domingo, 22 de outubro de 2017

SEXAGÉSIMO DIA.


sábado, 30/01/2002

Somente agora percebo que minha visão começa a recuperar a sua acuidade normal.
Eu nem havia me dado conta que tava enxergando, no mínimo, uns 40% menos. Fora de foco. Embaçado. Nublado.
Agora, que a visão está voltando ao normal é que tive a nítida sensação de que desde que parei de fumar venho enxergando tudo turvo.
Até as mulheres ficaram opacas.
E, não é para me gabar, se existe alguma coisa que eu preze no mundo, são as mulheres.
Eu transaria com todas, com exceção da minha ex.
Quer dizer, com quase todas.
Pois, foi justamente pensando nestes aspectos sexuais que senti como o fato ocular era importantíssimo.
Concluí que a falta de cigarro perturba a visão.
Ou melhor, quando um fumante para de fumar sente que sua visão fica alterada.
Se eu fosse um oftalmologista ficaria famoso apresentando esta tese para a Oftalmology English Rewiew.
Sim. Porque, não sei se vocês repararam, mas sempre há uma revista inglesa sobre quaisquer que seja o assunto no mundo.
E sempre a revista inglesa é a mais respeitável autoridade sobre quaisquer que seja o assunto do mundo.
Também, só de ler o nome da revista em inglês, que ela já adquire 100% de credibilidade.
Ou, se eu fosse um notável pesquisador dos distúrbios da visão.
Ou se eu fosse o dono da maior ótica da cidade.
Aí até valeria à pena fumar um cigarrinho só pra ver como a minha visão reagiria.
Poderia usar outros indivíduos na mesma condição que eu. Pobres coitados que estão tentando largar esse vício tão renitente.
Eles seriam minhas cobaias nas pesquisas sobre o assunto.
Eu administraria pequenas doses de cigarro. Ficava monitorando o quê acontece com a visão.
Depois, criaria produtos farmacêuticos ou óculos progressivos.
E então, mandaria os resultados de minhas pesquisas, para a New Look American Rewie.
É óbvio, que também sempre tem uma ou mais revistas americanas interessadas em qualquer assunto.
Além disso, assim que o assunto fosse publicado, e o leitor pronunciasse o título da matéria, tenho plena certeza de que eu estaria milionário com a minha descoberta.
Mas eu sou publicitário, e jamais gastaria um minuto pensando em problemas da visão.
Ainda mais porque notei que minha visão voltou ao normal.
É exatamente neste ponto que eu quero chegar: a minha visão voltou ao normal.
Compreendeu?
Tudo tá maravilhosamente bem.
Aí vem a pergunta que não quer calar:
Quais serão as outras funções do meu organismo que também podem ter ficado 40% prejudicada?
Uma questão muito assombrosa.
Que outro sentido do corpo pode ter diminuído suas funções nesta fase? Que outros órgãos podem ter ficado fora de foco? Ou mais, que órgão do meu corpo pode ter tido a sua capacidade comprometida em 40%? 30%? 20%?
Agora fiquei preocupado.
Vou fazer uns autoexames. Vou para estudar mais detidamente este problema.
Assim, à princípio, sinto que está tudo normal. Tá tudo funcionando direitinho. A contento.
Embora, eu não possa negar que minha libido diminuiu bastante.
É que eu tô focado nesta batalha contra o cigarro.
Passo 50% do tempo pensando em parar de fumar e os outros 50% só pensando em cigarro.
Antigamente eu passava 33,33% do tempo pensando em trabalho. Trinta e três vírgula trinta e três por cento pensando em mulheres. E 33,33% pensando em como pegá-las.
Não que eu me ache um poderoso garanhão, claro que não.
Também não é meu o título de maior comedor do pedaço.
Só que eu tô sempre alerta nessa questão.
Ou estava, né?
Porque agora enfrentando esta dura parada de me tornar um ex-fumante convicto, realmente não consigo pensar em outra coisa que não seja em cigarro.
E se acontecer com meu pênis a mesma coisa que está acontecendo com meus olhos? Se o guri começar a render 40% mais?
Isso quer dizer que vem aí uma fase boa.
Vou colocar um anúncio nos classificados: quarentão, ex-fumante, bom de motor, rendendo 40% a mais...
Vai chover na minha horta.
Modéstia à parte, oferta não falta.
Tá certo que não sou nenhum Brad Pitt. Mas também não sou nenhum Woody Allen.
Que, diga-se de passagem, com aquela cara de pai do Mister Bean, não encontra nenhum problema pra pegar mulher.
Mas, de verdade, oferta não falta porque tem muita oferta.
Tem um derrame de mulher.
Uma hecatombe.
Um superávit de mulheres. Uma super safra.
Transborda mulher em qualquer lugar que a gente vá.
É ou não é?
Você vai no Bric da Redenção tem milhares.
Você sai pra dançar na noite, tem milhares.
Você vai à Bienal tem milhares. Vai ao cinema, elas são maioria.
É uma loucura.
É claro que tem que separar o joio do trigo.
Tem um batalhão de chatas. Tem o pelotão das feias.
Mas também tem o esquadrão filé.
O crem de la crem.
Aquelas milhares de mulheres que são sedutoras e atraentes e interessantes o bastante para manter um diálogo agradável.
Brincadeira, piadinhas machistas.
O que conta é que são muitas
E a oferta, além de numerosa, tem um nível excelente e uma variedade impressionante. Tem mulher pra todos ao gostos.
Centenas delas, milhares, atendem a vários quesitos essenciais.
Tipo: idade, experiência, evolução, samba enredo, beleza, desenvoltura, uma boa comissão de frente, uma bateria nota dez, harmonia é importantíssimo, uma dose de fantasia é fundamental.
Mas o básico, o fundamental mesmo para o olhar masculino é que mulher tem que ter uma boa bundinha.
Isso é sagrado.
Desculpem-me as leitoras.
Tive um acesso de machismo retardado.
Na verdade, imagino algumas de suas angústias.
Esforçar-se para superar as sogras nas expectativas edipianas dos maridos, estes eternos crianções.
Todas têm que cumprir integralmente com dois roteiros básicos: cuidar eficientemente de todas as funções que desde os tempos mais remotos a elas foram destinadas. Como por exemplo, cuidar da casa, cuidar dos filhos, ter filhos, etc, etc. etc. E dois, elas têm que se afinar com os novos tempos que exigem que elas participem do mercado de trabalho. Elas têm que preencher o ideal da mulher bonita, moderna e descolada.
Tudo em conformidade com o Caderno Donna.
Elas têm que estar bem informadas. Têm que entender de futebol. Têm que ir ao campo com o amor. Elas têm que saber a última moda.
Têm que usar horríveis sapatos de bicos finos. Têm que comprar dezenas de cosméticos.
Deve ser um peso ter que atender todos os requisitos básicos.
Ainda bem que nasci homem.
Pois, para os homens é bastante diferente.
Aos homens, basta ser medianamente simpático. Um pouco agradável. Saber manter algum diálogo que vá adiante de falar de carros, mecânica e futebol.
O homem, é claro, deve aparentar ser pelo menos um pouco másculo. Ou ter pelo menos um breve ar de masculinidade presente em si.
Cuidados básicos de higiene pessoal. É de bom tom que mantenha uma certa elegância.
Mesmo que seja cuidadosamente descuidada.
Saber escutar fielmente o que elas têm pra dizer.
Andar sempre bem barbeado. Ou de barba.
Enfim, exigências facilmente preenchíveis.
Acredito que na medida em que o número de mulheres ultrapassou aceleradamente o número de homens, as exigências femininas foram decrescendo.
Enquanto que a sociedade machista moderna foi criando novas imposições para as mulheres.
No que me diz respeito, ainda levo uma vantagem: muitas preferem os não fumantes. Têm outras são loucas pelos fumantes.
Mas têm inúmeras as mulheres que dão particular preferência aos ex-fumantes.
Acho que é porque elas veem nestes um traço firme de caráter.
Mas, no fundo, estes fatores jamais se tornarão um impedimento para um relacionamento. E muito menos para uma aproximação que não pretende ir além de “ficar”.  

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