sexta-feira, 15/12/2001
O avião não caiu e eu cheguei aos
Estados Unidos.
Cheguei na terra de Marlboro. Na Big
Apple.
E sem fumar.
Os Estados Unidos são a glória dos
não-fumantes.
O paraíso.
Em primeiro lugar porque ninguém mais
fuma.
E depois, os lugares para fumantes são
tão poucos e tão restritos que a gente se sente livre do vício. Livre da fumaça
e do cigarro.
Senti-me moderno e sintonizado com
minha época.
Senti-me completamente americano.
Logo eu que, como oitenta por cento
dos habitantes planeta, sempre tive uma postura anti-americanista. Sempre
considerei que eles eram um povo imperialista, belicista, capitalista selvagem
e explorador da humanidade.
E agora me vejo admirando um completo
conjunto de leis que protegem aqueles que querem se conservar longe do cigarro.
Eles estão realizando um combate
interno que não é contra os fumantes. É contra o fumo. Contra uma droga nociva
que causa doenças que causa mortes.
Na real, perceberam que o cigarro
causa um rombo enorme no bolso deles. E se toca no bolso eles param pra pensar.
É um conjunto de leis para proteger os
não-fumantes. Não querem que eles se transformem em fumantes passivos.
Querem conter a fortuna que gastam com
a saúde pública cuidando de doenças relacionadas ao uso do cigarro.
Tive que tirar o chapéu pro Tio Sam.
A gente entra em supermercados,
restaurantes, ferragens, barbearias, sex-shop e em nenhum lugar é permitido
fumar.
O não-fumante, ou um ex-fumante de
apenas catorze dias como eu, sente-se livre para andar pelas ruas. Pelas
praças. Nos locais fechados. Sem se preocupar em evitar o cheiro de cigarro.
Ser ver cinzeiros atopetados de tocos de cigarros apagados.
Eu senti aquilo como se eles tivessem
feito pra mim.
Sabiam que eu estava chegando e
aboliram o fumo. Tudo para me agradar. Só porque estou dando um exemplo para a
humanidade.
Em minha homenagem proibiram os
cigarros em todos os lugares públicos. Só pra evitar que eu caia na tentação de
experimentar um cigarro norte-americano.
Bem que eu pensei nisso, mas as
restrições são tantas que acabei desistindo.
A primeira vista, parece mais fácil um
estrangeiro como eu comprar uma arma calibre 12 ou uma caixa de granadas do que
comprar um maço de cigarros.
Só falta você ter de preencher uma
ficha dizendo quando e onde você pretende acender um cigarro. Se você vai estar
sozinho quando fumar ou se vai ter alguma criança por perto.
E o melhor de tudo é que a lei
funciona.
Não se fuma e pronto.
Achei inacreditável quando soube que
até na agência de publicidade é proibido fumar. Nem no banheiro. Em lugar algum
das dependências da agência.
Fumar somente num box isolado que fica
no terraço do prédio de 47 andares.
É pra gente desistir de fumar mesmo.
O fumante não tem saída.
Até no Central Park é proibido fumar.
E dizem que a Associação dos Vizinhos
Não-Fumantes e Ex-Fumantes de Vizinhos Fumantes, entrou na justiça com uma
petição. Eles querem a proibição de fumar cigarro em casa porque a fumaça do
cigarro pode entrar na casa de uma pessoa que não fuma. Poderia prejudicar
seriamente a saúde desta pessoa.
As pesquisas afirmam que tem uma
grande chance de passar.
Eles não estão brincando em serviço.
Não é como no Brasil que o Governo só
toma medidas paliativas e prefere não bater de frente com as companhias de
cigarro.
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