domingo, 10/12/2001
- Como acontece isso?
Como pode acontecer isso?
Como pode uma pessoa, no caso eu,
encerrar o dia na maior felicidade. Jurando que a vida é a melhor coisa que
existe na face da terra. A existência é um prêmio.
Fui dormir com a sensação de
segurança.
Um cara, no caso eu, amado pela mulher
e pelos filhos.
Os vizinhos chamam ele, no caso eu, de
pacato cidadão.
E no dia seguinte...
Acorda no dia seguinte outro.
Transformado.
Transtornado.
Sabe aquele dia em que a gente acorda
e já sabe que aquele dia não vai ser bom?
Acorda com o pé esquerdo.
Abre a porta do banheiro e já percebe
que o dia não vai ser bom.
Um cheiro no ar. Algo não está bem.
É impressionante como isso acontece na
minha vida.
E são nesses momentos que eu pergunto
a mim mesmo: vale mesmo à pena parar de fumar?
- Vale o sacrifício?
Veja bem: estou comendo feito um
animal. Engordando feito um porco. Minha barriga tá crescendo feito um urso
marrom. Tô sem fôlego nem pra subir três degraus. Posso ter um enfarte por
causa da gordura espalhada pelo corpo.
Daí, me salvo de morrer por problemas
cardíacos causados pelo cigarro.
Morro de problemas cardíacos
relacionados à obesidade.
Qual a vantagem? Saio mesmo ganhando?
Afinal de contas, quantas pessoas
fumam e estão aí bem saudáveis? Bem ativas? Trabalhando e fumando numa boa?
O meu avô, por exemplo.
Noventa e seis anos e fuma feito um
cavalo.
Nunca vi cavalo fumando nem no circo,
mas a expressão é essa mesmo.
O velhinho passa muito bem sem seus
remédios, mas não fica um dia sem fumar. E sem tomar uma cerveja. Vai ver que a
cerveja anula os malefícios do fumo.
Eu bem que podia começar e beber
cerveja todos os dias. Seria bem bacana, além de fumante me tornaria
alcoólatra. Destruo o pulmão e o fígado numa tacada só.
Ou morro de câncer no pulmão ou morro de
cirrose.
Beleza.
Cada escolha fantástica.
No último natal, aconteceu aquela perigosa,
delicada e explosiva reunião familiar. Desde o tempo do meu bisavô que a gente
tem que se encontra no natal.
Todo natal tem uma festa que não é bem
uma festa.
Porque parece que todo mundo tá ali
por pura obrigação.
Contei pro meu vô que eu tava parando
de fumar e perguntei o que ele achava disso.
Ele me disse que eu era livre pra
fazer o que quisesse. Desde que eu não fizesse o que sempre fazia: escolher o
pior pra mim mesmo. Senão não teria me casado com aquela jararaca da minha
mulher.
- Ela nem tem um bom traseiro.
E disse ainda que se eu soubesse
escolher não seria colorado. Nem seria publicitário.
Então perguntei pra ele se ele queria
que eu fosse um fiscal ferroviário gremista como ele?
Falei em tom de brincadeira, mas ele engrossou
a conversa.
Vovô desandou a falar que eu tinha
mesmo por quem puxar já que o meu pai nunca deu em nada mesmo.
- Ele também era colorado como tu.
E que ele jamais iria parar de fumar e
de transar.
- Por acaso você tá insinuando que eu
tô brocha?
Ele não se sentia ofendido, porque
levar em consideração uma coisa dita por mim seria rebaixar-se ao nível do chão.
É lógico que eu deveria parar de fumar. Um cara como eu jamais teria culhões
para continuar fumando.
E foi ficando vermelho de raiva. Quase
teve um troço. De repente teve um violento acesso de tosse.
A situação foi salva pelo meu tio
Robério. Entregou pra ele um cigarro já aceso e o seu cinzeiro preferido.
Era um objeto de louça branca (já encardida do tempo) que acompanhava
meu avô desde sua juventude. Não parecia um cinzeiro. Era a escultura em louça
de uma garça esguia à beira de um lago. O lago era o cinzeiro propriamente
dito.
Entenderam?
Um atentado ecológico.
Você apaga o cigarro no lago.
Com uns três ou quatro fumantes usando-o
ao mesmo tempo o lago se transformaria num lixão rapidinho.
Mais ou menos o que fazem com os rios
e lagos e com o nosso Guaíba.
A coisa mais impoliticamente incorreta
que eu já vi em toda minha vida
Simplesmente horrível.
O velho vovô deu uma sôfrega pitada. Deu
a segunda mais longa ainda. Na terceira o cigarro estava na metade. A tosse tinha
passado. Acho que ele nem lembrava mais quem eu era.
E eu nem sei como foi que o meu avô
entrou nessa conversa.
Aliás, nem sei mais sobre o que eu
estava falando.
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