sábado, 14 de outubro de 2017

PRIMEIRO ANO (um ano).

segunda-feira, 03/12/2001

PRIMEIRO ANO (um ano).

 

Tô livre.

BRASIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIL!

Minha assinatura na telinha.

Minha foto no Jornal Nacional.

Completamente livre.

Entrevistado nas páginas amarelas da Veja.

Convite para dar uma entrevista no Programa do Jô.

Um ano de tortura se encerra hoje.

Tortura nunca mais.

Que felicidade.

Livre! Livre!

Fique sabendo que todas as estatísticas estão a meu favor.

Menos uma ou duas que são as únicas exceções.

Por causa de meia dúzia de babacas que voltaram a fumar depois de um ano de esforço cotidiano.

Meia dúzia de fracotes que desertaram.

Relataram que depois de um ano de privação e abstinência total, se deixaram seduzir outra vez pelo hábito do fumo.

As alegações eram as mais variadas possíveis.

Uns disseram que era devido o contato próximo com fumantes. Outros alegaram que viram um filme no qual o protagonista fumava mais que o Humphrey Bogart.

Inclusive teve um que contou que saiu como um louco do cinema. Abandonou o filme depois que o mocinho acendeu o quarto cigarro. Foi voando para a primeira tabacaria que encontrou. Comprou um maço de cigarros e sentou no meio fio para fumar. Disse que só se deu conta do que havia feito, depois de ter fumado.

Foram atingidos pela propaganda subliminar.

Tem a turma que decidiu voltar a fumar.

Todos juram que não estavam com a mínima vontade de fumar.

Dizem que não foi a propaganda.

Foi uma decisão consciente. Um exercício de reflexão e liberdade.

Balela.

Não suportaram viver sem o cigarro.

E eu?

Será que eu aguentarei firme?

Será que vou amarelar?

Conscientemente, penso que o cara tem que ser muito burro pra voltar a fumar.

Só uma verdadeira anta voltaria a fumar depois de passar por este tormento sobre-humano.

Se eu soubesse tudo que teria que passar... Ah, se eu imaginasse...

Se tivesse olhado numa bola de cristal, não sei se teria feito o que fiz.

É uma coisa David e Golias.

É a kriptonita verde contra os poderes do super-homem.

É a barata contra o Rodox.

Só eu sei o que passei neste interminável ano.

Sem a menor sombra de dúvida, foi mais longo ano de toda a minha vida.

Mas, como o ano é feito de tempo e o tempo, inexoravelmente, tem que passar, este ano também passou.

Foi-se.

E eu me confirmei como área livre de cigarro.

Saio do outro lado purificado e, o que é melhor: vitorioso.

Eu devia mesmo fazer uma faixa de ex-fumante para mim.

Mister Ex-fumante Universo.

Eu devia comprar um presente pra mim mesmo.

Eu devia promover uma mega festa em minha própria homenagem.

Eu devia encomendar uma escultura. Mandar fazer um busto meu.

Daí, conseguir com o síndico uma autorização especial pra colocar na entrada do meu prédio.

Ia ficar lindo.

Eu seria amado pelas crianças e adorado pelos pais.

Seria um exemplo para o bairro inteiro.

Vou criar um blog contando como parar de fumar em dez lições. Um passo à passo.

Vou colocar no YouTube pequenos vídeos com depoimentos meus sobre meu próprio feito.

Vou aproveitar para colocar outras dicas.

Coisas variadas que eu sempre tive vontade de dizer sobre moda, sobre alimentação. Sobre como ser feliz.

Sobre o que eu realmente acho de certas coisas e de certas pessoas.

Não.

Acho que isso já não vai ficar muito bem num blog.

Sabem o que significa atingir a marca de um ano sem fumar?

Escapo da indefinição. Já posso ser chamado de ex-fumante.

Depois de um ano o sujeito vai ter que pensar muito bem antes de fazer a bobagem de voltar a fumar.

Daí, só cagando a pau, como diria o meu avô.

Mas não vai ser o meu caso.

Isola.

Nunca...

Podem escrever nas agendas de vocês: juro solenemente que nunca mais, em toda a minha vida, eu vou colocar um cigarro na boca.

Nunca mais. 

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