terça-feira, 21 de novembro de 2017

TERCEIRO PRIMEIRO DIA.

segunda, 17/7/2000

Segunda-feira.
- Tudo de novo.
Quase me intoxiquei de tanto fumar no fim de semana.
E na semana passada e na semana retrasada também.
Eu era um sorriso só. Uma felicidade plena e total.
Não fosse o motivo tão idiota, poderia se dizer que eu estava iluminado. Que atingi o nirvana.
Ontem, eu parecia a Xuxa irradiando uma super alegria pros baixinhos. Eu exalava uma felicidade absurda. Tava hiper sorridente.
E hoje? Hoje pareço Bella Lugosi. Aquele personagem lúgubre dos filmes de horror classe b.
Tô novamente trancado em casa.
Prisioneiro de um vício que adotei com apenas 14 anos.
Alguém pode ser culpado por adquirir alguma coisa aos 14 anos de idade?
Pois, tomei direitinho. Tô aqui trancado porque aos 14 anos de idade eu e mais quatro amigos juntamos alguns trocados e compramos um maço de cigarros da marca Ipanema. Fumamos os vinte cigarros em pouco mais de uma hora.
Lembro direitinho: a gente tava numa reunião dançante. (Traduzindo para o jovem leitor: saímos pra dançar.) Verão de 74. Sei que não fui eu, mas alguém teve a brilhante idéia de comprar cigarros pra impressionar as gurias. A marca de cigarros Ipanema era tida como mata-rato. Marca barata. O maço era vermelho e tinha uma mulher de biquíni aparecendo de costas no canto direito.
Nenhum de nós sabia tragar, mas nós todos fumamos vários cigarros.
É óbvio que nosso alvo não ficou nem um pouco impressionado.
Eu e os mais burros acreditamos que era porque a gente não sabia tragar.
Então passamos a treinar diariamente até que aprendemos a dar longas baforadas. Aprendemos a soltar a fumaça pelo nariz. Sem tossir nem engasgar. E, principalmente, sem ficar tonto.
Não sei se você sabia, mas no princípio, quando a se começa a fumar, a gente fica completamente atordoado, zonzo.
Não me lembro de ter arranjado nenhuma namorada por causa disso, mas desde então fiquei viciado em cigarros.
No início eram apenas alguns cigarros fumados nos finais de semana, nas festas. Depois passei a sentir vontade de fumar nos dias de semana também.
E então, tive que contar em casa porque eu precisava de cigarros. E cigarros custam dinheiro. E eu achava que não devia ficar pedindo. Achacando as pessoas o tempo inteiro.
Aí cheguei pro meu pai e pra minha mãe e abri que eu estava fumando.
A minha mãe quase teve um faniquito nervoso. Daí eu a lembrei que ela mesma fumava feito uma louca. Então ela passou a achar normal que eu também fumasse.
- Mas é uma pena, meu filho. Foi como ela encerrou o assunto.
Meu pai, do alto de sua sabedoria eqüestre, apenas acendeu um cigarro, e disse:
-  “Filho: és tão burro quanto eu. Não. Na verdade, eu sou mais burro que tu. Comecei a fumar porque tua mãe fumava e eu ficava com vergonha do que as pessoas iriam pensar. Veja bem: a mulher fumando e o homem não”.
É...
Acho que meu pai era mais burro do que eu mesmo. Mais burro e mais trouxa.
Assim, passei a ganhar dois cigarros por dia da minha mãe. Meu pai como um bom avarento, me dava um só.
Mais uns dois ou três que eu conseguia afanar de um e de outro, passei a fumar uns quatro ou cinco ou seis cigarros por dia.
Sempre dividindo uns “pegas” com alguns amigos da turma da caixa d’água.
Naquele tempo se falava turma. Hoje se diz galera.
Era uma galera que se reunia todas as tardes depois do almoço pra comer uma fruta deitado na grama que crescia verde embaixo da sombra da caixa-d’água.
Eu levava o rádio de pilhas, pra gente curtir um som.
O Toninho levava as bergamotas ou araçás dependendo da época.
O Geraldo e o irmão dele, Luiz Augusto, levavam o violão.
A gente ficava ouvindo música, comendo goiaba, batendo papo e cantando nossas próprias composições executadas pela dupla de irmãos. Todos ligados numa mesma sintonia. Todos de uma mesma geração.
Todos fumantes.
A partir dessa época inicial a quantidade foi aumentando sem parar até chegar a minha marca recorde: 58 cigarros num só dia.
Um dia completamente estressante marcado por reuniões e decisões importantes. Um exagero que só acontece em dias ocasionais.
Nos chamados dias normais eu mantinha os níveis aceitáveis de 20 cigarros por dia.

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