sexta-feira, 17 de novembro de 2017

DÉCIMO TERCEIRO DIA.

sábado, 29/7/2000


Segunda vai ser uma parada dura: tenho que voltar pra agência.
Além disso, na segunda vai acontecer a tal reunião importantíssima. Tão importante que já foi adiada duas vezes.
Conta nova. Produto novo.
O lançamento do ano.
Coisa de multinacional.
Só espero que não seja uma nova marca de cigarros. E que o cliente novo não seja a Souza Cruz ou a Phillip Morris.
Não tenho como escapar. Já pensei em todas as desculpas possíveis, mas nenhuma é suficientemente sólida para me tirar dessa reunião.
Poderia dizer que minha avó faleceu, se não fosse tão pouco original e eu já não tivesse matado minhas três avós e as duas da minha ex-esposa.
Quem sabe mato a mim mesmo?
Mas daí quem vai telefonar pra avisar?
Não posso aparecer nesta reunião. Não tô pronto. Tenho que achar um jeito de cancelar. Transferir para daqui uns dez anos, quando eu me sentir perfeitamente à vontade diante de outros fumantes.
Simplesmente todos fumam.
Tenho certeza que não resistirei todos aqueles cigarros acesos exalando aquela fumacinha cheirosa, tentadora. A fumacinha vai penetrando minhas narinas e trazendo recordações que prefiro não lembrar.
É véspera da véspera e já estou completamente nervoso. Tô suando nas costas. Minha boca tá se apertando em pequenas fisgadas.
Já sei: vou solicitar gentilmente aos colegas que se abstenham de fumar na minha presença. Em respeito ao meu glorioso esforço. Em homenagem a minha nova condição: ex-fumante há doze dias, dezenove horas e dez minutos consecutivos.
Não é melhor não falar nada.
Fico quieto e, com certeza, nem lembrarão que estou parando de fumar.
Que nada. Doce ilusão.
O mais provável, conhecendo a fina estirpe dos meus colegas, a laia de onde provêm, é certo que estarão todos à minha espera já na porta do elevador. Cada um deles com, no mínimo, quatro cigarros acesos. Isso se não lembrarem de portar charutos, cachimbos, palheiros, narguilés e baseados da grossura de um dedo.
Todos terão o maior prazer de soprar quilos de fumaça em cima de mim. Vão gritar em coro: bem-vindo, gordo.
Claro, porque a gozação não ficará somente nas possibilidades de deboche e provocação advindas do cigarro, mas também pelo fato de que estou um pouco mais gordo.
Mentira. Estou bem mais gordo.
A verdade é que estou muito mais gordo.
Depois, durante a reunião, eles deixarão todas as suas carteiras de cigarros bem à mostra, da maneira mais convidativa possível, para que eu me sirva à vontade. Mas se pensam que vão me demover da idéia de parar de fumar estão muito enganados.
Lutarei até o fim. Só cairei quando o último homem cair.
Não passarão, miseráveis!
Viva Zapata!

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