segunda,
17/7/2000
Segunda-feira.
- Tudo de novo.
Quase me intoxiquei de tanto fumar no
fim de semana.
E na semana passada e na semana
retrasada também.
Eu era um sorriso só. Uma felicidade
plena e total.
Não fosse o motivo tão idiota, poderia
se dizer que eu estava iluminado. Que atingi o nirvana.
Ontem, eu parecia a Xuxa irradiando uma
super alegria pros baixinhos. Eu exalava uma felicidade absurda. Tava hiper sorridente.
E hoje? Hoje pareço Bella Lugosi.
Aquele personagem lúgubre dos filmes de horror classe b.
Tô novamente trancado em casa.
Prisioneiro de um vício que adotei com
apenas 14 anos.
Alguém pode ser culpado por adquirir
alguma coisa aos 14 anos de idade?
Pois, tomei direitinho. Tô aqui
trancado porque aos 14 anos de idade eu e mais quatro amigos juntamos alguns
trocados e compramos um maço de cigarros da marca Ipanema. Fumamos os vinte
cigarros em pouco mais de uma hora.
Lembro direitinho: a gente tava numa
reunião dançante. (Traduzindo para o jovem leitor: saímos pra dançar.) Verão de
74. Sei que não fui eu, mas alguém teve a brilhante idéia de comprar cigarros pra
impressionar as gurias. A marca de cigarros Ipanema era tida como mata-rato. Marca
barata. O maço era vermelho e tinha uma mulher de biquíni aparecendo de costas
no canto direito.
Nenhum de nós sabia tragar, mas nós
todos fumamos vários cigarros.
É óbvio que nosso alvo não ficou nem
um pouco impressionado.
Eu e os mais burros acreditamos que
era porque a gente não sabia tragar.
Então passamos a treinar diariamente
até que aprendemos a dar longas baforadas. Aprendemos a soltar a fumaça pelo
nariz. Sem tossir nem engasgar. E, principalmente, sem ficar tonto.
Não sei se você sabia, mas no
princípio, quando a se começa a fumar, a gente fica completamente atordoado,
zonzo.
Não me lembro de ter arranjado nenhuma
namorada por causa disso, mas desde então fiquei viciado em cigarros.
No início eram apenas alguns cigarros
fumados nos finais de semana, nas festas. Depois passei a sentir vontade de
fumar nos dias de semana também.
E então, tive que contar em casa porque
eu precisava de cigarros. E cigarros custam dinheiro. E eu achava que não devia
ficar pedindo. Achacando as pessoas o tempo inteiro.
Aí cheguei pro meu pai e pra minha mãe
e abri que eu estava fumando.
A minha mãe quase teve um faniquito
nervoso. Daí eu a lembrei que ela mesma fumava feito uma louca. Então ela
passou a achar normal que eu também fumasse.
- Mas é uma pena, meu filho. Foi como
ela encerrou o assunto.
Meu pai, do alto de sua sabedoria
eqüestre, apenas acendeu um cigarro, e disse:
- “Filho: és tão burro quanto eu. Não. Na
verdade, eu sou mais burro que tu. Comecei a fumar porque tua mãe fumava e eu
ficava com vergonha do que as pessoas iriam pensar. Veja bem: a mulher fumando
e o homem não”.
É...
Acho que meu pai era mais burro do que
eu mesmo. Mais burro e mais trouxa.
Assim, passei a ganhar dois cigarros
por dia da minha mãe. Meu pai como um bom avarento, me dava um só.
Mais uns dois ou três que eu conseguia
afanar de um e de outro, passei a fumar uns quatro ou cinco ou seis cigarros
por dia.
Sempre dividindo uns “pegas” com
alguns amigos da turma da caixa d’água.
Naquele tempo se falava turma. Hoje se
diz galera.
Era uma galera que se reunia todas as
tardes depois do almoço pra comer uma fruta deitado na grama que crescia verde
embaixo da sombra da caixa-d’água.
Eu levava o rádio de pilhas, pra gente
curtir um som.
O Toninho levava as bergamotas ou
araçás dependendo da época.
O Geraldo e o irmão dele, Luiz
Augusto, levavam o violão.
A gente ficava ouvindo música, comendo
goiaba, batendo papo e cantando nossas próprias composições executadas pela
dupla de irmãos. Todos ligados numa mesma sintonia. Todos de uma mesma geração.
Todos fumantes.
A partir dessa época inicial a
quantidade foi aumentando sem parar até chegar a minha marca recorde: 58
cigarros num só dia.
Um dia completamente estressante
marcado por reuniões e decisões importantes. Um exagero que só acontece em dias
ocasionais.
Nos chamados dias normais eu mantinha
os níveis aceitáveis de 20 cigarros por dia.
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