quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A PRIMEIRA DECISÃO

quarta, 17/05/2000
Sábado, dia 27 é o meu aniversário.
Completo quarenta e cinco anos muito bem vividos.  
Na verdade, nada de espetacularmente inusitado aconteceu comigo nestes quarenta e poucos anos. Nem de extraordinariamente bom, tampouco de admiravelmente ruim.
Repassando os anos vividos, percebo que não há nada que seja realmente digno de nota. Tive uma infância comum e divertida em que os dias eram tão longos quanto a nossa imaginação. Dias em que se brincava de mocinho e bandido, de soldado e ladrão, de carrinho, de bicicleta, pião, bolinhas, pandorga e muito futebol.
Uma vez ou outra perdi a unha do dedão jogando bola de pés descalços. Caí muitas vezes da bicicleta porque sempre esquecia que não era pra olhar para a roda da frente. Eu ficava magnetizado pela roda da frente. Ah, teve a morte do cachorro de estimação. Teve também aquela vez que recebi um olhar distraído da menina que eu amava em segredo, é claro. Afora estes pequenos eventos, nunca aconteceram comigo, nada que fosse diferente do que acontecia a todo ser vivente daquela época em que as crianças eram apenas crianças e até tinham espaço para isso. 
Depois veio a adolescência. Período bastante complicado que deixa marcas em todos, e igualmente comigo que fui um estudante mediano um jogador de futebol medíocre e um amante bastante prejudicado pela timidez.
Entrei na universidade, no curso de Medicina como meu pai sempre desejou.
Aliás, isto sim é digno de nota: enquanto todos os pais e mães costumam perguntar aos seus filhos: “O que você quer ser quando crescer, filhinho?", e tentam exercer suas apostas e influências, meu pai afirmava descaradamente: “Este menino, quando crescer, vai ser médico cardiologista. Não tem escolha. Temos que ter um cardiologista na família. Cardíacos já temos demais.”
 Bem que tentei, mas desde criança era fissurado por histórias em quadrinhos, lia desde as histórias infantis até as fotonovelas da minha mãe. Colecionava vários títulos. Adorava cinema e mais do que isso, sempre fui apaixonado pelos anúncios das revistas, as propagandas de Fatos & Fotos, O Cruzeiro, Realidade, Manchete, e todas as publicações que frequentavam nossa casa naqueles tempos pré-históricos, anteriores ao advento de sua majestade a televisão.
Então, quando ficou comprovado que eu não havia nascido para a medicina, pude me dedicar ao que sempre gostei: publicidade gráfica e visual. Depois cresci, casei e tive um casal de filhos. Mais normal do que isso impossível.
Somente relato estas breves passagens da minha vida para mostrar que vivo uma vida tão comum como tantas outras. Não que me queixe disso, aliás, estou plenamente convencido de que, se por acaso, neste momento (bato na madeira), o comando central, o chefão que tudo vê e tudo pode, decidir passar a régua (bato com mais veemência na madeira), com certeza, não me encontrará no vermelho.
Assim, com a convicção de que estou no lucro, decidi comemorar meu aniversário convidando parentes, clientes, amigos, simpatizantes, conhecidos, companheiros partidários, o pessoal do futebol de salão, colegas, amigos, e, principalmente, amigas, muitas amigas e as amigas das amigas, para uma festinha em minha própria homenagem.
Afinal de contas, não é todos os dias que a gente faz quarenta e cinco anos.
 Como, aliás, também não é todos  os dias que a gente faz quarenta e um, ou quarenta e dois ou oitenta e quatro. Isto prova duas coisas: primeiro, que esta é uma frase idiota e, segundo, que a gente sempre valoriza mais os números redondos como se eles fossem divisores da nossa existência.
Com a decisão tomada e a data marcada, parti, imediatamente, para a ação. Em primeiro lugar o planejamento Depois, agendar o salão de festas. E então, a divulgação e produção: contatos, anotações, telefonemas, e-mails, e-flyers, scraps, buscas, guias telefônicos, sugestões, convites. Tudo tem que ser pensado. Tudo planejado em minúcias. Os comes & bebes, som e iluminação, músicas, decoração, atração especial...
Minha nossa. Quanta coisa. Como dá trabalho organizar uma festinha.

Vou até fumar um cigarro.

A SEGUNDA DECISÃO.

sábado, 27/05/2000

É hoje! Acordo, salto da cama e sinto um arrepio que me causa uma forte sensação. Escuto uma voz interior que me diz: “Este não será um dia comum.”
É claro, hoje é meu aniversário, ora.
A voz insistiu: “Não é por isso, seu idiota, algo de muito importante está determinado para acontecer com você no decorrer deste dia.”
Realmente, os sinais eram claros: primeiro não precisei procurar meus chinelos pelo apartamento inteiro. Fiquei assombrado. Espantosamente, meus chinelos estavam ali, perfeitamente arrumados ao lado da cama. Depois, quando acabei de me secar me dei conta de que ninguém havia ligado durante o banho e, é claro, como eu estava me secando quando pensei nisso, percebi que (pasmem), não me esqueci de levar a toalha para o banheiro. Realmente, algo iria acontecer.
Passei o dia me ocupando em revisar tudo, examinar cada detalhe. Confirmei e recebi entregas. Assinei, dolorosamente, alguns cheques. Decidi a cor das toalhas de rosto para os banheiros. E tinha ainda que convidar de última hora aqueles que foram quase esquecidos.
Somente lá pelas cinco e meia da tarde, quando, completamente exausto, mas inteiramente feliz, pensei em começar a me preparar para receber meus convidados, ouvi o interfone tocando. Com certeza, não seria nenhum dos convidados. Nem minha mãe chegaria tão cedo numa festa de quarenta e cinco anos.
Por um instante voltei a lembrar daquela estranha sensação que me havia tocado ao acordar: aquele não seria um dia comum. Eu pressentia que algo místico estava definido. Lembrei-me dos sinais... E percebi que não era o interfone, era a campainha e ela estava tocando pela quarta vez.
Acordei dos meus pensamentos e fui, alegremente, atender a porta envergando meu sorriso mais brilhante, o famoso trinta e dois dentes, sorriso Kolynos, verdadeira propaganda de revista de produtos odontológicos.
Mais um sinal surpreendente vinha comprovar que aquele não seria um dia insignificante. Emoldurada pela porta estava a minha ex-esposa enfiada num ma-ra-vi-lho-so vestido vermelho-escândalo. Estava radiante. Ela também estava usando um sorriso último tipo. O vestido era imitação de um Gaultier que ela tinha visto uma atriz usando no Oscar. Pela coleira, ela estava trazendo o seu novo namorado. Sim: novo. Pelo menos uns vinte anos mais jovem do que eu.
Eu bem que tentei salvar o sorriso, mas ele havia trincado.
A ex entrou, largou a bolsa numa poltrona, o namorado na outra e disse que ia no banheiro. Totalmente dona da minha casa foi-se, com seus grandes olhos de fiscal de imobiliária, vistoriando e reprovando todo o ambiente.
Fiquei eu e o rapaz na sala. E agora? Que situação! Conversar o quê? Loucura, este tempo, não é mesmo? Às vezes faz frio, às vezes faz calor... Hoje, por exemplo...
- Ah! Com licença, (graças a Deus, me salvei) o interfone... Deve ser o pessoal.
Falei e corri até a cozinha. Atendi ansioso. Era o homem do gás. Ou era o carteiro. Não. Agora lembrei: era o carteiro, quer dizer, era o porteiro do prédio dizendo que estava na portaria o carteiro com uma encomenda especial para mim.
- Pode receber pra mim? Estou muito ocupado.
- Não posso. Tem que ser o senhor mesmo. O carteiro disse que é o regulamento.
Pedi licença para o namorado e desci eufórico. Pensei que poderia ser algum presente antecipado. Podia ser uma lembrança de algum amigo dado a surpresas.
Quando cheguei lá embaixo o carteiro já tinha ido embora e no lugar do porteiro tinha um bilhete dizendo já volto.
Subi.
Quando retornei ao apartamento é claro que o porteiro já tinha descido, mas como era um cara inteligente deixou a encomenda: um grande envelope pardo contendo uma coleção de prospectos de uma rede de hotéis.
Fiquei parado com o pacote nas mãos pensando no absurdo da situação. Pensei no tempo que eu tinha perdido. Pensei porque um monte de propaganda é enviado como encomenda? Porque o homem cercou sua vida cotidiana de grandes e pequenas armadilhas?hoje em diaequenasvia perdido,mo o homem cercou-se de armadilhas : um grande envelope pardo contendo uma colee descer Uma extensa rede de armadilhas que se criam sozinhas, e se infiltram no dia a dia das pessoas.
Minha reflexão filosófica foi interrompida por um rosnado feroz ao lado do meu ouvido. Era a voz inconfundível da minha querida ex jararaca. Com sua fúria, conseguiu me arrancar dos meus elevados pensamentos.
- "Não está escutando a campainha, querido".
O querido foi dito assim como um sinônimo de idiota.

Antes de atender a porta, decidi que jamais iria me casar outra vez, nem nesta, nem nas próximas quinze encarnações.

“A” DECISÃO.

domingo, 28/05/2000

Três horas da madrugada.
No meio da festa, depois de uma dúzia de cervejas, e outros tantos goles de bebidas variadas, inclusive água, minha bexiga deu-me um ultimato: ou eu ia direto, sem escalas, ao banheiro ou ela explodiria ali mesmo, diante de todos os convidados.
Para evitar uma ruptura nas relações diplomáticas com o baixo abdome, e diante da superioridade das forças inimigas me decidi pela rendição imediata. Atravessei o salão de festas em busca do banheiro redentor. Com a agilidade de um atleta de pentatlo me esquivei dos ocasionais abraços. Driblei os convites para mais um brinde. Atravessei o salão de festas de ponta à ponta e em vinte e dois segundos cravados. Penetrei no banheiro.
No banheiro errado. Foi uma gritaria geral do mulherio que conversava, fumava e retocava a maquiagem. Algumas queriam que eu saísse imediatamente. Outras querendo que eu ficasse eternamente.
Envergonhado, pedi desculpas e entrei na porta ao lado: o banheiro masculino. Inconfundível. Não só pelo odor ardente, como também pela placa à moda antiga pendurada na porta mostrando uma cartola, uma bengala e um par de luvas.
Enfim, sós.
Ao aliviar todo aquele excesso de líquidos e impurezas tive que dar razão à bexiga: urinar, não só é absolutamente necessário, como também extremamente prazeroso.
Sacudi o pinto, acendi um cigarro e fui lavar as mãos. Sim, porque mesmo embriagado ainda conservo algumas normas elementares de higiene. Qual não foi a minha surpresa quando, ao levantar os olhos, dei de cara com o espelho e topei comigo mesmo. EU estava me encarando. Olhei bem pra mim mesmo. O cigarro no canto da boca meio torta. A fumaça entrando no olho esquerdo semicerrado. Esbocei um sorriso amigável, mas, juro, não houve retribuição. Pensei em puxar um papo qualquer pra quebrar o gelo, não adiantou. Sem complacência tive que ficar durante alguns intermináveis segundos olhando aquela cara séria, acusadora, que era a minha própria cara dentro do espelho.
Aquela cara que não se deixava enganar.
Tirei o cigarro da boca, esfreguei o olho lacrimejante, e, naquele exato momento, tomei a séria e irrevogável decisão:
- Vou parar de fumar.
Estou completando quarenta anos de vida, isso quer dizer que fumo há, mais ou menos, vinte e cinco anos. Num cálculo rápido, isto significa, aproximadamente, nove mil maços. Cento e oitenta mil cigarros.
Se fosse no Fantástico, o apresentador diria que colocando um cigarro atrás do outro, poderia construir uma estrada de mil e oitocentos quilômetros.
Eu estava com um nível alcoólico de estourar bafômetro, mas naquele momento gritei:
- Basta! Chega!
O fato de haver tomado esta decisão, em si, não quer dizer grande coisa.
Na virada do ano eu também tomei (entre outras coisas) esta firme resolução.
Mas, também, não foi a primeira vez. Na festa de dez anos do meu casamento eu também decidi parar de fumar. No aniversário de um ano da minha filha também. E no nascimento de meu filho também.
- Pensando bem, acho que já parei de fumar, pelo menos, umas dezenove vezes.
Pensando melhor ainda, percebo que é aí que reside o problema: sempre decido parar de fumar no meio de uma festa quando tomo também várias outras coisas. Decido parar de fumar exatamente quanto fico ansioso e excitado e fumo como louco.
Mas desta vez será diferente.
Já que me dei conta disso, decidi nunca mais decidir parar de fumar num dia de festa.
Abri a torneira com raiva e decisão e afoguei o que restava do cigarro. Lavei novamente as mãos e saí do banheiro sem olhar pro espelho.
Assim que saí do banheiro apagaram-se as luzes: hora do parabéns pra você. Aquela hora em que mesmo aos quarenta e cinco anos a gente morre de vergonha e felicidade. Fica com uma tremenda cara de bobo alegre. Com um sorriso idiota fixado no rosto. Tentando olhar para todo mundo. Louco que acabe logo a canção pra soprar as velas do bolo e retornar ao anonimato.
Concentrei-me num pedido importante (que nem me lembro mais), e assoprei com força. De uma só vez apaguei todas as quarenta e cinco velinhas que estavam enfiadas na torta de chocolate. Com certeza aquela torta estava envenenada. Imaginem quem a trouxe? Sim, ela mesma. A minha querida e solidária ex.
Acenei com as mãos pra silenciar os aplausos e assobios. E cometi um ato impensado.
Me senti o presidente dos Estados Unidos da América diante de uma comitiva de extraterrestres e discursei para todos os presentes. Em alto e bom tom, falei:
- Decidi que nunca, jamais, colocarei um cigarro na minha boca.
Acrescentei ainda que se, porventura, alguém me visse com um cigarro na boca poderia exigir imediatamente que eu tirasse completamente a roupa e rolasse pelo chão chamando pela polícia.
Empolgado, já visualizando a bandeira americana entupida de estrelas tremulando no alto do Empire State, terminei o discurso com um apoteótico: I’LL NEVER SMOKE AGAIN.
Dito isso acendi um cigarro e confirmei que a partir de amanhã começaria a parar de fumar.
Posso lhes dar um conselho? Jamais façam isso. Nunca anunciem nada para ninguém em hipótese alguma. Pare o que você quiser parar. Comece o quê quiser começar. Decida quando, onde e por que sem dar satisfação a ninguém, nem mesmo sob tortura. Mude qualquer hábito, desde aqueles mais inofensivos até aqueles mais íntimos, de ordem sexual, mas faça bem quietinho. Solitariamente.
Deixe pra comunicar somente quando e se você tiver conseguido seu intento. Infelizmente, aprendi esta saudável lição somente depois de ter cometido o pecado mortal (contra mim mesmo) de anunciar para uma população inteira de conhecidos e penetras que eles todos jamais me veriam com um cigarro na boca outra vez. Fui execrado na hora. Passei por fraco, mentiroso, incapaz, charlatão, falcatrua, pérfido, fanfarrão, um sete um, falso, vendido, traidor, inapto, falastrão, e cada um tinha um adjetivo pior para me classificar, sendo que a palavra final foi da minha mãe:

_ “Mas tu nunca cumpriu nenhuma decisão na tua vida, não vai ser agora.”

PRIMEIRO DIA.

domingo, 28/05/2000

Acordei ainda a 01h45 pm. ainda sob os efeitos alcoólicos da noite anterior. Tempestade em alto mar. Minha cama é um bote salva-vidas jogada violentamente ao sabor das ondas, talvez, com bastante sorte, eu chegue numa uma ilha deserta.
E então, eu, Tom Hanks, pobre naúfrago, tento reconhecer onde estou? Quem sou eu? Quem é esta mulher ruiva que está deitada ao meu lado? Não parece nenhum pouco com a Julia Roberts. Quem me dera. Se fosse a Julia, eu nem levantava da cama. Aliás, no estado em que me encontro não levantava coisa nenhuma.
Heroicamente levanto da cama completamente mareado. Uma dor de cabeça terrível. A coluna vertebral parece ter sido pisoteada por um bando de skin-heads. Um tremendo enjôo no estômago causando ainda um resto de tontura. Uma secura saahárica na boca. Um bafo tão ruim que até parece que eu comi uns quatro ou cinco cinzeiros cheios no final da festa. Não dá mais. Tenho que parar. Vou parar de fumar.
 Aliás, isto já está totalmente decidido.
Mas sempre é bom repetir.
Fui direto ao banheiro. Abri a porta e a luz acendeu sozinha!
Mágica?
Não, eu estava diante da geladeira. Aproveitei e bebi uma garrafa inteira de água.
Dei a volta tropeçando nas roupas atiradas pelo chão, me orientei: terceira porta à direita seguindo pelo corredor.  Escovei os dentes e voltei pra cama.
A ruiva havia sumido!
Esfreguei os olhos, verifiquei embaixo da cama... dentro do guarda-roupa... nada! Desapareceu! Ou será que ela nunca esteve em minha cama? Será isso que chamam de deliriuns tremens?
Automaticamente acendi um cigarro pra pensar no assunto e me dei conta que havia estragado meu primeiro dia sem fumar.
Fui obrigado a adiar.
Não faz mal: amanhã eu paro! Aliás, domingo não é dia de começar a parar coisa nenhuma.

O negócio agora é acender outro cigarro e procurar pela ruiva... ou será que era loira?  

SEGUNDO PRIMEIRO DIA.

segunda, 29/05/2000

VITÓRIA!
Nesse momento faz exatamente trinta e dois minutos, quarenta e sete segundos que estou sem fumar.
BRASIIIIIL!!!
Recorde mundial.
É uma sensação incrível. Sinto-me outra pessoa.
É bem verdade, que não sei o que fazer com as mãos. Minhas mãos não param um segundo sequer. Se, estão soltas, parece que voam. Executam mil gestos por minuto. Se eu coloco-as nos bolsos, não param de coçar minhas pernas. A sensação é de que possuo cinco ou seis mãos ávidas, ansiosas, verdadeiros tentáculos desordenados e autônomos.
Minha boca, apesar de repuxar um pouco, não chega a ser um problema, pois estou mascando uns cinco ou seis chicletes de vários sabores.
A questão mesmo é a seguinte: como vai ser depois do almoço? Como vou agüentar sem aquele...
Eu sei que não deveria antecipar problemas, mas como vou ficar sem um cigarrinho depois da refeição? Talvez seja melhor nem comer. Talvez hoje eu consiga ficar sem comer, mas amanhã? E depois? A não ser que eu aproveite que estou parando de fumar e pare também de comer.
Viro faquir. Compro uma cama de pregos e vou me exibir nas praças. Mas isso, só nas praças para não fumantes. Se tiver um, apenas um engraçadinho fumando, eu fico louco de fome e de vício, devoro o cara inteirinho e depois fumo seu cigarro.
Bobagem. Acho que estou enlouquecendo. É claro que vou ter que almoçar. É óbvio que vai me dar vontade de fumar. Então, certamente usarei toda minha força de vontade e resistirei.
Ou será que não? Fará mal se um fumar só um cigarrinho? Meio? Quem sabe em vez de parar eu só diminuísse? Fumo seis cigarros por dia. Não, só quatro.
Uma hora e trinta e nove minutos e eu estou ficando nervoso com todas estas questões.

Acho que estou capitulando.

PRIMEIRO DIA, DE NOVO.

quinta-feira, 01/06/2000

Capitulei.
Ontem não agüentei.
Nem anteontem.
Mas agora é pra valer. Guerra total ao vício! Tolerância zero.
Atenção: Central chamando todos os carros: executar uma batida completa no apartamento 1607 do número trezentos e sete da Av. Radial Sul. Não deixem escapar nada.
Botei uma tira de pano na cabeça. Disfarçado de Rambo comandei eu mesmo as operações de busca e apreensão.
Remexi todas as gavetas, armários, bolsos, cantinhos e mocós. Recolhi dois maços de Marlboro fechados. Cinco carteiras de marcas variadas pela metade. Sete cigarros inteiros e onze baganas aproveitáveis. Na certa foi algum sabotador colocou as baganas em lugares estratégicos dentro do meu apartamento. Queimei tudo sem dó nem piedade bem na minha cara. Aspirei tanto aquela fumaça que fui obrigado a fumar uma baganinha levemente chamuscada.
Não devia ter feito isso. O fato de ter fumado uma mísera bituca que não rendeu mais do que duas tragadas foi o suficiente para que meu organismo inteiro reclamasse exigindo mais. Não é brincadeira.
Só mesmo um ex-viciado, ou alguém que já tentou livrar-se de algum vício, pra entender sobre as sensações que estou falando.
Fiquei enlouquecido. Revirei a casa de pernas para o ar procurando desesperadamente nem que fosse um toquinho de cigarro, um filtro. Nada.
Depois de comer uma lata de Nescau, uma caixa de leite condensado e dois pacotes de biscoitos recheados, fui obrigado a sair e comprar um maço de cigarros.
Para amenizar minha culpa, decidi não comprar a marca habitual. Abandonei a terra de Marlboro. Pedi o cigarro mais light que havia na prateleira. Saí lanchonete com um maço de Klee verde.
Aprovei.
É um cigarro muito saboroso, desde que a gente fume quatro de uma só vez.
Mas não pensem que desisti, apenas fica adiado para amanhã.
Ou depois...

TEMPO

terça, 06/06/2000

Hoje não vai dar. Sinto muito, mas hoje não vou nem tentar. Seria bobagem. Perda total de tempo e desgaste de energia.
Pra quê vou começar a parar de fumar se logo, logo a campainha vai tocar anunciando a chegada de dona Sucileyde Leovegilda Cruz da Silva, minha honorável faxineira?
Ela têm apenas dois defeitos: fuma enquanto fala e fala enquanto fuma.
Ela lembra o cozinheiro do Recruta Zero. Não só pelo aspecto físico. Também porque ela tá sempre com o cigarro na boca. Com uma enorme cinza dependurada. Prestes a cair a qualquer momento.  
Pois dona Sucileyde, ou apenas Leyde, como ela prefere ser chamada, chega por volta de oito e trinta da manhã e se despede lá pelo final da tarde, entre cinco e seis horas. De maneira que podemos considerar que são praticamente dez horas de conversa e de fumaça. Ininterruptas.
Antigamente (ou seja, até a semana passada), eu não considerava que fumar era um defeito dela. Na real, nem me importava. Eu também colaborava com um considerável volume de fumaça. Eu e dona Leide juntos transformávamos minha casa numa pequena Cubatão.
Já aquela interminável cachoeira de palavras, confesso que me incomodava um pouco. Principalmente quando eu, para não parecer mal educado, retirava os fones de ouvido das orelhas.
Não sei como ela arranjava tempo para arrumar o aparamento inteiro no meio de tanto cigarro e de tanta conversa.
Eu disse conversa?
Deveria ter dito monólogo.
Honestamente, duvido que qualquer pessoa consiga expressar mais do que algumas pequenas interjeições no meio da torrente de palavras que sai da boca de dona Sucileyde.
 Mas não pensem que isso é o pior. Não!
Três fatos agravam a situação do querido ouvinte: (1) o timbre agudo da voz dela, (2) o volume que ela utiliza e (3) os assuntos que ela escolhe.
O primeiro item deixa o interlocutor tonto. A voz dela soa como se ela grasnasse. As frases penetram profundamente no seu tímpano que se contorce em cãibras. Um verdadeiro tormento.
Quanto ao volume, é como se ela tivesse acoplado um megafone na garganta. Só para que vocês façam uma idéia, um dia desses, um vizinho perguntou pela filha de dona Sucileyde. Eu disse que não sabia e perguntei de onde ele conhecia a Dona Leide? Disse-me que não a conhecia, mas que ouvira lá da residência dele quando ela falou das dificuldades pelas quais a filha mais velha dela estava passando. Notem bem que ele ouviu lá do apartamento dele. Ele mora no sétimo andar e eu no décimo oitavo. Ele mora no edifício da esquina, e eu uns três ou quatro prédios de distância.
Mas, talvez o pior de todos, seja o terceiro fator de suplício: os assuntos.
São sempre terríveis, escabrosos, dramáticos: mortes de causas variadas, atropelamentos e brigas sangrentas, tiros, facadas, doenças incuráveis, nervos expostos, infortúnios em geral.
Mesmo quando ela comenta alguma novela do momento, escolhe uma desgraça que fatalmente a lembra de um fato verídico acontecido com alguma amiga ou parente, quando não com ela mesma.    
Então, considerando de antemão às dez horas de tortura auditiva e suplício olfativo causados por aquela carrasca involuntária que sopraria no meu rosto a fumaça de, no mínimo, trinta e cinco cigarros, venho diante deste egrégio tribunal solicitar um breve adiamento deste processo e a suspensão temporária da pena de parar de fumar no dia de hoje.
Acordei cedo, enchi os ouvidos de algodão e esperei dona Sucileyde na porta.
Dei bom dia, lhe ofereci um cigarrinho (que ela acendeu no dela que estava terminando) e acendi um pra mim também.

Santa desculpa, Batman!

PRIMEIRO DIA.

quarta, 07/06/2000

Hoje vai.
- Não tem arrego!
Já passei a manhã inteira sem colocar um só cigarro na boca.
É bem verdade que não consigo pensar em outra coisa. Tudo me lembra cigarro.
O telefone toca, a mão procura o cigarro. Se vou no banheiro, não adianta, não consigo me concentrar no gibi sem o maldito cigarro. Fico olhando fixamente para o cinzeiro de vidro que tá colocado num pedestal ao lado do vaso sanitário.
Só hoje percebi a quantidade enorme de cinzeiros que eu possuo.
Quer dizer possuía. Joguei todos no lixo.
Pode acreditar: eram setenta e dois. Estavam espalhados pela casa inteira. Tinha cinzeiro de tudo quanto é tipo, tamanho, forma e material. Tinha um, confeccionado em metal. Certo que era uma raridade. O cinzeiro tinha uma inscrição que dizia: "Comemorativo ao Lançamento da Pedra Fundamental - Metalúrgica Sacymar - 1902".
Tinha outro cinzeiro que, na certa, o criador ganhou o prêmio “originalidade”: um pelicano de vidro cor de rosa. Um enorme bico amarelo bem aberto pra gente colocar as cinzas e descansar o cigarro. Detalhe: a fumaça escapava pelas orelhinhas pretas do pelicano.
Pois é, eu também não sabia que pelicano tinha orelhas.
Mas, guerra é guerra, não me permiti guardar nenhum cinzeiro de lembrança.
Acho que deveria ter jogado fora, também, minha escrivaninha. Por dois motivos muito justos.
Primeiro, quando sento na escrivaninha pra trabalhar... é inútil. Fico tamborilando com os dedos na mesa. Os olhos parados num ponto longínquo do universo. Não consigo me concentrar em nada.
Segundo, porque meu nariz se transforma num super potente aspirador walita, que suga o cheiro de cigarro que está entranhado nela. Afinal de contas, são muitos anos de fumaça recebida.
Daí, eu ando farejando pela casa e percebo que a casa inteira cheira a cigarro.
- Socorro!
Não dá pra ficar em casa. Vou sair um pouco. Vou dar uma caminhada. Preciso me distrair pra parar de pensar na vontade de fumar. Já sei: vou pra rua olhar as mulheres.
- Já volto.
- Voltei.
Não adiantou nada. Parece que as mulheres sumiram todas. Foram dizimadas por uma praga. Só enxergo cigarros, fumantes, fumaça, baganas jogadas no chão (algumas bem aproveitáveis).
Eu andei uma hora e dez minutos e vi dezesseis carteiras de cigarro amassadas.
Vi oito out-doors com propaganda de cigarro.
Eu nunca tinha visto nenhuma daquelas propagandas. Ando por ali todos os dias. Nunca reparei que existiam nem profissionalmente.
Enxerguei seis kombis da Souza Cruz. A última parou na minha cara.
Bem na frente de um bar. O vendedor passou por mim descarregando montanhas de pacotes de cigarros de várias marcas.
Cigarros, cigarros e mais cigarros.
Parece que é só o que eu vejo.
- Socorro!
Não posso ficar em casa. Não dá pra sair na rua.
Querem acabar comigo!

Mas não adianta: não quero mais fumar.



SEGUNDO DIA.

quinta, 08/06/2000

Finalmente, o dia de ontem passou.
- Tô invicto.
Nem acredito. Vinte e quatro horas sem encostar um mísero cigarro na boca.
Por medida de precaução, hoje me tranquei em casa sem cigarros.
- Não tô pra ninguém.
Não atendo telefone porque a pessoa pode falar em cigarro. Tô completamente nervoso. Se me deito, tenho vontade de levantar. Quando tô de pé, quero deitar.
Acho que entrei na menopausa porque sinto ondas de calor e suadores inexplicáveis.
Minha boca se aperta em pequenos e quase imperceptíveis espasmos musculares.
Meu poder de concentração é zero.
Trabalhar é fora de cogitação.
Televisão, nem pensar.
Ainda bem que a Família Adams inventou os chicletes. Boto cinco na boca e masco, mordo, rasgo, trituro... sem tréguas, sem parar.
Descobri que dormindo não sinto vontade de fumar. Então tento dormir o máximo de tempo possível. Só que descobri também que não dá pra dormir todo o tempo por que a gente fica completamente sem sono. Não dá também porque quando a gente acorda dá uma vontade de fumar inacreditável.
Tomo litros de água com suco de limão. Li num livro que é bom pra eliminar a nicotina mais depressa.
E foi numa das minhas idas a geladeira pra pegar água que eu senti aquele cheiro maldito se infiltrando por alguma janela, porta ou fresta.
- Era ele.
O cheiro de cigarro. Inconfundível. Inesquecível. Hollywood, com certeza. Não sei como, mas veio direto no meu nariz. Fiquei alguns instantes absolutamente seduzido por aquele cheirinho tão conhecido. Ah... e tão necessário no momento difícil que estou vivendo.
Mas não cedi.
Bati em retirada. Corri para o quarto. Coloquei um cobertor na janela. Meti um edredon embaixo da porta. Deitei, me cobri e tentei esquecer aquele cheiro maldito, vicioso, desagradável, horrível, nojento, nauseante, irritante, asqueroso, repulsivo, repugnante e extremamente... delicioso.
- Não adianta! Não quero mais fumar!
Rezei três ave-maria e acabei dormindo. Acordei e dormi de novo.

Um dia este dia tem que terminar.  

TERCEIRO DIA.

sexta, 09/6/2000

Acordei fumando meu próprio dedo.
Sonhei a noite inteira com cigarros enormes. Gigantescos cigarros que corriam atrás de mim.
- Socorro! Os cigarros estão me perseguindo, eu gritava no sonho.
Alguns deles, mais espertos, disfarçavam-se de inocentes flautas e clarinetas. Mas, quando eu colocava na boca eles se convertiam em cigarros.
Eram cigarros de marcas nacionais e importadas. Todos já vinham acesos. Se atiravam sobre mim. Enquanto uns cigarros me seguravam, outros iam se enfiando na minha boca. Entravam no meu nariz. Nas minhas orelhas. No meu...
Que pesadelo horroroso.
Acordei assustado.
Meus lençóis estavam encharcados de suor.
Levantei da cama, tomei meu chiclé da manhã e liguei pra farmácia da esquina. Sem medo de parecer ridículo encomendei uma chupeta pelo serviço de tele-entrega.
Uso a tele-entrega porque eu ainda não tenho coragem de sair de casa. Sei que vou topas com alguém fumando. Vou ter mil chances de comprar um maço de cigarros.
O entregador da farmácia trouxe seis modelos diferentes. Não consegui escolher e fiquei com todas. A que eu mais gostei parecia uma grande borboleta verde limão com o desenho do Piu-piu no centro.
A princípio foi um alívio enorme.
Meia hora depois começou a me dar ânsia de vômito por causa do gosto de borracha insosso na boca.

É bem verdade que os meus lábios relaxaram toda a tensão. Mas em compensação meus dentes se transformaram em dentes de castor. Em menos de três horas destruí totalmente minha borboleta verde-limão. Destrocei, sem dó nem piedade, o inocente do Piu-piu.   

QUARTO DIA.

sábado, 10/6/2000

Preciso urgentemente matar alguém.
Logo eu que sempre fui o verdadeiro pacato cidadão.
Sinto brotar em mim uma sanha assassina.
Jack, o estripador toma conta de mim.
Acessos de raiva descontrolada.
Se escuto uma música ruim no rádio (que aliás, já repararam? é o que mais toca, ou só o que toca.) sinto ganas de atirar o aparelho contra a parede.
Se alguém, distraidamente ou por acaso me olha, surge em mim uma tempestade de raiva.
Acham que eu exagero?
Pois hoje pela manhã rosnei para o carteiro, só porque ele disse que não havia cartas pra mim. Tomei aquilo como uma ofensa grave. Arreganhei os dentes para o pobre funcionário público. O coitado nem entendeu o que estava se passando. Ele está habituado a lidar com os cães do seu itinerário. Apenas se protegeu com a bolsa cheia de cartas e tratou de escapar. Foi andando lentamente de costas. Atento as minhas reações e pronto para correr ao primeiro latido de minha parte.
A julgar pelo tamanho que seus olhos ficaram, posso jurar que ele saiu bastante assustado.
Mal sabe ele que escapou ileso somente porque não era noite de lua cheia. E graças ao esforço sobre humano que eu fiz pra controlar a vontade de atacar o homem. Latir pra ele e pular na sua canela com a fúria de um pitbull.

Certamente os vizinhos apavorados teriam que chamar os bombeiros para me desgrudar da canela triturada do carteiro.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

QUINTO DIA.

domingo, 11/6/2000

QUINTO DIA.

            A coisa está piorando sensivelmente.
Hoje ataquei o zelador do prédio.
Seu” Ércules. Coitado, de Hércules só tem o nome, que ainda é escrito sem o agá. Quarto filho de uma família de seis irmãos, cujo pai era fanático por mitologia grega devido a uma vaga e remota origem genealógica oriunda da Grécia.
O irmão mais velho chamava-se Apolo. Como o deus grego. Depois, nasceram os gêmeos: Rômulo e Remo. Por um lapso, o nome dos dois era romano. Ele próprio veio no ano seguinte.  Depois nasceram as irmãs Afrodite e a caçula Minerva. Uma mistura de grego com romano. Como se vê os pais não entendiam muito de mitologia grega.
Quanto ao “seu” Ércules, era apenas um homenzinho do tipo inofensivo. Um sujeito franzino, sempre sorridente e amável. Prefere me entregar os jornais pessoalmente. Porteiro discreto e muito eficiente.
Pois foi esta santa criatura que se transformou na minha vítima em potencial. Num instante odiei o seu sorriso submisso. Quando ele me alcançou o volume de jornais tentei morder a sua mão.
É sério. Verdade.
Não resisti e tentei literalmente morder a mão do velhinho.
O homenzinho ficou paralisado, incrédulo. Não sabia se era uma brincadeira de mal gosto ou se eu estava tomado por um espírito do mal. Tentou dizer qualquer coisa que não saiu de sua boca. Virou de costas e quase correndo se safou da minha sanha assassina.
A vontade que eu tive foi de alcançá-lo. Pular nas costas dele e estrangular aquele pescoço branco de garnisé velho.
Controlei minha ira com dificuldade.
Fui rapidamente para o elevador pensando em retornar logo para minha casa, minha fortaleza.
No segundo andar o elevador parou e (tremendo azar), entrou uma senhora de mais ou menos cinquenta anos. Uma mulher bem vestida. De banho recém-tomado. Envolta num inebriante perfume francês.
Só que por baixo do perfume tinha aquela inconfundível catinga de cigarro. Ela exalava o cheiro por todos os seus poros. Por cada fio de cabelo.
Um bonito cabelo negro, aliás.
Nos cabelos tinha um rodízio de odores: o shampoo, o condicionador e o fixador. Por trás de tudo isso tinha aquela teimosa e indisfarçável morrinha de fumaça de cigarro.
A porta do elevador fechou-se atrás dela e num instante aquela cabina exígua encheu-se do odor abominável. Um bodum subjacente que todos os fumantes transportam diariamente sem se dar conta.
Primeiro, tentei abstrair, fingir que estava sozinho. Fingir que aquele cheiro não existia. Depois, enfiei o jornal quase dentro do meu nariz e fiquei aspirando o cheiro da tinta.
No décimo andar, cogitei em estrangular a mulher.
No décimo primeiro veio a idéia de jogar aquele elegante zorrilho pelo fosso do elevador.
No andar seguinte minha raiva atingiu o auge. Minha cólera chegou ao máximo de tensão. Algo iria, com certeza, acontecer. Graças aos nossos anjos da guarda ela desembarcou.
Antes de descer no meu andar, espiei para os dois lados, o corredor estava livre.
Avancei depressa para casa e tranquei a porta com duas voltas de chave. Fiquei apavorado comigo mesmo.
Assustado com meu eu raivoso que nem eu próprio conhecia.

SEXTO DIA.

segunda, 12/6/2000

Julgando estar no auge da solidão e do desespero, coloquei um anúncio nos classificados:

“Quarentão solitário parando de fumar, procura pessoa para torturar, esganar e estrangular. Ótimo ambiente de trabalho. Não precisa prática. Não precisa referência.”

Não que eu seja um homem do tipo violento, nunca fui, mas sem o miserável do cigarro sinto tanta raiva que só penso em estrangular, sufocar, asfixiar, morder, afogar, rasgar, bater, soquear, furar, picar, decapitar, esmagar, torturar, triturar, destruir, maltratar, mutilar, machucar, decepar, reduzir, humilhar, todas as pessoas, qualquer pessoa que tenha a audácia, a tremenda ousadia de, simplesmente, passar pela minha frente.
- Sou uma máquina mortífera.
Olhar e sorrir para mim é uma ofensa mortal que deve ser punida com tortura chinesa e morte lenta.
Sinto um ódio secular acumulado dentro de mim, cuja chave para mantê-lo trancado em seu baú era o vício de fumar.
Uma raiva grossa, perigosa.
Um veneno.
Estou até pensando em ser doador de gosma venenosa para o Butantã produzir soro anti ofídico.
Esta contundente e preocupante situação destrutiva há até dois dias atrás era amenizada com o consumo diário de, mais ou menos, quarenta e dois chicletes.
Mas acontece que eu não suporto mais chicletes.
Estou com as gengivas machucadas de tanto mascar. Meus maxilares doem.
Meu estômago se contorce em cólicas e ânsias só de pressentir o cheiro de um chiclete a menos de dois quilômetros de distância.
Eu odeio chicletes.
Detesto chicletes.
- Eu odeio a família Adams.
Abomino todas as pessoas que gostam de chicletes. Tenho horror a todos os fabricantes de chicletes do mundo.
Descarreguei minha raiva sem dó nos últimos treze chicletes que eu tinha em casa.
Primeiro, rasguei as embalagens. Piquei as caixinhas coloridas. Rasguei os pacotinhos sedutores e coloquei fogo em tudo.
Senti um verdadeiro prazer em ver as embalagens se contorcendo e se transformando em cinzas.
Depois capturei os chicletes. Quebrei seus bracinhos e suas perninhas. Cravei pequenas estacas feitas com paus de fósforos no coração de cada odioso verme-chiclete. Depois ainda pisoteei cada um deles.
O que realmente não foi uma boa idéia, pois ficaram todos grudados nas minhas meias.
Tenho que procurar ajuda. Não consigo mais tolerar meus ataques de raiva. Já nem saio mais do apartamento para evitar o contato com meu novo gênio explosivo. Discuto até com as personagens da televisão.
Outro dia destratei a dona Hebe Camargo. Coitada, ainda bem que ela nem ficou sabendo de nada.
Ontem tive um violento acesso de raiva, fúria e desespero. O causador foi o Jô Soares. Ele não calava a boca no seu programa em que os convidados é que vão lá para serem entrevistados. Será que ele não sabe que é a opinião e a voz dos convidados que a gente gosta de ouvir?    
Não dá mais.
Não suporto mais.
Não me suporto mais. 

SÉTIMO DIA.

terça, 13/6/2000

Situação insustentável.
Não fui trabalhar de novo. Motivo: ódio mortal.
- Por favor, alguém pode me informar o número do telefone do C.V.V.? Help me!
Tô mal. Tô arrepiando.
- C.V.V., alguém sabe? O número?
Alguém batendo na porta. Atendo ou não atendo?
Seja quem for não sabe que eu estou aqui. Neste horário deveria estar no trabalho.
Não vou atender.
Não estou em condições de atender a porta.
Que desespero.      
Por acaso você já se sentiu sem condições de atender a porta?
É horrível. Não consigo atender a porta da minha casa porque estou com medo de atender a porta.
Quem poderia ser a esta hora?
A polícia?
Como assim, a polícia. Eu não devo nada à polícia. Não tenho o rabo preso com nada. Ou será que tenho?
Existe alguma lei contra parar de fumar, se trancar em casa e não atender a porta?
- Então, não enche.
Não, não é você leitor.
Quem está me enchendo é esta pessoa inconveniente que não para de tocar na campainha.
Ah, se for o seu Ércules, eu mato ele. Vou estrangular o seu Ércules. Ele vai ver quem é o verdadeiro minotauro.
Eu falei praquele porteiro inútil que não era pra deixar ninguém subir porque eu não queria ser incomodado.
E perguntei ainda: entendeu, seu Ércules. “Perfeitamente!”, ele respondeu com cara de quem não é surdo.
- “Ninguém, né?”
- Ninguém.
Tocaram de novo. Será que é importante o por isso está insistindo? Quem tocaria assim na campainha de alguém?
Só uma pessoa...
Mas não pode ser quem estou pensando.
Outra vez. Só pode ser quem estou pensando.
Fui abrir.
Apostei em voz alta comigo mesmo.
Espiei no olho-mágico e ela estava retocando o batom.
Acertei na cabeça.
Era ela. Cada vez mais loira.
Tentei recuar devagarinho, mas ela percebeu minha sombra no vidro do olho-mágico. Bateu na porta e gritou algo que não consegui entender e tive que abrir.
- “Demorou, hein? Pensei que eu teria que passar a tarde tocando a campainha. Vim até aqui onde você se esconde agora... nunca vi bairro mais afastado de qualquer coisa do que isso aqui... minha mãe sempre diz que prefere a morte do que morar na zona sul... vim até aqui trazer os papéis do plano de saúde pra você assinar... ai, olha só o estado das coitadas das plantinhas... no mínimo estão uns cinqüenta dias sem água. Você é um carrasco. Um assassino de plantas. Inimigo da ecologia. Tomara que você não consiga parar de fumar e daí o cigarro vai te poluir por dentro e vai te matar que nem você está fazendo com as coitadinhas das plantas...”
Esta é uma parte do discurso de chegada da minha ex.
À queima-roupa.
Foi entrando e falando, sem me cumprimentar e sem que eu pudesse dizer qualquer interjeição.
Se parar de falar foi pra cozinha pegar água para regar as plantas.
Tratei de assinar o mais rápido que pude os documentos na tentativa de abreviar ao máximo a visita dela. Mas no fundo eu sabia que nada no mundo determinaria o tempo que ela permaneceria na minha casa.
Às vezes, ficava tão indignada ao ver, por exemplo, minha cesta de roupas sujas transbordando, que se recusava a permanecer mais um minuto “naquela casa de gente sem ordem”.
Outra vezes, chegava um momento que eu não suportava mais e saía. Ela ficava.
Raramente vinha sozinha.
Era normal estar acompanhada pelo namorado da vez. Invariavelmente alguém com mais de um metro e oitenta, com menos de 21 anos.
O que os namorados dela tinham de legal é que raramente fumavam.
Ela então, regou as plantas conversando com cada uma delas:
- “Que vergonha! Um miserável, vocês não acham? Deixar você, pobres plantinhas sem água por tanto tempo. Olha só como estão sequinhas. Coitadinhas. Mas não se preocupem. A própria natureza sabe castigar alguém tão ruim assim. Com certeza alguém que não cuida das suas próprias plantas não pode ser feliz. Assinou? Então, vou embora. Ainda tenho que passar na casa da sua mãe. Imagina, ela me ligou pedindo que eu fosse ajudá-la a escolher o vestido para o casamento da Ângela. Sabe a Ângela, né? Pois é, vai casar dia 29 e convidou meia cidade e vai ser um festão daqueles. Tua mãe sempre fica indecisa nestas horas e aí cai em mim. Tu bem que podia parar com esta frescura de parar de fumar e ir pra rua arranjar outra mulher. Daí, eu me livrava desse tipo de responsabilidade. Bem que a tua mãe fala: porque não tive uma filha mulher. Tiau. Não esquece da água das plantas, viu? Liga pros teus filhos. Não é só porque separou de mim que vai deixar de procurar por eles. Eu tinha certeza que isso iria acontecer...”
Nesse ponto eu parei de ouvir.
Ela continuou falando até o elevador chegar e depois, por mais uns três andares.
Eu só tinha que fumar mesmo. Não podia ser diferente.
Ou o marido dela seria um fumante ou alcoólatra ou já teria acabado com a própria raça.
Ou com a dela.