domingo, 22 de outubro de 2017

VIGÉSIMO-TERCEIRO, VIGÉSIMO-QUARTO, VIGÉSIMO-QUINTO E VIGÉSIMO-OITAVO DIA


sábado, 23/12/2001
VIGÉSIMO TERCEIRO DIA.

Apesar da fantástica quantidade de vinho que entornei ontem à noite, pela primeira vez acordei a tempo de conhecer e saborear o café da manhã do Hotel Vivaldi.
Fiquei meia hora de boca aberto.
Parado.
Admirando o salão do café.
Só isso já era um evento.
Requintado em cada detalhe. Elegante em todas as minúcias.
As cortinas, as mesas, os lustres, as toalhas, os talheres de prata, os cristais, as cadeiras torneadas, tudo rigorosamente no lugar.
Fiquei tão maravilhado que não dei a menor importância para os fumantes que estavam por ali fabricando sua eterna fumaça.
No centro, uma enorme mesa posta com um suntuoso banquete matinal digno de Pantagruel.
Uma verdadeira festa de Babete. As mais divinas iguarias. Os mais delicados manjares. Finas delícias.
Os patês, as geléias, os cremes, o caviar, as carnes, as flores, as frutas, os saches, os bules, os pães arrumados em bandejas de prata...
Gastei outra meia hora para admirar a finesse do ambiente. Apreciar aquela amostragem da famosa culinária francesa.
A terceira meia hora foi gasta na indecisão, na escolha dos ingredientes que fariam parte do meu café da manhã.
Logo percebi que era impossível provar tudo.
Eu não queria dar uma de brasileiro olho-grande.
Decide selecionar apenas alguns itens e me contentar com eles.
Pra encurtar a história, passei quase toda a manhã no salão do café.
Saí de lá quase com o dobro do meu peso.
Fui praticamente expulso pelos garçons, que queriam e preparar o salão para o almoço.
Apreciei muito o começo do meu dia. Me senti imediatamente tão bem, que resolvi sair cantando pelas ruas de Paris.
Só faltava encontrar um amor.
Só faltava fumar um cigarro e tudo seria parfait.
Finalmente, fui conhecer Paris.
Ou melhor, as boutiques, os magasins, as parfumeries, as bonbonnières, as fromageries, as librairies.
Andei por todos os outros locais necessários para encontrar os produtos que constavam da minha lista de compras em Paris.
Uma lista quase do mesmo tamanho da lista de Nova Iorque.
Ainda bem que eu omiti de muita gente essa parte da viagem.
Acabei gastando aqui o quíntuplo do que havia gasto lá.
Paris é uma cidade extraordinária.
Mágica.
Em cada esquina, em cada rua, você encontra um recanto mais arrebatador que o outro.
Em cada um destes recantos você pode encontrar os produtos mais originais e únicos do mundo inteiro.
Tudo isso junto, somado ao clima romântico que paira sobre a cidade, somado ao espírito de Natal, forma um conjunto tão poderoso que exerce uma tremenda sedução sobre um turista de primeira viagem como eu.
Só pra vocês terem uma ideia, comprei presente até para o marido da Dona Sucyleide.
A operadora bloqueou me cartão de tanto que gastei.
Me endividei em Paris.
Passei toda a tarde e um pedaço da noite circulando freneticamente por Paris.
Visitei o Centro Georges Pompidou que estava lotado de japoneses.
Dei uma passadinha no Museu do Louvre para conhecer a Mona Lisa.
Joguei pedrinhas nas águas do Sena. Na frente do Quai d’Orsay.
Passei de táxi pela Avenida Champs-Élysées. Sabia que ela tem o título de maior mais larga avenida do mundo?
Passei de táxi também no Arco do Triunfo. É igual ao Monumento ao Expedicionário da Redenção. Só que muito maior. Muito melhor iluminado. Muito mais charmoso porque, afinal de contas, fica em Paris.
Andei pelas ruas históricas do Montmartre.
Fiz o sinal da cruz diante Catedral de Notre-Dame.
Visitei o Panthéon.
Dei uma passadinha rápida pelo Museu de Orsay pra ver os impressionistas.
Só não fui ao Palácio de Versalhes porque descobri que não ficava em Paris e sim na cidade de Versalhes.
Não fui também conhecer a Disneyland Resort Paris.
Fica num subúrbio distante.
Além disso, eu já comprei um chapéu do Mickey para o meu pai.
Conheci também a Torre Eiffel. O grande emblema da cidade.
Tem a vantagem de ficar situada no centro geográfico da cidade.
Cada vez que eu passava de táxi eu conhecia um ângulo diferente da torre.
De repente dava de cara com uma vista diferente do monumento símbolo de Paris.
Quando voltei pro Hotel Vivaldi já eram mais de vinte e duas horas.
Eu tava destruído.
Meus pés imploravam pra que eu tirasse os sapatos. Minhas costas doíam de alto à baixo.
Mas eu estava feliz porque tinha conhecido Paris.
Vini, vidi, vici, como diria Júlio César.
Amanhã me despeço da capital mundial do fumo, invicto, sem tocar em um cigarro. Ave.

domingo, 24/12/2001
VIGÉSIMO QUARTO DIA.

Domingo é domingo em qualquer lugar do mundo.
Esteja onde estiver, não muda.
Na China ou na Patagônia o domingo tem aquela inconfundível cara de domingo.
Domingo ou dimanche é a mesma coisa, ou seja, sè la même chose.
Tem jeito de domingo. Cheiro de domingo.
A gente acorda depois das onze horas. Se espreguiça e já sente que é domingo.
Sendo inverno então, é inconfundível.
Não dá vontade de fazer nada.
Aquele tédio que entra pelo nariz na primeira respirada do dia.
Dou uma olhadinha pela janela.
A neve continua caindo em flocos pequenos. Um frio siberiano.
Verifico que, meus suprimentos são satisfatórios. Exceto pelo vinho que enxuguei até a última gota.
Posso continuar isolado do mundo até depois do almoço de segunda-feira.
Pedi mais vinho. Encomendei o almoço mais francês que encontrei no cardápio. Coloquei um filme do Jean Reno no dvd. Puxei as cobertas mais para perto das orelhas.
É assim que eu pretendo passar meu primeiro domingo na cidade luz.
Sem fumar e sem encontrar nenhum fumante.
E sem vontade de escrever.
Tiau pra vocês.

segunda-feira, 25/12/2001
VIGÉSIMO QUINTO DIA
Depois de outro lauto café da manhã, encerrei minha conta no Hotel Vivaldi.
Ao som de Carmina Burana, cantata de Carl Orff, organizei minhas malas e peguei um táxi direto para o Aeroporto Roissy-Charles-de-Gaulle.
Psicologicamente preparado para enfrentar a viagem de volta Paris – Madri – Recife – Brasília – São Paulo – Florianópolis – Porto Alegre.
Pelo roteiro vocês podem imaginar a duração da viagem.
Cheguei cedo ao Aeroporto.
Como eu já tinha comprado um mimo pro Áureo, fui direto pro bar.
Encher a cara até a hora do voo.
Sentado aqui, observando a chegada e partida de aviões de todas as partes do mundo tomei uma séria decisão.
Todos sabem como ainda estou atravessando uma fase crítica na luta contra o cigarro.
Considerando também que por duas vezes me senti organicamente forçado a fumar de novo.
Não vou sucumbir outra vez.
Já perdi duas batalhas contra o vício de fumar.
Por tudo isso, decidi parar de escrever este diário.
Calma, calma. É claro que não vou deixar vocês pendurados no pincel.
Vou parar de escrever pelo menos assim, na forma de um diário.
Todos os dias, compreendeu?
Tentem entender o meu lado.
Como fico eu nesta situação?
Reflitam comigo: cada vez que me dedico a escrever sobre minhas sensações me dá uma vontade de fumar imensa.
Escrever faz parte daquelas coisas que eu sempre fiz fumando.
Além disso, sempre que escrevo, por mais que eu queira evitar, é inevitável que sempre acabe falando em cigarro, fumo, fumar, fumaça, e outras coisas relacionadas.
Fatalmente são coisas que evocam a lembrança de um hábito que já foi meu.
Escrevendo, me lembro de quando eu era um fumante. A época eu que eu fumava o tempo inteiro. Durante o trabalho. Para ter ideias. Para imaginar campanhas publicitárias.
Tanto era assim, que o cheiro do cigarro continua até hoje impregnado na mesa do meu computador.
Sinto que a lembrança do hábito provoca uma grande ansiedade em mim. Me deixa mais vulnerável a vontade de fumar.
Então está decidido: a partir de agora vou escrever mais espaçadamente.
Talvez semanalmente, mensalmente, sei lá.
Não posso e não vou deixar que vocês, que me acompanharam até agora, fiquem sem notícias minhas.
Acredito que seria horrível que de repente fiquem sem saber se realmente consegui parar de fumar.
Ou se mais uma vez eu fui vítima de algum poderoso ardil e me deixei levar pelo vício outra vez.
Não, não faria isso com vocês que tanto estímulo tem me dado.
Vou mantê-los informados. Podem ficar tranquilos.
Somente percebi que tem sido um grande sacrifício, ficar falando de cigarro o tempo todo.
Isso origina um iminente perigo porque fico aspirando com profunda nostalgia os menores vestígios de boas lembranças que me façam mudar de intenção.
Além disso, é Natal. Vem aí as festas de final de anos.
Tanto vocês quanto eu estaremos ocupados.
Então vamos combinar assim: passado o ano novo escrevo de novo. Assim que eu me sinta mais fortalecido volto a dar notícias.
Conto com a compreensão de todos e espero que continuem torcendo por mim.
Câmbio, desligo.
Aeromoça, mais um uísque puro, por favor.

sexta-feira, 29/12/2001
VIGÉSIMO OITAVO DIA.
Gente, que felicidade.
Hoje atingi quatro semanas inteiras, completas, sem fumar.
Então, me deu uma vontade tão grande de relatar esta pequena vitória que, mesmo tendo combinado um encontro somente para o ano que vem, me antecipei, e cá estou novamente.
Na verdade, senti falta de vocês.
Mas o que acham disso?
Quatro semanas como área livre de fumantes.
E o que é melhor: não tenho sentido a menor falta de cigarro.
- Juro, nenhuma. Bem... só de vez em quando.
Estou me sentindo ótimo.
Afora uns pequenos e estranhos cacoetes. Alguns esgares com os olhos e a boca. Um certo nervosismo das mãos. Alguns breves lapsos de memória.
Uma vontade louca de agredir as pessoas que me olham na rua...
Fora tudo isso, eu tô bem.
Venho observando, que ando me batendo nos móveis, postes, portas, placas de ônibus e transeuntes.
Não é uma vez. Reiteradamente. Como se eu tivesse perdido os parâmetros de meu corpo.
Ou estivesse com alguma deficiência ocular.
Não tava conseguindo mirar e calcular o espaço entre dois corpos e a possibilidade de eu passar entre eles.
Só fui descobrir a causa noutro dia, na véspera da véspera de Natal.
Entrei numa farmácia para renovar meu estoque de chicletes anti-tabagismo e dei de cara com a balança.
Fiquei um momento indeciso sobre se eu devia ou não subir na balança. Seria duro descobrir a dura realidade do meu peso.
Tirei par ou ímpar. Perdi. Subi na balança.
- Não sei pra quê.
Os números digitais começaram a girar. Cinqüenta, sessenta, oitenta, oitenta e nove, noventa e sete...
Pensei em descer correndo da balança.
Mas já que eu tava ali era melhor ir até o fim. Em algum momento os números teriam que parar de subir.
E pararam mesmo. Pararam em cento e três quilos e novecentos e setenta gramas!!!
De cara, arredondei pra cem porque afinal de contas eu estava de sapatos, gravata e paletó.
Mas mesmo assim foi um choque.
Engordei dezessete quilos. Dezoito quilos!
Tô praticamente uma baleia.
Um leão marinho.
O dublê de corpo do Obelix.
É claro que eu notei que estava engordando. Mas nunca pensei que era tanto.
Eu imaginava ter aumentado apenas uns sete ou oito quilos. Dez no máximo.
Mas dezoito quilos? Dezoito quilos...
É, tenho que reconhecer que desde o começo deste torturante processo eu venho engordando suavemente como um peru de natal.
Essa é que é a verdade.
Desde que voltei, por exemplo, participei de várias festas diferentes.
Estive em mais festas do que o próprio Papai Noel.
E em cada uma delas comi tudo que passava na minha frente. Nunca recusei nada do que me ofereciam.
Foram coxinhas, pastéis, croquetes, salsichas, salgadinhos variados, canapés, panettones, gordas fatias de presunto, fios de ovos, rodelas de abacaxi, nacos de carne de porco, uma provinha de javali, um pedacinho de pernil, uma tirinha de carneiro, uma lasquinha e meia de peru, um pedaço de chester só pra sentir que diferença tem do peru, ovinhos de codorna, azeitonas de vários tipos, carne assada, cachos de uvas, salada de maionese, morangos com nata, fatias de tortas frias, fatias de tortas doces, as compotas da mamãe, pelo menos três tigelas de pavê da tia Elsa,
A quantidade de coisas que ingeri não foi brincadeira.
Tenho que dar razão a balança. Até que ela está sendo boazinha.
Achou que não computou ainda o churrasco anual de fim de ano da agência.
Nossa, botei pra quebrar. Comi como um cavalo.
Bebi uma fileira interminável de garrafas de cerveja.
E antes, antes teve Paris. Lá eu vivi uma verdadeira orgia gastronômica.
Meu Deus, e ainda têm as festas de final de ano.
O réveillon desse anos vai ser o máximo.
Sempre é.
Vou comer tudo que comi no Natal e mais uns dez pratos de lentilhas.
Vou engordar outros dezoito quilos.
Que horror!
Mais dezoito gordos quilos...
Mas será que estes números estão mesmo certos?
Será que esta balança foi aferida pelo Inmetro?
Pode tá errada. Tem que estar errada.
Será que eu enxerguei direito?
Era uma chance.
Delicadamente um senhor me pediu licença para usar a balança.
Antes de desocupar a balança, pedi que ele me emprestasse seus óculos e conferi.
Era a mais pura verdade: dezessete gordos quilos e novecentos e setenta gordas gramas acumulados neste tempo.
E na lateral da balança estava o lacre do Inmetro com a palavra “aferida” em vermelho.
Não restava a menor dúvida.
Desci abatido e cedi o lugar ao senhor dos óculos.
É claro que estou transferindo todas as neuras para a comida.
Li em algum lugar sobre a transferência de problemas da fase oral para o vício do cigarro.
Aí quando você tá sem cigarros, só que saber de comida.
Ainda bem que são problemas da fase oral e não da fase anal.
Já imaginaram?
Brincadeirinha sem graça.
Sei que estou transferindo toda a carga emocional que conseguia represar com o hábito de fumar para a alimentação.
Tenho comido de tudo.
E bastante.
E muito.
É insaciável a fome que sinto.
Sou um ninfomaníaco da comida.
Não consigo ficar mais de dois minutos sem dar uma abridinha na porta da geladeira.
Não consigo ficar mais de duas horas sem ingerir algum docinho. Só um salgadinho. Só um biscoitinho. Uma balinha, uma caixinha de bombons, um pacotinho de batatas fritas, ou um quilinho de sorvete.
Agora carrego duas pastas.
Uma com meus documentos e coisas relacionados ao trabalho e outra com guloseimas variadas.
Daí ei não preciso sair toda hora do escritório para ir à rua buscar alguma coisa pra comer.
Eu, que nunca gostei muito de refrigerante, agora sou viciado em Fanta laranja. Se não me controlo, chego a ingerir uns oito litros de Fanta por dia.
A gaveta da minha mesa de trabalho virou um esconderijo de latinhas de Fanta. O porta-malas do meu carro parece mais um container de contrabando de Fanta laranja.
Fiquei tão deprimido, tão desalentado, tão abatido, tão desanimado, que saí da farmácia e fui direto pra minha casa.
Comi as duas últimas caixas de bombons que trouxe de Paris.
Antes, é claro, passei no super e comprei um pacotão de Fanta laranja.

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