terça-feira, 19/12/2001
DÉCIMO NONO DIA.
Cinco horas depois, completamente
embriagado de tanto champagne que entornei no avião da Air France,
desembarquei no Aeroporto Roissy-Charles-de-Gaulle, em Paris.
Ah, quem diria eu em Paris? Na Cidade
Luz.
Lembrei da queda da Bastilha.
Liberté, égalité, fraternité.
Os iluministas
Descartes, Zola, Renoir, Foucault, da
Belle Époque, do Moulin Rouge, da Mona Lisa.
Lembrei da gostosa da minha professora
de francês.
Senti vontade de dar uma de Papa e
beijar o chão do Aeroporto.
- É claro que não fiz isso.
Mas tive que me segurar.
Peguei um táxi e lá pelas três da
madrugada preenchi a ficha do Hotel Vivaldi.
Quem escolheu foi o pessoal da agência
de Paris. Ficava perto do Centro Financeiro La Défense. No mesmo bairro do
escritório.
Estranhei porque o Vivaldi era
italiano, mas no panfleto dizia que era “une
traditionnel hôtellerie française”.
Achei o hotel simplesmente maravilhoso.
Majestoso! Me senti o próprio Luís XV.
Uma mistura de Casa de Cultura Mário
Quintana com Hotel Plaza São Rafael, só que dez vezes mais pomposo e glamoroso.
De tanto beber, esqueci de comer.
Larguei a bagagem no quarto e me
ataquei de fome.
O porteiro me disse com um inigualável
orgulho francês que a cozinha funcionava 24 horas sem parar.
- Nossa cozinha atende não
só as necessidades do hotel, como também a demanda do entorno.
- Posso fazer um pedido?
- Infelizmente, não é
possível atender agora. Estamos no turno de produção.
Traduzindo para o bom português do
Brasil a cozinha que não fechava nunca estava fechada.
O cheiro de pão se alastrava pelo
hotel inteiro.
E o pobre e infeliz do hóspede faminto.
Um verdadeiro “arlequino” roendo as
próprias tripas, enquanto a cozinha produz para o bairro inteiro.
Será que não tem um funcionário pra te
alcançar um mísero baguette, um pedaço de roquefort e duas garrafas de
champagne?
No quarto só os indefectíveis
salgadinhos duros e chocolates.
É claro que eu podia engolir qualquer
coisa, beber uma cerveja, dormir ou até mesmo esperar o café da manhã que não
tardaria. Mas eu não queria repetir a experiência de NY, ou seja, ir embora sem
conhecer absolutamente nada.
Decidi sair e procurar um café, um
bar, qualquer coisa.
Devia ser umas quatro.
Antes das quatro e quarenta eu já
estava de volta ao hotel.
O frio era insuportável. Meus ossos
pareciam estar congelados.
Não havia uma viva alma nas ruas
desertas.
Paris estava dormindo.
Tinha uma neblina espessa, quase
londrina baixando em Paris. Não se enxergava um palmo na frente dos olhos.
Bater de cara na Torre Eiffel ou num
poste não faria a menos diferença.
Voltei a vida quando consegui
atravessar a porta giratória com vidro de cristal e entrar quase petrificado de
frio no salão quentinho do Hotel Vivaldi.
Um legítimo hotel francês que havia sido
rebatizado com o nome do músico veneziano porque o bistataravô do propriètaire
era vidrado em óperas.
Um dia o próprio Vivaldi, de passagem
por Paris, na estréia de uma de suas óperas, hospedou-se no antigo Auberge des
Flamboyants.
O bisavô determinou a imediata
substituição do nome do hotel. Desprezou o antigo nome que tinha mais ou menos
uns quatrocentos anos.
Mas, como esta mudança já faz mais de
cem anos que aconteceu o Hotel Vivaldi é um dos mais tradicionais de La
Defense.
A primeira coisa que vi foi uma
garrafa térmica. Voei para ela. Servi o meu primeiro café de Paris.
Aspirei o odor.
Tomei um longo gole do café mais
gelado que eu já tomei na minha vida.
Recolhi-me ao meu quarto quentinho e
dormi como um anjo faminto e salvo do congelamento total.
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