sábado, 09/12/2001
Continuo minha busca pela
independência do vício de fumar.
Fiel ao desejo de empregar técnicas
mais modernas para vencer este corpo a corpo contra o cigarro.
Hoje, chegando na agência, em pleno
elevador, tive a honra de ser apresentado a Monsieur Zyban. O mágico Zyban.
Subi do térreo ao oitavo andar
escutando a conversa de duas estagiárias sobre o maior inibidor do hábito de
fumar em todos os tempos: o tal Zyban.
Magia pura. Química pura.
É puro cloridrato de bupropiona. Um
antidepressivo da pesada
Mas, nestes tempos de Viagra, o que
não devemos esperar da indústria farmacêutica?
Zyban é um choque químico na vontade
de fumar.
Um chute no saco do cigarro.
A loirinha explicou para a ruivinha de
lenço no pescoço que o remédio serve pra suprimir os efeitos da abstinência à
nicotina. Elimina o desejo pelo fumo.
Saquei na hora: ele atua ordenando ao
paciente que se sinta bem. Induz o paciente para uma nítida sensação de
bem-estar, completude e onipotência. O paciente, num passe de mágica, passa a azer
de conta que nada está acontecendo. Que todos os sintomas da abstinência que ele
estava sentindo momentos atrás foram embora. Saíram para dançar salsa e
merengue.
Foi paixão à primeira vista.
Pela ruivinha de lenço e por esta
droga maravilhosa.
Passei do meu andar e desci no décimo quarto.
Dei um sorriso para estabelecer um
contato e agradecer a informação.
Lancei um olhar número quarenta e oito
para a ruivinha.
O olhar quarenta e oito é aquele que
radiografa em centésimos de segundo o objeto olhado. Ele quase xerografa a
mulher olhada. Tanto passa informações quanto recebe. Transmite claramente que
você está a fim da pessoa. Que ela se encontra na sua mira masculina.
E, por outro lado, percebe a idade, a
cor da pele, o volume dos seios, o aspecto geral. E ainda a confirmação do
olhar dela a respeito do seu.
E mais ainda, de lambuja, antes que o
elevador fechasse sua porta, neste micro tempo que durou meu olhar quarenta e
oito pode até enxergar o nome dela no crachá: Samantha.
Sugestivo, né?
Ruivinha, de sorriso malicioso e
lencinho no pescoço, vinte e cinco anos... Samantha...
- E o nome do remédio?
Esperei o elevador retornar. Apertei
no oito, mas voltei ao térreo outra vez. Esqueci de descer no meu andar. Tava
concentrado, tentando lembrar o nome que a loirinha havia dito.
- Zyban.
O mágico Zyban.
Aproveitei que estava no térreo e fui direto
para a farmácia.
Direto, na verdade, não.
Fiz a volta na quadra porque desde o
fatídico dia da minha volta ao trabalho, em que fui perseguido pela polícia,
nunca mais passei na frente da banca de revistas. Fiquei com trauma. E se o
atendente chamasse os homens outra vez?
Na farmácia, o balconista me explicou
que eu devia começar a tomar o remédio duas semanas antes da data que eu
marcasse pra parar. Disse também que, se eu persistisse tomando a droga por
oito a doze semanas eu, praticamente, não sentiria os efeitos da minha
compulsão pelo cigarro. De cara a vontade de fumar reduziria a, praticamente,
zero.
Comprei seis caixas ou o equivalente
para quinze semanas.
Voltei para a agência.
Desta vez desci no meu andar e fui
direto para o banheiro.
Sentei no vaso, abri a bula e procurei
avidamente os efeitos colaterais. No fim das contas é tudo que a gente quer
saber de um remédio moderno. Ainda mais, quando se trata da maravilha das
maravilhas. A redenção do vício de fumar. O mais fiel aliado daquele que quer
se livrar do hábito de fumar. Um hábito medonho que fica incrustado no ser mais
íntimo da pessoa.
É óbvio ululante, como diria o
dramaturgo Nelson Rodrigues, que uma maravilha destas tem que conter uma
quantidade enorme de efeitos colaterais. Os testados e os não-testados.
Chamou minha atenção e me deixou
arrepiado, o fato de que a bula divide a parte ruim em: contra-indicações, precauções, advertências, interações medicamentosas e
reações adversas. O resultado é uma interminável lista de possíveis danos.
Os principais efeitos colaterais são:
insônia, nervosismo ou ansiedade, dores de cabeça, problemas relacionados aos
órgãos dos sentidos: zumbido, distúrbios visuais e alterações do paladar, além
de tremores, tonteiras e ressecamento da boca.
Tudo coisas que eu sinto quando fico
sem fumar como estou agora.
Tem outras coisas que assustam mais e
que eu nem deveria ter lido.
Diz na bula que “a bupropiona pode afetar a
habilidade de desenvolver tarefas que requeiram raciocínio ou direção e
habilidades cognitivas. Os pacientes devem, por isso, ter cuidado ao dirigir ou
operar máquinas até que estejam certos de que ZYBAN® não afetou adversamente
sua performance.
O que a gente deve fazer pra ter
certeza que não foi afetado adversamente, não diz na bula.
Mas vai adiante: “houve raros relatos de eritema multiforme”. Traduzindo: são
erupções e lesões cutâneas e nas mucosas.
Ora, coisa nada preocupante.
Pior é a “síndrome de Stevens-Johnson”, que começa também com uma lesão
cutânea, mas pode se transformar numa forma grave, às vezes fatal, espalhando-se
para os órgãos oral, ocular, genital e anal, podendo alterar o sistema nervoso
central, rins e coração.
Como vocês podem ver a gente fica
entre a cruz e a espada.
Daí a gente pensa: enquanto que nos
efeitos colaterais o que existe é uma probabilidade de acontecer, na síndrome
de abstinência é fato que os sintomas ficam colados em você sem a menor
piedade.
Então vamos ao Super-Remédio.
Ele é, na área química, similar ao um
processo físico utilizado nos anos oitenta, que consistia em aplicar pequenos choques
elétricos na boca, cada vez que o paciente colocava o cigarro na boca. O
sujeito era colocado numa cabine hermeticamente fechada e ali era assombrado de
todas as formas no sentido de passar a fugir do cigarro como o diabo foge da
cruz. Depois de tomar uns quarenta choques, o sujeito desistia caninamente de
fumar.
Qualquer rato do Pavlovski pararia de
fumar depois de dez, doze choques.
Mas o ser humano é mais renitente e
precisa de uns quarenta.
Com o Zyban bastam pouquíssimas doses
para você passe a desviar-se histericamente até de um toco de cigarro amassado
num cinzeiro. Você quase late quando alguém se aproxima com um cigarro. Zyban é
uma droga de altíssima eficiência. Sabe-se lá o que causa mesmo no organismo.
Ainda bem que são poucas doses, já
pensou se eu me livro do vício do cigarro e me vicio em Zyban?
Meu amigo e colega de trabalho, Áureo,
astrólogo nas horas vagas, bateu de leve na porta do banheiro:
- Aguiar, o supremo, tá atrás de ti
por toda a agência.
Saí do banheiro. Agradeci o aviso,
tirei um comprimido da cartela e me encaminhei para a pia.
Quando Áureo percebeu que eu ia tomar
um remédio ordenou que eu parasse imediatamente.
Pensei que ele era um daqueles da
brigada anti-remédio.
- Acho melhor você tomar esse remédio
só amanhã. Amanhã muda a Lua.
E continuou: eu devia, além disso, levar
em consideração as indicações do feng shui, já que sou cavalo no horóscopo
chinês. Eu deveria iniciar o uso de um remédio sempre na parte da tarde.
Agradeci seu interesse, saí do
banheiro e fui direto para minha sala.
Servi um copo d’água e tomei meu
primeiro Zyban.
Confiei tanto no poder do Zyban, que
comprei um cigarro avulso num boteco e coloquei na minha mesa de trabalho.
Botei dentro de uma caixinha de plástico transparente. Ficou bem visível ao
lado do computador.
Tinha visto isso num filme do Danny de
Vitto. O personagem que ele representava tinha parado de fumar e guardava
aquele cigarro somente para um caso de emergência.
Pra mim, era uma provocação.
Cada vez que eu olhava para aquele
cigarro, tinha vontade de vomitar. Revoltava meu estômago.
Mas comecei a notar que quando o tempo
passava e chegava perto da hora da próxima dose minha vontade de fumar
aumentava. O danado do cigarro na caixinha corria um sério risco de ser
devorado. Queimado vivo.
Eu olhava para o cigarro e ele se
transformava. Virava a estagiária ruivinha. A própria Samantha fazendo uma
dançarina do ventre. Samantha, a sedutora. Tirava o lenço do pescoço e fazia a
dança dos sete véus.
Num acesso de lucidez e prevenção arranquei
o cigarro da caixinha transparente.
Despedacei-o sem dó e joguei no lixo.
Tomei mais uma dose de Zyban, e me
considerei vitorioso.
Venci mais um round desta interminável
batalha contra o vício de fumar.
Vini. Vidi. Vici.
Eu, Caius César Modestus, o
ex-fumante.
Desculpem, mas desta vez eu arrasei.
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