quarta-feira,
20/12/2001
Impressionante, como se fuma em Paris.
Eu já tinha ouvido falar nisso, mas só
vendo para crer.
A quantidade de fumantes é absurda. Todo
mundo fuma. Em Paris e na França inteira.
Homens, mulheres, velhos, jovens,
todos.
A sensação que se tem é que até mesmo
as crianças fumam.
Os bebês fumam em seus carrinhos.
É uma fumaceira só.
Quem não fuma, tá esperando a hora de
fumar mais um.
Ou é porque não quer fumar.
Você entra num lugar pra tomar um café
que só existe em Paris. Saborear um cafezinho feito com o melhor grão do café
brasileiro ou colombiano. E encontra um lugar completamente enfumaçado,
defumado.
Acordei às 10h08 minutos.
Tava lavando o rosto e me dei conta de
que eu havia perdido o café da manhã incluído na diária do le petit Hotel
Vivaldi.
Saí às pressas para o primeiro café
que encontrei.
Exatamente ao lado esquerdo do hotel.
Aliás, depois descobri que havia um de
cada lado.
Outro na frente e um outro na
diagonal.
E, é claro, um dentro do próprio
hotel.
Entrei no Le Caffè de Antoine.
Tava entupido de fumantes.
Saí, atravessei a rua e entrei no
Caffè de la Bourgeoisie.
Percorri os cinco.
A mesma coisa em todos: hermeticamente
fechados. Os aquecedores ligados no máximo por causa do frio intenso. Todos entupidos
de franceses que não tomam um banho desde o final do outono.
Você entra e é atacado por uma mistura
extravagante composta de fumaça de cigarro e do legítimo bodum francês.
Eu devia ter ficado nos States.
Principalmente neste momento crucial e
delicado que estou passando.
Já voltei a fumar por duas vezes, mais
ou menos, neste período. E agora caio no meio desta cidade que é um imenso
cinzeiro. Aqui os habitantes amam cigarros.
Não quero fracassar outra vez.
Pedi um café e o garçon que o trouxe
estava fumando.
Só faltou despejar a cinza no pires.
Eu não consegui nem sentir o cheiro do
café.
Comi um croissant com gosto de
cigarro.
Uma fatia de Camembert com gosto de
cigarro.
Um naco de Gorgonzola com gosto de sovaco.
O dono fuma. O caixa fuma. O garçon
fuma. A faxineira fuma. E todos os clientes fumam.
Você pega um táxi e o motorista está
fumando.
No metrô todos fumam.
É cigarro por todos os lados.
Um tremendo e bárbaro complô contra a
tua pobre e humana força de vontade.
Corri até uma a primeira padaria que
encontrei. O estabelecimento era apenas a mais requintada padaria que eu já
entrei na minha vida. Era brilhante. Barroca. A mais maravilhosa e completa padaria
que eu já pisei.
A pequena Boulangerie du Roi desbancou
com larga vantagem a Confeitaria Colombo.
Empolguei-me com o lugar. A esta
altura eu já tava com uma fome sobre-humana.
Fiz um rancho como se estivesse no
Zaffari Bourbon.
Foi o rancho mais caro que eu já fiz
em toda minha vida.
Comprei vários tipos de pães,
baguettes, croissants, biscoitos, docinhos variados. Diversos tipos de queijo.
Cinco latas de bombons exóticos.
Voltei correndo pro hotel.
Escolhi ficar trancado no quarto já
que o quarto era o único em Paris onde não haveria alguém fumando.
Subi para o meu andar com o
ascensorista fumando bem normal.
Pelo telefone pedi quatro garrafas do
vinho francês mais barato da lista. Custaram os olhos da cara, mas foi o melhor
vinho que já tomei em toda minha vida.
Pedi pelo computador meia dúzia de
filmes franceses.
A moça da recepção me disse que pelo
canal 37, exclusivo do Hotel Vivaldi, eu poderia assistir duas óperas francesas
do período renascentista.
Olhei o relógio e eram 12h38.
Cercado por todas as minhas
guloseimas, afofei meus oito travesseiros de pena de gansos franceses, e
recostei-me na minha cama de legítimo mogno gaulês.
Pela tv visitei a Torre Eiffel. Conheci
a Pont-Neuf. Estive no Sacre-Couer. E ainda percorri os arredores de Paris.
Tudo isso, bem abafado, embaixo das minhas
quentinhas cobertas parisienses.
O rapaz que me trouxe o vinho estava
fumando. Escondeu o cigarro momentos antes que eu abrisse a porta.
Terminou de soltar a última baforada
justamente quando eu abri a porta.
O rapaz que trouxe os dvds estava
fumando. Continuou fumando descaradamente enquanto fazia a entrega e esperava
minha assinatura.
Fechei a porta e me entreguei solitariamente
aos prazeres de Paris.
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