quarta-feira, 22 de novembro de 2017

OITAVO DIA.

quarta, 14/6/2000

Preciso urgentemente morrer.
Quero morrer!
Chega! Basta. Acabou.
Me deixa, morrer.
Quero as contas.
Quem é o responsável por esta porcaria?
Qual é o número da minha mesa? Fecha a conta.
Onde é que eu assino?
Pra quê? Alguém aí pode me dizer pra quê uma existência tão sem sentido?
Qual o sentido da vida?
A vida perdeu a graça. Acabou.
Foi-se embora aquela doentia raiva sangrenta e restou em mim um enorme, um gigantesco, um colossal... vazio!
Acho que estou no meio do tal nada existencial.
O abismo.
O Sartre, caso estivesse no meu lugar, iria, com certeza, experimentar um orgasmo filosófico. E depois acender um bom charuto, é claro.
Agora sei o que sentiu Cabral, o nosso Pedro, alma solitária na caravela, preso àquela imensa calmaria verde. Sem nenhuma cervejinha. Sem nenhum cigarrinho pra passar o tempo de espera.
Diga-me o amigo: Que graça pode haver numa vida sem cigarro?
Imagine que você vai, por exemplo, ao cinema.
Chega, compra o ingresso, entra na sala e assiste ao filme.
Até aí tudo bem, principalmente se o filme for muito bom. Um daqueles filmes que faz com que você esqueça suas mais incômodas misérias.
O problema começa exatamente quando termina o filme.
Para que entendam mais exatamente, mais precisamente o que quero dizer, naquele momento que você levanta da poltrona e se dirige para fora da sala. As mãos examinam freneticamente os bolsos procurando “aquilo”. Mas você sabe que “aquilo” não está em nenhum dos bolsos. Não existe mais “aquilo”. Então, você se dá conta que não passa de um desafortunado ex-fumante.
Tem coisa mais sem graça?
O filme perde a graça. O passeio perde a graça. A vida perde a graça.
Você nunca deveria ter saído de casa para vir nesta droga de cinema.
Você chega na porta de saída do cinema e encontra as pessoas que assistiram o mesmo filme. Cada uma delas acende um cigarro. Todas olham pra sua cara com um sorriso debochado e sopram a fumaça no seu nariz. As pessoas riem e são felizes. Dançam pela rua afora, como se todos estivessem num daqueles musicais antigos da Metro.
E você, pobre coitado, infeliz, desditoso, mal-aventurado, desgraçado, arrasta sua carcaça pra casa. Então, solitariamente, se enfia no seu túmulo prometendo nunca mais ir ao cinema.
Outro exemplo é quando você faz uma viagem.
Antigamente, fazer uma viagem era uma coisa que me causava enorme alegria e contentamento.
Hoje, não.
Perdeu a graça.
Em primeiro lugar porque a sociedade moderna, politicamente correta criminalizou o pacato cidadão fumante. O uso do cigarro aceso foi proibido em praticamente todos os lugares em que sempre se fumou.
No táxi não se pode fumar.
No check-in não pode fumar.
Na loja de revistas não se pode fumar. Mesmo que muitas revistas estampem propaganda de marcas de cigarro.
Engraxando os sapatos não se pode fumar.
No café nem pensar. Justamente o café que é o hábito que mais combina com cigarro no mundo inteiro.
Na sala de embarque é expressamente proibido fumar.
No avião não pode fumar.
No desembarque não pode fumar.
Em lugar nenhum pode fumar.
Mas, viva a liberdade. Você sabe que quando sair do aeroporto você poderá, finalmente, se entupir de tanto fumar.
Só aí é que você cai na real.
É neste momento exato e doloroso que você se dá conta que parou de fumar.
Instantaneamente a viagem inteira perdeu a graça.
Até aquela aeromoça que lhe passou o número do telefone dela para futuros contatos, perdeu a graça.
A sua cara perdeu a graça.
Você nem sabe mais o que veio fazer neste lugar depressivo.
E isso, sem importar se você chegou em Bali, Toronto ou Cachoeirinha.
Só lhe resta cumprir mecanicamente os seus compromissos de viagem (porque divertir-se está fora de cogitação) e arrastar sua carcaça, novamente, para casa, lugar de onde você nunca deveria ter saído.
Existem outras infinitas situações que comprovam que a vida sem cigarro perde a graça:
Qual a graça de esperar alguém interessante num restaurante sem a companhia de um cigarro?
Que graça tem conversar um papo cabeça com um amigo sem que os dois estejam fumando?
Que graça tem assistir um jogo da seleção (de semi final pra cima), num bar, tomando cerveja e sem poder fumar?
Comer e não fumar um cigarro depois, tem graça?
Isso sem comentar aquele excitante e inspirador gesto de autoconfiança que é fumar o cigarrinho do “antes” e o famoso e relaxante cigarro do “depois”.
É esse mesmo que você está pensando.

Tem graça?

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