segunda-feira, 23 de outubro de 2017

VIGÉSIMO DIA.


quarta-feira, 20/12/2001

Impressionante, como se fuma em Paris.
Eu já tinha ouvido falar nisso, mas só vendo para crer.
A quantidade de fumantes é absurda. Todo mundo fuma. Em Paris e na França inteira.
Homens, mulheres, velhos, jovens, todos.
A sensação que se tem é que até mesmo as crianças fumam.
Os bebês fumam em seus carrinhos.
É uma fumaceira só.
Quem não fuma, tá esperando a hora de fumar mais um.
Ou é porque não quer fumar.
Você entra num lugar pra tomar um café que só existe em Paris. Saborear um cafezinho feito com o melhor grão do café brasileiro ou colombiano. E encontra um lugar completamente enfumaçado, defumado.
Acordei às 10h08 minutos.
Tava lavando o rosto e me dei conta de que eu havia perdido o café da manhã incluído na diária do le petit Hotel Vivaldi.
Saí às pressas para o primeiro café que encontrei.
Exatamente ao lado esquerdo do hotel.
Aliás, depois descobri que havia um de cada lado.
Outro na frente e um outro na diagonal.
E, é claro, um dentro do próprio hotel.
Entrei no Le Caffè de Antoine.
Tava entupido de fumantes.
Saí, atravessei a rua e entrei no Caffè de la Bourgeoisie.
Percorri os cinco.
A mesma coisa em todos: hermeticamente fechados. Os aquecedores ligados no máximo por causa do frio intenso. Todos entupidos de franceses que não tomam um banho desde o final do outono.
Você entra e é atacado por uma mistura extravagante composta de fumaça de cigarro e do legítimo bodum francês.
Eu devia ter ficado nos States.
Principalmente neste momento crucial e delicado que estou passando.
Já voltei a fumar por duas vezes, mais ou menos, neste período. E agora caio no meio desta cidade que é um imenso cinzeiro. Aqui os habitantes amam cigarros.
Não quero fracassar outra vez.
Pedi um café e o garçon que o trouxe estava fumando.
Só faltou despejar a cinza no pires.
Eu não consegui nem sentir o cheiro do café.
Comi um croissant com gosto de cigarro.
Uma fatia de Camembert com gosto de cigarro.
Um naco de Gorgonzola com gosto de sovaco.
O dono fuma. O caixa fuma. O garçon fuma. A faxineira fuma. E todos os clientes fumam.
Você pega um táxi e o motorista está fumando.
No metrô todos fumam.
É cigarro por todos os lados.
Um tremendo e bárbaro complô contra a tua pobre e humana força de vontade.
Corri até uma a primeira padaria que encontrei. O estabelecimento era apenas a mais requintada padaria que eu já entrei na minha vida. Era brilhante. Barroca. A mais maravilhosa e completa padaria que eu já pisei.
A pequena Boulangerie du Roi desbancou com larga vantagem a Confeitaria Colombo.
Empolguei-me com o lugar. A esta altura eu já tava com uma fome sobre-humana.
Fiz um rancho como se estivesse no Zaffari Bourbon.
Foi o rancho mais caro que eu já fiz em toda minha vida.
Comprei vários tipos de pães, baguettes, croissants, biscoitos, docinhos variados. Diversos tipos de queijo. Cinco latas de bombons exóticos.
Voltei correndo pro hotel.
Escolhi ficar trancado no quarto já que o quarto era o único em Paris onde não haveria alguém fumando.
Subi para o meu andar com o ascensorista fumando bem normal.
Pelo telefone pedi quatro garrafas do vinho francês mais barato da lista. Custaram os olhos da cara, mas foi o melhor vinho que já tomei em toda minha vida.
Pedi pelo computador meia dúzia de filmes franceses.
A moça da recepção me disse que pelo canal 37, exclusivo do Hotel Vivaldi, eu poderia assistir duas óperas francesas do período renascentista.
Olhei o relógio e eram 12h38.
Cercado por todas as minhas guloseimas, afofei meus oito travesseiros de pena de gansos franceses, e recostei-me na minha cama de legítimo mogno gaulês.
Pela tv visitei a Torre Eiffel. Conheci a Pont-Neuf. Estive no Sacre-Couer. E ainda percorri os arredores de Paris.
Tudo isso, bem abafado, embaixo das minhas quentinhas cobertas parisienses.
O rapaz que me trouxe o vinho estava fumando. Escondeu o cigarro momentos antes que eu abrisse a porta.
Terminou de soltar a última baforada justamente quando eu abri a porta.
O rapaz que trouxe os dvds estava fumando. Continuou fumando descaradamente enquanto fazia a entrega e esperava minha assinatura.
Fechei a porta e me entreguei solitariamente aos prazeres de Paris.

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