sábado, 02/03/2001
NONAGÉSIMO DIA (três meses).
Quem apostou
na minha derrota, perdeu.
Deu
zebra.
Tô no
andar mais alto do pódio estourando uma garrafa de champagne.
Tô
recebendo a medalha de ouro de parada de fumar diretamente das mãos do
presidente do comitê olímpico.
Vini,
vidi, vici.
Nobel do
vício.
Vitorioso.
Três
longos meses longe do cigarro.
Agora
posso saborear os inefáveis benefícios físicos advindos do meu esforço de
abandonar o vício letal do fumo.
Todas as
pesquisas de alta credibilidade falam nos benefícios.
Abster-se
três meses do hábito de fumar gera uma incrível melhora no aparelho
circulatório. Provoca uma recuperação de até 30% nas funções pulmonares e
respiratórias.
Excelente.
Uma maravilha.
Aliás, as
mesmas referendadas pesquisas informam que apenas oito horas depois que a
pessoa deixa de fumar o organismo já reage.
Normaliza
o batimento cardíaco. O oxigênio e a pressão do sangue estabilizam.
Como o
organismo faz para distinguir a diferença entre o fumante que fica oito horas
dormindo (e que enquanto está dormindo, é claro, não fuma), de uma pessoa que
está há oito horas sem fumar porque decidiu parar de fumar?
Como será
que esta importante comunicação entre os órgãos é realizada?
As
pesquisas vão mais longe ainda.
Afirmam
com precisão que as vantagens físicas já começam a se manifestar míseros vinte
minutos após a interrupção do hábito de fumar.
É mais
espantoso ainda.
Como o
organismo fica sabendo?
Esta é a
pergunta que não quer calar: como o corpo da pessoa adivinha que o cara está
parando de fumar?
Ora, só
faz vinte minutos que ele decidiu parar de fumar?
Como sabe
que não é apenas o intervalo entre um cigarro e outro?
Quem
recebe e quem envia esta informação de maneira que vinte minutos depois já
começa a produção de benefícios?
Será que
o fato do indivíduo decidir parar de fumar é comunicado internamente para todos
os órgãos do corpo via e-mail cerebral instantâneo?
Ora, numa
fase estressante, um bom fumante, como eu era, fuma um cigarro a cada sete,
oito minutos.
Num dia
normal este tempo cai para, mais ou menos, uns vinte minutos.
Então,
das duas, uma: ou o organismo sabe que eu parei de fumar ou ele fica melhorando
e piorando a cada cigarro fumado.
Mas,
mesmo com uma rápida auto-observação, tenho que concordar que realmente me
sinto muito melhor.
Tô me
sentindo como um garotão de propaganda de iogurte.
Meu corpo
tem menos fadiga.
Tem menos
tosse e mais fôlego.
Tem mais
vitalidade.
Sinto
mais vigor para o esporte. Vontade de correr, pedalar e fazer exercícios
físicos em geral.
Ou seja,
tudo que eu, animal sedentário convicto, não faço.
Se eu não
circulasse o tempo inteiro de carro até iria aproveitar minha nova condição
física para caminhar um pouco.
É
notório, também, que respiro melhor.
Ou seja,
agora posso aspirar mais monóxido de carbono e outras substâncias poluentes que
são jogadas na atmosfera.
É
evidente que meu olfato melhorou. Percebo agora mais os diversos cheiros.
Os bons e
os ruins.
Principalmente
os ruins.
Posso
sentir o cheiro de um cocô de cachorro a quinhentos metros de distância.
Xixi de
gato a um quilômetro.
Odores
que eu nem desconfiava que existissem, agora penetram sem o menor controle
pelas minhas narinas.
De todos
os cheiros o que melhor sinto é o do cigarro.
Assim,
esta renovada capacidade olfativa não chega a ser uma grande vantagem. Torna-se
uma faca de dois gumes.
Amplia
também a percepção de qualquer milímetro cúbico de fumaça de cigarro que passa
perto do seu nariz.
Segundo a
longa lista de vantagens apresentada pelas pesquisas mais modernas, também o
metabolismo digestivo seria beneficiado ao parar de fumar.
Você se
alimenta melhor. Percebe mais o sabor dos alimentos. Tem uma digestão mais
saudável.
Isto
também é real. Tá mesmo acontecendo comigo.
Hoje como
muito melhor.
Nem tão
melhor do que antes, mas com toda certeza, muito mais.
Superei
com larga folga o máximo de doze quilos que as pesquisas disseram que eu
deveria engordar.
Melhorei
22 quilos nestes três meses.
É claro
que nem me preocupo com isso.
As
pesquisas dizem que logo meu corpo voltará ao normal e este excesso de peso
sumirá como por encanto.
Na verdade,
estou torcendo para que eu passe logo quinze anos sem fumar.
Querem
saber porque?
Porque
segundo as pesquisas mais recentes, a minha chance de morrer torna-se a mesma
que a de uma pessoa que nunca fumou.
Ou seja,
continuo podendo morrer a qualquer momento.
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