terça-feira, 24 de outubro de 2017

DÉCIMO SEXTO DIA.


sábado, 16/12/2001
Sorry, periferia, eu tava praticando meu jogging nas belíssimas alamedas do Central Park.
Nessa época do ano o clima já apresenta os primeiros sinais de neve. A previsão anuncia um inverno rigoroso.
E, como nos filmes, o Central Park se mantém como um suculento oásis no meio dessa metrópole internacional.
Foi andando no Central Park que me surgiu (em inglês perfeito), o seguinte brilhante pensamento: quem nasceu primeiro o cigarro ou o isqueiro?
Claro, que vocês vão dizer que foi o cigarro.
Todo mundo sabe que foi o cigarro mesmo.
Mas quem nasceu primeiro o cigarro ou o fósforo?
Ah. Esta já é mais difícil, né?
Já mereceria, pelo menos, uma tese de mestrado.
Qual dessas duas coisas foi inventada primeiro pelo cérebro privilegiado do homem?
Fica parecido com a clássica pergunta sobre quem nasceu primeiro: a galinha ou o ovo?
Vira um dilema para filósofos.
Também sobre a minha original pergunta podemos filosofar.
Vamos enunciar novamente minha pergunta: quem nasceu primeiro o cigarro ou o fósforo?
Vamos pegar o fósforo porque é mais difícil de saber a resposta do que com o isqueiro. Porque, sabidamente, o isqueiro é um advento posterior.
Então, está colocado nosso dilema que poderia ser apresentado na forma do seguinte problema:
Quem é mais importante: o cigarro ou o fósforo?
Agora chegamos num momento zen. Esse é o elo entre o cigarro e o fósforo.
Acho que eu estou tão idiotizado pela vontade de fumar que só consigo pensar em idéias idiotas.
Mas, supondo que você é fumante. Supondo que você está andando na rua. Supondo que é muito tarde. Madrugada. Ninguém mais na rua. Tá tudo fechado.
Você tem um cigarro. Tá louco pra fumar e tem cigarros.
Mas... não tem fogo.
Procura nos bolsos. Não tem fósfoto.
De adianta seu cigarro?
Sabe o que você pode fazer com ele?
Quer que eu diga mesmo?
Mas, por outro lado, se você está na rua, de madrugada, na mesma situação. Ninguém na rua, nenhum lugar aberto. Você não tem dinheiro. Mas tem no bolso uma caixa de fósforos. Tá louco de vontade de fumar. Mas não tem um mísero cigarrinho.
Procura baganas pelo chão, mas não tem. O DMLU acabou de passar varrendo tudo.
Do que lhe adianta a caixa de fósforos?
Filosofia Zen.
Enigma totalmente zen.
Como é zen a relação entre o fumante e o cigarro.
Totalmente zen.
Um depende total e integralmente do outro. Um só existe com e através do outro. É zen.
Só quem não está zen sou eu.
Tô louco.
Tô ficando abobado.
Tenho que fumar. Só um cigarrinho. Unzinho só. Só uma tragadinha. Não posso mais... não agüento mais.
- Vou me trancar no banheiro.
Não pra fumar porque aqui eles têm detector de fumaça por toda parte. Vou me trancar pra escapar da vontade desesperada de fumar que eu estou sentindo.
Me diz como é que pode?
Como é que pode o cara, no meio de uma corrida, num parque maravilhoso. Num lugar que o cara não conhece. Cheio de verde. Cheio de crianças. Cheio de baby-sitters americanas com uns baita seios, Nem assim o cara consegue pensar em cigarro?
Imaginem, o cara sai de Porto Alegre com tudo pago para passar três dias em Nova Iorque. Consegue tempo pra correr no parque mais famoso do mundo. Nada menos do que o Central Park. A pracinha da megalópole mais famosa do mundo. E fica pensando em fumar?
Por favor.
A partir de amanhã vou colocar minha camisa de força. Vou botar uma focinheira pra vir correr no Central Park.
Tenho que resistir.
- Não devo fumar. Não devo fumar. Não devo fumar. Não devo fumar. Não devo fumar. Não devo fumar. Não devo fumar. Não devo fumar. Não devo fumar. Devo fumar. Não. Não devo fumar. Não devo fumar. Não devo fumar...

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