quinta-feira, 15/02/2001
Quinhentos anos antes de Cristo, Sófocles já escrevia que “há muitas maravilhas mas nenhuma é tão maravilhosa quanto o homem”.
O que
Sófocles não imaginou é que o homem de férias então, nem se fala, é o
suprassumo das maravilhas.
Mas o
auge mesmo é o homem de férias em qualquer praia de Santa Catarina pra cima.
Desde que não seja Camburiú. Nem Canasvieras.
Verão,
sol, férias, tempo livre, banhos de mar, sinuca, pés descalços, cachacinha
marisqueira, iscas de peixe, livros, corpo bronzeado, rede de dormir...
Realmente
a vida sabe ser uma maravilhosa aventura sobre a terra.
Uma sequência
deliciosa e infinita de descobertas.
Só de
saber que a partir de amanhã estarei de férias faz com que eu me sinta leve e
flutuante.
Uma onda
de otimismo e boa vontade toma conta de mim.
Só porque
tô guardando as bagagens no carro e logo estarei na BR 101 a caminho do mar.
A caminho
da liberdade e das mulheres de biquíni.
Somente
uma coisa nubla meu sentimento de plenitude e felicidade: o medo de fraquejar
em meio aos excessos do verão. Sucumbir às férias.
Voltar
pra casa, no início de março, fumando outra vez.
Vocês
acham que estou exagerando?
Será
mesmo?
Mas, não
esqueçam que no final do mês me aguardam os cinco dias de carnaval e eu
pretendo cair de corpo inteiro na folia.
Eu é que
não vou ficar em casa, entediado. Olhando o interminável desfile das escolas do
Rio de Janeiro, transmitido pela Globo.
Eu é que
não pretendo aturar os comentários dos especialistas, que só falam o óbvio.
Eles repetem falando tudo que a gente está vendo na tela.
Nem o
Galvão consegue ser mais óbvio e chato.
Nada
disso.
O
carnaval é, desde sua origem, uma festa profana. Um período de abusos
dionisíacos. Descomedimentos pagãos. Desregramentos eróticos. Momento de
alegria desabrida e eliminação da censura e da repressão.
Eu
pretendo aproveitar cada minuto de tudo isso, com tudo que eu tenho direito.
Kit
completo. Até a quarta-feira de cinzas.
Mas
talvez eu esteja mesmo me preocupando demais.
Todas as
revistas que tratam do assunto afirmam que eu já tô livre dos piores sintomas
da abstinência.
Todos os
artigos especializados dizem que eu posso me manter fiel ao propósito de não
fumar sob hipótese nenhuma.
Não vou
mais comprar cigarros.
Não vou
aceitar cigarros de estranhos.
Nem de
conhecidos.
Como é
provável, que nenhum dos colunistas destas revistas tenham, alguma vez colocado
um cigarro na boca, fico receoso.
Este será
meu primeiro verão livre de cigarros.
É justo
que eu tenha um certo cuidado e me sinta um pouco inseguro.
O
problema são as lembranças corporais. Os chamados hábitos adquiridos.
Por
exemplo: como sair do mar e não acender um cigarrinho?
Só que já
fumou sabe como é bom ficar fumando enquanto o corpo seca ao sol.
É
especial.
Como não
lembrar do cigarro ao caminhar na praia sentindo a brisa no rosto?
Se a
gente não fuma mais, o que a gente faz quando senta nas pedras pra olhar o mar?
São n
situações em que o cigarro preenche. Os vazios das férias e do verão.
E é
exatamente esta conjuntura que me deixa com medo de enfrentar todos esses
momentos.
No verão
passado eu automaticamente, acendia um cigarro.
Devo
acreditar piamente no que dizem as revistas?
Posso
mesmo me julgar apto para enfrentar a situação?
Acontece,
que foi nestas mesmas revistas que descobri que ainda não posso ser considerado
um ex-fumante.
Estou
numa espécie de limbo.
Não
existe classificação para o período que estou vivendo.
Aliás,
não existe nenhuma palavra que defina o momento que estou atravessando.
Vejam só:
não posso ser chamado de ex-fumante, porque tecnicamente ainda não me tornei um
ex-fumante.
As
revistas dizem que você só pode ser apontado como um verdadeiro ex-fumante após
o primeiro ano de abstinência.
Então
estou em processo.
Por outro
lado, ninguém pode também me chamar de fumante.
Faz
setenta e cinco dias que não coloco um cigarro na boca.
Sou
apenas um cara que está tentando parar de fumar.
Ou seja,
não sou nada nem ninguém.
Eu era um
fumante e, se tudo correr bem, serei um ex-fumante.
Eu não
tenho presente.
Vocês
talvez não entendam, ou não alcancem a extensão do dilema.
Mas isso
causa um tremendo vazio existencial no cidadão.
Imaginem-se
na minha situação: sinto-me num vácuo.
Instala-se
em mim uma grave crise de identidade.
Isso
fragiliza minha força de vontade. Enfraquece meus mecanismos de defesa.
Já começo
a pensar em desfazer as malas, comprar um pacote de cigarros e passar o verão
em casa fumando feito uma chaminé.
Ah,
Sófocles, como é difícil para o homem parar de fumar.
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