sexta, 09/6/2000
Acordei fumando meu próprio dedo.
Sonhei a noite inteira com cigarros
enormes. Gigantescos cigarros que corriam atrás de mim.
- Socorro! Os cigarros estão me
perseguindo, eu gritava no sonho.
Alguns deles, mais espertos,
disfarçavam-se de inocentes flautas e clarinetas. Mas, quando eu colocava na
boca eles se convertiam em cigarros.
Eram cigarros de marcas nacionais e
importadas. Todos já vinham acesos. Se atiravam sobre mim. Enquanto uns
cigarros me seguravam, outros iam se enfiando na minha boca. Entravam no meu
nariz. Nas minhas orelhas. No meu...
Que pesadelo horroroso.
Acordei assustado.
Meus lençóis estavam encharcados de
suor.
Levantei da cama, tomei meu chiclé da
manhã e liguei pra farmácia da esquina. Sem medo de parecer ridículo encomendei
uma chupeta pelo serviço de tele-entrega.
Uso a tele-entrega porque eu ainda não
tenho coragem de sair de casa. Sei que vou topas com alguém fumando. Vou ter
mil chances de comprar um maço de cigarros.
O entregador da farmácia trouxe seis
modelos diferentes. Não consegui escolher e fiquei com todas. A que eu mais
gostei parecia uma grande borboleta verde limão com o desenho do Piu-piu no
centro.
A princípio foi um alívio enorme.
Meia hora depois começou a me dar
ânsia de vômito por causa do gosto de borracha insosso na boca.
É bem verdade que os meus lábios
relaxaram toda a tensão. Mas em compensação meus dentes se transformaram em
dentes de castor. Em menos de três horas destruí totalmente minha borboleta
verde-limão. Destrocei, sem dó nem piedade, o inocente do Piu-piu.
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