quarta-feira, 8 de novembro de 2017

DÉCIMO DIA.


domingo, 10/12/2001
- Como acontece isso?
Como pode acontecer isso?
Como pode uma pessoa, no caso eu, encerrar o dia na maior felicidade. Jurando que a vida é a melhor coisa que existe na face da terra. A existência é um prêmio.
Fui dormir com a sensação de segurança.
Um cara, no caso eu, amado pela mulher e pelos filhos.
Os vizinhos chamam ele, no caso eu, de pacato cidadão.
E no dia seguinte...
Acorda no dia seguinte outro.
Transformado.
Transtornado.
Sabe aquele dia em que a gente acorda e já sabe que aquele dia não vai ser bom?
Acorda com o pé esquerdo.
Abre a porta do banheiro e já percebe que o dia não vai ser bom.
Um cheiro no ar. Algo não está bem.
É impressionante como isso acontece na minha vida.
E são nesses momentos que eu pergunto a mim mesmo: vale mesmo à pena parar de fumar?
- Vale o sacrifício?
Veja bem: estou comendo feito um animal. Engordando feito um porco. Minha barriga tá crescendo feito um urso marrom. Tô sem fôlego nem pra subir três degraus. Posso ter um enfarte por causa da gordura espalhada pelo corpo.
Daí, me salvo de morrer por problemas cardíacos causados pelo cigarro.
Morro de problemas cardíacos relacionados à obesidade.
Qual a vantagem? Saio mesmo ganhando?
Afinal de contas, quantas pessoas fumam e estão aí bem saudáveis? Bem ativas? Trabalhando e fumando numa boa?
O meu avô, por exemplo.
Noventa e seis anos e fuma feito um cavalo.
Nunca vi cavalo fumando nem no circo, mas a expressão é essa mesmo.
O velhinho passa muito bem sem seus remédios, mas não fica um dia sem fumar. E sem tomar uma cerveja. Vai ver que a cerveja anula os malefícios do fumo.
Eu bem que podia começar e beber cerveja todos os dias. Seria bem bacana, além de fumante me tornaria alcoólatra. Destruo o pulmão e o fígado numa tacada só.
Ou morro de câncer no pulmão ou morro de cirrose.
Beleza.
Cada escolha fantástica.
No último natal, aconteceu aquela perigosa, delicada e explosiva reunião familiar. Desde o tempo do meu bisavô que a gente tem que se encontra no natal.
Todo natal tem uma festa que não é bem uma festa.
Porque parece que todo mundo tá ali por pura obrigação.
Contei pro meu vô que eu tava parando de fumar e perguntei o que ele achava disso.
Ele me disse que eu era livre pra fazer o que quisesse. Desde que eu não fizesse o que sempre fazia: escolher o pior pra mim mesmo. Senão não teria me casado com aquela jararaca da minha mulher.
- Ela nem tem um bom traseiro.
E disse ainda que se eu soubesse escolher não seria colorado. Nem seria publicitário.
Então perguntei pra ele se ele queria que eu fosse um fiscal ferroviário gremista como ele?
Falei em tom de brincadeira, mas ele engrossou a conversa.
Vovô desandou a falar que eu tinha mesmo por quem puxar já que o meu pai nunca deu em nada mesmo.
- Ele também era colorado como tu.
E que ele jamais iria parar de fumar e de transar.
- Por acaso você tá insinuando que eu tô brocha?
Ele não se sentia ofendido, porque levar em consideração uma coisa dita por mim seria rebaixar-se ao nível do chão. É lógico que eu deveria parar de fumar. Um cara como eu jamais teria culhões para continuar fumando.
E foi ficando vermelho de raiva. Quase teve um troço. De repente teve um violento acesso de tosse.
A situação foi salva pelo meu tio Robério. Entregou pra ele um cigarro já aceso e o seu cinzeiro preferido.
Era um objeto de louça branca (já encardida do tempo) que acompanhava meu avô desde sua juventude. Não parecia um cinzeiro. Era a escultura em louça de uma garça esguia à beira de um lago. O lago era o cinzeiro propriamente dito.
Entenderam?
Um atentado ecológico.
Você apaga o cigarro no lago.
Com uns três ou quatro fumantes usando-o ao mesmo tempo o lago se transformaria num lixão rapidinho.
Mais ou menos o que fazem com os rios e lagos e com o nosso Guaíba.
A coisa mais impoliticamente incorreta que eu já vi em toda minha vida
Simplesmente horrível.
O velho vovô deu uma sôfrega pitada. Deu a segunda mais longa ainda. Na terceira o cigarro estava na metade. A tosse tinha passado. Acho que ele nem lembrava mais quem eu era.
E eu nem sei como foi que o meu avô entrou nessa conversa.
Aliás, nem sei mais sobre o que eu estava falando.    

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