sábado, 14 de outubro de 2017

CINCO ANOS E MEIO

terça-feira, 06/06/2006

CINCO ANOS E MEIO

 

Como são as coisas, não é mesmo?

Hoje pela manhã, antes de sair para o trabalho, eu tava procurando uns documentos antigos.

Estavam numa arcaica maleta de couro marrom. Daquelas estilo 007.

Junto com os documentos encontrei meu abandonado diário.

Meu velho companheiro da luta contra o cigarro.

Juro que fiquei bastante emocionado.

Reli algumas das anotações e passagens descritas nos registros.

O diário me ajudou decisivamente na missão de parar de fumar.

Foi como um verdadeiro Sancho Pança. Um fiel parceiro escutando minhas lamentações e lamúrias.

Houveram momentos em que eu descarregava no diário toda a minha ansiedade. Descarregava minha ira contra o mundo e contra todos.

Em outras ocasiões eu odiava a ideia de escrever aquelas anotações idiotas.

Era ridículo fingir que tava dividindo aquilo tudo com leitores invisíveis.

Com pessoas que torciam pela minha vitória.

Não foram raras as vezes que eu me senti um completo idiota. Que perda de tempo incrível escrever, anotar. Descrever sensações que só a mim interessavam.

Agora, depois de quase seis anos, tô seguro na minha condição de ex-fumante.

Sou capaz de fumar um cigarro somente pra provar que não fumo mais.

Brincadeirinha.

É claro que não vou fazer isso.

Imaginem: fumo um cigarro só para me exibir, acabo gostando e volto a fumar como antigamente.

Não mesmo.

Cada dia, cada ano que passa, se torna um motivo a mais para que eu não queira voltar a fumar.

Se aos trinta dias sem fumar, o sujeito já considera um desperdício de sacrifício voltar a fumar, não vou jogar na lixeira cinco anos e meio livre dos malditos cigarros.

É bem verdade, que dias atrás tive mais um fatídico sonho com cigarros.

No começo isso era constante.

Eu ficava muitíssimo preocupado.  Apavorado.

Achava que era um mau presságio.

Uma indicação inconsciente de que eu voltaria a fumar a qualquer momento.

Ficava com medo de sofrer uma recaída.

Agora nem dou bola.

Já me acostumei a sonhar com cigarros uma ou duas vezes por ano.

É como se a cada semestre eu passasse a noite inteira fumando.

Parece que o sonho começa trinta e cinco segundos depois que eu durmo e acaba dois segundos antes de acordar.

E mesmo que eu acorde no meio da noite para ir ao banheiro, quando volto a dormir continuo sonhando do ponto em que parei.

Na verdade, hoje em dia eu até gosto de sonhar que estou fumando porque aí pelo menos no sonho eu dou minhas escapadinhas.

Neste sonho recente eu tava num consultório médico.

Era um imenso consultório branco.

E eu nu, deitado numa maca.

Uma enfermeira muito parecida com a Malu Mader tava verificando minha pressão.

O médico era um galã que eu não lembro o nome.

Ele me fazia algumas perguntas e anotava as resposta em seu prontuário.

Diante dos meus olhos a Malu foi se transformando num cigarro.

O uniforme branco foi se enrolando no corpo dela. Num último sorriso a cabeça transformou-se num filtro vermelho.

Malu Mader virou Malu Malrboro.

Apareceu na minha mão um isqueiro gigantesco que parecia mais um extintor de incêndio.

Acendi a malu-cigarro.

Comecei a fumá-la bem devagarinho.

Lentamente virei a cabeça para comentar o fato com o médico.

Pude ver o próprio médico transmutando-se num longo e esverdeado cigarro mentolado.

Apertei meu isqueiro-extintor que agora já era um lança-chamas.

Acendi o médico.

Traguei-o de uma só vez inalando o sabor do mentol.

Só acordei lá pelas nove da manhã depois de ter fumado o corpo clínico inteiro do Hospital de Clínicas.

Mas nem era sobre isso que eu queria escrever.

Era outra coisa bem diferente.

Imediatamente, assim que reencontrei o diário senti-me rigorosamente em dívida com vocês que acompanharam esta minha caminhada.

Percebi que tinha, no mínimo, a obrigação de relatar, mesmo que resumidamente, como anda a minha vida.

Não que ela seja, ou tenha ficado mais ou menos interessante. Não tá mais nem menos medíocre do que já era.

Mas, talvez, vocês estejam curiosos para saber em que ponto andam as coisas.

Afinal, dividi com vocês a minha intimidade.

Imaginei, sinceramente, que vocês torciam por mim.

Eu sabia que alguns estavam achando que eu não conseguiria

E que tinha, até, uns torcendo contra.

Então, sem esperar que vocês insistam vou fazer um rápido balanço.

Primeiramente, quero declarar oficialmente que continuo sem fumar.

Sou um ex-fumante convicto.

Mas não é só isto. Agora sou também um anti-tabagista xiita. Um verdadeiro chato.

 Já posso ser considerado uma pessoa normal. Posso frequentar qualquer lugar sem medo de sair fumando por causa do primeiro fumante que aparecer na minha frente.

Fora isso, apenas considerações gerais: fui promovido na agência. Agora sou diretor geral de assuntos e produtos internacionais.

Cresceu o salário e quadruplicaram as responsabilidades.

Dona Sucyleide continua vindo as terças.

Ela também não fuma mais. Teve que parar por ordens médicas. Sofreu uma parada cardíaca. Foi levada às pressas para o SUS do Conceição. Colocaram três pontes de safena nela. Quase foi pro Beleléu. O médico foi categórico: ou para de fumar ou já era.

Ela se agarrou em tudo quanto é santo.

Prometeu parar de fumar se escapasse com vida.

Escapou e parou mesmo.

Minha ex-mulher fez mais uma plástica geral e agora está com 22 anos.

Namorando um surfista de 19.

O Áureo ligou no domingo pra saber como eu tava. Gastou duas horas de telefone decifrando tudo que os astros reservam para mim neste momento da minha vida.

Ou seja, continua tudo na mesma.

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