terça,
18/7/2000
Dona Sucileyde agora é outra mulher.
Praticamente não fala. Cessou seu interminável discurso. Murchou.
Mudou porque está terminantemente
proibida de fumar aqui em casa.
Eu sei que vocês vão achar que é uma
atitude exagerada e autoritária. Tá certo. Mas vão ter que concordar comigo que
seria impossível para qualquer mortal parar de fumar com uma chaminé ambulante
dentro de sua própria casa.
- Era ela ou eu.
Uma questão de vida ou morte. Um caso
clássico em que os meios justificam os fins. Qualquer tribunal classificaria
minha atitude como legítima defesa.
Então, no uso de meus plenos poderes
decretei o Ato número 1:
De hoje em diante fica terminantemente
proibido fumar ou conduzir acesos quaisquer tipo de cigarros ou assemelhados
dentro dos limites deste apartamento. Inclusive no banheiro, área de serviço e
sacadas.
Certamente meu decreto causou uma
reação contrária vigorosa. Porque veio assim de cima para baixo. Veio como uma
medida provisória. Não deu espaço pra devida discussão com as classes populares.
Primeiro, dona Sucileyde ameaçou
tornar o caso público.
- Vou me queixar pras vizinha!
E falou mesmo com a vizinha do 602.
A mais temível campeã olímpica de
fofocas maledicentes do bairro inteiro. E a taça era nossa, do nosso condomínio.
A vizinha do 602 era o orgulho do prédio.
Depois, dona Sucileyde, jogou sujo dizendo:
“Eu devia era abandonar este emprego que nem é tão bom assim.” Apelou pra
chantagem emocional dizendo que pra ela o cigarro era como o irmão que nunca
teve. O cigarro era um amigo nas horas difíceis. Era o companheiro de
infortúnio.
- Me proibir de fumar é como apunhalar
o meu coração.
E aproveitou pra desfiar um rosário de
queixas e lamentações. O marido tinha lhe abandonado. Ele foi atrás do
assassino do irmão da prima da mulher dele. A filha do meio tava grávida de
novo. O neto deixou a dentadura dela cair no vaso do banheiro.
- O senhor não pode fazer isso comigo.
Repassei meus argumentos, mostrei que
não era nada pessoal.
Ela ouviu tudo respeitosamente, mas não
aceitou meu decreto. Ameaçou ir embora para sempre. Deixar o serviço e procurar
seus direitos junto a sua entidade de classe. Disse que podia até me processar
por abuso de poder patronal.
Tive que negociar: ela agora tem dez
pequenos intervalos por dia. Cada um tem dez minutos. Ela para o que estiver
fazendo e vai dar um breve passeio nas churrasqueiras do terraço do prédio.
Ela queria porque queria fumar na área
de serviço.
Tive que lhe explicar várias vezes.
Precisei usar inúmeros argumentos para que ela compreendesse que não.
- Pô, Dona Leide, não dá.
Fiz ela entender que as minhas roupas
ficavam com cheiro de cigarro. Que a casa inteira cheirava à cigarro.
É claro, que o que ajudou mesmo foi o
estímulo financeiro. Ofereci um aumento no seu cachê e concedi algumas vantagens
além das obrigatórias empregatícias.
No final do seu dia de trabalho,
quando ela veio despedir-se de mim, com os saquinhos de lixo numa mão e o
cigarro e o isqueiro na outra, eu lhe fiz o pedido que vinha premeditando o dia
todo.
- Me tranca em casa, Dona Sucileyde.
Se por um lado, ela estranhou meu
pedido exótico e descabido, por outro, ficou felicíssima. Ela tinha a chance de
se vingar da opressão sofrida com a minha voluntariosa atitude proibitiva.
Com prazer indisfarçável, bateu
sonoramente a porta. Passou duas voltas na chave e trancou a grade de ferro.
Pensei ter escutado uma risada
maléfica junto com o som do elevador que chegou, abriu a porta e desceu.
Agora sou um prisioneiro. Moro em
Alcatraz.
Pretendo ficar isolado até a semana
que vem quando minha carcereira retornar.
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