terça, 01/8/2000
Estava eu exercendo minhas obrigações
intestinais diárias e dedicando-me ao sagrado hábito da leitura de mitologia
greco-romana, quando percebi duas coisas importantes.
Primeiro: tenho um excelente
funcionamento dos intestinos.
Segundo: minha capacidade de
concentração está parcialmente comprometida.
Como poderia ser devido ao assunto,
mitologia, larguei o livro e peguei um número atrasado do FINANCIAL TIMES.
Dei uma olhada, não entendi nada.
Ainda assim achei que era por causa de
todas aquelas estatísticas, dados técnicos, inglês, porque era pesado demais,
etc.
O teste seguinte foi com um exemplar
da VEJA do mês passado que ainda
estava circulando no meu banheiro. Só
de olhar a capa a gente já sabe o que nos espera lá dentro. Nem abri a revista
sabia de antemão que eu iria acabar me irritando com o teor direitoso, pomposo,
conservador pra não dizer reacionário.
Não resisti e acabei espiando os
anúncios. Verificando quem eram os anunciantes. A fotografia. Coisas
relacionadas à minha profissão. Quando me dei conta tava divagando. Meu pensamento
na lua. Distante da imagem e da mensagem que tava diante dos meus olhos.
Simplesmente, não consegui me deter
mais de sete linhas em nenhuma das quatro reportagens que tentei ler. A manchete
até parecia interessante. Minha atenção não se fixava de maneira nenhuma. Catei,
então, algo mais leve entre as opções do banheiro. Encontrei uma revista CAPRICHO.
Fui folheando, olhando todas aquelas
fotos de adolescentes. Meninos e meninas, todos muito bonitos.
Todos aqueles anúncios de produtos e
mais produtos dedicados pra mesma faixa etária da revista, quando, sem mais nem
menos, de repente, para minha total surpresa, deparei-me com o TESTE SUA DEPENDÊNCIA.
Um daqueles testes em que você soma um
número xis de pontos e depois olha onde você se classificou.
No final da matéria apareciam os
resultados: de 0 a 3 = você tem um maravilhoso relacionamento com o hábito de
fumar. De 4 a 7 = você devia começar a se preocupar com este maléfico vício que
está adquirindo sem perceber. De 8 a 10 = você está totalmente dominado, o fumo
e a propaganda do cigarro já danificaram a sua mente. Você não se enxerga sem o
cigarro. A falsa sensação de bem estar criou um escudo protetor que impede que
você veja tudo que está acontecendo com o seu pulmão.
Perceberam?
O máximo possível de pontos era 10.
Pois pasmem.
Eu somei 18,9 pontos.
Ou seja, meu nível de dependência do
cigarro não poderia ser maior.
Refiz o questionário tentando amenizar
o resultado final, mas me senti desonesto.
As perguntas inicialmente me pareciam
bobas e completamente adolescentes, mas é claro, só podia ser assim, a revista
era totalmente boba e adolescente. Mas o meu resultado fez com que eu prestasse
mais atenção às perguntas e colocasse mais profundidade nas soluções e então
levei muuuuuuuuuuuito a sério cada letra que eu considerava como a resposta
certa.
Tinham momentos complicados.
Como por exemplo, na hora que eu devia
responder se “o primeiro cigarro do dia é o mais prazeroso?”.
Como responder esta pergunta? Vários
cigarros do dia são prazerosos.
Fumar um cigarro depois de qualquer
coisa é simplesmente maravilhoso.
Depois da janta nem se fala.
Aquele cigarrinho de depois da transa
é uma coisa do outro mundo de tão bom.
Quando sai do mar... ah... como é
bom...
No bar, bebendo com os amigos. Aquela
combinação cerveja, bate-papo, cigarro, petiscos...
Maravilha.
E o primeiro cigarro do dia?
É prazeroso? Ou é obrigatório?
Sim, porque quem fuma uns quinze,
vinte cigarros, ou mais, por dia, sabe que, no mínimo, setenta por cento é
fumado apenas por compulsão. Sobram apenas trinta por cento que podem ser
considerados como cigarros que proporcionam prazer ao fumante. Prazer e
tranqüilidade.
Mas sim, o primeiro cigarro do dia é
muito bom.
Como não é possível (ou não se inventou um jeito ainda, pelo
menos, não que eu saiba) fumar dormindo, o fumante acorda com sede de
cigarro.
Passou a noite em seco, acorda e
precisa urgentemente de um cigarro.
Estica a mão, pega o maço de cima do
criado-mudo, retira um cigarro e coloca imediatamente na boca, estica o braço
novamente pega o isqueiro e o acende num gesto contínuo.
Pronto.
A primeira tragada do dia. Maravilha.
Cheguei a conclusão de que o primeiro
cigarro do dia dava muito prazer. Calculei o tempo que levava entre acordar e
fumar: seis segundos.
Um recorde, senhoras e senhores.
Recorde mundial de primeira tragada.
Fiquei muito indeciso entre a letra c
e a letra e. Se eu marcasse a
letra c, eu somaria apenas 2 pontos,
mas acabei, depois de muito pensar, muito refletir, marcando a letra e, porque, mesmo marcando 4 pontos, não
seria nada honesto se eu dissesse apenas que fumava antes de trinta minutos.
Seis
segundos é uma marca que não pode ser desprezada, tem-se que levar em
consideração.
Refeita a
contagem com o máximo de honestidade alcancei a soma absurda de 18,9 pontos e
na revista dizia: se você somou acima de 10 pontos é caso de saber que jamais
você irá conseguir livrar-se do maldito vício do cigarro.
Agora,
devemos tirar o chapéu para o poder da propaganda.
E para a
cara-de-pau de alguns publicitários e editores.
No meio da
revista, portanto em página dupla estava o anúncio do ECO CIGAR. Era o mais
novo lançamento da Companhia Norte Americana de Tabacos Brasileiros.
O anúncio
era lindo. Muito azul. Muito verde. Muita água.
Dois jovens
utopicamente lindos, fumando e sorrindo num momento de descanso depois de uma
pedalada de bike montanha acima.
Pura
natureza.
O texto
contava que o ECO CIGAR é o cigarro de terceira geração. Tem muito menos teor
de substâncias nocivas, pois foram adicionadas novas substâncias para
reorientar as antigas substâncias.
Apesar de
criado por uma agência concorrente tenho que reconhecer que o anúncio era
genial.
E, imaginem
que sacada, vinha uma amostra grátis. Um cigarro coladinho na página da
revista.
E não é só
isso. Tem mais.
Acompanhava
uma pequena e delicada embalagem que continha três palitos de fósforos feitos
de material reciclado que acendiam quando em contato com o ar.
Tudo isso, é
claro, estava acondicionado dentro de um saquinho absolutamente higiênico com o
logotipo da companhia e a frase: “nada mais saudável do que a natureza”.
Arrasaram.
Maravilha.
Primeiro,
fiquei completamente curioso pra saber se o fósforo acendia mesmo. Peguei um,
tirei da embalagem e... acendeu mesmo.
Juro que acendeu
sozinho!
Era
impressionante.
Exatamente
dois, ou três segundos, depois que você retirava o palito de fósforo da
embalagem individual, ele se acendia automaticamente.
Chegava a
dar um pequeno susto na gente. Era mágico.
Avançando
nas minhas experiências científicas fui obrigado, é claro, a testar também o
produto, ou seja, o cigarro ecológico, o ECO CIGAR.
Sendo eu um
profissional do ramo não podia ficar sem experimentar esta oitava maravilha do
mundo moderno.
Com o
segundo palitinho acendi o cigarro e fumei-o todinho. Até que não era dos
piores. Tirando o gosto excessivo de chocolate com menta, realmente, não era o
pior cigarro que eu já havia fumado na minha vida.
É bom
lembrar que chocolate com menta era o sabor do meu brinde, porque o novo
cigarro era oferecido em três excitantes sabores: chocolate com menta, creme de
papaya e pistache com flocos.
De repente,
caí em mim.
Não acreditava
no que tinha acabado de fazer.
- Meu Deus,
o que eu fiz? Eu fumei.
Fumei. Não
acredito que fiz isso, mas fiz.
O
questionário tinha razão, eu não presto mesmo.
Acho que foi
a fantástica tensão para responder com total sinceridade ao teste que me levou
a abstrair da situação e experimentar o ECO CIGAR.
Ou será que
foi o poder da propaganda?
Eu nunca vou
conseguir parar de fumar.
Eu nunca vou
conseguir nada na minha vida. Eu sou um verme, um réptil. Eu sou um rato. Um minúsculo.
Eu sou uma anta. Merda. Bosta.
Cacete... e
agora?
Agora vou
sair imediatamente e comprar um maço do novo ECO-CIGAR.
E outro do
velho Malborão vermelho.
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