sexta-feira,
05/01/2002
Antes de mais nada: um feliz ano novo
para todos vocês!
- Feliz 2002!
Lá vamos nós para mais um ano. Como
sempre com as esperanças renovadas. Com o otimismo característico deste momento
do ano.
Este sim, será um ano de grandes
realizações. Este ano vou executar as minhas resoluções.
Prometo que este ano me tornarei uma
pessoa melhor.
Depois de realizar todos os rituais de
final de ano. Comer lentilhas, saltar sete ondas, comer doze uvas verdes, usar
cueca nova, calcinha branca, roupa amarela, etc, etc.
Só aí me sinto pronto pra começar um
novo ano.
Quando eu era criança, o ano 2000 era
uma época distante, um tempo localizado num futuro remoto.
Época povoada por uma série de imaginativas
previsões. Um tremendo desenvolvimento tecnológico. Tenebrosas predições apocalípticas
que indicavam que o fim do mundo tava próximo.
Os Jetsons eram o ano 2062.
Então, em 2002 faltavam somente 60
anos pro mundo Jetsons.
Mas, acho que no passo que a coisa
vai, a gente vai estar na mesma.
Como eu que tô aqui lidando com um
problema que eu mesmo inventei.
Que medíocre.
Arrastando desde o ano passado essa
ideia de parar de fumar.
Com tantas coisas importantes para se
planejar para um novo século.
Pô, eu me sinto um perfeito idiota
cada vez que sinto que a minha vida tá parada nessa questão trivial.
Por outro lado, percebo, ao entrar num
novo ano, que estou avançando.
É inacreditável, mas faz trinta e
cinco dias que não fumo.
É bem verdade que faz trinta e cinco dias
que não penso em outra coisa.
Jamais pensei que pudesse ser tão
difícil.
É uma guerra, uma verdadeira guerra.
O corpo todo minado por focos rebeldes,
pequenos guerrilheiros invisíveis, vietnamitas, cubanos, iraquianos, iranianos,
colombianos, salvadorenhos, mercenários do mundo inteiro, todos realizando
ações conjuntas com a intenção declarada de destruir o poder central.
A mais importante deliberação pessoal
desta passagem de ano foi ratificar meu firme propósito de nunca mais colocar
um cigarro na boca.
Mas, cá entre nós: eu não sei mais que
artifícios de auto-convencimento posso aplicar em mim mesmo. Não sei mais que
novos argumentos posso inventar para me convencer que vale à pena.
Já disse incansáveis vezes pra mim
mesmo que vai ser muito melhor para mim. Que vou ser muito mais feliz sem a
companhia do cigarro.
Já provei matematicamente pra mim
mesmo que não fumar é uma enorme economia. E que eu posso usar o dinheiro
economizado pra comprar coisas que me darão muito mais prazer.
Tento me convencer diariamente que
falta apenas um pouco mais e que o pior já passou.
Será que já passou mesmo? Quanto tempo
sofrerei, ainda, com esta inesgotável vontade de fumar?
A sensação que tenho é que já utilizei
todos os métodos disponíveis no mercado. Usei todos os expedientes imagináveis.
Recorri a todos os meios conhecidos.
Não fiz nenhuma restrição.
Qualquer pessoa que eu encontrasse e
me dissesse, olha, eu conheço um cara, assim, assim, que parou de fumar usando
uma maravilhosa receita que era assim, assim, eu usava na hora.
Quando alguém me dizia, olha, o único
jeito que eu conheço de parar de fumar é fazendo a seguinte simpatia assim,
assim, eu fazia.
Procurava atentamente nos jornais se
algum laboratório americano não estava precisando de cobaias área.
Se estivesse eu aceitaria.
Consultei com uma benzedeira que me
deu uma surra com espadas de São Jorge. Segundo ela fumar era coisa de dragão.
Só o São Jorge com sua espada de prata poderia me ajudar.
Fui num acupunturista e me enchi de
agulhas pelo corpo inteiro.
Freqüentei um centro espírita
especializado em recuperação de drogados e alcoólatras. Lá fui examinado por
uma junta de médiuns e pelo próprio Alan Kardec.
Através do Orkut, ingressei na
comunidade do Grupo Anti Tabagista do Hospital Universitário da USP. Isso me
ajudou muito.
Eles me enviavam scraps que diziam
coisas como:
- Vamos lá, pessoal, tem jeito sim!
- É só acreditar!
- Boa sorte!
Fiz uma terapia na Igreja Adventista
que garante que o sujeito para de fumar em sete dias. Eles fazem uma simples
lavagem cerebral místico-religiosa no sujeito.
Em mim não fez efeito. Acho que foi
porque eu aguentei só três dias. Fugi do curso como o demônio foge da cruz.
Depois disso, o Valdemar, motorista lá
da agência, me levou no centro de umbanda que ele participa. Tomei um passe com
a mãe-de-santo. Fiquei tonto de tanta baforada de charuto na cara.
Saí de lá mais enfumaçado do que se eu
tivesse fumado um maço inteiro de cigarros.
Dediquei-me a ler toda a literatura
possível sobre o assunto buscando me informar e me ilustrar sobre o assunto
para melhor combater o vilão. Li revistas e mais revistas.
Só no google, se você pesquisar com
“parar de fumar”, encontrará duzentas e quarenta e oito mil páginas sobre o
assunto.
Aí você fica sabendo de coisas, como por
exemplo, que o cigarro possui quatro mil setecentos e doze substâncias tóxicas.
E daí?
O que você faz com uma informação
dessas?
Pura cultura inútil.
Mas foi na internet que descobri as
Dicas da Dra. Shirley.
Completamente seduzido pelas fantasias
que me sugeriam o nome da doutora, segui à risca cada uma das suas dicas.
Executei cada coisa que ela mandava.
Escovei os dentes. Inventei coisas pra
fazer. Parei de tomar café. Bebi reservatórios inteiros de água. Respirei fundo
para relaxar. Tento todos os dias me convencer que meu sofrimento é por uma boa
causa.
Mas o maior ensinamento da Dra.
Shirley se resume a uma palavra: aguente firme!
Depois das terapias cognitivas e
comportamentais, apelei para os tratamentos farmacológicos.
Masquei chicletes de nicotina de todas
as marcas.
Colei vários tipos de selos adesivos
de nicotina.
Tomei a bupropiona do Ziban e a
nortriptilina do Parmelor.
Ingeri Nicolex, Alcatrex, Cigarrex,
Jontex.
Tentei o novo, exclusivo e
revolucionário método auricular desenvolvido por M. Farat. Ele chama atenção
para o fato de que em seu processo quanto maior é o grau de dependência da nicotina
(o período de tempo fumando e a
quantidade de cigarros por dia), melhor é a probabilidade de êxito.
Experimentei o novo, exclusivo e
revolucionário método PressPoint. Foi desenvolvido pelo Dr. Kunzo Jobuko. Você
compra um kit de acupressão e um manual tipo faça-você-mesmo. Uma verdadeira
maravilha. Comprei e tô usando.
E o que é melhor: todos estes remédios
e programas são vendidos como a solução definitiva pra se livrar da nicotina
sem crises de abstinência.
Zero ansiedade e sem engordar.
Então, tudo isso me deixa
demasiadamente confuso.
Vou ligar pro zero oitocentos do
Disque Pare de Fumar.
Vou perguntar pra eles se sabem porque
eu tô há quase oito meses nesse suplício?
Tô vivendo os trinta e cinco dias dos
mais duros tormentos.
Tô dezoito quilos mais gordo.
Continuo sentindo todos os sintomas da
privação e comendo feito um paquiderme?
Porque?
Pra quê?
Alguém aí pode me responder?
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