sexta-feira, 17 de novembro de 2017

DÉCIMO QUINTO DIA.

segunda, 31/7/2000



Estacionei o carro no parquímetro da praça, atravessei a rua e andei, com o passo firme e resoluto como se fosse me encaminhar direto para o elevador.
Voltei seis vezes da porta do prédio até a esquina da banca de revistas. Tava criando coragem de entrar no edifício da agência.
Quando eu chegava na porta sentia um frio na espinha. Um tremor nas vistas. Minhas pernas afrouxavam.
Passei pela frente do prédio sem parar e fui até a banca de revistas.
O cara da banca de revistas já me conhecia de vista. Cumprimentou com um aceno de cabeça.
Comprei um jornal qualquer e voltei até onde estava o carro.
Até aí tudo normal.
O cara da banca viu todo meu percurso e achou tudo bem normal, como se eu tivesse esquecido alguma coisa no carro.
Na segunda vez que repeti o mesmo trajeto e quase comprei de novo o mesmo jornal, o cara já achou um pouco estranho.
- Sujeito esquisito, pensou ele.
Na terceira  vez ele já estava me olhando como se eu fosse suspeito de algum crime.
Quando viu que, pela quarta vez, eu me dirigia para a porta do edifício da agência, o cara começou a prestar atenção em mim.
Percebeu que fiquei parado por alguns segundos alguns metros antes da portaria e que depois voltei quase correndo para o carro estacionado na praça.
Não entrei no carro.
Fiquei semi escondido atrás de um hidrante fingindo que estava amarrando o sapato do pé esquerdo.
Acho que eu tava falando sozinho tentando convencer-me de parar de fazer fiasco e entrar logo naquele edifício.
Daí ele teve certeza que eu tava preparando algum golpe.
Imaginou que eu estava me comunicando com o chefe da quadrilha. Pensou pela primeira vez em chamar a polícia.
Na minha quinta desistência, ele não resistiu. Viu que eu saí detrás do hidrante. Viu eu caminhar até o poste.
Fiquei um tempo ali meio escondido. Já suando as bicas, olhei para os dois lados, e atravessei a rua. Caminhei direto pra porta. Tava entrando no prédio e voltei quase correndo para o hidrante. Me sentei no cordão da calçada e percebi que eu tava tremendo muito. Fui abaixando e fingi que estava amarrando os sapatos.
Aí o cara da banca teve plena certeza que eu estava planejando algo de ruim. Sempre de olho em mim e na banca, ele andou na direção de uma dupla de policiais que tava do outro lado da praça. E aí foi minha vez de perceber o que estava se passando. Senti que ele tava falando de mim. Que estava me denunciando aos policiais.
Vi quando os três olharam pra mim. Vi quando o cara voltou correndo pra banca de revistas. Vi quando os policiais começaram a caminhar na minha direção.
Tive certeza que eles iam me dar voz de prisão.
Então, corri desabaladamente em direção a porta do prédio. Consegui entrar no elevador antes que eles me pegassem.
Que situação absurda.
Juro que não consigo entender o que deu no cara da banca. Como que ele chama a polícia pra mim? O que ele tem a ver com a minha vida? O que ele sabe de mim? Ele não sabe nada sobre o que estou passando e ainda chama a polícia para mim? Eu sou uma pessoa de bem, apenas atravessando uma crise de... uma crise de abstinência e isso me deixa um pouco nervoso, um pouco inseguro.
Interrompi o fluxo do meu pensamento porque me dei conta do óbvio: o coitado do atendente da banca de revistas não tinha como saber da crise que estou passando.
Com certeza ele não fez por mal. Ficou observando meu comportamento, achou tudo muito estranho e resolveu chamar a polícia.
É a pessoa deixando de se preocupar com a própria vida e com seu próprio trabalho para se ocupar com a vida dos outros.7
Aliás, não sei se vocês já notaram, é impressionante como estas pessoas que trabalham em bancas de rua. Todos os vendedores ambulantes, os camelôs, os trabalhadores do comércio informal. Ele têm o hábito de ficar de olho em tudo o que acontece no mundo ao seu redor.
Eles têm verdadeira obsessão por ficar de olho em todas as pessoas e em todos os grandes e pequenos acontecimentos à sua volta. Sacam o que acontece nas ruas mais do que a polícia que é paga pra fazer isso.
Camelô e repórter estão ligados em tudo que se passa.
É lógico que pra toda essa massa de gente que trabalha na rua o tempo passará mais rápido e o trabalho ficará mais leve e menos tedioso, se eles ficarem observando o movimento humano ao seu redor.
Todo acontecimento tá valendo. Pode ser o acidente mais terrível. Pode ser um incidente corriqueiro. Do atentado de 11 de setembro nos States ao escorregão de um pedestre em dia de chuva. Da senhora de idade que tomou um saidinha de banco ao tsunami.
Tudo passa a ser um mega acontecimento.
A rotina é monótona.
Os fregueses nem sempre aparecem.
Então, a mulher gorda que quebrou o salto do sapato, vira assunto. O cara que passou a mão na bunda da mulher de verde, fica três dias na boca do povo. O bêbado que fez xixi no balcão da lancheria, vira motivo de chacota. Quando nada acontece tem as bombásticas manchetes do Diário Gaúcho.
E aí, quem conta um conto aumenta um ponto. Tudo passa a ser comentado e aumentado. Entre os próprios comerciantes.
Aí você entra numa banca de revistas apenas para comprar umas palavras-cruzadas e acaba tendo que escutar a interminável história do homem que só podia estar armado.
- O cara só podia tá armado. Primeiro se escondeu atrás do hidrante. Ficou fingindo que amarrava o sapato. Era certo que o cara ia assaltar a agência do Banco do Brasil. Tive que avisar a polícia.
Fui flagrado pela imensa perspicácia de um simples atendente de banca de revistas.
Pensando bem, não é só com os comerciantes de rua que isso acontece, pois com aqueles que trabalham fechados em tabacarias, mercearias, açougues e outras profissões do gênero, também se passa a mesma coisa.
Ficam a espreita dos fregueses não só para vender seus produtos, mas também carentes de uma boa conversinha para passar o tempo. Qualquer bate-papo serve pra quebrar a rotina. Pra romper o regime de silêncio a que estão submetidos por força da profissão.
Se você, é um incauto, entra apenas para comprar algo, e cai na asneira de puxar um assunto qualquer, tá perdido. Seja qual for o assunto, de futebol às condições do tempo, da carestia à saúde do papa, o vendedor vai pedir licença para expressar sua opinião.
Normalmente a opinião dele é a única verdade sobre o assunto e pronto.
E ele vai desenvolver o assunto até que você vá a nocaute.
O melhor é jogar logo a toalha no chão e colocar um ponto final na conversa.
Mas, se ele for mesmo bom, já terá conseguido se apropriar de pelo menos uns bons vinte e cinco minutos do seu precioso tempo. E logo entrará a próxima vítima. Se é que já não entrou alguma outra pessoa perguntando: “Será que chove hoje?”
Tudo isso eu pensei enquanto o elevador subia. Por mim ele poderia continuar subindo infinitamente, porque ali dentro eu tava me sentindo protegido.
Nervoso, suando, mas seguro.
No oitavo andar as portas se abrem. É o meu. Fecho os olhos. Espio.
Ponto para mim: nenhum colega para me oferecer um cigarro.
Saio do elevador.
Avisto o Áureo lá no fundo do corredor.
Avanço quase correndo ao encontro dele.
De repente, todas as portas do corredor se abrem.
Miserável! Ele tava sendo usado como isca contra mim.
- Era um plano.
Pensei em voltar correndo para o elevador, mas era tarde demais.
De cada porta apareceram três ou quatro sujeitos risonhos. Ao todo são uns doze “amigos”, mais uns seis ou sete japoneses, fazendo uma grande recepção pra mim.
Uma sonora e... fumacenta recepção, já que todos, inclusive os japoneses, é claro, estavam com seus cigarros acesos. Depois de soprarem juntos, uma gigantesca baforada de fumaça direto no meu rosto, berraram em uníssono: “Bem-vindo, nosso querido ex-fumante e grande mestre gordo”.
Deram uma segunda tragada e repetiram a carga.
Entre abraços e tapinhas nas costas, tive que ouvir (e fazer uma cara compreensiva e sorridente) mais de oitenta e nove piadinhas infames sobre parar de fumar.
- “Você conhece aquela do cara que parou de fumar”?
Daí pra frente, foi tudo como eu havia previsto: cinqüenta minutos de puro e requintado deboche em cima da minha cara e da minha opção.
E vá cigarro. E vá fumaça na minha cara.
E saber que em seguida teria que enfrentar, no mínimo, umas seis horas de uma reunião tensa e concentrada.
Éramos quatorze pessoas dentro da sala hermeticamente fechada, com o ar-condicionado ligado no mínimo, luzes acesas, cinzeiros abarrotados de baganas.
Os colegas fumavam pelos cotovelos e todos seus maços de cigarros estavam mesmo em cima da mesa.
Só que agora não era só pra me atormentar.
Cada um deles acreditava piamente que o cigarro estava lhes auxiliando a relaxar, diminuir a tensão, evitar o stress excessivo, aliviar o compromisso de ter que acertar.
Era como se a fumaça inalada pudesse, quando exalada, sair junto com alguma ideia brilhante. Em cada tragada poderia estar a ideia genial que precisávamos para capturar uma nova e recheada conta.
Era um cliente estrangeiro que estava agora começando a explorar o mercado brasileiro. Mega negócio pra ninguém botar defeito.
Eu fiquei firme. Suando. Resisti bravamente até o final. Não peguei nenhum cigarro. Não toquei em cigarro.
Também, nem precisava, tal a quantidade de fumaça que contaminava completamente o ambiente com os mais de quatro mil elementos nocivos contidos no cigarro.
Além disso, a reunião estava mesmo concentrada, não dava nem tempo pra pensar em cigarro. Lá pelas tantas notei que o ar da sala estava saturado, pesado. Falei em voz alta: “Empestado”.
O Braga deu um grito. Acendeu um cigarro no outro e disse: “Meu querido, gênio. Emprestado! É isso. É isso”.
Completamente por acaso defini a reunião.
Aguiar disse na frente de todo mundo que ia me dar um aumento. Eu acabara de criar todo conceito da campanha que se apoiaria nas palavras: emprestar; empréstimo; emprestado; emprestador; auxiliar-se reciprocamente.
Terminamos. O consenso foi atingido, as tarefas definidas e designadas.
Como todo final de reunião de agência de publicidade uma ideia genial que transformará o mundo dos negócios e os rumos da propaganda havia sido encontrada e a felicidade era ampla, geral e irrestrita.
A Guadalupe entrou na sala com refrigerante, água e salgadinhos. Com uma atrevidíssima mini-saia de camurça branca, tão justa e tão curta que congelou os olhares de todos.
Os japoneses exclamaram algo como: Onotako-she-imura-taketako-nô-ongo-teashi-suzuki-yamaha, e riram em conjunto muito alto e com muito prazer.
Ficamos curiosos com a reação deles e perguntamos ao tradutor o que havia se passado.
Ele respondeu traduzindo a frase: pouco pano, muita sedução.
Legítima piada japa. Completamente sem graça, mas rimos também bastante para não perder o negócio.
Nós, da agência estávamos exultantes por que a campanha foi aprovada. O cliente aprovou a campanha e ficou ultra contente porque sentiu no ato que iria faturar muito mais do que havia pensado.
E o consumidor, com certeza, ficará mais contente ainda quando for bombardeado pela mídia e obrigado a experimentar o produto.
Assim que a Guadalupe saiu da sala e reunião foi terminando. Os japoneses despediram-se com trezentas reverências.
Povo simpático e educado, os japoneses.
Nós ainda conversamos por mais uns minutos e descemos juntos ao térreo. Dali, a maioria dos parceiros de reunião despediu-se e cada um pegou o rumo de casa.
Provavelmente, era o que eu devia ter feito, mas não fiz.
Resolvi sair junto com outros cinco colegas, até o café do outro lado da rua. Seguidamente costumávamos ir até ali só pra tomar um cafezinho. E comentar à respeito das brilhantes ideias que não foram usadas.
Só que o bar de sempre estava fechado.
Então, fomos obrigados a caminhar duas quadras à frente e trocar o singelo cafezinho, que estávamos dispostos a beber, por uma bela e gelada rodada de cerveja.
O que era para ser uma rápida despedida virou uma verdadeira comemoração pela aprovação da campanha. Pelo menos foi este o motivo anunciado para acalmar qualquer parcela de culpa que pudesse haver em qualquer um de nós. Se a gente tava dando uma esticadinha tinha um bom motivo. Chegar atrasado, e um tanto embriagado, em casa, era a preocupação principalmente dos casados.
Em nome da verdade, é bom que se diga que qualquer motivo sempre era um bom motivo para brindarmos alguma coisa e tomarmos um ou dois engradados de cerveja.
Os primeiros brindes deram lugar a uma comemoração de final de copa do mundo.
Na terceira rodada éramos os mais criativos de todo o mundo publicitário.
Na quarta, nossa agência ficou sendo a melhor do planeta.
Na sexta, estávamos com filiais nos sete continentes.
Na sétima, eu nem lembrava mais quem eu era e os assuntos pipocavam e tudo tinha se transformado numa pequena farra. Conversa em volume alto. Gargalhadas e barulho de copos sempre cheios. Comentários jocosos, tiradas maliciosas.
Os cinzeiros eram trocados pelo garçom que abastecia e organizava a mesa.
Cigarros em profusão. Um fumeiro colossal.
Papo vai, papo vem, eu peguei um cigarro, sem pensar, sem perceber o quê estava fazendo.
Fiquei com o inimigo entre os dedos, brincando, rolando o cigarro, passando-o de uma mão para outra, até que alguém tão distraído quanto eu me passou o isqueiro.
Ato contínuo: levei o cigarro à boca e acendi o isqueiro.
Fiquei menos de um segundo olhando para a chama ainda sem entender o quê estava prestes a acontecer.
Quando, fatalmente, encostei a chama incandescente na pira olímpica, a platéia inteira aplaudiu delirantemente, eu não enxergava mais nada.
Quando, finalmente levei o cigarro aos lábios e ia acendê-lo, dando a primeira tragada, alguém salvou minha vida.
Só pode ter sido obra de Jesus.
Num acesso de tosse, engasgado pela casquinha de um pastel ou pela farinha de rosca do croquete, sei lá, um dos meus companheiros, virou seu copo de cerveja, acertando em cheio no cigarro e na chama do isqueiro. Pontaria fatal.
Inicialmente, fiquei maravilhado com o milagre. Depois, agradecido. À seguir, decepcionado.
Finalmente, agradeci a intervenção divina que me salvou de voltar a fumar num momento de embriaguez
 Não fumei.
Fui salvo. Estou salvo. Jesus me ama.
Aproveitei o milagre para me despedir e voltar correndo pra casa pensando que era uma pena eu não ter conseguido dar nem a primeira tragadinha.

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