terça-feira, 24 de outubro de 2017

DÉCIMO QUARTO DIA.

quinta-feira, 14/12/2001

No dia seguinte o Braga me fez uma proposta:
- Tu vai pra Nova Iorque no lugar do Moreyra, do Jurídico.
Aceitei na hora.
Não perco o emprego e dou uma lustrada na minha imagem de excelente profissional.
 Aceitei de primeira, mas fingi que seria um problema
Eu tinha que tratar de uns negócios urgentes em Nova Iorque.
Acontece que nossa agência, modéstia à parte, era uma das mais importantes da terrinha.
Tínhamos, há anos, um contrato com uma das maiores agências de publicidade norte-americanas. O que nos proporcionava um contato direto com clientes multinacionais que atuavam nos Estados Unidos, no Canadá, na França e no Brasil.
Mais ou menos, a cada três meses um funcionário nosso embarcava para os States com a missão de visitar nossos hermanos ianques publicitários. Trocar figurinhas.
Desta vez eu seria o contato.
Além do mais, disse o Braga, foste tu mesmo quem sugeriu.
Certo quando vai ser?
- No final do mês?
- Não, querido, teu vôo sai amanhã à noite. Vinte e três horas.
Correria total.
Documentos, malas, o que levar, as despedidas, as encomendas, os cheques de viagem, as passagens, o câmbio... Que loucura.
Tudo isso provocava uma excitação extraordinária.
A preparação da viagem quase me fez fumar uma ou outra vez.
Ajudaria a manter a ansiedade sob controle.
Dominei a vontade.
Não fumei.
Mas quando cheguei ao aeroporto, tremi.
Sempre é difícil para mim, embarcar num avião e não poder fumar ao menos um cigarro.
E se for o fim?
E se o avião cair?
E se aquele for meu último cigarro?
Meu último prazer?
De que terá valido tanto sacrifício para passar catorze dias que já são mais de setenta sem fumar e morrer num desastre aéreo?
Só parei de pensar no cigarro quando entrei no avião e me afivelei à poltrona.
Partimos.
No avião, depois de umas duas ou três horas de vôo, era fácil identificar os fumantes: roíam as unhas. Eles tinham caras de desesperados por um cigarrinho. Seus rostos apertados, mãos inquietas.
Passei um longo tempo me divertindo procurando secretamente descobrir, entre os passageiros, quem era e quem não era fumante.

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