segunda-feira, 23 de outubro de 2017

DÉCIMO NONO DIA.


terça-feira, 19/12/2001

DÉCIMO NONO DIA.

Cinco horas depois, completamente embriagado de tanto champagne que entornei no avião da Air France, desembarquei no Aeroporto Roissy-Charles-de-Gaulle, em Paris.
Ah, quem diria eu em Paris? Na Cidade Luz.
Lembrei da queda da Bastilha.
Liberté, égalité, fraternité.
Os iluministas
Descartes, Zola, Renoir, Foucault, da Belle Époque, do Moulin Rouge, da Mona Lisa.
Lembrei da gostosa da minha professora de francês.
Senti vontade de dar uma de Papa e beijar o chão do Aeroporto.
- É claro que não fiz isso.
Mas tive que me segurar.
Peguei um táxi e lá pelas três da madrugada preenchi a ficha do Hotel Vivaldi.
Quem escolheu foi o pessoal da agência de Paris. Ficava perto do Centro Financeiro La Défense. No mesmo bairro do escritório.
Estranhei porque o Vivaldi era italiano, mas no panfleto dizia que era “une traditionnel hôtellerie française”.
Achei o hotel simplesmente maravilhoso. Majestoso! Me senti o próprio Luís XV.
Uma mistura de Casa de Cultura Mário Quintana com Hotel Plaza São Rafael, só que dez vezes mais pomposo e glamoroso.  
De tanto beber, esqueci de comer.
Larguei a bagagem no quarto e me ataquei de fome.
O porteiro me disse com um inigualável orgulho francês que a cozinha funcionava 24 horas sem parar.
- Nossa cozinha atende não só as necessidades do hotel, como também a demanda do entorno.
- Posso fazer um pedido?
- Infelizmente, não é possível atender agora. Estamos no turno de produção.
Traduzindo para o bom português do Brasil a cozinha que não fechava nunca estava fechada.
O cheiro de pão se alastrava pelo hotel inteiro.
E o pobre e infeliz do hóspede faminto.
Um verdadeiro “arlequino” roendo as próprias tripas, enquanto a cozinha produz para o bairro inteiro.
Será que não tem um funcionário pra te alcançar um mísero baguette, um pedaço de roquefort e duas garrafas de champagne?
No quarto só os indefectíveis salgadinhos duros e chocolates.
É claro que eu podia engolir qualquer coisa, beber uma cerveja, dormir ou até mesmo esperar o café da manhã que não tardaria. Mas eu não queria repetir a experiência de NY, ou seja, ir embora sem conhecer absolutamente nada.
Decidi sair e procurar um café, um bar, qualquer coisa.
Devia ser umas quatro.
Antes das quatro e quarenta eu já estava de volta ao hotel.
O frio era insuportável. Meus ossos pareciam estar congelados.
Não havia uma viva alma nas ruas desertas.
Paris estava dormindo.
Tinha uma neblina espessa, quase londrina baixando em Paris. Não se enxergava um palmo na frente dos olhos.
Bater de cara na Torre Eiffel ou num poste não faria a menos diferença.
Voltei a vida quando consegui atravessar a porta giratória com vidro de cristal e entrar quase petrificado de frio no salão quentinho do Hotel Vivaldi.
Um legítimo hotel francês que havia sido rebatizado com o nome do músico veneziano porque o bistataravô do propriètaire era vidrado em óperas.
Um dia o próprio Vivaldi, de passagem por Paris, na estréia de uma de suas óperas, hospedou-se no antigo Auberge des Flamboyants.
O bisavô determinou a imediata substituição do nome do hotel. Desprezou o antigo nome que tinha mais ou menos uns quatrocentos anos.
Mas, como esta mudança já faz mais de cem anos que aconteceu o Hotel Vivaldi é um dos mais tradicionais de La Defense.
A primeira coisa que vi foi uma garrafa térmica. Voei para ela. Servi o meu primeiro café de Paris.
Aspirei o odor.
Tomei um longo gole do café mais gelado que eu já tomei na minha vida.
Recolhi-me ao meu quarto quentinho e dormi como um anjo faminto e salvo do congelamento total.

Nenhum comentário:

Postar um comentário