quinta-feira, 23 de novembro de 2017

TEMPO

terça, 06/06/2000

Hoje não vai dar. Sinto muito, mas hoje não vou nem tentar. Seria bobagem. Perda total de tempo e desgaste de energia.
Pra quê vou começar a parar de fumar se logo, logo a campainha vai tocar anunciando a chegada de dona Sucileyde Leovegilda Cruz da Silva, minha honorável faxineira?
Ela têm apenas dois defeitos: fuma enquanto fala e fala enquanto fuma.
Ela lembra o cozinheiro do Recruta Zero. Não só pelo aspecto físico. Também porque ela tá sempre com o cigarro na boca. Com uma enorme cinza dependurada. Prestes a cair a qualquer momento.  
Pois dona Sucileyde, ou apenas Leyde, como ela prefere ser chamada, chega por volta de oito e trinta da manhã e se despede lá pelo final da tarde, entre cinco e seis horas. De maneira que podemos considerar que são praticamente dez horas de conversa e de fumaça. Ininterruptas.
Antigamente (ou seja, até a semana passada), eu não considerava que fumar era um defeito dela. Na real, nem me importava. Eu também colaborava com um considerável volume de fumaça. Eu e dona Leide juntos transformávamos minha casa numa pequena Cubatão.
Já aquela interminável cachoeira de palavras, confesso que me incomodava um pouco. Principalmente quando eu, para não parecer mal educado, retirava os fones de ouvido das orelhas.
Não sei como ela arranjava tempo para arrumar o aparamento inteiro no meio de tanto cigarro e de tanta conversa.
Eu disse conversa?
Deveria ter dito monólogo.
Honestamente, duvido que qualquer pessoa consiga expressar mais do que algumas pequenas interjeições no meio da torrente de palavras que sai da boca de dona Sucileyde.
 Mas não pensem que isso é o pior. Não!
Três fatos agravam a situação do querido ouvinte: (1) o timbre agudo da voz dela, (2) o volume que ela utiliza e (3) os assuntos que ela escolhe.
O primeiro item deixa o interlocutor tonto. A voz dela soa como se ela grasnasse. As frases penetram profundamente no seu tímpano que se contorce em cãibras. Um verdadeiro tormento.
Quanto ao volume, é como se ela tivesse acoplado um megafone na garganta. Só para que vocês façam uma idéia, um dia desses, um vizinho perguntou pela filha de dona Sucileyde. Eu disse que não sabia e perguntei de onde ele conhecia a Dona Leide? Disse-me que não a conhecia, mas que ouvira lá da residência dele quando ela falou das dificuldades pelas quais a filha mais velha dela estava passando. Notem bem que ele ouviu lá do apartamento dele. Ele mora no sétimo andar e eu no décimo oitavo. Ele mora no edifício da esquina, e eu uns três ou quatro prédios de distância.
Mas, talvez o pior de todos, seja o terceiro fator de suplício: os assuntos.
São sempre terríveis, escabrosos, dramáticos: mortes de causas variadas, atropelamentos e brigas sangrentas, tiros, facadas, doenças incuráveis, nervos expostos, infortúnios em geral.
Mesmo quando ela comenta alguma novela do momento, escolhe uma desgraça que fatalmente a lembra de um fato verídico acontecido com alguma amiga ou parente, quando não com ela mesma.    
Então, considerando de antemão às dez horas de tortura auditiva e suplício olfativo causados por aquela carrasca involuntária que sopraria no meu rosto a fumaça de, no mínimo, trinta e cinco cigarros, venho diante deste egrégio tribunal solicitar um breve adiamento deste processo e a suspensão temporária da pena de parar de fumar no dia de hoje.
Acordei cedo, enchi os ouvidos de algodão e esperei dona Sucileyde na porta.
Dei bom dia, lhe ofereci um cigarrinho (que ela acendeu no dela que estava terminando) e acendi um pra mim também.

Santa desculpa, Batman!

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