quarta-feira, 8 de novembro de 2017

SÉTIMO DIA.


quinta, 07/12/2001
Estou atravessando um longo período conturbado. Em minhas reflexões cheguei a conclusão que se a gente recebesse as informações certas, no momento certo, nós poderíamos ter uma chance de escolher entre o sim e o não.
Só a informação pode nos oferecer a chance de decidir entre uma e outra coisa.
Entre fumar ou não fumar, por exemplo.
Entre engravidar ou não engravidar, por exemplo, quando se tem treze, catorze anos.
Entre esta ou aquela profissão, quando se tem dezesseis, dezessete anos.
Não posso escolher no escuro. Nas questões capitais, que são todas aquelas em que é a minha vida ou o meu futuro que está em jogo.
Então, assim como algumas empresas são obrigadas a investir em educação ambiental, outras deveriam ser forçadas a aplicar alguns milhões na informação sobre os malefícios que causam aos usuários.
Deveriam custear programas educacionais dedicados, pelo menos, as crianças do ensino fundamental. As crianças e jovens têm que ser esclarecidos sobre o mau que pode causar, por exemplo, o conhecido trinômio: álcool-automóvel-velocidade.
Ou que o cigarro pode causar a sua morte precocemente.
Fala-se tanto em sustentabilidade e responsabilidade social. Pois pra mim, responsabilidade social seria custear todas as despesas para ensinar as crianças sobre meio-ambiente, trânsito, cigarros, drogas, camisinha, gravidez e todas as questões que podem matar ou que podem influenciar no seu futuro e no futuro do planeta.
Cheguei a conclusão que informação é tudo.
Não vivemos na era da informática? Informação é tudo.
Escrevi isso tudo agora, mas pensei aos poucos, entre uma e outra crise de vontade de fumar.
Como essa que me deu agora. Estou de volta ao meu problema pessoal: como vou realmente parar de fumar desta vez.
Percebi que eu, sendo um homem do meu tempo, devo utilizar de ferramentas do meu tempo para conseguir o que estou querendo.
O que faz um homem da era da informática quando quer parar de fumar?
Que armas, ele deve usar?
Acertou: a informação.
Foi exatamente isso que eu fiz. Busquei toda a informação que pude conseguir sobre o meu problema. Fiz uma pesquisa no Google.
É simplesmente incrível.
Parar de fumar aparece em fertilidade, geriatria, saúde pública em geral, e, é claro, em cardiologia. Aparece também em botânica, biologia, ecologia, política, psicologia, é claro, economia. Jornalismo, alimentação, história, geografia, farmácia, sociologia, em Draúzio Varella, em cultura e civilização, nas artes culinárias, nas simpatias, em arte, no teatro. Em cinema existe uma acalorada discussão sobre a propaganda subliminar que o cinema faz quando coloca os atores principais fumando.
Mesmo que seja o bandido de filme.
Enfim, é só entrar no google e digitar as palavras “fumo” e “cigarro”, e você terá a fantástica quantia de 689 mil páginas sobre o assunto.
Não consegui ler mais de dez. Cansei.
Mas agora estou muito mais informado.
Sei por exemplo que existem na Paraíba, sim, na Paraíba, vocês já pensaram nisso?
Na Paraíba, existem 612 mil dependentes de cigarro.
Quer dizer, existiam 612 mil no domingo, dia em que eu passei o dia na frente da tela do computador. Hoje, já devem ser mais. Mas, já imaginaram? 612 mil dependentes.
Como pode? Como é que “eles” sabem?
Como sabem que é 612 mil e não 613 mil? Ou 610 mil?
Outro exemplo, descobri minha total ignorância em relação ao fato de que o fumo pode antecipar a menopausa.
Vocês, leitoras, sabiam deste dado?
Já pararam pra pensar nisto?
A antecipação da menopausa.
Você tem que saber para decidir se quer apressar a menopausa ou não.
Com certeza, a gente pensa todo dia neste tipo de assunto.
Eu nuca pensei. Assim como nunca penso no problema da oxidação das pontes com mais de quatrocentos anos. Nem como foi que a cidade de Gibraltar perdeu o título de sede do campeonato de carrinhos de rolimã para sua rival cidade de Roma.
A antecipação da menopausa é, com certeza, um bom assunto para o Caderno Donna da ZH de domingo.
Posso quase ouvir a voz do meu tio Robério: É por isso, que a Maninha não fode mais, então!
A Maninha era irmã dele, a minha tia mais jovem. Fumante inveterada. Recordista da família com quatro carteiras de cigarro diárias.
Que loucura.
Catando mais informação foi que recebi mais uma revelação que vinha ao meu socorro.
Numa das páginas que pesquisei tinha uma dica para aliviar a vontade de fumar:
“Quando sentir vontade de fumar, distraia o organismo com dois copos d’água. A sensação de saciedade ajudará a esquecer, pelo menos temporariamente do cigarro”.
Me ajudou muito. Na primeira frase está escrito fumar.
O cara lê e fica completamente louco.
Esta palavra enlouquece.
Depois, a palavra “distraia”, não é mais do que um sofisma. Uma pequena hipocrisia socialmente permitida.
Significa que você até pode desviar a atenção do problema, mas isso não resolve porque o problema continua ali. Principalmente, porque a gente já toma a água pensando que não está com sede. A gente sabe que tá tomando aquela água toda só porque quer distrair o seu organismo. Para que ele pense que é sede aquilo que na verdade é, e aqui você fala baixinho: vontade de fumar.
Duvido que alguém se distraia com dois copos d’água.
Mais adiante o texto opta pela verdade e diz que:
“Se você conseguir distrair seu organismo, a duração desta distração é temporária, ou seja, a vontade de fumar vai voltar.”
Será que ela, a vontade de fumar, voltaria redobrada?
Isso a página não me respondeu.
De quanto tempo se trata este temporário?
Também não.
O período de distração seria de vinte minutos? Trinta minutos?
Bom, sejamos generosos e aceitemos que ninguém não conseguiria enganar seu organismo por mais de 40 minutos.
Então: 40 minutos.
Quando acaba este tempo e a vontade de fumar volta, o que deve fazer a vítima?
Tomar mais dois copos d’água?
Se eu me acordar às oito da manhã e for dormir às 2 horas, que é o que costumo fazer, já calcularam quanto dois copos d’água terei bebido ao final do dia?
Cinquenta e quatro copos. É, cinquenta e quatro.
Considerando que cada copo tem, em média, 250 ml, no fim de um dia eu teria ingerido 13 litros e meio de água.
Olhando sob este aspecto, deve funcionar.
Com treze litros de água na barriga, você distrai a fome, esquece o sexo, mata a sede, e não quer nem pensar em cigarro.
Não caberia nem fumaça na sua barriga.
Em todo caso, com licença, que tá na hora dos meus dois copos d’água.

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