segunda-feira, 23 de outubro de 2017

VIGÉSIMO PRIMEIRO DIA.


quinta-feira, 21/12/2001


Na agência todos fumam.
O prédio é maravilhoso. Ultra nouveau riche. Uma arquitetura podre de chic. O auge do contemporâneo num prédio de mais de 300 anos.
O escritório ficava no décimo-sexto andar.
O ascensorista acendeu o cigarro no segundo andar e seguiu fumando.
Mais dois passageiros acenderam seus cigarros.
E todos conversavam como se nada estivesse acontecendo.
A agência era completamente enfumaçada. Do boy ao diretor geral todos fumam.
E o que é pior: todos fumam o tempo inteiro.
Fumam durante o trabalho. Fumam durante as reuniões. E, às vezes, param pra fumar um cigarrinho.
- C’est impressionant!
Faz mais ou menos dois meses que a lei francesa proibiu o fumo em lugares públicos fechados.
Só que eles ainda não se adaptaram as novas determinações. Continuam fumando sem o menor problema na consciência.
Não sei se vocês sabiam, mas os cigarros franceses têm preços deliberadamente baixos. Fazem parte da cesta-básica de primeiro mundo que vigora na França.
Se o Lula sabe disso vai querer instituir no Brasil a bolsa-cigarro.
Fumar é um hábito instaurado, arraigado e absurdamente levado a sério.
Só em Paris existe o Musée du Fumeur. Uma instituição para preservar cinco séculos de iconografia. O Museu demonstra que antigamente o tabaco era visto como uma planta dos deuses. E que reduzir isso apenas ao cigarro é um exagero.
O museu tem uma coleção de fotos de fumantes famosos. Tem uma frequentadíssima sala de fumar.
O caso de amor dos franceses com o cigarro é antigo.
As duas principais marcas de cigarro francesas, a Gauloises e a Gitanes, ganharam um status cultural comparável ao das baguetes, do vinho tinto e do champagne.
É difícil imaginar uma França sem fumantes.
Aliás, estes foram os presentes que eu mais ganhei dos meus colegas publicitários parisienses
Faturei sete garrafas de vinho. Duas garrafas de champagne. Seis pacotes de Gauloises e cinco de Gitanes.
Estava quase completa a encomenda do Braga, que não quis nada dos states, mas pediu que lhe trouxesse de Paris dez pacotes de Gitanes. Que é, apenas, o cigarro mais forte do mundo.
A reunião transcorreu sem incidentes.
Devido ao meu péssimo francês, deixei de entender muitas coisas que eles falaram.
Mas, os franceses me apresentaram uma montanha de gráficos. E gráfico é gráfico em qualquer parte do mundo.
De minha parte, espero que eles tenham compreendido o discurso de apresentação que eu preparei tão meticulosamente.
Os colegas franceses adoraram as garrafas de cachaça e os calendários com motivos brasileiros com que lhes presenteei.
Todos, unanimemente, ficaram muito penalizados com a minha situação. Não conseguiam compreender, de maneira nenhuma, porque uma pessoa quer parar de fumar.
Alguns concluíram que era um alto grau de masoquismo.
Outros disseram que era coisa de brasileiro.
Saí incólume da reunião.
Resisti a todos os cigarros que me foram oferecidos.
De volta ao Hotel Vivaldi, solicitei na portaria que despachassem imediatamente todos aqueles pacotes de cigarro.
Eu não confiava tanto assim em mim mesmo para colocar aquela imensa quantidade de cigarros em cima do criado mudo.
Ao alcance da minha mão.
Seria tentação demais.
Então, pra substituir: mais vinho, mais gulodices, mais petiscos franceses, e mais filmes.

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