quarta-feira, 8 de novembro de 2017

OITAVO DIA.


sexta-feira, 08/12/2001
Hoje, ainda em busca de cada vez mais informação, estava assistindo um noticiário da televisão sobre os conflitos do oriente médio.
Era uma matéria do tipo entenda quem é quem. O que cada um quer e quem está matando quem.
Percebi outro grave erro que estou cometendo em relação a minha própria luta que para abandonar o vício do cigarro.
O âncora global falava a notícia num tom de texto-verdade. Enquanto isso, as imagens mostravam o moderníssimo equipamento utilizado pelos comandos norte americanos. Eram armas de última geração tecnológica.
Foi aí que percebi que eu estava lutando contra o cigarro com armas do tempo das cavernas.
O telejornal abriu meus olhos.
Mais uma vez a informação vem ao meu socorro.
Decidi modernizar meus métodos com a máxima urgência. Não quero perder batalha atrás de batalha.
A vontade de fumar não cede, pelo contrário, aumenta, a cada momento.
Entro agora naquele período crucial que vai dos oito aos vinte dias.
Seria fantástico, se não fosse tão doentio, perceber que o corpo inteiro exige a sua cota diária de nicotina de mil maneiras diferentes.
Mas não tem mais volta.
Não vou perder todo o sacrifício passado nestes intermináveis dias.
Pensei nas mais variadas possibilidades de adquirir armas eficientes e modernas no combate ao vício do cigarro. Acabei adotando, inicialmente, uma medida caseira. Encomendei, a mim mesmo, uma campanha de marketing.
Afinal, a propaganda é alma do negócio. De qualquer negócio.
Se nós, da agência, conseguimos aumentar as vendas até daqueles produtos que ninguém precisa, é claro que posso me vender a idéia de que o cigarro faz muito mal para minha saúde.
Assim, adotei uma campanha de propaganda institucional.
Colei cartazes. Instalei faixas. Expus alguns displays em todas as peças da casa: "Cigarro Mata", "Fumar é de última", "O Ministério da Saúde adverte..."
Entupi a casa de pulmões, corações, gente sem dente, sem braço, sem perna, bebês em conserva, fetos anômalos.
Tem mais propaganda na minha casa do que na estrada do mar ou na chegada de Gramado.
O corredor está coberto de propaganda.
É tanta coisa, que hoje pela manhã, levei meia hora pra encontrar a porta do banheiro.
Mas não fiquei somente na mídia impressa. Fiz uso da magnífica força da mídia eletrônica.
Fiz um disfarce para que eu não me reconhecesse, peguei minha câmera e gravei duas horas com mensagens anti tabagistas para veicular na TV no lugar dos comerciais.
 Comprei dois cds com músicas para relaxamento e mensagens para “estimular a força de vontade neste momento difícil”. Mas estes eu nem consegui ouvir de tão chatos que eram.   
Mas a verdade é que a publicidade é uma faca de dois gumes.
Assim como desperta no cliente a vontade imperiosa de experimentar este ou aquele produto, ou de abraçar esta ou aquela idéia, também pode causar um estranho efeito contrário. Pode fazer com que o cliente passe a odiar o produto ou idéia.
É como o ator que faz a propaganda do Bombril há trezentos anos, ou aquele que fazia os comerciais das Casas Bahia.
O garoto-bombril, depois de ajudar a empurrar astronomicamente as vendas do Bombril, teve que passar um tempão na geladeira. Ninguém mais aguentava sequer lembrar da cara dele quando passava por um Bombril na prateleira do supermercado.
O garoto-sorriso das Casas Bahia, que conseguia dizer mais de duzentas palavras em trinta segundos, sumariamente sumiu de cartaz quando o público começou a odiar quando ele aparecia. E atravessava a rua quando via uma loja das Casas Bahia.
No meu caso, cogitei de pensar se me faria bem estar exposto a toda esta propaganda?
Todos os dias ter que ver todos estes cartazes e placas de proibido fumar podem me causar um tremendo efeito contrário. Ao invés de contribuir na perseguição do meu férreo objetivo, minha campanha publicitária vai me causar um imenso desejo de fumar. Nem que seja só pra desobedecer.
Vou pensar mais a respeito, mas no primeiro sinal de fraqueza, arranco todos o material das paredes.  

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