terça-feira, 13/05/2008
SETE ANOS E CINCO MESES E ONZE DIAS
Há sete
anos, cinco, e trinta e... cinco minutos e alguns segundos que não fumo.
Nem penso
em cigarro.
Quer
dizer, penso, né?
Porque
senão não estaria voltando a este assunto.
Mas passo
muito tempo sem sequer lembrar da existência dos cigarros e assemelhados.
Por isso
passei tanto tempo sem escrever neste diário que, agora, virou anuário.
É bem
verdade, que, no verão, sempre que saio do mar sinto uma tremenda vontade de
fumar um cigarro.
E também
no começo de inverno me dá uma baita vontade de fumar.
Uma
vontade que vem de dentro de mim. Do meu passado de fumante.
Muitas
vezes, sonho comigo em tempos passados e apareço fumando no meu sonho. Em
outros sonhos, sei que não fumo mais, mas convenço a mim mesmo que só um
cigarrinho não vai me fazer mal. Então, continuo sonhando e fumando.
É sempre
estranho.
Acordo
assustado como se estivesse caindo do trigésimo andar. Ou de um penhasco. Ou
como se tivesse cometido um pecado mortal. O coração disparado. A respiração
ofegante.
Só que
durante o sonho, aproveito ao máximo as tragadas, as fumaradas, as baforadas,
as nuvens e os rolos de fumaça.
Mas, no
dia à dia, na vidinha cotidiana de casa, trabalho, casa, trabalho, não tenho
sentido falta. Simplesmente, nem lembro dele. Ou evito lembrar.
Tanto que
hoje quero escrever sobre outra coisa.
Uma outra
coisa muito, muito mais importante que está acontecendo comigo.
Estou
apaixonado.
Pois é
aconteceu.
E ela é
simplesmente linda.
E estou
completamente apaixonado por ela.
Se vocês
me conhecessem pessoalmente, tenho certeza que achariam que eu sou um homem
sério.
Um cara
compenetrado, trabalhador.
Não sou
assim tão feio que possa ser confundido com um personagem de filme de terror.
E nem sou
tão bonito (quem me dera) que pudesse
freqüentar a casinha do cachorro da Giselle Bündchen.
Imaginem um
cara absolutamente comum. Com um rosto trivial.
Um nariz
mais ou menos avantajado.
Um par de
orelhas que, digamos, se sobressaem um pouco, mas que não são orelhas de abano.
Nem
bonito, nem feio.
Se, por
um lado, quando caminho pela Rua da Praia, nenhuma mulher suspira pela minha
beleza masculina. Posso dizer que nenhuma sente repulsa por me achar
excessivamente feio.
Ou seja,
nenhuma me olha.
Aliás,
quase nenhuma.
Mas, ela
me olhou. Ela me olhou mais de uma vez.
Ela se
apaixonou por mim.
Veja só.
Como entender as mulheres?
Ela se
apaixonou por mim, logo por mim. Diz que me ama e eu acredito.
Eu digo
que a amo e ela acredita.
Nossos
olhos brilham quando se olham.
E até
quando brigamos, eu sei que a amo
Assim é o
amor para mim.
Capaz de
todas as renúncias.
Capaz de
todos os cuidados.
Se um
dia, algum de vocês me encontrarem na rua com ela, ou num restaurante, ou fila
de cinema, vão perceber a sorte que tenho.
É como se
eu tivesse encontrado o tesouro da ilha dos piratas.
Tivesse
ganhado sozinho na megasena acumulada mil vezes.
Ela é
linda e eu estou encantado, apaixonado.
Valeu a
pena ficar tanto tempo sem ninguém.
Depois de
viver um casamento de 17 anos e nove meses e dezoito dias com a jararaca da
minha ex-mulher, eu merecia ficar vinte anos sem acreditar no amor.
Trinta
anos sem poder ouvir a palavra “relacionamento”.
E mais
quarenta sem escutar alguém me chamando de “amore”, “bibico” e outros apelidos.
Mas ela é
um sonho.
Carinhosa.
Tem um
humor maravilhoso.
Seus
olhos são azuis intensos, maravilhosamente sedutores.
Ela é
inteligente. Gosta de ler. Tem uma cultura extensa.
É atriz e
produtora de um grupo de teatro.
É dona de
um sorriso que derreteria o mais insensível dos mortais.
Eu a vi,
pela primeira vez, na fila do elevador, no prédio da agência.
Reparamos
brevemente um no outro.
Ela
desceu no quinto andar. Foram cinco andares que, graças a Deus, não acabavam
nunca.
Ainda bem
que o elevador parou em todos os andares.
Eu não
tirei os olhos dela.
Definitivamente,
ela conseguiu perturbar meu sossego.
Fiquei
totalmente atrapalhado e nervoso quando sua sombrinha floreada engatou na alça
da minha pasta de couro.
Ela disse
qualquer coisa bem humorada que eu nem entendi direito.
Soltou o
cabo da sombrinha, pediu desculpas, no mínimo, umas seis vezes e desceu sorrindo.
E eu,
quando me dei conta, estava outra vez no térreo.
Esqueci
do mundo.
Subi até
o décimo sexto andar só com o sorriso dela brilhando na minha cabeça.
Desci
sonhando em vê-la outra vez.
No
térreo, entrou o Aguiar:
- Que
cara de besta é essa? Tá rindo de quê?, perguntou-me.
Nem
consegui responder.
Apenas
guardei meu sorriso e meus motivos.
Foi um
encontro tão fortuito que, apesar de recordar o instante várias vezes durante
aquele dia, passado algum tempo esqueci o acontecido.
Mas o
destino, felizmente, conspirou a meu favor.
Cinco ou
seis dias depois, dona Anelise, a secretaria padrão, heptacampeã consecutiva do
prêmio de melhor colega do ano, bateu na minha porta.
- Bom
dia. Tá aí fora uma moça de um grupo de teatro. Ela tá buscando uma parceria
com um cliente nosso. Quer conversar sobre o projeto com alguém da agência.
- E o que
eu tenho a ver com isso?
- O
Aguiar disse que o senhor seria a melhor pessoa pra falar com ela.
- E ela
tá aqui? Sem marcar? Não da pra ser outra hora? Minha agenda de hoje...
Dona
Joyce, a mulher-secretaria em sua mais inteligente e brilhante forma (isso não
é pra ser sarcástico), me disse que seria bastante indelicado de nossa parte já
que a moça estava ali ao lado. Já sabia que eu tava na sala. E com certeza, até
havia escutado minhas desculpas esfarrapadas.
- Então,
peça que entre.
Ela
entrou.
E ela era
ela. Aquela.
Claro, a
moça do elevador.
Fiquei
absolutamente atrapalhado. Pedi que sentasse. Ofereci um café.
Não sabia
onde por as mãos. Não sabia pra onde olhar.
Claro, queria
olhar o tempo todo pra ela.
Ela
falou. Que voz graciosa. Nem muito grave, nem muito aguda.
E sua
boca se movia com uma perfeição. Com um leve sorriso.
Com uma
simpatia quase verdadeira e provocante.
Ela era
sedutora e... linda. Principalmente linda.
Fiquei
imediatamente apaixonado.
Ela me
apresentou todo o projeto com paciência e eficiência.
Cruzou as
pernas duas vezes.
Me olhou
diretamente nos olhos.
Sorriu
quatro vezes.
Sua pele
era clara. Seus cabelos bem pretos.
Me
enfeitiçou de tal maneira, que não ouvi uma só palavra sobre o projeto.
Eu só
escutava o som mágico que saía da sua boca de sereia.
Eu
mergulhei no azul profundo de seus olhos e esqueci do resto do mundo.
Ao final
da explanação, ela me perguntou o que eu achava da idéia.
- Você
acha que a contrapartida é do interesse da empresa?
Disse pra
ela que era do nosso interesse apoiar a cultura, o teatro. Disse que tínhamos
na agência um setor dedicado exclusivamente ao marketing cultural.
Falei que
eu iria encaminhar sua proposta para a análise deles.
Trocamos
cartões. Despedimo-nos e era isso.
Ela foi
embora, saiu da minha sala.
Eu fiquei
petrificado durante um bom tempo.
Só
acordei quando o telefone tocou uma vez atrás da outra, e as reuniões
começaram, e o trabalho tomou conta do meu pensamento.
No fim do
dia, decidi não ir direto pra casa, queria comer e ir ao cinema. Fazia tempo
que não ia ao cinema.
Como tava
em cima da hora, corri para o MacDonalds mais próximo.
Pedi o
número sete.
Peguei
meu lanche e sentei de costas pra televisão.
Dei duas
mordidas e, como a imagem da moça do teatro não me saía da cabeça, me ocorreu
uma idéia maluca: vou ligar pra ela.
Na mesma
hora pensei que seria uma loucura ligar para a moça da companhia de teatro.
O que eu
diria pra ela?
Enquanto
pensava num assunto procurei o cartão no meu bolso.
Tinha um
número de celular.
Liguei.
Bem no
momento que começou a chamar, ouvi um celular tocando atrás de mim.
Ela
atendeu.
Comecei a
falar meio sem saber o que realmente dizer.
Percebi
que atrás de mim também tinha uma pessoa falando no celular.
Logo
notei que a pessoa atrás de mim dizia as mesmas coisas que a pessoa que falava
comigo pelo aparelho.
Virei e
ali tava ela.
Rimos
muito.
Sentamos
juntos.
Ela com
seu número 10 e eu o meu número 7.
Saímos
dali pro cinema. Depois fomos até uma restaurante bacana no Menino Deus.
Ficamos
conversando.
Bebemos
seis chopes e comemos duas azeitonas e um tomatinho daqueles pequenos cortado
no meio.
Nos
cobraram dois bufês completos e mais 20% pelo serviço.
Estávamos
tão distraídos com nossa conversa que achamos a maior graça em pagar 119 reais.
Deixei-a
em casa.
Fui
flutuando sobre um grupo de nuvens que formaram uma avenida até a minha casa.
Mas, como
dizia meu avô: “algo perfeito está para ser feito”.
Então,
como todas as coisas da face da terra, ela também não poderia ser perfeita.
Sim, ela
fuma.
Não
muito, mas fuma.
Free azul
de caixinha.
E ela
fica linda fumando.
Observando
homens e mulheres fumando, percebi o quanto o gesto de fumar é brega.
A
tragada. A batida das cinzas. O esgar da boca quando chupa o cigarro. A careta
para soltar a fumaça. Tudo é muito brega.
Mas o
amor cega.
O amor me
faz olhar para ela e acreditar que ela é a única pessoa do mundo que fica
elegante quando está fumando.
Quando
ela acendeu o primeiro cigarro eu não pude deixar de me surpreender.
Ela
notou.
- É que
eu parei de fumar há 8 anos.
Contei-lhe
brevemente os sacrifícios passados.
A
tremenda luta contra o vício que eu havia travado.
E que,
agora, eu me considerava área livre do cigarro.
E que era
inesperado estar tão perto e apaixonado por alguém que fumava.
Mas logo
acrescentei que isso não queria dizer nada
Que ela
poderia fumar o quanto quisesse.
Afinal,
cada um é dono de sua vontade e sabe de si.
Ou será
que penso exatamente o contrário?
Não seria
melhor que ela, num gesto arrebatado de amor, decidisse, ali mesmo, naquele
exato momento, que pararia de fumar?
Será que
o fato dela ser fumante implicaria em alguma coisa perigosa para mim?
Bobagem.
Era apenas o primeiro encontro.
Eu tava
apaixonado e afastado há tantos anos do cigarro que não corria perigo algum.
Não
voltaria a fumar só porque estava enamorado de uma fumante.
Mas bem
que eu preferiria que ela não fumasse.
Seria
mais seguro.
Ora, que
bobagem.
Existem
tantos casais que um fuma e o outro não.
Existem
tantos casais que um é torcedor do Inter e o outro torce pelo Grêmio.
Existem
tantos casais em que um ama chimarrão enquanto o outro cônjuge não consegue nem
entender como alguém pode gostar daquele troço amargo e fervendo.
Aliás, os
opostos se atraem.
É físico.
Ou será
químico?
Nosso
idílio amoroso ultrapassa os quatro meses.
Há quatro
meses nos vemos todos os dias.
Ficamos
tão juntos quanto nos permitem nossos horários e profissões.
Já não
tenho a mesma confiança em meus propósitos de ex-fumante convicto. Não que
esteja pensando em voltar a fumar.
Longe de
mim.
Mas,
confesso: às vezes penso em fumar.
Mas não
porque eu sinta vontade de fumar.
Penso em
fumar apenas para acompanhá-la. Pra não deixá-la fumando sozinha.
Assim,
como às vezes ela pensa em parar de fumar apenas para me acompanhar.
Eu penso
que poderia fazer o mesmo só que ao contrário, entendem?
Mas por
enquanto é só um pensamento. Só isso.
É claro
que não vou fazer isso.
E não vou
fazer isso simplesmente porque não preciso fazer isso.
Afinal de
contas, sou um ex fumante que está há sete anos, cinco meses, três dias e
quarenta e sete minutos sem fumar.
Sem
colocar um mísero cigarro na boca.
Mas quero
confidenciar uma coisa: cada vez que beijo a adorável boca da minha amada e
sinto aquele hálito de cigarro não tem como não sentir uma nostalgia daqueles
tempos que eu fumava.
E mais:
quando a vejo, linda e serena sentada à janela na sua casa, bebendo uma
cerveja, fumando charmosa e teatralmente, não posso negar uma pontinha de
inveja e de saudade.
Quase uma
melancolia.
É claro
que reclamo. Digo que o gosto é ruim. Que a fumaça me incomoda.
Mas a
verdade é que o maldito odor ainda consegue exercer seu poder tirano sobre mim.
Um dia
desses, a gente tava voltando pra casa dela, depois de ter ido ao teatro.
De
repente, inocentemente, ela colocou seu maço de cigarros e o isqueiro no bolso
da minha camisa.
Foi uma
ação inconsciente.
Apenas
pra ficar com as mãos desocupadas.
Uma ação
natural.
Logo
abstrai e esqueci do volume no bolso.
Algum
tempo depois, quase instintivamente, eu apalpei o bolso e senti o maço de
cigarros e o isqueiro.
Foi como
se eu tivesse entrado no túnel do tempo.
Retornado
ao meu próprio passado.
Recordado
dos tantos maços de cigarros e centenas de isqueiros que já passaram por todos
os bolsos de todas as minhas camisas.
Num
processo automático, conduzido por um antigo hábito, saquei o maço de cigarros
e o isqueiro do bolso.
Afinal
foi um ritual que eu cumpri durante mais de vinte e cinco anos
Foi um gesto único e preciso.
Retirei
um cigarro do maço e aspirei o aroma do fumo.
Freei o
impulso de acendê-lo para mim.
Num
movimento contínuo coloquei o cigarro delicadamente na boca sensual da minha
namorada.
Cavalheirescamente
acendi o cigarro pra ela.
Ficou
encantada. Agradeceu com um beijo carregado de batom, paixão e fumaça.
Fiquei
impressionado com o fato de que toda esta dinâmica ainda me era muito familiar.
Eu parei
de fumar, mas não esqueci, e acho que não esquecerei jamais deste conjunto de
ações que tantas vezes executei antigamente.
Mas, não
vai ser porque eu carrego um maço de cigarro no meu bolso que vou voltar a
fumar.
O bolso é
meu, mas o cigarro é dela.
Continuo
com o firme propósito de não fumar.
Permaneço
com a crença absoluta de que o cigarro não é uma coisa boa para na minha vida.
Não vou
atirar pela janela todo esforço despendido.
Todo o
tempo gasto desde o primeiro dia que decidi parar de fumar.
Tenho
convicção total.
Clareza
de princípios.
Confiança
absoluta nos meus propósitos.
Mas, com
franqueza, tenho que admitir que o inimigo encontrou uma maneira de se
infiltrar em minhas trincheiras.
Se eu
fosse devoto da Igreja Universal, diria que é o demônio. Satanás, com suas
artimanhas, colocando a tentação outra vez ao alcance das minhas mãos.
Realmente,
colocar esta linda mulher na minha vida é mesmo a maneira mais tentadora de
fazer com que eu fume outra vez.
Mas isso
só o tempo dirá.
FIM?
Voltou a fumar?
ResponderExcluirOi, Lucas. Somente agora visualizei o seu comentário.
ExcluirNão, não voltei a fumar.
Sigo firme em meu propósito de ser um não fumante.
Obrigado por interagir comigo e com o blog.
Nossa, descobri seu blog somente agora. Queria saber como acabou a sua história com essa mulher.
ResponderExcluirVocê voltou a fumar por causa dela?
Uma noite se sexo acompanhada com cigarro é a melhor coisa que tem S2
Oi, Gessica. E eu descobri sua mensagem só agora. Que bom que você leu o blog. Realmente minha história com ela (que se chamava Sofia) acabou. Vivemos dois anos e sete meses juntos e acabamos nos separando.
ExcluirNão voltei a fumar.
É verdade, muitas vezes depois da transa eu lembro como era bom aquele cigarrinho de "depois".
Abraço pra você e obrigado por interagir comigo.