quarta, 14/6/2000
Preciso urgentemente morrer.
Quero morrer!
Chega! Basta. Acabou.
Me deixa, morrer.
Quero as contas.
Quem é o responsável por esta
porcaria?
Qual é o número da minha mesa? Fecha a
conta.
Onde é que eu assino?
Pra quê? Alguém aí pode me dizer pra
quê uma existência tão sem sentido?
Qual o sentido da vida?
A vida perdeu a graça. Acabou.
Foi-se embora aquela doentia raiva
sangrenta e restou em mim um enorme, um gigantesco, um colossal... vazio!
Acho que estou no meio do tal nada
existencial.
O abismo.
O Sartre, caso estivesse no meu lugar,
iria, com certeza, experimentar um orgasmo filosófico. E depois acender um bom
charuto, é claro.
Agora sei o que sentiu Cabral, o nosso
Pedro, alma solitária na caravela, preso àquela imensa calmaria verde. Sem
nenhuma cervejinha. Sem nenhum cigarrinho pra passar o tempo de espera.
Diga-me o amigo: Que graça pode haver
numa vida sem cigarro?
Imagine que você vai, por exemplo, ao
cinema.
Chega, compra o ingresso, entra na
sala e assiste ao filme.
Até aí tudo bem, principalmente se o
filme for muito bom. Um daqueles filmes que faz com que você esqueça suas mais
incômodas misérias.
O problema começa exatamente quando
termina o filme.
Para que entendam mais exatamente,
mais precisamente o que quero dizer, naquele momento que você levanta da
poltrona e se dirige para fora da sala. As mãos examinam freneticamente os
bolsos procurando “aquilo”. Mas você sabe que “aquilo” não está em nenhum dos
bolsos. Não existe mais “aquilo”. Então, você se dá conta que não passa de um
desafortunado ex-fumante.
Tem coisa mais sem graça?
O filme perde a graça. O passeio perde
a graça. A vida perde a graça.
Você nunca deveria ter saído de casa
para vir nesta droga de cinema.
Você chega na porta de saída do cinema
e encontra as pessoas que assistiram o mesmo filme. Cada uma delas acende um
cigarro. Todas olham pra sua cara com um sorriso debochado e sopram a fumaça no
seu nariz. As pessoas riem e são felizes. Dançam pela rua afora, como se todos
estivessem num daqueles musicais antigos da Metro.
E você, pobre coitado, infeliz,
desditoso, mal-aventurado, desgraçado, arrasta sua carcaça pra casa. Então,
solitariamente, se enfia no seu túmulo prometendo nunca mais ir ao cinema.
Outro exemplo é quando você faz uma
viagem.
Antigamente, fazer uma viagem era uma
coisa que me causava enorme alegria e contentamento.
Hoje, não.
Perdeu a graça.
Em primeiro lugar porque a sociedade
moderna, politicamente correta criminalizou o pacato cidadão fumante. O uso do
cigarro aceso foi proibido em praticamente todos os lugares em que sempre se
fumou.
No táxi não se pode fumar.
No check-in não pode fumar.
Na loja de revistas não se pode fumar.
Mesmo que muitas revistas estampem propaganda de marcas de cigarro.
Engraxando os sapatos não se pode
fumar.
No café nem pensar. Justamente o café
que é o hábito que mais combina com cigarro no mundo inteiro.
Na sala de embarque é expressamente
proibido fumar.
No avião não pode fumar.
No desembarque não pode fumar.
Em lugar nenhum pode fumar.
Mas, viva a liberdade. Você sabe que
quando sair do aeroporto você poderá, finalmente, se entupir de tanto fumar.
Só aí é que você cai na real.
É neste momento exato e doloroso que
você se dá conta que parou de fumar.
Instantaneamente a viagem inteira
perdeu a graça.
Até aquela aeromoça que lhe passou o
número do telefone dela para futuros contatos, perdeu a graça.
A sua cara perdeu a graça.
Você nem sabe mais o que veio fazer
neste lugar depressivo.
E isso, sem importar se você chegou em
Bali, Toronto ou Cachoeirinha.
Só lhe resta cumprir mecanicamente os
seus compromissos de viagem (porque divertir-se está fora de cogitação) e
arrastar sua carcaça, novamente, para casa, lugar de onde você nunca deveria
ter saído.
Existem outras infinitas situações que
comprovam que a vida sem cigarro perde a graça:
Qual a graça de esperar alguém
interessante num restaurante sem a companhia de um cigarro?
Que graça tem conversar um papo cabeça
com um amigo sem que os dois estejam fumando?
Que graça tem assistir um jogo da
seleção (de semi final pra cima), num bar, tomando cerveja e sem poder fumar?
Comer e não fumar um cigarro depois,
tem graça?
Isso sem comentar aquele excitante e
inspirador gesto de autoconfiança que é fumar o cigarrinho do “antes” e o
famoso e relaxante cigarro do “depois”.
É esse mesmo que você está pensando.
Tem graça?
Preciso urgentemente morrer.
Quero morrer!
Chega! Basta. Acabou.
Me deixa, morrer.
Quero as contas.
Quem é o responsável por esta
porcaria?
Qual é o número da minha mesa? Fecha a
conta.
Onde é que eu assino?
Pra quê? Alguém aí pode me dizer pra
quê uma existência tão sem sentido?
Qual o sentido da vida?
A vida perdeu a graça. Acabou.
Foi-se embora aquela doentia raiva
sangrenta e restou em mim um enorme, um gigantesco, um colossal... vazio!
Acho que estou no meio do tal nada
existencial.
O abismo.
O Sartre, caso estivesse no meu lugar,
iria, com certeza, experimentar um orgasmo filosófico. E depois acender um bom
charuto, é claro.
Agora sei o que sentiu Cabral, o nosso
Pedro, alma solitária na caravela, preso àquela imensa calmaria verde. Sem
nenhuma cervejinha. Sem nenhum cigarrinho pra passar o tempo de espera.
Diga-me o amigo: Que graça pode haver
numa vida sem cigarro?
Imagine que você vai, por exemplo, ao
cinema.
Chega, compra o ingresso, entra na
sala e assiste ao filme.
Até aí tudo bem, principalmente se o
filme for muito bom. Um daqueles filmes que faz com que você esqueça suas mais
incômodas misérias.
O problema começa exatamente quando
termina o filme.
Para que entendam mais exatamente,
mais precisamente o que quero dizer, naquele momento que você levanta da
poltrona e se dirige para fora da sala. As mãos examinam freneticamente os
bolsos procurando “aquilo”. Mas você sabe que “aquilo” não está em nenhum dos
bolsos. Não existe mais “aquilo”. Então, você se dá conta que não passa de um
desafortunado ex-fumante.
Tem coisa mais sem graça?
O filme perde a graça. O passeio perde
a graça. A vida perde a graça.
Você nunca deveria ter saído de casa
para vir nesta droga de cinema.
Você chega na porta de saída do cinema
e encontra as pessoas que assistiram o mesmo filme. Cada uma delas acende um
cigarro. Todas olham pra sua cara com um sorriso debochado e sopram a fumaça no
seu nariz. As pessoas riem e são felizes. Dançam pela rua afora, como se todos
estivessem num daqueles musicais antigos da Metro.
E você, pobre coitado, infeliz,
desditoso, mal-aventurado, desgraçado, arrasta sua carcaça pra casa. Então,
solitariamente, se enfia no seu túmulo prometendo nunca mais ir ao cinema.
Outro exemplo é quando você faz uma
viagem.
Antigamente, fazer uma viagem era uma
coisa que me causava enorme alegria e contentamento.
Hoje, não.
Perdeu a graça.
Em primeiro lugar porque a sociedade
moderna, politicamente correta criminalizou o pacato cidadão fumante. O uso do
cigarro aceso foi proibido em praticamente todos os lugares em que sempre se
fumou.
No táxi não se pode fumar.
No check-in não pode fumar.
Na loja de revistas não se pode fumar.
Mesmo que muitas revistas estampem propaganda de marcas de cigarro.
Engraxando os sapatos não se pode
fumar.
No café nem pensar. Justamente o café
que é o hábito que mais combina com cigarro no mundo inteiro.
Na sala de embarque é expressamente
proibido fumar.
No avião não pode fumar.
No desembarque não pode fumar.
Em lugar nenhum pode fumar.
Mas, viva a liberdade. Você sabe que
quando sair do aeroporto você poderá, finalmente, se entupir de tanto fumar.
Só aí é que você cai na real.
É neste momento exato e doloroso que
você se dá conta que parou de fumar.
Instantaneamente a viagem inteira
perdeu a graça.
Até aquela aeromoça que lhe passou o
número do telefone dela para futuros contatos, perdeu a graça.
A sua cara perdeu a graça.
Você nem sabe mais o que veio fazer
neste lugar depressivo.
E isso, sem importar se você chegou em
Bali, Toronto ou Cachoeirinha.
Só lhe resta cumprir mecanicamente os
seus compromissos de viagem (porque divertir-se está fora de cogitação) e
arrastar sua carcaça, novamente, para casa, lugar de onde você nunca deveria
ter saído.
Existem outras infinitas situações que
comprovam que a vida sem cigarro perde a graça:
Qual a graça de esperar alguém
interessante num restaurante sem a companhia de um cigarro?
Que graça tem conversar um papo cabeça
com um amigo sem que os dois estejam fumando?
Que graça tem assistir um jogo da
seleção (de semi final pra cima), num bar, tomando cerveja e sem poder fumar?
Comer e não fumar um cigarro depois,
tem graça?
Isso sem comentar aquele excitante e
inspirador gesto de autoconfiança que é fumar o cigarrinho do “antes” e o
famoso e relaxante cigarro do “depois”.
É esse mesmo que você está pensando.
Tem graça?
Nenhum comentário:
Postar um comentário