terça-feira, 21 de novembro de 2017

SEGUNDO DIA.

terça, 18/7/2000

Dona Sucileyde agora é outra mulher. Praticamente não fala. Cessou seu interminável discurso. Murchou.
Mudou porque está terminantemente proibida de fumar aqui em casa.
Eu sei que vocês vão achar que é uma atitude exagerada e autoritária. Tá certo. Mas vão ter que concordar comigo que seria impossível para qualquer mortal parar de fumar com uma chaminé ambulante dentro de sua própria casa.
- Era ela ou eu.
Uma questão de vida ou morte. Um caso clássico em que os meios justificam os fins. Qualquer tribunal classificaria minha atitude como legítima defesa.
Então, no uso de meus plenos poderes decretei o Ato número 1:
De hoje em diante fica terminantemente proibido fumar ou conduzir acesos quaisquer tipo de cigarros ou assemelhados dentro dos limites deste apartamento. Inclusive no banheiro, área de serviço e sacadas.
Certamente meu decreto causou uma reação contrária vigorosa. Porque veio assim de cima para baixo. Veio como uma medida provisória. Não deu espaço pra devida discussão com as classes populares.
Primeiro, dona Sucileyde ameaçou tornar o caso público.
- Vou me queixar pras vizinha!
E falou mesmo com a vizinha do 602.
A mais temível campeã olímpica de fofocas maledicentes do bairro inteiro. E a taça era nossa, do nosso condomínio. A vizinha do 602 era o orgulho do prédio.
Depois, dona Sucileyde, jogou sujo dizendo: “Eu devia era abandonar este emprego que nem é tão bom assim.” Apelou pra chantagem emocional dizendo que pra ela o cigarro era como o irmão que nunca teve. O cigarro era um amigo nas horas difíceis. Era o companheiro de infortúnio.
- Me proibir de fumar é como apunhalar o meu coração.
E aproveitou pra desfiar um rosário de queixas e lamentações. O marido tinha lhe abandonado. Ele foi atrás do assassino do irmão da prima da mulher dele. A filha do meio tava grávida de novo. O neto deixou a dentadura dela cair no vaso do banheiro.
- O senhor não pode fazer isso comigo.
Repassei meus argumentos, mostrei que não era nada pessoal.
Ela ouviu tudo respeitosamente, mas não aceitou meu decreto. Ameaçou ir embora para sempre. Deixar o serviço e procurar seus direitos junto a sua entidade de classe. Disse que podia até me processar por abuso de poder patronal.
Tive que negociar: ela agora tem dez pequenos intervalos por dia. Cada um tem dez minutos. Ela para o que estiver fazendo e vai dar um breve passeio nas churrasqueiras do terraço do prédio.
Ela queria porque queria fumar na área de serviço.
Tive que lhe explicar várias vezes. Precisei usar inúmeros argumentos para que ela compreendesse que não.
- Pô, Dona Leide, não dá.
Fiz ela entender que as minhas roupas ficavam com cheiro de cigarro. Que a casa inteira cheirava à cigarro.
É claro, que o que ajudou mesmo foi o estímulo financeiro. Ofereci um aumento no seu cachê e concedi algumas vantagens além das obrigatórias empregatícias.
No final do seu dia de trabalho, quando ela veio despedir-se de mim, com os saquinhos de lixo numa mão e o cigarro e o isqueiro na outra, eu lhe fiz o pedido que vinha premeditando o dia todo.
- Me tranca em casa, Dona Sucileyde.
Se por um lado, ela estranhou meu pedido exótico e descabido, por outro, ficou felicíssima. Ela tinha a chance de se vingar da opressão sofrida com a minha voluntariosa atitude proibitiva.
Com prazer indisfarçável, bateu sonoramente a porta. Passou duas voltas na chave e trancou a grade de ferro.
Pensei ter escutado uma risada maléfica junto com o som do elevador que chegou, abriu a porta e desceu.
Agora sou um prisioneiro. Moro em Alcatraz.
Pretendo ficar isolado até a semana que vem quando minha carcereira retornar. 


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