terça, 06/06/2000
Hoje não vai dar. Sinto muito, mas
hoje não vou nem tentar. Seria bobagem. Perda total de tempo e desgaste de
energia.
Pra quê vou começar a parar de fumar
se logo, logo a campainha vai tocar anunciando a chegada de dona Sucileyde
Leovegilda Cruz da Silva, minha honorável faxineira?
Ela têm apenas dois defeitos: fuma
enquanto fala e fala enquanto fuma.
Ela lembra o cozinheiro do Recruta
Zero. Não só pelo aspecto físico. Também porque ela tá sempre com o cigarro na
boca. Com uma enorme cinza dependurada. Prestes a cair a qualquer momento.
Pois dona Sucileyde, ou apenas Leyde,
como ela prefere ser chamada, chega por volta de oito e trinta da manhã e se
despede lá pelo final da tarde, entre cinco e seis horas. De maneira que
podemos considerar que são praticamente dez horas de conversa e de fumaça. Ininterruptas.
Antigamente (ou seja, até a semana
passada), eu não considerava que fumar era um defeito dela. Na real, nem me
importava. Eu também colaborava com um considerável volume de fumaça. Eu e dona
Leide juntos transformávamos minha casa numa pequena Cubatão.
Já aquela interminável cachoeira de
palavras, confesso que me incomodava um pouco. Principalmente quando eu, para
não parecer mal educado, retirava os fones de ouvido das orelhas.
Não sei como ela arranjava tempo para
arrumar o aparamento inteiro no meio de tanto cigarro e de tanta conversa.
Eu disse conversa?
Deveria ter dito monólogo.
Honestamente, duvido que qualquer
pessoa consiga expressar mais do que algumas pequenas interjeições no meio da
torrente de palavras que sai da boca de dona Sucileyde.
Mas não pensem que isso é o pior. Não!
Três fatos agravam a situação do
querido ouvinte: (1) o timbre agudo da voz dela, (2) o volume que ela utiliza e
(3) os assuntos que ela escolhe.
O primeiro item deixa o interlocutor
tonto. A voz dela soa como se ela grasnasse. As frases penetram profundamente
no seu tímpano que se contorce em cãibras. Um verdadeiro tormento.
Quanto ao volume, é como se ela
tivesse acoplado um megafone na garganta. Só para que vocês façam uma idéia, um
dia desses, um vizinho perguntou pela filha de dona Sucileyde. Eu disse que não
sabia e perguntei de onde ele conhecia a Dona Leide? Disse-me que não a
conhecia, mas que ouvira lá da residência dele quando ela falou das
dificuldades pelas quais a filha mais velha dela estava passando. Notem bem que
ele ouviu lá do apartamento dele. Ele mora no sétimo andar e eu no décimo
oitavo. Ele mora no edifício da esquina, e eu uns três ou quatro prédios de
distância.
Mas, talvez o pior de todos, seja o
terceiro fator de suplício: os assuntos.
São sempre terríveis, escabrosos,
dramáticos: mortes de causas variadas, atropelamentos e brigas sangrentas,
tiros, facadas, doenças incuráveis, nervos expostos, infortúnios em geral.
Mesmo quando ela comenta alguma novela
do momento, escolhe uma desgraça que fatalmente a lembra de um fato verídico
acontecido com alguma amiga ou parente, quando não com ela mesma.
Então, considerando de antemão às dez
horas de tortura auditiva e suplício olfativo causados por aquela carrasca
involuntária que sopraria no meu rosto a fumaça de, no mínimo, trinta e cinco
cigarros, venho diante deste egrégio tribunal solicitar um breve adiamento
deste processo e a suspensão temporária da pena de parar de fumar no dia de
hoje.
Acordei cedo, enchi os ouvidos de
algodão e esperei dona Sucileyde na porta.
Dei bom dia, lhe ofereci um cigarrinho
(que ela acendeu no dela que estava
terminando) e acendi um pra mim também.
Santa desculpa, Batman!
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