domingo, 17/12/2001
Meu terceiro dia na Big Apple foi uma
completa e estafante maratona.
Acordei at seven o’clock e passei a
manhã inteira trilhando pela Quinta Avenida e adjacências.
Andei de loja em loja.
Correndo atrás dos itens da minha
faraônica lista de compras.
Quer dizer, a minha lista particular de
presentes era muito enxuta.
Uma geringonça eletrônica mais modernosas
que eu encontrasse para milha filha. Uma jaqueta de grife importante pro meu filho
se exibir.
Um brinquedo inédito no Brasil para
meu neto.
Uma lembrança pro meu pai.
Aliás, pensei em dar pra ele um cocar
legítimo. Um cocar de chefe indígena. Tinha que ser alguma coisa ligada ao
velho-oeste.
Claro que tinha que levar algum outro
bagulho pra minha mãe.
Era só.
Ah, tinha que levar alguma coisa bem
idiota pro meu avô. Para que ele não me deserdasse.
Além disso, tinha que comprar meia
dúzia daquelas fatais lembrançinhas para os amigos mais chegados. As lembranças
obrigatórias.
Se fosse mesmo apenas isso tudo seria
muito mais fácil.
Mas não era.
Mesmo tendo vindo para cá às pressas e
avisado apenas algumas poucas pessoas, meu e-mail ficou lotado de encomendas de
parentes próximos e distantes, amigos, amigos dos amigos e colegas do tempo do
Julhinho.
Então, passei a manhã correndo atrás
dos setenta e oito itens variados que compunham a minha lista de encomendas.
Até o guru da amiga da prima da irmã da
minha prima Geraldine, que eu não vejo há séculos, tomou a liberdade de pedir
que eu lhe trouxesse uns artigos de ocultismo e bruxaria que só se encontram
aqui.
Então eu tinha que trazer oito livros técnicos
de assuntos diferentes, três canivetes retráteis, dois pares de óculos, quatro
pares de raquetes de tênis para a esposa do tio Robério.
Na real, o tio Roberio nunca pisou
numa quadra de tênis. Não sabe distinguir entre uma bola de tênis e uma bolinha
de ping-pong.
Uma touca de natação especial que só
tem aqui para a filha do Braga. Nadadora da SOGIPA.
Um abrigo puma ou nike legítimo, o
último filme do Brad Pitt em dvd para a Guadalupe.
Seis cds de seis bandas que não
chegavam ao Brasil.
Quatro telefones celulares último tipo
com câmera, gravador de cd e dvd, mp3 e wave.
Vários abridores de latas e canivetes
suíço.
Três caixas de tinta óleo de cores
variadas para o meu ex-cunhado, o Batista.
Uma encomenda especial: material
pornográfico inédito no Brasil para o meu outro ex-cunhado (ainda bem que eram somente dois) que trabalha com vídeo pornô.
É o tarado da família.
E o mais engraçado é que nome dele é
Bento.
Singelo, não?
O Braga ainda me pediu que comprasse
umas novidades de pet shop pro cachorro dele.
O Aguiar não quis nada porque alimenta
um ódio mortal por tudo que é americano. Não gosta dos americanos, nem das
americanas, nem do cinema americano. Odeia todo american way of life. Inclusive
o Homem Aranha. E, é óbvio detesta o Super Homem.
Se vocês se derem ao trabalho de somar
estes itens irão encontrar apenas umas quarenta coisas.
O restante faz parte da listinha da
minha querida ex.
Uma lista composta de batons,
shampoos, condicionadores, rimel, esmaltes, unhas postiças, cílios postiços, perucas,
um kit escova secador e modelador para chapinha, bijuterias variadas, roupas,
sapatos e mais uma batelada de coisas verdes, sua cor preferida.
O que mais me impressionou, no meio de
tantas mer... mercadorias, foi perceber que, hoje em dia, não existem produtos
que sejam tipicamente americanos.
Tirando o Malrboro, o IMac, o
hamburger e a Coca-Cola, tudo o mais é japonês, chinês, coreano, hindu ou
europeu.
Até o Frank Sinatra foi substituído
pelos cantores e cantoras de origem de latinoamerica.
Têm coisas cubanas, colombianas,
brasileiras.
Têm coisas mexicanas e muitos
mexicanos e mexicanas.
Coisas típicas do mundo inteiro, mas
pouquíssimas coisas americanas.
De genuíno, além do dólar, o que mais
de singular é americano?
Se eu quisesse levar para o Brasil
alguma coisa genuinamente americana teria que levar um cowboy ou um mac donalds.
Ah, é. Tem o Mickey.
Aliás, comprei um boné dele pra levar
pro meu pai.
Descarreguei três táxis de compras no
hotel.
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