sexta-feira, 08/12/2001
Hoje, ainda em busca de cada vez mais
informação, estava assistindo um noticiário da televisão sobre os conflitos do
oriente médio.
Era uma matéria do tipo entenda quem é
quem. O que cada um quer e quem está matando quem.
Percebi outro grave erro que estou
cometendo em relação a minha própria luta que para abandonar o vício do
cigarro.
O âncora global falava a notícia num
tom de texto-verdade. Enquanto isso, as imagens mostravam o moderníssimo
equipamento utilizado pelos comandos norte americanos. Eram armas de última
geração tecnológica.
Foi aí que percebi que eu estava
lutando contra o cigarro com armas do tempo das cavernas.
O telejornal abriu meus olhos.
Mais uma vez a informação vem ao meu
socorro.
Decidi modernizar meus métodos com a
máxima urgência. Não quero perder batalha atrás de batalha.
A vontade de fumar não cede, pelo
contrário, aumenta, a cada momento.
Entro agora naquele período crucial que
vai dos oito aos vinte dias.
Seria fantástico, se não fosse tão
doentio, perceber que o corpo inteiro exige a sua cota diária de nicotina de
mil maneiras diferentes.
Mas não tem mais volta.
Não vou perder todo o sacrifício
passado nestes intermináveis dias.
Pensei nas mais variadas
possibilidades de adquirir armas eficientes e modernas no combate ao vício do
cigarro. Acabei adotando, inicialmente, uma medida caseira. Encomendei, a mim
mesmo, uma campanha de marketing.
Afinal, a propaganda é alma do negócio.
De qualquer negócio.
Se nós, da agência, conseguimos aumentar
as vendas até daqueles produtos que ninguém precisa, é claro que posso me
vender a idéia de que o cigarro faz muito mal para minha saúde.
Assim, adotei uma campanha de
propaganda institucional.
Colei cartazes. Instalei faixas. Expus
alguns displays em todas as peças da casa: "Cigarro Mata",
"Fumar é de última", "O Ministério da Saúde adverte..."
Entupi a casa de pulmões, corações,
gente sem dente, sem braço, sem perna, bebês em conserva, fetos anômalos.
Tem mais propaganda na minha casa do
que na estrada do mar ou na chegada de Gramado.
O corredor está coberto de propaganda.
É tanta coisa, que hoje pela manhã,
levei meia hora pra encontrar a porta do banheiro.
Mas não fiquei somente na mídia
impressa. Fiz uso da magnífica força da mídia eletrônica.
Fiz um disfarce para que eu não me
reconhecesse, peguei minha câmera e gravei duas horas com mensagens anti
tabagistas para veicular na TV no lugar dos comerciais.
Comprei dois cds com músicas para relaxamento
e mensagens para “estimular a força de vontade neste momento difícil”. Mas
estes eu nem consegui ouvir de tão chatos que eram.
Mas a verdade é que a publicidade é
uma faca de dois gumes.
Assim como desperta no cliente a vontade
imperiosa de experimentar este ou aquele produto, ou de abraçar esta ou aquela
idéia, também pode causar um estranho efeito contrário. Pode fazer com que o
cliente passe a odiar o produto ou idéia.
É como o ator que faz a propaganda do
Bombril há trezentos anos, ou aquele que fazia os comerciais das Casas Bahia.
O garoto-bombril, depois de ajudar a
empurrar astronomicamente as vendas do Bombril, teve que passar um tempão na
geladeira. Ninguém mais aguentava sequer lembrar da cara dele quando passava
por um Bombril na prateleira do supermercado.
O garoto-sorriso das Casas Bahia, que
conseguia dizer mais de duzentas palavras em trinta segundos, sumariamente
sumiu de cartaz quando o público começou a odiar quando ele aparecia. E
atravessava a rua quando via uma loja das Casas Bahia.
No meu caso, cogitei de pensar se me
faria bem estar exposto a toda esta propaganda?
Todos os dias ter que ver todos estes
cartazes e placas de proibido fumar podem me causar um tremendo efeito
contrário. Ao invés de contribuir na perseguição do meu férreo objetivo, minha
campanha publicitária vai me causar um imenso desejo de fumar. Nem que seja só
pra desobedecer.
Vou pensar mais a respeito, mas no
primeiro sinal de fraqueza, arranco todos o material das paredes.
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