terça-feira, 21 de novembro de 2017

TERCEIRO DIA.

quarta, 19/7/2000

Essa noite apareceu uma visita: a insônia.
De cara, já percebi que esta seria uma noite daquelas. Passei duas horas tentando encontrar uma posição para dormir. Levantei três vezes para ir ao banheiro. Duas pra ir até a cozinha.
Virei de lado. Um pouco pra cada lado. Depois de barriga para cima. Fiquei de bruços. Não conseguia ajeitar as pernas. Virei para os pés da cama. Joguei os travesseiros no chão. Busquei os travesseiros do chão.
E, finalmente, consegui dormir.
Por seis minutos. Seis míseros minutos e acordei.
Não houve jeito de conciliar o sono novamente.
Ele sumiu sem deixar endereço.
Tomei leite quente. Tomei um chá. Comi alguma coisa salgada. Comi um chocolate. E nada de dormir.
Fui ficando impaciente.
Tentei só pensar em coisas que me trouxessem o sono de volta. Pensar em coisas que me acalmassem e relaxassem.
Só que a única coisa que vinha na minha mente era um belíssimo cigarrinho.
A ideia foi se tornando obsessiva. O inocente cigarrinho foi se transformando em dois e logo em três e logo em quatro e começaram a se multiplicar. Cigarros-coelhos hermafroditas que transavam uns com os outros. E imediatamente nasciam mais cigarros. Esses jovens cigarrinhos já nasciam com uma incrível e precoce vontade de transar.
Era insuportável ainda mais se levarmos em consideração que não era um sonho, pois eu estava acordado.
Os cigarros transavam e se acendiam uns nos outros.
- Tô ficando louco!
Eu sentia até o cheiro.
Rapidamente, eu me vesti pra sair e comprar cigarros. Eu só queria acabar com estas alucinações. Só existia uma solução pra acabar com este delírio “cigarrífero”: fumar.
E não era só o delírio. Eu sentia arrepios pelo corpo inteiro. Sentia uma intensa e estranha vertigem.
O apartamento inteiro estava tomado de cigarros e de fumaça.
Ao chegar à porta lembrei que estava trancada.
Sim, eu tava encerrado dentro do próprio apartamento no décimo-sexto andar. E os cigarros rolavam no chão.
Lembrei da chave reserva! Corri até a cozinha. Afastei os cigarros de cima do balcão.
Abri a gaveta.
Mais de quinhentos cigarros-baratas saíram pela abertura da gaveta.
A chave reserva não estava na gaveta.
Procurei na cozinha inteira.
Não tava cozinha.
E os cigarros trepando e nascendo e multiplicando-se e fumando-se uns aos outros. Atiravam-se da cobertura.
No quarto de hóspedes também não tava.
Nem na minha escrivaninha.
Nem em lugar nenhum e aqueles malditos cigarros não me deixavam pensar.
Lembrei!
Eu não tinha mais uma chave reserva. Dei a chave reserva para o meu filho. Ele precisava fazer uma cópia pra ele.
Tive uma enorme crise de choro sentado no vaso do banheiro e dormi.

Já eram quase cinco horas da manhã. 

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