sexta-feira, 17 de novembro de 2017

DÉCIMO SEXTO DIA.



terça, 01/8/2000

Estava eu exercendo minhas obrigações intestinais diárias e dedicando-me ao sagrado hábito da leitura de mitologia greco-romana, quando percebi duas coisas importantes.
Primeiro: tenho um excelente funcionamento dos intestinos.
Segundo: minha capacidade de concentração está parcialmente comprometida.
Como poderia ser devido ao assunto, mitologia, larguei o livro e peguei um número atrasado do FINANCIAL TIMES.
Dei uma olhada, não entendi nada.
Ainda assim achei que era por causa de todas aquelas estatísticas, dados técnicos, inglês, porque era pesado demais, etc.
O teste seguinte foi com um exemplar da VEJA do mês passado que ainda estava circulando no meu banheiro. Só de olhar a capa a gente já sabe o que nos espera lá dentro. Nem abri a revista sabia de antemão que eu iria acabar me irritando com o teor direitoso, pomposo, conservador pra não dizer reacionário.
Não resisti e acabei espiando os anúncios. Verificando quem eram os anunciantes. A fotografia. Coisas relacionadas à minha profissão. Quando me dei conta tava divagando. Meu pensamento na lua. Distante da imagem e da mensagem que tava diante dos meus olhos.
Simplesmente, não consegui me deter mais de sete linhas em nenhuma das quatro reportagens que tentei ler. A manchete até parecia interessante. Minha atenção não se fixava de maneira nenhuma. Catei, então, algo mais leve entre as opções do banheiro. Encontrei uma revista CAPRICHO.
Fui folheando, olhando todas aquelas fotos de adolescentes. Meninos e meninas, todos muito bonitos.
Todos aqueles anúncios de produtos e mais produtos dedicados pra mesma faixa etária da revista, quando, sem mais nem menos, de repente, para minha total surpresa, deparei-me com o TESTE SUA DEPENDÊNCIA.
Um daqueles testes em que você soma um número xis de pontos e depois olha onde você se classificou.
No final da matéria apareciam os resultados: de 0 a 3 = você tem um maravilhoso relacionamento com o hábito de fumar. De 4 a 7 = você devia começar a se preocupar com este maléfico vício que está adquirindo sem perceber. De 8 a 10 = você está totalmente dominado, o fumo e a propaganda do cigarro já danificaram a sua mente. Você não se enxerga sem o cigarro. A falsa sensação de bem estar criou um escudo protetor que impede que você veja tudo que está acontecendo com o seu pulmão.
Perceberam?
O máximo possível de pontos era 10.
Pois pasmem.
Eu somei 18,9 pontos.
Ou seja, meu nível de dependência do cigarro não poderia ser maior.
Refiz o questionário tentando amenizar o resultado final, mas me senti desonesto.
As perguntas inicialmente me pareciam bobas e completamente adolescentes, mas é claro, só podia ser assim, a revista era totalmente boba e adolescente. Mas o meu resultado fez com que eu prestasse mais atenção às perguntas e colocasse mais profundidade nas soluções e então levei muuuuuuuuuuuito a sério cada letra que eu considerava como a resposta certa.
Tinham momentos complicados.
Como por exemplo, na hora que eu devia responder se “o primeiro cigarro do dia é o mais prazeroso?”.
Como responder esta pergunta? Vários cigarros do dia são prazerosos.
Fumar um cigarro depois de qualquer coisa é simplesmente maravilhoso.
Depois da janta nem se fala.
Aquele cigarrinho de depois da transa é uma coisa do outro mundo de tão bom.
Quando sai do mar... ah... como é bom...
No bar, bebendo com os amigos. Aquela combinação cerveja, bate-papo, cigarro, petiscos...
Maravilha.
E o primeiro cigarro do dia?
É prazeroso? Ou é obrigatório?
Sim, porque quem fuma uns quinze, vinte cigarros, ou mais, por dia, sabe que, no mínimo, setenta por cento é fumado apenas por compulsão. Sobram apenas trinta por cento que podem ser considerados como cigarros que proporcionam prazer ao fumante. Prazer e tranqüilidade.
Mas sim, o primeiro cigarro do dia é muito bom.
Como não é possível (ou não se inventou um jeito ainda, pelo menos, não que eu saiba) fumar dormindo, o fumante acorda com sede de cigarro.
Passou a noite em seco, acorda e precisa urgentemente de um cigarro.
Estica a mão, pega o maço de cima do criado-mudo, retira um cigarro e coloca imediatamente na boca, estica o braço novamente pega o isqueiro e o acende num gesto contínuo.
Pronto.
A primeira tragada do dia. Maravilha.
Cheguei a conclusão de que o primeiro cigarro do dia dava muito prazer. Calculei o tempo que levava entre acordar e fumar:  seis segundos.
Um recorde, senhoras e senhores. Recorde mundial de primeira tragada.
Fiquei muito indeciso entre a letra c e a letra e. Se eu marcasse a letra c, eu somaria apenas 2 pontos, mas acabei, depois de muito pensar, muito refletir, marcando a letra e, porque, mesmo marcando 4 pontos, não seria nada honesto se eu dissesse apenas que fumava antes de trinta minutos.
Seis segundos é uma marca que não pode ser desprezada, tem-se que levar em consideração.
Refeita a contagem com o máximo de honestidade alcancei a soma absurda de 18,9 pontos e na revista dizia: se você somou acima de 10 pontos é caso de saber que jamais você irá conseguir livrar-se do maldito vício do cigarro.
Agora, devemos tirar o chapéu para o poder da propaganda.
E para a cara-de-pau de alguns publicitários e editores.
No meio da revista, portanto em página dupla estava o anúncio do ECO CIGAR. Era o mais novo lançamento da Companhia Norte Americana de Tabacos Brasileiros.
O anúncio era lindo. Muito azul. Muito verde. Muita água.
Dois jovens utopicamente lindos, fumando e sorrindo num momento de descanso depois de uma pedalada de bike montanha acima.
Pura natureza.
O texto contava que o ECO CIGAR é o cigarro de terceira geração. Tem muito menos teor de substâncias nocivas, pois foram adicionadas novas substâncias para reorientar as antigas substâncias.
Apesar de criado por uma agência concorrente tenho que reconhecer que o anúncio era genial.
E, imaginem que sacada, vinha uma amostra grátis. Um cigarro coladinho na página da revista.
E não é só isso. Tem mais.
Acompanhava uma pequena e delicada embalagem que continha três palitos de fósforos feitos de material reciclado que acendiam quando em contato com o ar.
Tudo isso, é claro, estava acondicionado dentro de um saquinho absolutamente higiênico com o logotipo da companhia e a frase: “nada mais saudável do que a natureza”.
Arrasaram.
Maravilha.
Primeiro, fiquei completamente curioso pra saber se o fósforo acendia mesmo. Peguei um, tirei da embalagem e... acendeu mesmo.
Juro que acendeu sozinho!
Era impressionante.
Exatamente dois, ou três segundos, depois que você retirava o palito de fósforo da embalagem individual, ele se acendia automaticamente.
Chegava a dar um pequeno susto na gente. Era mágico.
Avançando nas minhas experiências científicas fui obrigado, é claro, a testar também o produto, ou seja, o cigarro ecológico, o ECO CIGAR.
Sendo eu um profissional do ramo não podia ficar sem experimentar esta oitava maravilha do mundo moderno.
Com o segundo palitinho acendi o cigarro e fumei-o todinho. Até que não era dos piores. Tirando o gosto excessivo de chocolate com menta, realmente, não era o pior cigarro que eu já havia fumado na minha vida.
É bom lembrar que chocolate com menta era o sabor do meu brinde, porque o novo cigarro era oferecido em três excitantes sabores: chocolate com menta, creme de papaya e pistache com flocos.
De repente, caí em mim.
Não acreditava no que tinha acabado de fazer.
- Meu Deus, o que eu fiz? Eu fumei.
Fumei. Não acredito que fiz isso, mas fiz.
O questionário tinha razão, eu não presto mesmo.
Acho que foi a fantástica tensão para responder com total sinceridade ao teste que me levou a abstrair da situação e experimentar o ECO CIGAR.
Ou será que foi o poder da propaganda?
Eu nunca vou conseguir parar de fumar.
Eu nunca vou conseguir nada na minha vida. Eu sou um verme, um réptil. Eu sou um rato. Um minúsculo. Eu sou uma anta. Merda. Bosta.
Cacete... e agora?
Agora vou sair imediatamente e comprar um maço do novo ECO-CIGAR.
E outro do velho Malborão vermelho.   

Nenhum comentário:

Postar um comentário