sexta, 28/7/2000
- Tô pior.
Muito pior. Agora
tô com cara de luto.
Ninguém
morreu, mas tô de luto.
É como se eu
mesmo tivesse morrido e eu mesmo estivesse aqui em pé olhando pra mim com cara
de enterro.
Uma tristeza
profunda.
Sinto-me
consternado. Abatido mesmo.
A depressão
se infiltrou no meu ser inteiro.
- Nunca
prestei.
Nunca fiz
nada direito. Sou mesmo um fracasso.
Péssimo
filho. Mau marido. Pai omisso e abandonador.
Um reles
boneco nas mãos do destino.
- Quem sou
eu? Qual o sentido da minha existência?
Qual o
sentido da vida sem um cigarro? Como posso ser tão fraco? Afinal de contas, se
eu não posso nem parar de fumar o que mais eu posso conseguir na minha vida?
- Que
baboseira.
Mas era
assim que eu tava me acusando.
Onde tá a
minha força de vontade?
Querer é
poder, era uma máxima que escutei durante os dez primeiros anos de minha vida
escolar na companhia de jesus.
Esse era um
dos lemas preferidos dos jesuítas ou maristas ou la sallistas.
Passei por
todos. Estudei em todos os colégios deles.
Querer é
poder, diziam eles, e corriam atrás dos meninos querendo muito que a gente
sentasse no colo deles.
Querer é
poder e hoje estão todos sentados no dinheiro.
Não sei como
resisti e não fumei ontem. Nenhum um cigarrinho.
Embora tenha pensado nisso mais ou
menos umas quinhentas e sessenta e sete vezes.
Ainda bem que em todas as vezes tive a
sensatez de desviar o pensamento. Não caí em tentação.
O problema é que o pensamento é muito
teimoso. É um birrento. Vira e mexe, volta a pensar na mesma coisa: cigarro.
Comprar cigarros. Fumar cigarros. Sair
pra comprar cigarros. Acender cigarros... Pedir...
Viram só?
Hoje não consigo pensar em outra
coisa.
Em outra coisa que não seja um longo,
carnudo e saboroso cigarro. Pode ser de qualquer marca.
A idéia não abandona minha mente por
um só minuto.
Tô aqui escrevendo, tentando me
distrair enquanto distraio os leitores e tentando escrever cada vez mais rápido
para não pensar em cigarro.
Vou até falar de outras coisas.
Vamos ver... sobre o quê eu poderia escrever?
- Futebol.
É claro, futebol, assunto universal.
Mas futebol lembra bola que lembra o
Inter Campeão do Mundo que lembra gol que lembra vitória que lembra copa do
mundo que lembra FIFA que lembra juiz que lembra pênalti que lembra frango que lembra
Grêmio e daí, juntou Inter e Grêmio já lembra discussão que lembra boteco que
lembra cerveja que lembra discussão que lembra? Acertaram. Cigarro.
- Vamos mudar de assunto. Chega de
futebol.
Posso escrever sobre os animais em
extinção. Meter um pouco de ecologia na conversa. Já mostro que me preocupo com
o meio ambiente.
Com o problema das fábricas.
O problema das chaminés das indústrias.
A fumaça que se espalha no ambiente, e
que vem dos... cigarros.
Sacaram?
Da fumaça o pensamento liga direto com
cigarro.
Não adianta. Todo e qualquer assunto
me leva sempre ao cigarro.
E fico imaginando... pegar um cigarro.
Só um.
Sentir nos dedos sua forma cilíndrica.
Sua pela macia.
O cheiro do seu aroma.
Vagarosamente colocar entre os lábios
e acender.
Aspirar saborosamente uma larga
quantidade de fumaça...
Ah! Como me faria bem um cigarrinho
agora.
- Com licença, vou comer alguma
coisinha.
Nenhum comentário:
Postar um comentário