segunda-feira, 23 de outubro de 2017

DÉCIMO SÉTIMO DIA.

domingo, 17/12/2001

Meu terceiro dia na Big Apple foi uma completa e estafante maratona.
Acordei at seven o’clock e passei a manhã inteira trilhando pela Quinta Avenida e adjacências.
Andei de loja em loja.
Correndo atrás dos itens da minha faraônica lista de compras.
Quer dizer, a minha lista particular de presentes era muito enxuta.
Uma geringonça eletrônica mais modernosas que eu encontrasse para milha filha. Uma jaqueta de grife importante pro meu filho se exibir.
Um brinquedo inédito no Brasil para meu neto.
Uma lembrança pro meu pai.
Aliás, pensei em dar pra ele um cocar legítimo. Um cocar de chefe indígena. Tinha que ser alguma coisa ligada ao velho-oeste.
Claro que tinha que levar algum outro bagulho pra minha mãe.
Era só.
Ah, tinha que levar alguma coisa bem idiota pro meu avô. Para que ele não me deserdasse.
Além disso, tinha que comprar meia dúzia daquelas fatais lembrançinhas para os amigos mais chegados. As lembranças obrigatórias.
Se fosse mesmo apenas isso tudo seria muito mais fácil.
Mas não era.
Mesmo tendo vindo para cá às pressas e avisado apenas algumas poucas pessoas, meu e-mail ficou lotado de encomendas de parentes próximos e distantes, amigos, amigos dos amigos e colegas do tempo do Julhinho.
Então, passei a manhã correndo atrás dos setenta e oito itens variados que compunham a minha lista de encomendas.
Até o guru da amiga da prima da irmã da minha prima Geraldine, que eu não vejo há séculos, tomou a liberdade de pedir que eu lhe trouxesse uns artigos de ocultismo e bruxaria que só se encontram aqui.
Então eu tinha que trazer oito livros técnicos de assuntos diferentes, três canivetes retráteis, dois pares de óculos, quatro pares de raquetes de tênis para a esposa do tio Robério.
Na real, o tio Roberio nunca pisou numa quadra de tênis. Não sabe distinguir entre uma bola de tênis e uma bolinha de ping-pong.
Uma touca de natação especial que só tem aqui para a filha do Braga. Nadadora da SOGIPA.
Um abrigo puma ou nike legítimo, o último filme do Brad Pitt em dvd para a Guadalupe.
Seis cds de seis bandas que não chegavam ao Brasil.
Quatro telefones celulares último tipo com câmera, gravador de cd e dvd, mp3 e wave.
Vários abridores de latas e canivetes suíço.
Três caixas de tinta óleo de cores variadas para o meu ex-cunhado, o Batista.
Uma encomenda especial: material pornográfico inédito no Brasil para o meu outro ex-cunhado (ainda bem que eram somente dois) que trabalha com vídeo pornô.
É o tarado da família.
E o mais engraçado é que nome dele é Bento.
Singelo, não?
O Braga ainda me pediu que comprasse umas novidades de pet shop pro cachorro dele.
O Aguiar não quis nada porque alimenta um ódio mortal por tudo que é americano. Não gosta dos americanos, nem das americanas, nem do cinema americano. Odeia todo american way of life.  Inclusive o Homem Aranha. E, é óbvio detesta o Super Homem.
Se vocês se derem ao trabalho de somar estes itens irão encontrar apenas umas quarenta coisas.
O restante faz parte da listinha da minha querida ex.
Uma lista composta de batons, shampoos, condicionadores, rimel, esmaltes, unhas postiças, cílios postiços, perucas, um kit escova secador e modelador para chapinha, bijuterias variadas, roupas, sapatos e mais uma batelada de coisas verdes, sua cor preferida.
O que mais me impressionou, no meio de tantas mer... mercadorias, foi perceber que, hoje em dia, não existem produtos que sejam tipicamente americanos.
Tirando o Malrboro, o IMac, o hamburger e a Coca-Cola, tudo o mais é japonês, chinês, coreano, hindu ou europeu.
Até o Frank Sinatra foi substituído pelos cantores e cantoras de origem de latinoamerica.
Têm coisas cubanas, colombianas, brasileiras.
Têm coisas mexicanas e muitos mexicanos e mexicanas.
Coisas típicas do mundo inteiro, mas pouquíssimas coisas americanas.
De genuíno, além do dólar, o que mais de singular é americano?
Se eu quisesse levar para o Brasil alguma coisa genuinamente americana teria que levar um cowboy ou um mac donalds.
Ah, é. Tem o Mickey.
Aliás, comprei um boné dele pra levar pro meu pai.
Descarreguei três táxis de compras no hotel.

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