isso porque, se fumar não é doença,
parar de fumar também não é.
Então, toda esta conversa de síndrome
de abstinência não passa de engodo para encobrir minha preguiça. Ou quem sabe
uma crise de criatividade? Quem sabe só pra encobrir um golpe que eu tô armando
com a concorrência?
Paranóicos.
Mal eles sabem o que realmente eu tô
passando pra abandonar este vício.
A tortura que é parar de fumar.
Só eu sei o que estou passando.
Às vezes tenho certeza de que o melhor
pra mim é ficar afastado daquele ambiente enfumaçado.
Cheguei na agência e o Áureo estava me
esperando no bebedouro ao lado do elevador.
- Eles estão te chamando na sala
deles.
Fui direto.
Conversa séria na sala do Braga e na
presença do Aguiar. Os dois são os cabeças do negócio.
Conversamos.
O Braga sempre me pareceu um cara
ponderado. Um cara legal. Bom chefe, sensato, amigo.
Já o Aguiar, sempre me pareceu mais estressado,
mais nervoso. Fumante inveterado com úlcera no estômago. Recordista com quatro
ou cinco maços de cigarro por dia.
Sendo que esta oscilação dependia do
que estivesse acontecendo na agência e como isso atuava no seu estado nervoso.
Ele admirava meu trabalho e, acredito,
gostava de mim.
Iniciei a conversa argumentando que
tava quase conseguindo. Era apenas uma questão de tempo e eu estaria
definitivamente livre do cigarro. Aí, voltaria correndo para a agência
diariamente como sempre.
Disse pra ele que estamos vivendo em
tempos modernos. Podem me mandar minhas tarefas por e-mail. Posso trabalhar em
casa. Envio minha produção pela internet.
Ele argumentou que essa idéia já fora
ventilada na última reunião. Porém, havia colegas que discordavam.
- Exigem as mesmas regalias que você.
Disse que eles também querem ficar em
casa e trabalhar via internet.
Seu Limeira, o motorista, que tava
tentando libertar-se da Igreja Universal, queria ficar em casa porque tem um
Templo na frente da agência.
O Villas, colega do arquivo, queria
voltar pra Argentina. Mandar o trabalho diário de lá mesmo. Falou que se sentia
como um exilado. Só não disse que ninguém forçou ele a vir pra cá.
Até a Guada, Guadalupe Moreno, nossa
escultural recepcionista. Ela já foi capa de revista. É ex BBB. Perguntou se
poderia fazer a recepção da cada dela. A namorado pitbull dela ficava fazendo
marcação cerrada na porta da agência.
Eu quero me livrar dele, entenderam?
Ele é o meu vício.
Ela chegou a sugerir que os clientes
passassem antes na casa dela e então ela iria encaminhando pra agência.
- Então, como você pode ver, disse o
Braga, cada um tem um belo motivo para ficar em casa. Isso tá deixando a Aguiar
nervoso. Tá tumultuando os resultados. Não dá pra você aparecer quando quer,
porra!, gritou o ponderado Braga, acendendo seu sétimo cigarro.
- Pronto ou não, você tem que vir
trabalhar aqui na agência. Tem que trabalhar aqui. Entende: tem que ser aqui.
Essa situação já está me deixando muito estressado. Estressado demais..
Compreende? Aqui.
Este foi o texto do Aguiar. Falou isso
e acendeu o último cigarro de seu primeiro maço. Amassou a carteira e jogou no
lixo. Deu uma longa baforada e atirou uma golfada de fumaça na minha cara.
E olha, que eram ainda nove e dez.
Gentil, ele.
Entendi: não posso mais faltar.
O próprio, Braga ainda me disse que
ele próprio estava fazendo uma rigorosa dieta para emagrecer.
- Quero perder vinte e três quilos de
excesso.
Disse que gostaria de ficar em casa
pra se manter afastado de todas as confeitarias, sorveterias, lancherias,
padarias que encontrava pelo caminho.
Senti que não havia o que fazer senão abandonar
o artifício de ficar em casa toda a vez que me sentia muito frágil ou ameaçado
a voltar ao cigarro.
Usando todo meu cacife de funcionário
antigo e comprometido com os resultados da agência, pedi ao Braga que me desse
algum trabalho que não me prendesse a agência. Me deixar livre daquele ambiente
carregado de fumantes.
Se eu fosse obrigado a conviver com a
carga diária de cigarros consumidos nas dependências da agência, não tinha como
eu parar de fumar.
Eu ainda não estava pronto, pois
afinal de contas, fazia apenas doze dias que eu estava parando de fumar.
- Pela terceira vez, disse o Braga.
- Teus doze dias já duram mais de
setenta. Setenta, retrucou o Aguiar.
E continuou fumando e falando que ninguém
era culpado se eu tinha recaídas.
- Ninguém tem culpa se você não consegue
ficar mais de quinze dias afastado do cigarro.
Encerrou dizendo que ninguém na
agência acreditava mesmo que eu ficaria sem fumar. Que ninguém mesmo tinha nada
a ver com isso. Agora, vamos nos preocupar com os problemas de cada uma das
pessoas que trabalham na agência? Disse que isso seria um verdadeiro inferno. Todo
mundo tem problemas. Então:
- Ema, ema, ema, cada um com seus
problemas.
Quase acendi um cigarro no meio da
conversa de tão pesado que a assunto já ia ficando.
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