domingo, 18/6/2000
Hoje pela manhã arrisquei sair de
casa.
Na verdade fui forçado a sair.
Precisava com urgência comprar alguns
pacotes de unhas postiças.
Sim, eu adquiri o feio hábito de roer
as minhas unhas.
Quase como os dedos. Estão todos
roídos, avermelhados, inflamados.
Mas, roer as unhas é a única maneira
que encontrei de me acalmar um pouco e me sentir menos ansioso.
De antemão, fiz todo um convencimento
a minha própria pessoa de que eu não podia, de jeito nenhum, demorar na rua.
Estaria arriscando cair em tentação e comprar um cigarrinho avulso em qualquer
boteco de esquina.
Era uma manhã de domingo.
Praticamente nenhuma pessoa na rua.
Caminhei direto para a primeira
farmácia, a mais próxima. Achei o que procurava, mas um pouco acima do preço.
Para não ter que ir adiante e ficar
mais tempo exposto, aceitei o preço. Comprei o produto que eles tinham. O cheirinho
adocicado das unhas novas até que é bem gostoso. Só não gostei muito foi da cor:
vermelho escarlate. Vai parecer que meus dedos estão sangrando.
- Vermelho escarlate.
Como não consegui nada mais discreto,
o jeito vai ser manter as mãos nos bolsos quando aparecer alguém. Não quero
despertar suspeitas sobre a minha masculinidade. Muito menos em relação a minha
sanidade mental.
Digo suspeitas, porque o “seu” Ércules me contou (com um ar de agente
secreto) que chegou aos ouvidos dele alguns comentários dos vizinhos. Diziam
que eu estaria me comportando de maneira um tanto estranha devido ao uso
constante da chupeta e das unhas postiças.
Fiz a compra e estava voltando
rapidamente para casa, rezando para que nada de mau me acontecesse... mas dei azar.
Não sei como o Almeida me reconheceu.
Eu havia saído incógnito. Tava sem a
caixinha de Marlboro no bolso da camisa. Tava de óculos escuros. Tava com uma
máscara contra gases para evitar o contato com alguma fumaça de cigarro
alienígena.
E mesmo assim o Almeida me reconheceu.
Ou Almeidinha, como gosta de ser
chamado. Cara legal, com apenas um defeito: é um chato. Chato de galocha. Um
carente de pai e mãe. Um verdadeiro superbond. Só pra dar uma idéia, o
Almeidinha não tinha mãos, tinha ventosas. E a boca do Almeidinha era
totalmente aerodinâmica o que lhe permitia pronunciar 483 palavras por minuto.
Meu primeiro pensamento foi ignorá-lo,
fingir que não o vi.
Mas fiquei indeciso entre fazer uma
cara de distraído e ficar olhando as nuvens, ou um ar de preocupado, envolvido
com alguma situação difícil, um problema insolúvel.
Na última hora optei pelo velho truque
de amarrar os sapatos, tarde demais.
- “Cuidado! Não vá amarrar um sapato
no outro! Ah! Essa foi boa, hein?”
Dei um sorriso amarelo e levantei-me
para cumprimentá-lo. Afinal de contas era um amigo. Um chato, mas um amigo.
Quer dizer, um ex-amigo.
Sim, na verdade era um enviado do
demônio.
Um agente do mal infiltrado em minhas
trincheiras: Almeidinha era um fumante crônico. Além disso, era daquelas
pessoas que conversam com o rosto a um palmo de distância do seu. Sem nenhum
peso na consciência, me atirou longas e fedorentas baforadas na sua cara.
Encontrei o Almeidinha, mais ou menos,
às oito e quarenta.
Duas horas e cinqüenta e três minutos
depois, ou seja às onze e trinta, a gente ainda tava plantado na esquina
conversando.
Uma conversa na qual eu disse:
- “Olá, Almeidinha, bom dia. Quase que
não te vejo!” e depois falei “Tiau! Apareça um dia desses, meu querido!”
Não, não foi falsidade chamá-lo de
“meu querido”. Realmente estava satisfeito com o encontro.
Aliás, pra lá de satisfeito.
O Almeidinha, aquele crápula, tanto
insistiu que acabei aceitando “só um cigarrinho”.
Fumei quatro enquanto ouvia seu
interminável assunto.
Ao meio-dia convidei-o para ir até um
bar pra comprar um maço de cigarros, pois do contrário iria acabar com todos os
dele.
Por sorte ele conhecia o dono do bar e
simplesmente, continuou falando com o homem do bar o mesmo assunto que estava
falando comigo, do mesmo ponto em que estava, como se nós dois fossemos a mesma
pessoa.
Despedi-me do Almeida e voltei a ser
amigo das drogas.
Voltei pra casa completamente
dividido.
Um lado feliz, satisfeito, meio
entorpecido e rindo à toa.
E lá de do fundo emergindo aquela
conhecida voz aborrecida e raivosa do promotor de mim mesmo me acusando de
fracassado.
Onze dias e meio de tortura jogados
fora.
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