terça-feira, 06/06/2006
CINCO ANOS E MEIO
Como são
as coisas, não é mesmo?
Hoje pela
manhã, antes de sair para o trabalho, eu tava procurando uns documentos
antigos.
Estavam
numa arcaica maleta de couro marrom. Daquelas estilo 007.
Junto com
os documentos encontrei meu abandonado diário.
Meu velho
companheiro da luta contra o cigarro.
Juro que
fiquei bastante emocionado.
Reli
algumas das anotações e passagens descritas nos registros.
O diário
me ajudou decisivamente na missão de parar de fumar.
Foi como
um verdadeiro Sancho Pança. Um fiel parceiro escutando minhas lamentações e
lamúrias.
Houveram
momentos em que eu descarregava no diário toda a minha ansiedade. Descarregava
minha ira contra o mundo e contra todos.
Em outras
ocasiões eu odiava a ideia de escrever aquelas anotações idiotas.
Era
ridículo fingir que tava dividindo aquilo tudo com leitores invisíveis.
Com
pessoas que torciam pela minha vitória.
Não foram
raras as vezes que eu me senti um completo idiota. Que perda de tempo incrível
escrever, anotar. Descrever sensações que só a mim interessavam.
Agora,
depois de quase seis anos, tô seguro na minha condição de ex-fumante.
Sou capaz
de fumar um cigarro somente pra provar que não fumo mais.
Brincadeirinha.
É claro
que não vou fazer isso.
Imaginem:
fumo um cigarro só para me exibir, acabo gostando e volto a fumar como
antigamente.
Não
mesmo.
Cada dia,
cada ano que passa, se torna um motivo a mais para que eu não queira voltar a
fumar.
Se aos
trinta dias sem fumar, o sujeito já considera um desperdício de sacrifício
voltar a fumar, não vou jogar na lixeira cinco anos e meio livre dos malditos
cigarros.
É bem
verdade, que dias atrás tive mais um fatídico sonho com cigarros.
No começo
isso era constante.
Eu ficava
muitíssimo preocupado. Apavorado.
Achava
que era um mau presságio.
Uma
indicação inconsciente de que eu voltaria a fumar a qualquer momento.
Ficava
com medo de sofrer uma recaída.
Agora nem
dou bola.
Já me
acostumei a sonhar com cigarros uma ou duas vezes por ano.
É como se
a cada semestre eu passasse a noite inteira fumando.
Parece
que o sonho começa trinta e cinco segundos depois que eu durmo e acaba dois
segundos antes de acordar.
E mesmo
que eu acorde no meio da noite para ir ao banheiro, quando volto a dormir
continuo sonhando do ponto em que parei.
Na
verdade, hoje em dia eu até gosto de sonhar que estou fumando porque aí pelo
menos no sonho eu dou minhas escapadinhas.
Neste
sonho recente eu tava num consultório médico.
Era um
imenso consultório branco.
E eu nu,
deitado numa maca.
Uma
enfermeira muito parecida com a Malu Mader tava verificando minha pressão.
O médico
era um galã que eu não lembro o nome.
Ele me
fazia algumas perguntas e anotava as resposta em seu prontuário.
Diante
dos meus olhos a Malu foi se transformando num cigarro.
O
uniforme branco foi se enrolando no corpo dela. Num último sorriso a cabeça
transformou-se num filtro vermelho.
Malu
Mader virou Malu Malrboro.
Apareceu
na minha mão um isqueiro gigantesco que parecia mais um extintor de incêndio.
Acendi a
malu-cigarro.
Comecei a
fumá-la bem devagarinho.
Lentamente
virei a cabeça para comentar o fato com o médico.
Pude ver
o próprio médico transmutando-se num longo e esverdeado cigarro mentolado.
Apertei
meu isqueiro-extintor que agora já era um lança-chamas.
Acendi o
médico.
Traguei-o
de uma só vez inalando o sabor do mentol.
Só
acordei lá pelas nove da manhã depois de ter fumado o corpo clínico inteiro do
Hospital de Clínicas.
Mas nem
era sobre isso que eu queria escrever.
Era outra
coisa bem diferente.
Imediatamente,
assim que reencontrei o diário senti-me rigorosamente em dívida com vocês que
acompanharam esta minha caminhada.
Percebi
que tinha, no mínimo, a obrigação de relatar, mesmo que resumidamente, como
anda a minha vida.
Não que
ela seja, ou tenha ficado mais ou menos interessante. Não tá mais nem menos
medíocre do que já era.
Mas,
talvez, vocês estejam curiosos para saber em que ponto andam as coisas.
Afinal,
dividi com vocês a minha intimidade.
Imaginei,
sinceramente, que vocês torciam por mim.
Eu sabia
que alguns estavam achando que eu não conseguiria
E que
tinha, até, uns torcendo contra.
Então,
sem esperar que vocês insistam vou fazer um rápido balanço.
Primeiramente,
quero declarar oficialmente que continuo sem fumar.
Sou um
ex-fumante convicto.
Mas não é
só isto. Agora sou também um anti-tabagista xiita. Um verdadeiro chato.
Já posso ser considerado uma pessoa normal.
Posso frequentar qualquer lugar sem medo de sair fumando por causa do primeiro
fumante que aparecer na minha frente.
Fora
isso, apenas considerações gerais: fui promovido na agência. Agora sou diretor
geral de assuntos e produtos internacionais.
Cresceu o
salário e quadruplicaram as responsabilidades.
Dona
Sucyleide continua vindo as terças.
Ela
também não fuma mais. Teve que parar por ordens médicas. Sofreu uma parada
cardíaca. Foi levada às pressas para o SUS do Conceição. Colocaram três pontes
de safena nela. Quase foi pro Beleléu. O médico foi categórico: ou para de
fumar ou já era.
Ela se
agarrou em tudo quanto é santo.
Prometeu
parar de fumar se escapasse com vida.
Escapou e
parou mesmo.
Minha
ex-mulher fez mais uma plástica geral e agora está com 22 anos.
Namorando
um surfista de 19.
O Áureo ligou no domingo pra saber como eu
tava. Gastou duas horas de telefone decifrando tudo que os astros reservam para
mim neste momento da minha vida.
Ou seja,
continua tudo na mesma.
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