domingo, 22 de outubro de 2017

NONAGÉSIMO DIA (três meses).

sábado, 02/03/2001

NONAGÉSIMO DIA (três meses).

Quem apostou na minha derrota, perdeu.

Deu zebra.

Tô no andar mais alto do pódio estourando uma garrafa de champagne.

Tô recebendo a medalha de ouro de parada de fumar diretamente das mãos do presidente do comitê olímpico.

Vini, vidi, vici.

Nobel do vício.

Vitorioso.

Três longos meses longe do cigarro.

Agora posso saborear os inefáveis benefícios físicos advindos do meu esforço de abandonar o vício letal do fumo.

Todas as pesquisas de alta credibilidade falam nos benefícios.

Abster-se três meses do hábito de fumar gera uma incrível melhora no aparelho circulatório. Provoca uma recuperação de até 30% nas funções pulmonares e respiratórias.

Excelente. Uma maravilha.

Aliás, as mesmas referendadas pesquisas informam que apenas oito horas depois que a pessoa deixa de fumar o organismo já reage.

Normaliza o batimento cardíaco. O oxigênio e a pressão do sangue estabilizam.

Como o organismo faz para distinguir a diferença entre o fumante que fica oito horas dormindo (e que enquanto está dormindo, é claro, não fuma), de uma pessoa que está há oito horas sem fumar porque decidiu parar de fumar?

Como será que esta importante comunicação entre os órgãos é realizada?

As pesquisas vão mais longe ainda.

Afirmam com precisão que as vantagens físicas já começam a se manifestar míseros vinte minutos após a interrupção do hábito de fumar.

É mais espantoso ainda.

Como o organismo fica sabendo?

Esta é a pergunta que não quer calar: como o corpo da pessoa adivinha que o cara está parando de fumar?

Ora, só faz vinte minutos que ele decidiu parar de fumar?

Como sabe que não é apenas o intervalo entre um cigarro e outro?

Quem recebe e quem envia esta informação de maneira que vinte minutos depois já começa a produção de benefícios?

Será que o fato do indivíduo decidir parar de fumar é comunicado internamente para todos os órgãos do corpo via e-mail cerebral instantâneo?

Ora, numa fase estressante, um bom fumante, como eu era, fuma um cigarro a cada sete, oito minutos.

Num dia normal este tempo cai para, mais ou menos, uns vinte minutos.

Então, das duas, uma: ou o organismo sabe que eu parei de fumar ou ele fica melhorando e piorando a cada cigarro fumado.

Mas, mesmo com uma rápida auto-observação, tenho que concordar que realmente me sinto muito melhor.

Tô me sentindo como um garotão de propaganda de iogurte.

Meu corpo tem menos fadiga.

Tem menos tosse e mais fôlego.

Tem mais vitalidade.

Sinto mais vigor para o esporte. Vontade de correr, pedalar e fazer exercícios físicos em geral.

Ou seja, tudo que eu, animal sedentário convicto, não faço.

Se eu não circulasse o tempo inteiro de carro até iria aproveitar minha nova condição física para caminhar um pouco.

É notório, também, que respiro melhor.

Ou seja, agora posso aspirar mais monóxido de carbono e outras substâncias poluentes que são jogadas na atmosfera.

É evidente que meu olfato melhorou. Percebo agora mais os diversos cheiros.

Os bons e os ruins.

Principalmente os ruins.

Posso sentir o cheiro de um cocô de cachorro a quinhentos metros de distância.

Xixi de gato a um quilômetro.

Odores que eu nem desconfiava que existissem, agora penetram sem o menor controle pelas minhas narinas.

De todos os cheiros o que melhor sinto é o do cigarro.

Assim, esta renovada capacidade olfativa não chega a ser uma grande vantagem. Torna-se uma faca de dois gumes.

Amplia também a percepção de qualquer milímetro cúbico de fumaça de cigarro que passa perto do seu nariz.

Segundo a longa lista de vantagens apresentada pelas pesquisas mais modernas, também o metabolismo digestivo seria beneficiado ao parar de fumar.

Você se alimenta melhor. Percebe mais o sabor dos alimentos. Tem uma digestão mais saudável.

Isto também é real. Tá mesmo acontecendo comigo.

Hoje como muito melhor.

Nem tão melhor do que antes, mas com toda certeza, muito mais.

Superei com larga folga o máximo de doze quilos que as pesquisas disseram que eu deveria engordar.

Melhorei 22 quilos nestes três meses.

É claro que nem me preocupo com isso.

As pesquisas dizem que logo meu corpo voltará ao normal e este excesso de peso sumirá como por encanto.

Na verdade, estou torcendo para que eu passe logo quinze anos sem fumar.

Querem saber porque?

Porque segundo as pesquisas mais recentes, a minha chance de morrer torna-se a mesma que a de uma pessoa que nunca fumou.

Ou seja, continuo podendo morrer a qualquer momento.

 

 

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