sábado, 29/7/2000
Segunda vai ser uma parada dura: tenho
que voltar pra agência.
Além disso, na segunda vai acontecer a
tal reunião importantíssima. Tão importante que já foi adiada duas vezes.
Conta nova. Produto novo.
O lançamento do ano.
Coisa de multinacional.
Só espero que não seja uma nova marca
de cigarros. E que o cliente novo não seja a Souza Cruz ou a Phillip Morris.
Não tenho como escapar. Já pensei em
todas as desculpas possíveis, mas nenhuma é suficientemente sólida para me
tirar dessa reunião.
Poderia dizer que minha avó faleceu,
se não fosse tão pouco original e eu já não tivesse matado minhas três avós e
as duas da minha ex-esposa.
Quem sabe mato a mim mesmo?
Mas daí quem vai telefonar pra avisar?
Não posso aparecer nesta reunião. Não
tô pronto. Tenho que achar um jeito de cancelar. Transferir para daqui uns dez
anos, quando eu me sentir perfeitamente à vontade diante de outros fumantes.
Simplesmente todos fumam.
Tenho certeza que não resistirei todos
aqueles cigarros acesos exalando aquela fumacinha cheirosa, tentadora. A
fumacinha vai penetrando minhas narinas e trazendo recordações que prefiro não
lembrar.
É véspera da véspera e já estou completamente
nervoso. Tô suando nas costas. Minha boca tá se apertando em pequenas fisgadas.
Já sei: vou solicitar gentilmente aos
colegas que se abstenham de fumar na minha presença. Em respeito ao meu
glorioso esforço. Em homenagem a minha nova condição: ex-fumante há doze dias,
dezenove horas e dez minutos consecutivos.
Não é melhor não falar nada.
Fico quieto e, com certeza, nem
lembrarão que estou parando de fumar.
Que nada. Doce ilusão.
O mais provável, conhecendo a fina
estirpe dos meus colegas, a laia de onde provêm, é certo que estarão todos à
minha espera já na porta do elevador. Cada um deles com, no mínimo, quatro
cigarros acesos. Isso se não lembrarem de portar charutos, cachimbos,
palheiros, narguilés e baseados da grossura de um dedo.
Todos terão o maior prazer de soprar
quilos de fumaça em cima de mim. Vão gritar em coro: bem-vindo, gordo.
Claro, porque a gozação não ficará
somente nas possibilidades de deboche e provocação advindas do cigarro, mas
também pelo fato de que estou um pouco mais gordo.
Mentira. Estou bem mais gordo.
A verdade é que estou muito mais
gordo.
Depois, durante a reunião, eles deixarão
todas as suas carteiras de cigarros bem à mostra, da maneira mais convidativa
possível, para que eu me sirva à vontade. Mas se pensam que vão me demover da
idéia de parar de fumar estão muito enganados.
Lutarei até o fim. Só cairei quando o
último homem cair.
Não passarão, miseráveis!
Viva Zapata!
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