sábado,
30/01/2002
Somente agora percebo que minha visão
começa a recuperar a sua acuidade normal.
Eu nem havia me dado conta que tava
enxergando, no mínimo, uns 40% menos. Fora de foco. Embaçado. Nublado.
Agora, que a visão está voltando ao
normal é que tive a nítida sensação de que desde que parei de fumar venho
enxergando tudo turvo.
Até as mulheres ficaram opacas.
E, não é para me gabar, se existe
alguma coisa que eu preze no mundo, são as mulheres.
Eu transaria com todas, com exceção da
minha ex.
Quer dizer, com quase todas.
Pois, foi justamente pensando nestes
aspectos sexuais que senti como o fato ocular era importantíssimo.
Concluí que a falta de cigarro
perturba a visão.
Ou melhor, quando um fumante para de
fumar sente que sua visão fica alterada.
Se eu fosse um oftalmologista ficaria
famoso apresentando esta tese para a Oftalmology
English Rewiew.
Sim. Porque, não sei se vocês
repararam, mas sempre há uma revista inglesa sobre quaisquer que seja o assunto
no mundo.
E sempre a revista inglesa é a mais
respeitável autoridade sobre quaisquer que seja o assunto do mundo.
Também, só de ler o nome da revista em
inglês, que ela já adquire 100% de credibilidade.
Ou, se eu fosse um notável pesquisador
dos distúrbios da visão.
Ou se eu fosse o dono da maior ótica
da cidade.
Aí até valeria à pena fumar um
cigarrinho só pra ver como a minha visão reagiria.
Poderia usar outros indivíduos na
mesma condição que eu. Pobres coitados que estão tentando largar esse vício tão
renitente.
Eles seriam minhas cobaias nas
pesquisas sobre o assunto.
Eu administraria pequenas doses de
cigarro. Ficava monitorando o quê acontece com a visão.
Depois, criaria produtos farmacêuticos
ou óculos progressivos.
E então, mandaria os resultados de
minhas pesquisas, para a New Look
American Rewie.
É óbvio, que também sempre tem uma ou
mais revistas americanas interessadas em qualquer assunto.
Além disso, assim que o assunto fosse
publicado, e o leitor pronunciasse o título da matéria, tenho plena certeza de
que eu estaria milionário com a minha descoberta.
Mas eu sou publicitário, e jamais
gastaria um minuto pensando em problemas da visão.
Ainda mais porque notei que minha
visão voltou ao normal.
É exatamente neste ponto que eu quero
chegar: a minha visão voltou ao normal.
Compreendeu?
Tudo tá maravilhosamente bem.
Aí vem a pergunta que não quer calar:
Quais serão as outras funções do meu
organismo que também podem ter ficado 40% prejudicada?
Uma questão muito assombrosa.
Que outro sentido do corpo pode ter
diminuído suas funções nesta fase? Que outros órgãos podem ter ficado fora de
foco? Ou mais, que órgão do meu corpo pode ter tido a sua capacidade
comprometida em 40%? 30%? 20%?
Agora fiquei preocupado.
Vou fazer uns autoexames. Vou para estudar
mais detidamente este problema.
Assim, à princípio, sinto que está
tudo normal. Tá tudo funcionando direitinho. A contento.
Embora, eu não possa negar que minha
libido diminuiu bastante.
É que eu tô focado nesta batalha
contra o cigarro.
Passo 50% do tempo pensando em parar
de fumar e os outros 50% só pensando em cigarro.
Antigamente eu passava 33,33% do tempo
pensando em trabalho. Trinta e três vírgula trinta e três por cento pensando em
mulheres. E 33,33% pensando em como pegá-las.
Não que eu me ache um poderoso
garanhão, claro que não.
Também não é meu o título de maior
comedor do pedaço.
Só que eu tô sempre alerta nessa questão.
Ou estava, né?
Porque agora enfrentando esta dura
parada de me tornar um ex-fumante convicto, realmente não consigo pensar em
outra coisa que não seja em cigarro.
E se acontecer com meu pênis a mesma
coisa que está acontecendo com meus olhos? Se o guri começar a render 40% mais?
Isso quer dizer que vem aí uma fase
boa.
Vou colocar um anúncio nos
classificados: quarentão, ex-fumante, bom de motor, rendendo 40% a mais...
Vai chover na minha horta.
Modéstia à parte, oferta não falta.
Tá certo que não sou nenhum Brad Pitt.
Mas também não sou nenhum Woody Allen.
Que, diga-se de passagem, com aquela
cara de pai do Mister Bean, não encontra nenhum problema pra pegar mulher.
Mas, de verdade, oferta não falta
porque tem muita oferta.
Tem um derrame de mulher.
Uma hecatombe.
Um superávit de mulheres. Uma super
safra.
Transborda mulher em qualquer lugar
que a gente vá.
É ou não é?
Você vai no Bric da Redenção tem
milhares.
Você sai pra dançar na noite, tem
milhares.
Você vai à Bienal tem milhares. Vai ao
cinema, elas são maioria.
É uma loucura.
É claro que tem que separar o joio do
trigo.
Tem um batalhão de chatas. Tem o
pelotão das feias.
Mas também tem o esquadrão filé.
O crem de la crem.
Aquelas milhares de mulheres que são
sedutoras e atraentes e interessantes o bastante para manter um diálogo
agradável.
Brincadeira, piadinhas machistas.
O que conta é que são muitas
E a oferta, além de numerosa, tem um
nível excelente e uma variedade impressionante. Tem mulher pra todos ao gostos.
Centenas delas, milhares, atendem a
vários quesitos essenciais.
Tipo: idade, experiência, evolução,
samba enredo, beleza, desenvoltura, uma boa comissão de frente, uma bateria
nota dez, harmonia é importantíssimo, uma dose de fantasia é fundamental.
Mas o básico, o fundamental mesmo para
o olhar masculino é que mulher tem que ter uma boa bundinha.
Isso é sagrado.
Desculpem-me as leitoras.
Tive um acesso de machismo retardado.
Na verdade, imagino algumas de suas
angústias.
Esforçar-se para superar as sogras nas
expectativas edipianas dos maridos, estes eternos crianções.
Todas têm que cumprir integralmente
com dois roteiros básicos: cuidar eficientemente de todas as funções que desde
os tempos mais remotos a elas foram destinadas. Como por exemplo, cuidar da
casa, cuidar dos filhos, ter filhos, etc, etc. etc. E dois, elas têm que se
afinar com os novos tempos que exigem que elas participem do mercado de
trabalho. Elas têm que preencher o ideal da mulher bonita, moderna e descolada.
Tudo em conformidade com o Caderno
Donna.
Elas têm que estar bem informadas. Têm
que entender de futebol. Têm que ir ao campo com o amor. Elas têm que saber a
última moda.
Têm que usar horríveis sapatos de
bicos finos. Têm que comprar dezenas de cosméticos.
Deve ser um peso ter que atender todos
os requisitos básicos.
Ainda bem que nasci homem.
Pois, para os homens é bastante
diferente.
Aos homens, basta ser medianamente
simpático. Um pouco agradável. Saber manter algum diálogo que vá adiante de
falar de carros, mecânica e futebol.
O homem, é claro, deve aparentar ser pelo
menos um pouco másculo. Ou ter pelo menos um breve ar de masculinidade presente
em si.
Cuidados básicos de higiene pessoal. É
de bom tom que mantenha uma certa elegância.
Mesmo que seja cuidadosamente
descuidada.
Saber escutar fielmente o que elas têm
pra dizer.
Andar sempre bem barbeado. Ou de
barba.
Enfim, exigências facilmente
preenchíveis.
Acredito que na medida em que o número
de mulheres ultrapassou aceleradamente o número de homens, as exigências
femininas foram decrescendo.
Enquanto que a sociedade machista
moderna foi criando novas imposições para as mulheres.
No que me diz respeito, ainda levo uma
vantagem: muitas preferem os não fumantes. Têm outras são loucas pelos fumantes.
Mas têm inúmeras as mulheres que dão
particular preferência aos ex-fumantes.
Acho que é porque elas veem nestes um
traço firme de caráter.
Mas, no fundo, estes fatores jamais se
tornarão um impedimento para um relacionamento. E muito menos para uma
aproximação que não pretende ir além de “ficar”.
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