sábado, 23/12/2001
VIGÉSIMO TERCEIRO DIA.
Apesar da fantástica quantidade de
vinho que entornei ontem à noite, pela primeira vez acordei a tempo de conhecer
e saborear o café da manhã do Hotel Vivaldi.
Fiquei meia hora de boca aberto.
Parado.
Admirando o salão do café.
Só isso já era um evento.
Requintado em cada detalhe. Elegante
em todas as minúcias.
As cortinas, as mesas, os lustres, as
toalhas, os talheres de prata, os cristais, as cadeiras torneadas, tudo
rigorosamente no lugar.
Fiquei tão maravilhado que não dei a
menor importância para os fumantes que estavam por ali fabricando sua eterna
fumaça.
No centro, uma enorme mesa posta com
um suntuoso banquete matinal digno de Pantagruel.
Uma verdadeira festa de Babete. As
mais divinas iguarias. Os mais delicados manjares. Finas delícias.
Os patês, as geléias, os cremes, o
caviar, as carnes, as flores, as frutas, os saches, os bules, os pães arrumados
em bandejas de prata...
Gastei outra meia hora para admirar a
finesse do ambiente. Apreciar aquela amostragem da famosa culinária francesa.
A terceira meia hora foi gasta na
indecisão, na escolha dos ingredientes que fariam parte do meu café da manhã.
Logo percebi que era impossível provar
tudo.
Eu não queria dar uma de brasileiro
olho-grande.
Decide selecionar apenas alguns itens
e me contentar com eles.
Pra encurtar a história, passei quase
toda a manhã no salão do café.
Saí de lá quase com o dobro do meu
peso.
Fui praticamente expulso pelos garçons,
que queriam e preparar o salão para o almoço.
Apreciei muito o começo do meu dia. Me
senti imediatamente tão bem, que resolvi sair cantando pelas ruas de Paris.
Só faltava encontrar um amor.
Só faltava fumar um cigarro e tudo
seria parfait.
Finalmente, fui conhecer Paris.
Ou melhor, as boutiques, os magasins,
as parfumeries, as bonbonnières, as fromageries, as librairies.
Andei por todos os outros locais
necessários para encontrar os produtos que constavam da minha lista de compras
em Paris.
Uma lista quase do mesmo tamanho da
lista de Nova Iorque.
Ainda bem que eu omiti de muita gente
essa parte da viagem.
Acabei gastando aqui o quíntuplo do
que havia gasto lá.
Paris é uma cidade extraordinária.
Mágica.
Em cada esquina, em cada rua, você
encontra um recanto mais arrebatador que o outro.
Em cada um destes recantos você pode
encontrar os produtos mais originais e únicos do mundo inteiro.
Tudo isso junto, somado ao clima
romântico que paira sobre a cidade, somado ao espírito de Natal, forma um
conjunto tão poderoso que exerce uma tremenda sedução sobre um turista de
primeira viagem como eu.
Só pra vocês terem uma ideia, comprei
presente até para o marido da Dona Sucyleide.
A operadora bloqueou me cartão de
tanto que gastei.
Me endividei em Paris.
Passei toda a tarde e um pedaço da
noite circulando freneticamente por Paris.
Visitei o Centro Georges Pompidou que
estava lotado de japoneses.
Dei uma passadinha no Museu do Louvre
para conhecer a Mona Lisa.
Joguei pedrinhas nas águas do Sena. Na
frente do Quai d’Orsay.
Passei de táxi pela Avenida
Champs-Élysées. Sabia que ela tem o título de maior mais larga avenida do mundo?
Passei de táxi também no Arco do
Triunfo. É igual ao Monumento ao Expedicionário da Redenção. Só que muito
maior. Muito melhor iluminado. Muito mais charmoso porque, afinal de contas,
fica em Paris.
Andei pelas ruas históricas do
Montmartre.
Fiz o sinal da cruz diante Catedral de
Notre-Dame.
Visitei o Panthéon.
Dei uma passadinha rápida pelo Museu
de Orsay pra ver os impressionistas.
Só não fui ao Palácio de Versalhes
porque descobri que não ficava em Paris e sim na cidade de Versalhes.
Não fui também conhecer a Disneyland
Resort Paris.
Fica num subúrbio distante.
Além disso, eu já comprei um chapéu do
Mickey para o meu pai.
Conheci também a Torre Eiffel. O
grande emblema da cidade.
Tem a vantagem de ficar situada no
centro geográfico da cidade.
Cada vez que eu passava de táxi eu
conhecia um ângulo diferente da torre.
De repente dava de cara com uma vista
diferente do monumento símbolo de Paris.
Quando voltei pro Hotel Vivaldi já
eram mais de vinte e duas horas.
Eu tava destruído.
Meus pés imploravam pra que eu tirasse
os sapatos. Minhas costas doíam de alto à baixo.
Mas eu estava feliz porque tinha
conhecido Paris.
Vini, vidi, vici, como diria Júlio
César.
Amanhã me despeço da capital mundial
do fumo, invicto, sem tocar em um cigarro. Ave.
domingo, 24/12/2001
VIGÉSIMO QUARTO DIA.
Domingo é domingo em qualquer lugar do
mundo.
Esteja onde estiver, não muda.
Na China ou na Patagônia o domingo tem
aquela inconfundível cara de domingo.
Domingo ou dimanche é a mesma coisa,
ou seja, sè la même chose.
Tem jeito de domingo. Cheiro de
domingo.
A gente acorda depois das onze horas.
Se espreguiça e já sente que é domingo.
Sendo inverno então, é inconfundível.
Não dá vontade de fazer nada.
Aquele tédio que entra pelo nariz na
primeira respirada do dia.
Dou uma olhadinha pela janela.
A neve continua caindo em flocos
pequenos. Um frio siberiano.
Verifico que, meus suprimentos são
satisfatórios. Exceto pelo vinho que enxuguei até a última gota.
Posso continuar isolado do mundo até
depois do almoço de segunda-feira.
Pedi mais vinho. Encomendei o almoço
mais francês que encontrei no cardápio. Coloquei um filme do Jean Reno no dvd.
Puxei as cobertas mais para perto das orelhas.
É assim que eu pretendo passar meu
primeiro domingo na cidade luz.
Sem fumar e sem encontrar nenhum
fumante.
E sem vontade de escrever.
Tiau pra vocês.
segunda-feira,
25/12/2001
VIGÉSIMO QUINTO DIA
Depois de outro lauto café da manhã,
encerrei minha conta no Hotel Vivaldi.
Ao som de Carmina Burana, cantata de
Carl Orff, organizei minhas malas e peguei um táxi direto para o Aeroporto
Roissy-Charles-de-Gaulle.
Psicologicamente
preparado para enfrentar a viagem de volta Paris
– Madri – Recife – Brasília – São Paulo – Florianópolis – Porto Alegre.
Pelo roteiro vocês podem imaginar a
duração da viagem.
Cheguei cedo ao Aeroporto.
Como eu já tinha comprado um mimo pro
Áureo, fui direto pro bar.
Encher a cara até a hora do voo.
Sentado aqui, observando a chegada e
partida de aviões de todas as partes do mundo tomei uma séria decisão.
Todos sabem como ainda estou
atravessando uma fase crítica na luta contra o cigarro.
Considerando também que por duas vezes
me senti organicamente forçado a fumar de novo.
Não vou sucumbir outra vez.
Já perdi duas batalhas contra o vício
de fumar.
Por tudo isso, decidi parar de
escrever este diário.
Calma, calma. É claro que não vou
deixar vocês pendurados no pincel.
Vou parar de escrever pelo menos
assim, na forma de um diário.
Todos os dias, compreendeu?
Tentem entender o meu lado.
Como fico eu nesta situação?
Reflitam comigo: cada vez que me
dedico a escrever sobre minhas sensações me dá uma vontade de fumar imensa.
Escrever faz parte daquelas coisas que
eu sempre fiz fumando.
Além disso, sempre que escrevo, por
mais que eu queira evitar, é inevitável que sempre acabe falando em cigarro,
fumo, fumar, fumaça, e outras coisas relacionadas.
Fatalmente são coisas que evocam a
lembrança de um hábito que já foi meu.
Escrevendo, me lembro de quando eu era
um fumante. A época eu que eu fumava o tempo inteiro. Durante o trabalho. Para
ter ideias. Para imaginar campanhas publicitárias.
Tanto era assim, que o cheiro do
cigarro continua até hoje impregnado na mesa do meu computador.
Sinto que a lembrança do hábito
provoca uma grande ansiedade em mim. Me deixa mais vulnerável a vontade de
fumar.
Então está decidido: a partir de agora
vou escrever mais espaçadamente.
Talvez semanalmente, mensalmente, sei
lá.
Não posso e não vou deixar que vocês,
que me acompanharam até agora, fiquem sem notícias minhas.
Acredito que seria horrível que de
repente fiquem sem saber se realmente consegui parar de fumar.
Ou se mais uma vez eu fui vítima de
algum poderoso ardil e me deixei levar pelo vício outra vez.
Não, não faria isso com vocês que tanto
estímulo tem me dado.
Vou mantê-los informados. Podem ficar
tranquilos.
Somente percebi que tem sido um grande
sacrifício, ficar falando de cigarro o tempo todo.
Isso origina um iminente perigo porque
fico aspirando com profunda nostalgia os menores vestígios de boas lembranças
que me façam mudar de intenção.
Além disso, é Natal. Vem aí as festas
de final de anos.
Tanto vocês quanto eu estaremos
ocupados.
Então vamos combinar assim: passado o
ano novo escrevo de novo. Assim que eu me sinta mais fortalecido volto a dar
notícias.
Conto com a compreensão de todos e
espero que continuem torcendo por mim.
Câmbio, desligo.
Aeromoça, mais um uísque puro, por
favor.
sexta-feira,
29/12/2001
VIGÉSIMO OITAVO DIA.
Gente, que felicidade.
Hoje atingi quatro semanas inteiras,
completas, sem fumar.
Então, me deu uma vontade tão grande
de relatar esta pequena vitória que, mesmo tendo combinado um encontro somente
para o ano que vem, me antecipei, e cá estou novamente.
Na verdade, senti falta de vocês.
Mas o que acham disso?
Quatro semanas como área livre de
fumantes.
E o que é melhor: não tenho sentido a
menor falta de cigarro.
- Juro, nenhuma. Bem... só de vez em
quando.
Estou me sentindo ótimo.
Afora uns pequenos e estranhos
cacoetes. Alguns esgares com os olhos e a boca. Um certo nervosismo das mãos. Alguns
breves lapsos de memória.
Uma vontade louca de agredir as
pessoas que me olham na rua...
Fora tudo isso, eu tô bem.
Venho observando, que ando me batendo
nos móveis, postes, portas, placas de ônibus e transeuntes.
Não é uma vez. Reiteradamente. Como se
eu tivesse perdido os parâmetros de meu corpo.
Ou estivesse com alguma deficiência
ocular.
Não tava conseguindo mirar e calcular
o espaço entre dois corpos e a possibilidade de eu passar entre eles.
Só fui descobrir a causa noutro dia, na
véspera da véspera de Natal.
Entrei numa farmácia para renovar meu
estoque de chicletes anti-tabagismo e dei de cara com a balança.
Fiquei um momento indeciso sobre se eu
devia ou não subir na balança. Seria duro descobrir a dura realidade do meu
peso.
Tirei par ou ímpar. Perdi. Subi na
balança.
- Não sei pra quê.
Os números digitais começaram a girar.
Cinqüenta, sessenta, oitenta, oitenta e nove, noventa e sete...
Pensei em descer correndo da balança.
Mas já que eu tava ali era melhor ir
até o fim. Em algum momento os números teriam que parar de subir.
E pararam mesmo. Pararam em cento e
três quilos e novecentos e setenta gramas!!!
De cara, arredondei pra cem porque
afinal de contas eu estava de sapatos, gravata e paletó.
Mas mesmo assim foi um choque.
Engordei dezessete quilos. Dezoito
quilos!
Tô praticamente uma baleia.
Um leão marinho.
O dublê de corpo do Obelix.
É claro que eu notei que estava
engordando. Mas nunca pensei que era tanto.
Eu imaginava ter aumentado apenas uns
sete ou oito quilos. Dez no máximo.
Mas dezoito quilos? Dezoito quilos...
É, tenho que reconhecer que desde o
começo deste torturante processo eu venho engordando suavemente como um peru de
natal.
Essa é que é a verdade.
Desde que voltei, por exemplo, participei
de várias festas diferentes.
Estive em mais festas do que o próprio
Papai Noel.
E em cada uma delas comi tudo que
passava na minha frente. Nunca recusei nada do que me ofereciam.
Foram coxinhas, pastéis, croquetes,
salsichas, salgadinhos variados, canapés, panettones, gordas fatias de presunto,
fios de ovos, rodelas de abacaxi, nacos de carne de porco, uma provinha de
javali, um pedacinho de pernil, uma tirinha de carneiro, uma lasquinha e meia
de peru, um pedaço de chester só pra sentir que diferença tem do peru, ovinhos
de codorna, azeitonas de vários tipos, carne assada, cachos de uvas, salada de
maionese, morangos com nata, fatias de tortas frias, fatias de tortas doces, as
compotas da mamãe, pelo menos três tigelas de pavê da tia Elsa,
A quantidade de coisas que ingeri não
foi brincadeira.
Tenho que dar razão a balança. Até que
ela está sendo boazinha.
Achou que não computou ainda o
churrasco anual de fim de ano da agência.
Nossa, botei pra quebrar. Comi como um
cavalo.
Bebi uma fileira interminável de
garrafas de cerveja.
E antes, antes teve Paris. Lá eu vivi
uma verdadeira orgia gastronômica.
Meu Deus, e ainda têm as festas de
final de ano.
O réveillon desse anos vai ser o
máximo.
Sempre é.
Vou comer tudo que comi no Natal e
mais uns dez pratos de lentilhas.
Vou engordar outros dezoito quilos.
Que horror!
Mais dezoito gordos quilos...
Mas será que estes números estão mesmo
certos?
Será que esta balança foi aferida pelo
Inmetro?
Pode tá errada. Tem que estar errada.
Será que eu enxerguei direito?
Era uma chance.
Delicadamente um senhor me pediu
licença para usar a balança.
Antes de desocupar a balança, pedi que
ele me emprestasse seus óculos e conferi.
Era a mais pura verdade: dezessete
gordos quilos e novecentos e setenta gordas gramas acumulados neste tempo.
E na lateral da balança estava o lacre
do Inmetro com a palavra “aferida” em vermelho.
Não restava a menor dúvida.
Desci abatido e cedi o lugar ao senhor
dos óculos.
É claro que estou transferindo todas
as neuras para a comida.
Li em algum lugar sobre a
transferência de problemas da fase oral para o vício do cigarro.
Aí quando você tá sem cigarros, só que
saber de comida.
Ainda bem que são problemas da fase
oral e não da fase anal.
Já imaginaram?
Brincadeirinha sem graça.
Sei que estou transferindo toda a
carga emocional que conseguia represar com o hábito de fumar para a
alimentação.
Tenho comido de tudo.
E bastante.
E muito.
É insaciável a fome que sinto.
Sou um ninfomaníaco da comida.
Não consigo ficar mais de dois minutos
sem dar uma abridinha na porta da geladeira.
Não consigo ficar mais de duas horas
sem ingerir algum docinho. Só um salgadinho. Só um biscoitinho. Uma balinha,
uma caixinha de bombons, um pacotinho de batatas fritas, ou um quilinho de
sorvete.
Agora carrego duas pastas.
Uma com meus documentos e coisas
relacionados ao trabalho e outra com guloseimas variadas.
Daí ei não preciso sair toda hora do
escritório para ir à rua buscar alguma coisa pra comer.
Eu, que nunca gostei muito de
refrigerante, agora sou viciado em Fanta laranja. Se não me controlo, chego a ingerir
uns oito litros de Fanta por dia.
A gaveta da minha mesa de trabalho
virou um esconderijo de latinhas de Fanta. O porta-malas do meu carro parece
mais um container de contrabando de Fanta laranja.
Fiquei tão deprimido, tão desalentado,
tão abatido, tão desanimado, que saí da farmácia e fui direto pra minha casa.
Comi as duas últimas caixas de bombons
que trouxe de Paris.
Antes, é claro, passei no super e
comprei um pacotão de Fanta laranja.
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