sexta-feira, 17 de novembro de 2017

DÉCIMO SEGUNDO DIA.


sexta, 28/7/2000

- Tô pior.
Muito pior. Agora tô com cara de luto.
Ninguém morreu, mas tô de luto.
É como se eu mesmo tivesse morrido e eu mesmo estivesse aqui em pé olhando pra mim com cara de enterro.
Uma tristeza profunda.
Sinto-me consternado. Abatido mesmo.
A depressão se infiltrou no meu ser inteiro.
- Nunca prestei.
Nunca fiz nada direito. Sou mesmo um fracasso.
Péssimo filho. Mau marido. Pai omisso e abandonador.
Um reles boneco nas mãos do destino.
- Quem sou eu? Qual o sentido da minha existência?
Qual o sentido da vida sem um cigarro? Como posso ser tão fraco? Afinal de contas, se eu não posso nem parar de fumar o que mais eu posso conseguir na minha vida?
- Que baboseira.
Mas era assim que eu tava me acusando.
Onde tá a minha força de vontade?
Querer é poder, era uma máxima que escutei durante os dez primeiros anos de minha vida escolar na companhia de jesus.
Esse era um dos lemas preferidos dos jesuítas ou maristas ou la sallistas.
Passei por todos. Estudei em todos os colégios deles.
Querer é poder, diziam eles, e corriam atrás dos meninos querendo muito que a gente sentasse no colo deles.
Querer é poder e hoje estão todos sentados no dinheiro.
Não sei como resisti e não fumei ontem. Nenhum um cigarrinho.
Embora tenha pensado nisso mais ou menos umas quinhentas e sessenta e sete vezes.
Ainda bem que em todas as vezes tive a sensatez de desviar o pensamento. Não caí em tentação.
O problema é que o pensamento é muito teimoso. É um birrento. Vira e mexe, volta a pensar na mesma coisa: cigarro.
Comprar cigarros. Fumar cigarros. Sair pra comprar cigarros. Acender cigarros... Pedir...
Viram só?
Hoje não consigo pensar em outra coisa.
Em outra coisa que não seja um longo, carnudo e saboroso cigarro. Pode ser de qualquer marca.
A idéia não abandona minha mente por um só minuto.
Tô aqui escrevendo, tentando me distrair enquanto distraio os leitores e tentando escrever cada vez mais rápido para não pensar em cigarro.
Vou até falar de outras coisas.
Vamos ver... sobre o quê eu poderia escrever?
- Futebol.
É claro, futebol, assunto universal.
Mas futebol lembra bola que lembra o Inter Campeão do Mundo que lembra gol que lembra vitória que lembra copa do mundo que lembra FIFA que lembra juiz que lembra pênalti que lembra frango que lembra Grêmio e daí, juntou Inter e Grêmio já lembra discussão que lembra boteco que lembra cerveja que lembra discussão que lembra? Acertaram. Cigarro.
- Vamos mudar de assunto. Chega de futebol.
Posso escrever sobre os animais em extinção. Meter um pouco de ecologia na conversa. Já mostro que me preocupo com o meio ambiente.
Com o problema das fábricas.
O problema das chaminés das indústrias.
A fumaça que se espalha no ambiente, e que vem dos... cigarros.
Sacaram?
Da fumaça o pensamento liga direto com cigarro.
Não adianta. Todo e qualquer assunto me leva sempre ao cigarro.
E fico imaginando... pegar um cigarro. Só um.
Sentir nos dedos sua forma cilíndrica. Sua pela macia.
O cheiro do seu aroma.
Vagarosamente colocar entre os lábios e acender.
Aspirar saborosamente uma larga quantidade de fumaça...
Ah! Como me faria bem um cigarrinho agora.
- Com licença, vou comer alguma coisinha.   

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