quinta-feira, 14/12/2001
No dia seguinte o Braga me fez uma
proposta:
- Tu vai pra Nova Iorque no lugar do
Moreyra, do Jurídico.
Aceitei na hora.
Não perco o emprego e dou uma lustrada
na minha imagem de excelente profissional.
Aceitei de primeira, mas fingi que seria um
problema
Eu tinha que tratar de uns negócios
urgentes em Nova Iorque.
Acontece que nossa agência, modéstia à
parte, era uma das mais importantes da terrinha.
Tínhamos, há anos, um contrato com uma
das maiores agências de publicidade norte-americanas. O que nos proporcionava
um contato direto com clientes multinacionais que atuavam nos Estados Unidos,
no Canadá, na França e no Brasil.
Mais ou menos, a cada três meses um
funcionário nosso embarcava para os States com a missão de visitar nossos
hermanos ianques publicitários. Trocar figurinhas.
Desta vez eu seria o contato.
Além do mais, disse o Braga, foste tu
mesmo quem sugeriu.
Certo quando vai ser?
- No final do mês?
- Não, querido, teu vôo sai amanhã à
noite. Vinte e três horas.
Correria total.
Documentos, malas, o que levar, as
despedidas, as encomendas, os cheques de viagem, as passagens, o câmbio... Que
loucura.
Tudo isso provocava uma excitação
extraordinária.
A preparação da viagem quase me fez
fumar uma ou outra vez.
Ajudaria a manter a ansiedade sob
controle.
Dominei a vontade.
Não fumei.
Mas quando cheguei ao aeroporto,
tremi.
Sempre é difícil para mim, embarcar
num avião e não poder fumar ao menos um cigarro.
E se for o fim?
E se o avião cair?
E se aquele for meu último cigarro?
Meu último prazer?
De que terá valido tanto sacrifício
para passar catorze dias que já são mais de setenta sem fumar e morrer num
desastre aéreo?
Só parei de pensar no cigarro quando
entrei no avião e me afivelei à poltrona.
Partimos.
No avião, depois de umas duas ou três
horas de vôo, era fácil identificar os fumantes: roíam as unhas. Eles tinham
caras de desesperados por um cigarrinho. Seus rostos apertados, mãos inquietas.
Passei um longo tempo me divertindo
procurando secretamente descobrir, entre os passageiros, quem era e quem não
era fumante.
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