quinta, 03/8/2000
Somente na fase dez você fuma o
segundo cigarro. Passou o tsunami de acusações morais.
Já mandou pastar a sensação de culpa
que lhe atravessava o coração.
No terceiro cigarro aparece um oásis.
Uma sensação de pausa refrescante.
Aí, você pensa com total lucidez mental:
já que fumei, o que mais me resta fazer senão fumar um pouco mais?
Saiba então, o que qualquer ex-fumante
já sabe: basta um cigarro, talvez meio, e para alguns, basta uma tragada,
uminha só, para acender em seu corpo a maldita vontade de fumar com força
redobrada.
A sensação é como se em cada célula
acendesse uma luzinha vermelha intermitente. Imagine milhares de pequenas
lampadinhas vermelhas piscando dentro de você.
É como um alarme estressante que só
pode ser silenciado com outro cigarro.
E depois outro.
E depois mais um.
Entenderam, né?
Pois foi exatamente o que eu fiz.
Três dias depois fui na festa de
casamento do padrinho da minha filha com a madrinha do meu filho.
Não tinha como faltar. Quer dizer, não
encontrei uma desculpa convincente e tive que ir.
Na festa encontrei com a minha ex. Era
óbvio que ela também estaria “neste maaaaravilhoso evento social familiar”.
- “Fumou! Fumou que eu sei. Fumou, sim”.
Aproximou-se de mim e, do alto de sua
sabedoria ruiva e do salto 14 de sua sandália verde pérola brilhante, disse num
volume e timbre de voz que poucos não puderam ouvir:
- “Eu
já sabia que tu não irias conseguir. Desde o início, eu e tua mãe apostamos que
tu não irias conseguir. Tu sempre foste um fraco. Um coca-cola, como diz tua
mãe. Às vezes eu ainda fico com vergonha de ter sido tua mulher. Eu só compareci
a este maaaaravilhoso evento social familiar porque fui eu quem organizou este
petit comité e também fui eu quem apresentou a Natália para o Gusmão. Se não
fosse por isso, eu juro que não teria vindo, porque sabia que iria te encontrar
aqui”.
Dito isso, acenou com vigor com a mão
esquerda chamando o namorado.
O sortudo da vez era um rapaz alto,
tipo mulato claro de olhos verdes, algo entre 17 e 24 anos. Ele atravessou a
sala com uma ginga corporal estonteantemente sedutora. O rosto estava iluminado
com um sorriso perfeito. E foram embora. Graças ao bom Deus, foram embora.
Acendi um cigarro.
Dei duas tragadas rápidas e uma longa,
controlei uma leve tontura, respirando profundamente, dei mais algumas tragadas
e, só então, me acalmei.
O cigarro afastou a minha sanha
assassina. Eu estava a ponto de matá-la. Fiquei com vontade de esganar o seu
pescoço. Arrancar o colar verde musgo e estrangular aquela jararaca.
Depois de ser obrigado a escutar e
engolir quieto todo este texto dramático da minha ex, peço, de antemão,
desculpas pelo palavrão que irei proferir:
- Foda-se!
Quer saber foda-se.
Opinião de ex-mulher não conta. Ex-mulher
já era. Eu fumo porque quero. Pago meus cigarros. O pulmão é meu. A vida é
minha. Eu fumo e vou continuar fumando.
Pronto. Assumi: voltei a fumar.
Já que fumei, vamos fumar então, ora
bolas.
Pois é, só me resta isso.
Voltei a fumar.
Sou um ex ex fumante.
Acendi outro cigarro naquele que já
estava terminando e me dei conta que o pior de tudo é que estou feliz da vida.
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