quinta-feira, 23 de novembro de 2017

SEGUNDO DIA.

quinta, 08/06/2000

Finalmente, o dia de ontem passou.
- Tô invicto.
Nem acredito. Vinte e quatro horas sem encostar um mísero cigarro na boca.
Por medida de precaução, hoje me tranquei em casa sem cigarros.
- Não tô pra ninguém.
Não atendo telefone porque a pessoa pode falar em cigarro. Tô completamente nervoso. Se me deito, tenho vontade de levantar. Quando tô de pé, quero deitar.
Acho que entrei na menopausa porque sinto ondas de calor e suadores inexplicáveis.
Minha boca se aperta em pequenos e quase imperceptíveis espasmos musculares.
Meu poder de concentração é zero.
Trabalhar é fora de cogitação.
Televisão, nem pensar.
Ainda bem que a Família Adams inventou os chicletes. Boto cinco na boca e masco, mordo, rasgo, trituro... sem tréguas, sem parar.
Descobri que dormindo não sinto vontade de fumar. Então tento dormir o máximo de tempo possível. Só que descobri também que não dá pra dormir todo o tempo por que a gente fica completamente sem sono. Não dá também porque quando a gente acorda dá uma vontade de fumar inacreditável.
Tomo litros de água com suco de limão. Li num livro que é bom pra eliminar a nicotina mais depressa.
E foi numa das minhas idas a geladeira pra pegar água que eu senti aquele cheiro maldito se infiltrando por alguma janela, porta ou fresta.
- Era ele.
O cheiro de cigarro. Inconfundível. Inesquecível. Hollywood, com certeza. Não sei como, mas veio direto no meu nariz. Fiquei alguns instantes absolutamente seduzido por aquele cheirinho tão conhecido. Ah... e tão necessário no momento difícil que estou vivendo.
Mas não cedi.
Bati em retirada. Corri para o quarto. Coloquei um cobertor na janela. Meti um edredon embaixo da porta. Deitei, me cobri e tentei esquecer aquele cheiro maldito, vicioso, desagradável, horrível, nojento, nauseante, irritante, asqueroso, repulsivo, repugnante e extremamente... delicioso.
- Não adianta! Não quero mais fumar!
Rezei três ave-maria e acabei dormindo. Acordei e dormi de novo.

Um dia este dia tem que terminar.  

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