domingo, 22 de outubro de 2017

TRIGÉSIMO QUINTO DIA.


sexta-feira, 05/01/2002

Antes de mais nada: um feliz ano novo para todos vocês!
- Feliz 2002!
Lá vamos nós para mais um ano. Como sempre com as esperanças renovadas. Com o otimismo característico deste momento do ano.
Este sim, será um ano de grandes realizações. Este ano vou executar as minhas resoluções.
Prometo que este ano me tornarei uma pessoa melhor.
Depois de realizar todos os rituais de final de ano. Comer lentilhas, saltar sete ondas, comer doze uvas verdes, usar cueca nova, calcinha branca, roupa amarela, etc, etc.
Só aí me sinto pronto pra começar um novo ano.
Quando eu era criança, o ano 2000 era uma época distante, um tempo localizado num futuro remoto.
Época povoada por uma série de imaginativas previsões. Um tremendo desenvolvimento tecnológico. Tenebrosas predições apocalípticas que indicavam que o fim do mundo tava próximo.
Os Jetsons eram o ano 2062.
Então, em 2002 faltavam somente 60 anos pro mundo Jetsons.
Mas, acho que no passo que a coisa vai, a gente vai estar na mesma.
Como eu que tô aqui lidando com um problema que eu mesmo inventei.
Que medíocre.
Arrastando desde o ano passado essa ideia de parar de fumar.
Com tantas coisas importantes para se planejar para um novo século.
Pô, eu me sinto um perfeito idiota cada vez que sinto que a minha vida tá parada nessa questão trivial.
Por outro lado, percebo, ao entrar num novo ano, que estou avançando.
É inacreditável, mas faz trinta e cinco dias que não fumo.
É bem verdade que faz trinta e cinco dias que não penso em outra coisa.
Jamais pensei que pudesse ser tão difícil.
É uma guerra, uma verdadeira guerra.
O corpo todo minado por focos rebeldes, pequenos guerrilheiros invisíveis, vietnamitas, cubanos, iraquianos, iranianos, colombianos, salvadorenhos, mercenários do mundo inteiro, todos realizando ações conjuntas com a intenção declarada de destruir o poder central.
A mais importante deliberação pessoal desta passagem de ano foi ratificar meu firme propósito de nunca mais colocar um cigarro na boca.
Mas, cá entre nós: eu não sei mais que artifícios de auto-convencimento posso aplicar em mim mesmo. Não sei mais que novos argumentos posso inventar para me convencer que vale à pena.
Já disse incansáveis vezes pra mim mesmo que vai ser muito melhor para mim. Que vou ser muito mais feliz sem a companhia do cigarro.
Já provei matematicamente pra mim mesmo que não fumar é uma enorme economia. E que eu posso usar o dinheiro economizado pra comprar coisas que me darão muito mais prazer.
Tento me convencer diariamente que falta apenas um pouco mais e que o pior já passou.
Será que já passou mesmo? Quanto tempo sofrerei, ainda, com esta inesgotável vontade de fumar?
A sensação que tenho é que já utilizei todos os métodos disponíveis no mercado. Usei todos os expedientes imagináveis. Recorri a todos os meios conhecidos.
Não fiz nenhuma restrição.
Qualquer pessoa que eu encontrasse e me dissesse, olha, eu conheço um cara, assim, assim, que parou de fumar usando uma maravilhosa receita que era assim, assim, eu usava na hora.
Quando alguém me dizia, olha, o único jeito que eu conheço de parar de fumar é fazendo a seguinte simpatia assim, assim, eu fazia.
Procurava atentamente nos jornais se algum laboratório americano não estava precisando de cobaias área.
Se estivesse eu aceitaria.
Consultei com uma benzedeira que me deu uma surra com espadas de São Jorge. Segundo ela fumar era coisa de dragão. Só o São Jorge com sua espada de prata poderia me ajudar.
Fui num acupunturista e me enchi de agulhas pelo corpo inteiro.
Freqüentei um centro espírita especializado em recuperação de drogados e alcoólatras. Lá fui examinado por uma junta de médiuns e pelo próprio Alan Kardec.
Através do Orkut, ingressei na comunidade do Grupo Anti Tabagista do Hospital Universitário da USP. Isso me ajudou muito.
Eles me enviavam scraps que diziam coisas como:
- Vamos lá, pessoal, tem jeito sim!
- É só acreditar!
- Boa sorte!
Fiz uma terapia na Igreja Adventista que garante que o sujeito para de fumar em sete dias. Eles fazem uma simples lavagem cerebral místico-religiosa no sujeito.
Em mim não fez efeito. Acho que foi porque eu aguentei só três dias. Fugi do curso como o demônio foge da cruz.
Depois disso, o Valdemar, motorista lá da agência, me levou no centro de umbanda que ele participa. Tomei um passe com a mãe-de-santo. Fiquei tonto de tanta baforada de charuto na cara.
Saí de lá mais enfumaçado do que se eu tivesse fumado um maço inteiro de cigarros.
Dediquei-me a ler toda a literatura possível sobre o assunto buscando me informar e me ilustrar sobre o assunto para melhor combater o vilão. Li revistas e mais revistas.
Só no google, se você pesquisar com “parar de fumar”, encontrará duzentas e quarenta e oito mil páginas sobre o assunto.
Aí você fica sabendo de coisas, como por exemplo, que o cigarro possui quatro mil setecentos e doze substâncias tóxicas.
E daí?
O que você faz com uma informação dessas?
Pura cultura inútil.
Mas foi na internet que descobri as Dicas da Dra. Shirley.
Completamente seduzido pelas fantasias que me sugeriam o nome da doutora, segui à risca cada uma das suas dicas.
Executei cada coisa que ela mandava.
Escovei os dentes. Inventei coisas pra fazer. Parei de tomar café. Bebi reservatórios inteiros de água. Respirei fundo para relaxar. Tento todos os dias me convencer que meu sofrimento é por uma boa causa.
Mas o maior ensinamento da Dra. Shirley se resume a uma palavra: aguente firme!
Depois das terapias cognitivas e comportamentais, apelei para os tratamentos farmacológicos.
Masquei chicletes de nicotina de todas as marcas.
Colei vários tipos de selos adesivos de nicotina.
Tomei a bupropiona do Ziban e a nortriptilina do Parmelor.
Ingeri Nicolex, Alcatrex, Cigarrex, Jontex.
Tentei o novo, exclusivo e revolucionário método auricular desenvolvido por M. Farat. Ele chama atenção para o fato de que em seu processo quanto maior é o grau de dependência da nicotina (o período de tempo fumando e a quantidade de cigarros por dia), melhor é a probabilidade de êxito.
Experimentei o novo, exclusivo e revolucionário método PressPoint. Foi desenvolvido pelo Dr. Kunzo Jobuko. Você compra um kit de acupressão e um manual tipo faça-você-mesmo. Uma verdadeira maravilha. Comprei e tô usando.
E o que é melhor: todos estes remédios e programas são vendidos como a solução definitiva pra se livrar da nicotina sem crises de abstinência.
Zero ansiedade e sem engordar.
Então, tudo isso me deixa demasiadamente confuso.
Vou ligar pro zero oitocentos do Disque Pare de Fumar.
Vou perguntar pra eles se sabem porque eu tô há quase oito meses nesse suplício?
Tô vivendo os trinta e cinco dias dos mais duros tormentos.
Tô dezoito quilos mais gordo.
Continuo sentindo todos os sintomas da privação e comendo feito um paquiderme?
Porque?
Pra quê?
Alguém aí pode me responder?

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