segunda, 31/7/2000
Estacionei o carro no parquímetro da
praça, atravessei a rua e andei, com o passo firme e resoluto como se fosse me
encaminhar direto para o elevador.
Voltei seis vezes da porta do prédio
até a esquina da banca de revistas. Tava criando coragem de entrar no edifício
da agência.
Quando eu chegava na porta sentia um
frio na espinha. Um tremor nas vistas. Minhas pernas afrouxavam.
Passei pela frente do prédio sem parar
e fui até a banca de revistas.
O cara da banca de revistas já me
conhecia de vista. Cumprimentou com um aceno de cabeça.
Comprei um jornal qualquer e voltei
até onde estava o carro.
Até aí tudo normal.
O cara da banca viu todo meu percurso
e achou tudo bem normal, como se eu tivesse esquecido alguma coisa no carro.
Na segunda vez que repeti o mesmo
trajeto e quase comprei de novo o mesmo jornal, o cara já achou um pouco
estranho.
- Sujeito esquisito, pensou ele.
Na terceira vez ele já estava me olhando como se eu fosse
suspeito de algum crime.
Quando viu que, pela quarta vez, eu me
dirigia para a porta do edifício da agência, o cara começou a prestar atenção
em mim.
Percebeu que fiquei parado por alguns
segundos alguns metros antes da portaria e que depois voltei quase correndo
para o carro estacionado na praça.
Não entrei no carro.
Fiquei semi escondido atrás de um
hidrante fingindo que estava amarrando o sapato do pé esquerdo.
Acho que eu tava falando sozinho
tentando convencer-me de parar de fazer fiasco e entrar logo naquele edifício.
Daí ele teve certeza que eu tava
preparando algum golpe.
Imaginou que eu estava me comunicando
com o chefe da quadrilha. Pensou pela primeira vez em chamar a polícia.
Na minha quinta desistência, ele não
resistiu. Viu que eu saí detrás do hidrante. Viu eu caminhar até o poste.
Fiquei um tempo ali meio escondido. Já
suando as bicas, olhei para os dois lados, e atravessei a rua. Caminhei direto
pra porta. Tava entrando no prédio e voltei quase correndo para o hidrante. Me
sentei no cordão da calçada e percebi que eu tava tremendo muito. Fui abaixando
e fingi que estava amarrando os sapatos.
Aí o cara da banca teve plena certeza
que eu estava planejando algo de ruim. Sempre de olho em mim e na banca, ele andou
na direção de uma dupla de policiais que tava do outro lado da praça. E aí foi
minha vez de perceber o que estava se passando. Senti que ele tava falando de
mim. Que estava me denunciando aos policiais.
Vi quando os três olharam pra mim. Vi
quando o cara voltou correndo pra banca de revistas. Vi quando os policiais
começaram a caminhar na minha direção.
Tive certeza que eles iam me dar voz
de prisão.
Então, corri desabaladamente em
direção a porta do prédio. Consegui entrar no elevador antes que eles me
pegassem.
Que situação absurda.
Juro que não consigo entender o que
deu no cara da banca. Como que ele chama a polícia pra mim? O que ele tem a ver
com a minha vida? O que ele sabe de mim? Ele não sabe nada sobre o que estou
passando e ainda chama a polícia para mim? Eu sou uma pessoa de bem, apenas atravessando
uma crise de... uma crise de abstinência e isso me deixa um pouco nervoso, um
pouco inseguro.
Interrompi o fluxo do meu pensamento
porque me dei conta do óbvio: o coitado do atendente da banca de revistas não
tinha como saber da crise que estou passando.
Com certeza ele não fez por mal. Ficou
observando meu comportamento, achou tudo muito estranho e resolveu chamar a
polícia.
É a pessoa deixando de se preocupar
com a própria vida e com seu próprio trabalho para se ocupar com a vida dos
outros.7
Aliás, não sei se vocês já notaram, é
impressionante como estas pessoas que trabalham em bancas de rua. Todos os
vendedores ambulantes, os camelôs, os trabalhadores do comércio informal. Ele têm
o hábito de ficar de olho em tudo o que acontece no mundo ao seu redor.
Eles têm verdadeira obsessão por ficar
de olho em todas as pessoas e em todos os grandes e pequenos acontecimentos à
sua volta. Sacam o que acontece nas ruas mais do que a polícia que é paga pra
fazer isso.
Camelô e repórter estão ligados em
tudo que se passa.
É lógico que pra toda essa massa de
gente que trabalha na rua o tempo passará mais rápido e o trabalho ficará mais
leve e menos tedioso, se eles ficarem observando o movimento humano ao seu
redor.
Todo acontecimento tá valendo. Pode
ser o acidente mais terrível. Pode ser um incidente corriqueiro. Do atentado de
11 de setembro nos States ao escorregão de um pedestre em dia de chuva. Da
senhora de idade que tomou um saidinha de
banco ao tsunami.
Tudo passa a ser um mega acontecimento.
A rotina é monótona.
Os fregueses nem sempre aparecem.
Então, a mulher gorda que quebrou o
salto do sapato, vira assunto. O cara que passou a mão na bunda da mulher de
verde, fica três dias na boca do povo. O bêbado que fez xixi no balcão da
lancheria, vira motivo de chacota. Quando nada acontece tem as bombásticas
manchetes do Diário Gaúcho.
E aí, quem conta um conto aumenta um
ponto. Tudo passa a ser comentado e aumentado. Entre os próprios comerciantes.
Aí você entra numa banca de revistas
apenas para comprar umas palavras-cruzadas e acaba tendo que escutar a interminável
história do homem que só podia estar armado.
- O cara só podia tá armado. Primeiro
se escondeu atrás do hidrante. Ficou fingindo que amarrava o sapato. Era certo
que o cara ia assaltar a agência do Banco do Brasil. Tive que avisar a polícia.
Fui flagrado pela imensa perspicácia de
um simples atendente de banca de revistas.
Pensando bem, não é só com os
comerciantes de rua que isso acontece, pois com aqueles que trabalham fechados em
tabacarias, mercearias, açougues e outras profissões do gênero, também se passa
a mesma coisa.
Ficam a espreita dos fregueses não só
para vender seus produtos, mas também carentes de uma boa conversinha para
passar o tempo. Qualquer bate-papo serve pra quebrar a rotina. Pra romper o regime
de silêncio a que estão submetidos por força da profissão.
Se você, é um incauto, entra apenas
para comprar algo, e cai na asneira de puxar um assunto qualquer, tá perdido. Seja
qual for o assunto, de futebol às condições do tempo, da carestia à saúde do
papa, o vendedor vai pedir licença para expressar sua opinião.
Normalmente a opinião dele é a única verdade
sobre o assunto e pronto.
E ele vai desenvolver o assunto até
que você vá a nocaute.
O melhor é jogar logo a toalha no chão
e colocar um ponto final na conversa.
Mas, se ele for mesmo bom, já terá
conseguido se apropriar de pelo menos uns bons vinte e cinco minutos do seu
precioso tempo. E logo entrará a próxima vítima. Se é que já não entrou alguma
outra pessoa perguntando: “Será que chove hoje?”
Tudo isso eu pensei enquanto o elevador
subia. Por mim ele poderia continuar subindo infinitamente, porque ali dentro
eu tava me sentindo protegido.
Nervoso, suando, mas seguro.
No oitavo andar as portas se abrem. É
o meu. Fecho os olhos. Espio.
Ponto para mim: nenhum colega para me
oferecer um cigarro.
Saio do elevador.
Avisto o Áureo lá no fundo do
corredor.
Avanço quase correndo ao encontro
dele.
De repente, todas as portas do
corredor se abrem.
Miserável! Ele tava sendo usado como
isca contra mim.
- Era um plano.
Pensei em voltar correndo para o
elevador, mas era tarde demais.
De cada porta apareceram três ou
quatro sujeitos risonhos. Ao todo são uns doze “amigos”, mais uns seis ou sete
japoneses, fazendo uma grande recepção pra mim.
Uma sonora e... fumacenta recepção, já
que todos, inclusive os japoneses, é claro, estavam com seus cigarros acesos.
Depois de soprarem juntos, uma gigantesca baforada de fumaça direto no meu rosto,
berraram em uníssono: “Bem-vindo, nosso querido ex-fumante e grande mestre
gordo”.
Deram uma segunda tragada e repetiram
a carga.
Entre abraços e tapinhas nas costas,
tive que ouvir (e fazer uma cara
compreensiva e sorridente) mais de oitenta e nove piadinhas infames sobre
parar de fumar.
- “Você conhece aquela do cara que
parou de fumar”?
Daí pra frente, foi tudo como eu havia
previsto: cinqüenta minutos de puro e requintado deboche em cima da minha cara e
da minha opção.
E vá cigarro. E vá fumaça na minha
cara.
E saber que em seguida teria que
enfrentar, no mínimo, umas seis horas de uma reunião tensa e concentrada.
Éramos quatorze pessoas dentro da sala
hermeticamente fechada, com o ar-condicionado ligado no mínimo, luzes acesas, cinzeiros
abarrotados de baganas.
Os colegas fumavam pelos cotovelos e
todos seus maços de cigarros estavam mesmo em cima da mesa.
Só que agora não era só pra me
atormentar.
Cada um deles acreditava piamente que
o cigarro estava lhes auxiliando a relaxar, diminuir a tensão, evitar o stress
excessivo, aliviar o compromisso de ter que acertar.
Era como se a fumaça inalada pudesse,
quando exalada, sair junto com alguma ideia brilhante. Em cada tragada poderia
estar a ideia genial que precisávamos para capturar uma nova e recheada conta.
Era um cliente estrangeiro que estava
agora começando a explorar o mercado brasileiro. Mega negócio pra ninguém botar
defeito.
Eu fiquei firme. Suando. Resisti
bravamente até o final. Não peguei nenhum cigarro. Não toquei em cigarro.
Também, nem precisava, tal a
quantidade de fumaça que contaminava completamente o ambiente com os mais de
quatro mil elementos nocivos contidos no cigarro.
Além disso, a reunião estava mesmo
concentrada, não dava nem tempo pra pensar em cigarro. Lá pelas tantas notei
que o ar da sala estava saturado, pesado. Falei em voz alta: “Empestado”.
O Braga deu um grito. Acendeu um
cigarro no outro e disse: “Meu querido, gênio. Emprestado! É isso. É isso”.
Completamente por acaso defini a
reunião.
Aguiar disse na frente de todo mundo
que ia me dar um aumento. Eu acabara de criar todo conceito da campanha que se
apoiaria nas palavras: emprestar;
empréstimo; emprestado; emprestador; auxiliar-se reciprocamente.
Terminamos. O consenso foi atingido,
as tarefas definidas e designadas.
Como todo final de reunião de agência
de publicidade uma ideia genial que transformará o mundo dos negócios e os rumos
da propaganda havia sido encontrada e a felicidade era ampla, geral e
irrestrita.
A Guadalupe entrou na sala com
refrigerante, água e salgadinhos. Com uma atrevidíssima mini-saia de camurça
branca, tão justa e tão curta que congelou os olhares de todos.
Os japoneses exclamaram algo como:
Onotako-she-imura-taketako-nô-ongo-teashi-suzuki-yamaha, e riram em conjunto
muito alto e com muito prazer.
Ficamos curiosos com a reação deles e
perguntamos ao tradutor o que havia se passado.
Ele respondeu traduzindo a frase: pouco
pano, muita sedução.
Legítima piada japa. Completamente sem
graça, mas rimos também bastante para não perder o negócio.
Nós, da agência estávamos exultantes
por que a campanha foi aprovada. O cliente aprovou a campanha e ficou ultra contente
porque sentiu no ato que iria faturar muito mais do que havia pensado.
E o consumidor, com certeza, ficará mais
contente ainda quando for bombardeado pela mídia e obrigado a experimentar o
produto.
Assim que a Guadalupe saiu da sala e
reunião foi terminando. Os japoneses despediram-se com trezentas reverências.
Povo simpático e educado, os
japoneses.
Nós ainda conversamos por mais uns
minutos e descemos juntos ao térreo. Dali, a maioria dos parceiros de reunião
despediu-se e cada um pegou o rumo de casa.
Provavelmente, era o que eu devia ter
feito, mas não fiz.
Resolvi sair junto com outros cinco
colegas, até o café do outro lado da rua. Seguidamente costumávamos ir até ali
só pra tomar um cafezinho. E comentar à respeito das brilhantes ideias que não
foram usadas.
Só que o bar de sempre estava fechado.
Então, fomos obrigados a caminhar duas
quadras à frente e trocar o singelo cafezinho, que estávamos dispostos a beber,
por uma bela e gelada rodada de cerveja.
O que era para ser uma rápida
despedida virou uma verdadeira comemoração pela aprovação da campanha. Pelo
menos foi este o motivo anunciado para acalmar qualquer parcela de culpa que
pudesse haver em qualquer um de nós. Se a gente tava dando uma esticadinha
tinha um bom motivo. Chegar atrasado, e um tanto embriagado, em casa, era a preocupação
principalmente dos casados.
Em nome da verdade, é bom que se diga
que qualquer motivo sempre era um bom motivo para brindarmos alguma coisa e
tomarmos um ou dois engradados de cerveja.
Os primeiros brindes deram lugar a uma
comemoração de final de copa do mundo.
Na terceira rodada éramos os mais
criativos de todo o mundo publicitário.
Na quarta, nossa agência ficou sendo a
melhor do planeta.
Na sexta, estávamos com filiais nos
sete continentes.
Na sétima, eu nem lembrava mais quem
eu era e os assuntos pipocavam e tudo tinha se transformado numa pequena farra.
Conversa em volume alto. Gargalhadas e barulho de copos sempre cheios. Comentários
jocosos, tiradas maliciosas.
Os cinzeiros eram trocados pelo garçom
que abastecia e organizava a mesa.
Cigarros em profusão. Um fumeiro
colossal.
Papo vai, papo vem, eu peguei um
cigarro, sem pensar, sem perceber o quê estava fazendo.
Fiquei com o inimigo entre os dedos,
brincando, rolando o cigarro, passando-o de uma mão para outra, até que alguém
tão distraído quanto eu me passou o isqueiro.
Ato contínuo: levei o cigarro à boca e
acendi o isqueiro.
Fiquei menos de um segundo olhando
para a chama ainda sem entender o quê estava prestes a acontecer.
Quando, fatalmente, encostei a chama
incandescente na pira olímpica, a platéia inteira aplaudiu delirantemente, eu
não enxergava mais nada.
Quando, finalmente levei o cigarro aos
lábios e ia acendê-lo, dando a primeira tragada, alguém salvou minha vida.
Só pode ter sido obra de Jesus.
Num acesso de tosse, engasgado pela
casquinha de um pastel ou pela farinha de rosca do croquete, sei lá, um dos
meus companheiros, virou seu copo de cerveja, acertando em cheio no cigarro e
na chama do isqueiro. Pontaria fatal.
Inicialmente, fiquei maravilhado com o
milagre. Depois, agradecido. À seguir, decepcionado.
Finalmente, agradeci a intervenção
divina que me salvou de voltar a fumar num momento de embriaguez
Não fumei.
Fui salvo. Estou salvo. Jesus me ama.
Aproveitei o milagre para me despedir
e voltar correndo pra casa pensando que era uma pena eu não ter conseguido dar
nem a primeira tragadinha.
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