quinta-feira,
21/12/2001
Na agência todos fumam.
O prédio é maravilhoso. Ultra nouveau
riche. Uma arquitetura podre de chic. O auge do contemporâneo num prédio de
mais de 300 anos.
O escritório ficava no décimo-sexto
andar.
O ascensorista acendeu o cigarro no
segundo andar e seguiu fumando.
Mais dois passageiros acenderam seus
cigarros.
E todos conversavam como se nada
estivesse acontecendo.
A agência era completamente
enfumaçada. Do boy ao diretor geral todos fumam.
E o que é pior: todos fumam o tempo
inteiro.
Fumam durante o trabalho. Fumam
durante as reuniões. E, às vezes, param pra fumar um cigarrinho.
- C’est impressionant!
Faz mais ou menos dois meses que a lei
francesa proibiu o fumo em lugares públicos fechados.
Só que eles ainda não se adaptaram as
novas determinações. Continuam fumando sem o menor problema na consciência.
Não sei se vocês sabiam, mas os
cigarros franceses têm preços deliberadamente baixos. Fazem parte da
cesta-básica de primeiro mundo que vigora na França.
Se o Lula sabe disso vai querer instituir
no Brasil a bolsa-cigarro.
Fumar é um hábito instaurado,
arraigado e absurdamente levado a sério.
Só em Paris existe o Musée du Fumeur.
Uma instituição para preservar cinco séculos de iconografia. O Museu demonstra
que antigamente o tabaco era visto como uma planta dos deuses. E que reduzir
isso apenas ao cigarro é um exagero.
O museu tem uma coleção de fotos de
fumantes famosos. Tem uma frequentadíssima sala de fumar.
O caso de amor dos franceses com o
cigarro é antigo.
As duas principais marcas de cigarro
francesas, a Gauloises e a Gitanes, ganharam um status cultural comparável ao
das baguetes, do vinho tinto e do champagne.
É difícil imaginar uma França sem
fumantes.
Aliás, estes foram os presentes que eu
mais ganhei dos meus colegas publicitários parisienses
Faturei sete garrafas de vinho. Duas garrafas
de champagne. Seis pacotes de Gauloises e cinco de Gitanes.
Estava quase completa a encomenda do
Braga, que não quis nada dos states, mas pediu que lhe trouxesse de Paris dez
pacotes de Gitanes. Que é, apenas, o cigarro mais forte do mundo.
A reunião transcorreu sem incidentes.
Devido ao meu péssimo francês, deixei
de entender muitas coisas que eles falaram.
Mas, os franceses me apresentaram uma
montanha de gráficos. E gráfico é gráfico em qualquer parte do mundo.
De minha parte, espero que eles tenham
compreendido o discurso de apresentação que eu preparei tão meticulosamente.
Os colegas franceses adoraram as
garrafas de cachaça e os calendários com motivos brasileiros com que lhes
presenteei.
Todos, unanimemente, ficaram muito
penalizados com a minha situação. Não conseguiam compreender, de maneira
nenhuma, porque uma pessoa quer parar de fumar.
Alguns concluíram que era um alto grau
de masoquismo.
Outros disseram que era coisa de
brasileiro.
Saí incólume da reunião.
Resisti a todos os cigarros que me
foram oferecidos.
De volta ao Hotel Vivaldi, solicitei
na portaria que despachassem imediatamente todos aqueles pacotes de cigarro.
Eu não confiava tanto assim em mim
mesmo para colocar aquela imensa quantidade de cigarros em cima do criado mudo.
Ao alcance da minha mão.
Seria tentação demais.
Então, pra substituir: mais vinho,
mais gulodices, mais petiscos franceses, e mais filmes.
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