sábado, 14 de outubro de 2017

SETE ANOS E CINCO MESES E ONZE DIAS

terça-feira, 13/05/2008

SETE ANOS E CINCO MESES E ONZE DIAS

Há sete anos, cinco, e trinta e... cinco minutos e alguns segundos que não fumo.

Nem penso em cigarro.

Quer dizer, penso, né?

Porque senão não estaria voltando a este assunto.

Mas passo muito tempo sem sequer lembrar da existência dos cigarros e assemelhados.

Por isso passei tanto tempo sem escrever neste diário que, agora, virou anuário.

É bem verdade, que, no verão, sempre que saio do mar sinto uma tremenda vontade de fumar um cigarro.

E também no começo de inverno me dá uma baita vontade de fumar.

Uma vontade que vem de dentro de mim. Do meu passado de fumante.

Muitas vezes, sonho comigo em tempos passados e apareço fumando no meu sonho. Em outros sonhos, sei que não fumo mais, mas convenço a mim mesmo que só um cigarrinho não vai me fazer mal. Então, continuo sonhando e fumando.

É sempre estranho.

Acordo assustado como se estivesse caindo do trigésimo andar. Ou de um penhasco. Ou como se tivesse cometido um pecado mortal. O coração disparado. A respiração ofegante.

Só que durante o sonho, aproveito ao máximo as tragadas, as fumaradas, as baforadas, as nuvens e os rolos de fumaça.

Mas, no dia à dia, na vidinha cotidiana de casa, trabalho, casa, trabalho, não tenho sentido falta. Simplesmente, nem lembro dele. Ou evito lembrar.

Tanto que hoje quero escrever sobre outra coisa.

Uma outra coisa muito, muito mais importante que está acontecendo comigo.

Estou apaixonado.

Pois é aconteceu.

E ela é simplesmente linda.

E estou completamente apaixonado por ela.

Se vocês me conhecessem pessoalmente, tenho certeza que achariam que eu sou um homem sério.

Um cara compenetrado, trabalhador.

Não sou assim tão feio que possa ser confundido com um personagem de filme de terror.

E nem sou tão bonito (quem me dera) que pudesse freqüentar a casinha do cachorro da Giselle Bündchen.

Imaginem um cara absolutamente comum. Com um rosto trivial.

Um nariz mais ou menos avantajado.

Um par de orelhas que, digamos, se sobressaem um pouco, mas que não são orelhas de abano.

Nem bonito, nem feio.

Se, por um lado, quando caminho pela Rua da Praia, nenhuma mulher suspira pela minha beleza masculina. Posso dizer que nenhuma sente repulsa por me achar excessivamente feio.

Ou seja, nenhuma me olha.

Aliás, quase nenhuma.

Mas, ela me olhou. Ela me olhou mais de uma vez.

Ela se apaixonou por mim.

Veja só. Como entender as mulheres?

Ela se apaixonou por mim, logo por mim. Diz que me ama e eu acredito.

Eu digo que a amo e ela acredita.

Nossos olhos brilham quando se olham.

E até quando brigamos, eu sei que a amo

Assim é o amor para mim.

Capaz de todas as renúncias.

Capaz de todos os cuidados.

Se um dia, algum de vocês me encontrarem na rua com ela, ou num restaurante, ou fila de cinema, vão perceber a sorte que tenho.

É como se eu tivesse encontrado o tesouro da ilha dos piratas.

Tivesse ganhado sozinho na megasena acumulada mil vezes.

Ela é linda e eu estou encantado, apaixonado.

Valeu a pena ficar tanto tempo sem ninguém.

Depois de viver um casamento de 17 anos e nove meses e dezoito dias com a jararaca da minha ex-mulher, eu merecia ficar vinte anos sem acreditar no amor.

Trinta anos sem poder ouvir a palavra “relacionamento”.

E mais quarenta sem escutar alguém me chamando de “amore”, “bibico” e outros apelidos.

Mas ela é um sonho.

Carinhosa.

Tem um humor maravilhoso.

Seus olhos são azuis intensos, maravilhosamente sedutores.

Ela é inteligente. Gosta de ler. Tem uma cultura extensa.

É atriz e produtora de um grupo de teatro.

É dona de um sorriso que derreteria o mais insensível dos mortais.

Eu a vi, pela primeira vez, na fila do elevador, no prédio da agência.

Reparamos brevemente um no outro.

Ela desceu no quinto andar. Foram cinco andares que, graças a Deus, não acabavam nunca.

Ainda bem que o elevador parou em todos os andares.

Eu não tirei os olhos dela.

Definitivamente, ela conseguiu perturbar meu sossego.

Fiquei totalmente atrapalhado e nervoso quando sua sombrinha floreada engatou na alça da minha pasta de couro.

Ela disse qualquer coisa bem humorada que eu nem entendi direito.

Soltou o cabo da sombrinha, pediu desculpas, no mínimo, umas seis vezes e desceu sorrindo.

E eu, quando me dei conta, estava outra vez no térreo.

Esqueci do mundo.

Subi até o décimo sexto andar só com o sorriso dela brilhando na minha cabeça.

Desci sonhando em vê-la outra vez.

No térreo, entrou o Aguiar:

- Que cara de besta é essa? Tá rindo de quê?, perguntou-me.

Nem consegui responder.

Apenas guardei meu sorriso e meus motivos.

Foi um encontro tão fortuito que, apesar de recordar o instante várias vezes durante aquele dia, passado algum tempo esqueci o acontecido.

Mas o destino, felizmente, conspirou a meu favor.

Cinco ou seis dias depois, dona Anelise, a secretaria padrão, heptacampeã consecutiva do prêmio de melhor colega do ano, bateu na minha porta.

- Bom dia. Tá aí fora uma moça de um grupo de teatro. Ela tá buscando uma parceria com um cliente nosso. Quer conversar sobre o projeto com alguém da agência.

- E o que eu tenho a ver com isso?

- O Aguiar disse que o senhor seria a melhor pessoa pra falar com ela.

- E ela tá aqui? Sem marcar? Não da pra ser outra hora? Minha agenda de hoje...

Dona Joyce, a mulher-secretaria em sua mais inteligente e brilhante forma (isso não é pra ser sarcástico), me disse que seria bastante indelicado de nossa parte já que a moça estava ali ao lado. Já sabia que eu tava na sala. E com certeza, até havia escutado minhas desculpas esfarrapadas.

- Então, peça que entre.

Ela entrou.

E ela era ela. Aquela.

Claro, a moça do elevador.

Fiquei absolutamente atrapalhado. Pedi que sentasse. Ofereci um café.

Não sabia onde por as mãos. Não sabia pra onde olhar.

Claro, queria olhar o tempo todo pra ela.

Ela falou. Que voz graciosa. Nem muito grave, nem muito aguda.

E sua boca se movia com uma perfeição. Com um leve sorriso.

Com uma simpatia quase verdadeira e provocante.

Ela era sedutora e... linda. Principalmente linda.

Fiquei imediatamente apaixonado.

Ela me apresentou todo o projeto com paciência e eficiência.

Cruzou as pernas duas vezes.

Me olhou diretamente nos olhos.

Sorriu quatro vezes.

Sua pele era clara. Seus cabelos bem pretos.

Me enfeitiçou de tal maneira, que não ouvi uma só palavra sobre o projeto.

Eu só escutava o som mágico que saía da sua boca de sereia.

Eu mergulhei no azul profundo de seus olhos e esqueci do resto do mundo.

Ao final da explanação, ela me perguntou o que eu achava da idéia.

- Você acha que a contrapartida é do interesse da empresa?

Disse pra ela que era do nosso interesse apoiar a cultura, o teatro. Disse que tínhamos na agência um setor dedicado exclusivamente ao marketing cultural.

Falei que eu iria encaminhar sua proposta para a análise deles.

Trocamos cartões. Despedimo-nos e era isso.

Ela foi embora, saiu da minha sala.

Eu fiquei petrificado durante um bom tempo.

Só acordei quando o telefone tocou uma vez atrás da outra, e as reuniões começaram, e o trabalho tomou conta do meu pensamento.

No fim do dia, decidi não ir direto pra casa, queria comer e ir ao cinema. Fazia tempo que não ia ao cinema.

Como tava em cima da hora, corri para o MacDonalds mais próximo.

Pedi o número sete.

Peguei meu lanche e sentei de costas pra televisão.

Dei duas mordidas e, como a imagem da moça do teatro não me saía da cabeça, me ocorreu uma idéia maluca: vou ligar pra ela.

Na mesma hora pensei que seria uma loucura ligar para a moça da companhia de teatro.

O que eu diria pra ela?

Enquanto pensava num assunto procurei o cartão no meu bolso.

Tinha um número de celular.

Liguei.

Bem no momento que começou a chamar, ouvi um celular tocando atrás de mim.

Ela atendeu.

Comecei a falar meio sem saber o que realmente dizer.

Percebi que atrás de mim também tinha uma pessoa falando no celular.

Logo notei que a pessoa atrás de mim dizia as mesmas coisas que a pessoa que falava comigo pelo aparelho.

Virei e ali tava ela.

Rimos muito.

Sentamos juntos.

Ela com seu número 10 e eu o meu número 7.

Saímos dali pro cinema. Depois fomos até uma restaurante bacana no Menino Deus.

Ficamos conversando.

Bebemos seis chopes e comemos duas azeitonas e um tomatinho daqueles pequenos cortado no meio.

Nos cobraram dois bufês completos e mais 20% pelo serviço.

Estávamos tão distraídos com nossa conversa que achamos a maior graça em pagar 119 reais.

Deixei-a em casa.

Fui flutuando sobre um grupo de nuvens que formaram uma avenida até a minha casa.

Mas, como dizia meu avô: “algo perfeito está para ser feito”.

Então, como todas as coisas da face da terra, ela também não poderia ser perfeita.

Sim, ela fuma.

Não muito, mas fuma.

Free azul de caixinha.

E ela fica linda fumando.

Observando homens e mulheres fumando, percebi o quanto o gesto de fumar é brega.

A tragada. A batida das cinzas. O esgar da boca quando chupa o cigarro. A careta para soltar a fumaça. Tudo é muito brega.

Mas o amor cega.

O amor me faz olhar para ela e acreditar que ela é a única pessoa do mundo que fica elegante quando está fumando.

Quando ela acendeu o primeiro cigarro eu não pude deixar de me surpreender.

Ela notou.

- É que eu parei de fumar há 8 anos.

Contei-lhe brevemente os sacrifícios passados.

A tremenda luta contra o vício que eu havia travado.

E que, agora, eu me considerava área livre do cigarro.

E que era inesperado estar tão perto e apaixonado por alguém que fumava.

Mas logo acrescentei que isso não queria dizer nada

Que ela poderia fumar o quanto quisesse.

Afinal, cada um é dono de sua vontade e sabe de si.

Ou será que penso exatamente o contrário?

Não seria melhor que ela, num gesto arrebatado de amor, decidisse, ali mesmo, naquele exato momento, que pararia de fumar?

Será que o fato dela ser fumante implicaria em alguma coisa perigosa para mim?

Bobagem. Era apenas o primeiro encontro.

Eu tava apaixonado e afastado há tantos anos do cigarro que não corria perigo algum.

Não voltaria a fumar só porque estava enamorado de uma fumante.

Mas bem que eu preferiria que ela não fumasse.

Seria mais seguro.

Ora, que bobagem.

Existem tantos casais que um fuma e o outro não.

Existem tantos casais que um é torcedor do Inter e o outro torce pelo Grêmio.

Existem tantos casais em que um ama chimarrão enquanto o outro cônjuge não consegue nem entender como alguém pode gostar daquele troço amargo e fervendo.

Aliás, os opostos se atraem.

É físico.

Ou será químico?

Nosso idílio amoroso ultrapassa os quatro meses.

Há quatro meses nos vemos todos os dias.

Ficamos tão juntos quanto nos permitem nossos horários e profissões.

Já não tenho a mesma confiança em meus propósitos de ex-fumante convicto. Não que esteja pensando em voltar a fumar.

Longe de mim.

Mas, confesso: às vezes penso em fumar.

Mas não porque eu sinta vontade de fumar.

Penso em fumar apenas para acompanhá-la. Pra não deixá-la fumando sozinha.

Assim, como às vezes ela pensa em parar de fumar apenas para me acompanhar.

Eu penso que poderia fazer o mesmo só que ao contrário, entendem?

Mas por enquanto é só um pensamento. Só isso.

É claro que não vou fazer isso.

E não vou fazer isso simplesmente porque não preciso fazer isso.

Afinal de contas, sou um ex fumante que está há sete anos, cinco meses, três dias e quarenta e sete minutos sem fumar.

Sem colocar um mísero cigarro na boca.

Mas quero confidenciar uma coisa: cada vez que beijo a adorável boca da minha amada e sinto aquele hálito de cigarro não tem como não sentir uma nostalgia daqueles tempos que eu fumava.

E mais: quando a vejo, linda e serena sentada à janela na sua casa, bebendo uma cerveja, fumando charmosa e teatralmente, não posso negar uma pontinha de inveja e de saudade.

Quase uma melancolia.

É claro que reclamo. Digo que o gosto é ruim. Que a fumaça me incomoda.

Mas a verdade é que o maldito odor ainda consegue exercer seu poder tirano sobre mim.

Um dia desses, a gente tava voltando pra casa dela, depois de ter ido ao teatro.

De repente, inocentemente, ela colocou seu maço de cigarros e o isqueiro no bolso da minha camisa.

Foi uma ação inconsciente.

Apenas pra ficar com as mãos desocupadas.

Uma ação natural.

Logo abstrai e esqueci do volume no bolso.

Algum tempo depois, quase instintivamente, eu apalpei o bolso e senti o maço de cigarros e o isqueiro.

Foi como se eu tivesse entrado no túnel do tempo.

Retornado ao meu próprio passado.

Recordado dos tantos maços de cigarros e centenas de isqueiros que já passaram por todos os bolsos de todas as minhas camisas.

Num processo automático, conduzido por um antigo hábito, saquei o maço de cigarros e o isqueiro do bolso.

Afinal foi um ritual que eu cumpri durante mais de vinte e cinco anos

 Foi um gesto único e preciso.

Retirei um cigarro do maço e aspirei o aroma do fumo.

Freei o impulso de acendê-lo para mim.

Num movimento contínuo coloquei o cigarro delicadamente na boca sensual da minha namorada.

Cavalheirescamente acendi o cigarro pra ela.

Ficou encantada. Agradeceu com um beijo carregado de batom, paixão e fumaça.

Fiquei impressionado com o fato de que toda esta dinâmica ainda me era muito familiar.

Eu parei de fumar, mas não esqueci, e acho que não esquecerei jamais deste conjunto de ações que tantas vezes executei antigamente.

Mas, não vai ser porque eu carrego um maço de cigarro no meu bolso que vou voltar a fumar.

O bolso é meu, mas o cigarro é dela.

Continuo com o firme propósito de não fumar.

Permaneço com a crença absoluta de que o cigarro não é uma coisa boa para na minha vida.

Não vou atirar pela janela todo esforço despendido.

Todo o tempo gasto desde o primeiro dia que decidi parar de fumar.

Tenho convicção total.

Clareza de princípios.

Confiança absoluta nos meus propósitos.

Mas, com franqueza, tenho que admitir que o inimigo encontrou uma maneira de se infiltrar em minhas trincheiras.

Se eu fosse devoto da Igreja Universal, diria que é o demônio. Satanás, com suas artimanhas, colocando a tentação outra vez ao alcance das minhas mãos.

Realmente, colocar esta linda mulher na minha vida é mesmo a maneira mais tentadora de fazer com que eu fume outra vez.

Mas isso só o tempo dirá.

 

FIM?

4 comentários:

  1. Respostas
    1. Oi, Lucas. Somente agora visualizei o seu comentário.
      Não, não voltei a fumar.
      Sigo firme em meu propósito de ser um não fumante.
      Obrigado por interagir comigo e com o blog.

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  2. Nossa, descobri seu blog somente agora. Queria saber como acabou a sua história com essa mulher.
    Você voltou a fumar por causa dela?
    Uma noite se sexo acompanhada com cigarro é a melhor coisa que tem S2

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    Respostas
    1. Oi, Gessica. E eu descobri sua mensagem só agora. Que bom que você leu o blog. Realmente minha história com ela (que se chamava Sofia) acabou. Vivemos dois anos e sete meses juntos e acabamos nos separando.
      Não voltei a fumar.
      É verdade, muitas vezes depois da transa eu lembro como era bom aquele cigarrinho de "depois".
      Abraço pra você e obrigado por interagir comigo.

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