domingo, 22 de outubro de 2017

SEPTUAGÉSIMO QUINTO DIA.

quinta-feira, 15/02/2001

Quinhentos anos antes de Cristo, Sófocles já escrevia que “há muitas maravilhas mas nenhuma é tão maravilhosa quanto o homem”.

O que Sófocles não imaginou é que o homem de férias então, nem se fala, é o suprassumo das maravilhas.

Mas o auge mesmo é o homem de férias em qualquer praia de Santa Catarina pra cima. Desde que não seja Camburiú. Nem Canasvieras.

Verão, sol, férias, tempo livre, banhos de mar, sinuca, pés descalços, cachacinha marisqueira, iscas de peixe, livros, corpo bronzeado, rede de dormir...

Realmente a vida sabe ser uma maravilhosa aventura sobre a terra.

Uma sequência deliciosa e infinita de descobertas.

Só de saber que a partir de amanhã estarei de férias faz com que eu me sinta leve e flutuante.

Uma onda de otimismo e boa vontade toma conta de mim.

Só porque tô guardando as bagagens no carro e logo estarei na BR 101 a caminho do mar.

A caminho da liberdade e das mulheres de biquíni.

Somente uma coisa nubla meu sentimento de plenitude e felicidade: o medo de fraquejar em meio aos excessos do verão. Sucumbir às férias.

Voltar pra casa, no início de março, fumando outra vez.

Vocês acham que estou exagerando?

Será mesmo?

Mas, não esqueçam que no final do mês me aguardam os cinco dias de carnaval e eu pretendo cair de corpo inteiro na folia.

Eu é que não vou ficar em casa, entediado. Olhando o interminável desfile das escolas do Rio de Janeiro, transmitido pela Globo.

Eu é que não pretendo aturar os comentários dos especialistas, que só falam o óbvio. Eles repetem falando tudo que a gente está vendo na tela.

Nem o Galvão consegue ser mais óbvio e chato.

Nada disso.

O carnaval é, desde sua origem, uma festa profana. Um período de abusos dionisíacos. Descomedimentos pagãos. Desregramentos eróticos. Momento de alegria desabrida e eliminação da censura e da repressão.

Eu pretendo aproveitar cada minuto de tudo isso, com tudo que eu tenho direito.

Kit completo. Até a quarta-feira de cinzas.

Mas talvez eu esteja mesmo me preocupando demais.

Todas as revistas que tratam do assunto afirmam que eu já tô livre dos piores sintomas da abstinência.

Todos os artigos especializados dizem que eu posso me manter fiel ao propósito de não fumar sob hipótese nenhuma.

Não vou mais comprar cigarros.

Não vou aceitar cigarros de estranhos.

Nem de conhecidos.

Como é provável, que nenhum dos colunistas destas revistas tenham, alguma vez colocado um cigarro na boca, fico receoso.

Este será meu primeiro verão livre de cigarros.

É justo que eu tenha um certo cuidado e me sinta um pouco inseguro.

O problema são as lembranças corporais. Os chamados hábitos adquiridos.

Por exemplo: como sair do mar e não acender um cigarrinho?

Só que já fumou sabe como é bom ficar fumando enquanto o corpo seca ao sol.

É especial.

Como não lembrar do cigarro ao caminhar na praia sentindo a brisa no rosto?

Se a gente não fuma mais, o que a gente faz quando senta nas pedras pra olhar o mar?

São n situações em que o cigarro preenche. Os vazios das férias e do verão.

E é exatamente esta conjuntura que me deixa com medo de enfrentar todos esses momentos.

No verão passado eu automaticamente, acendia um cigarro.

Devo acreditar piamente no que dizem as revistas?

Posso mesmo me julgar apto para enfrentar a situação?

Acontece, que foi nestas mesmas revistas que descobri que ainda não posso ser considerado um ex-fumante.

Estou numa espécie de limbo.

Não existe classificação para o período que estou vivendo.

Aliás, não existe nenhuma palavra que defina o momento que estou atravessando.

Vejam só: não posso ser chamado de ex-fumante, porque tecnicamente ainda não me tornei um ex-fumante.

As revistas dizem que você só pode ser apontado como um verdadeiro ex-fumante após o primeiro ano de abstinência.

Então estou em processo.

Por outro lado, ninguém pode também me chamar de fumante.

Faz setenta e cinco dias que não coloco um cigarro na boca.

Sou apenas um cara que está tentando parar de fumar.

Ou seja, não sou nada nem ninguém.

Eu era um fumante e, se tudo correr bem, serei um ex-fumante.

Eu não tenho presente.

Vocês talvez não entendam, ou não alcancem a extensão do dilema.

Mas isso causa um tremendo vazio existencial no cidadão.

Imaginem-se na minha situação: sinto-me num vácuo.

Instala-se em mim uma grave crise de identidade.

Isso fragiliza minha força de vontade. Enfraquece meus mecanismos de defesa.

Já começo a pensar em desfazer as malas, comprar um pacote de cigarros e passar o verão em casa fumando feito uma chaminé.

Ah, Sófocles, como é difícil para o homem parar de fumar.  

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