segunda, 11/12/2001
Não sei se vocês já repararam que, via
de regra, todos os índices são alarmantes.
Eu nunca vi um índice que fosse
alarmante.
Em ecologia, por exemplo, nunca se
encontram índices normais de alguma coisa.
Jamais.
Todos são pra lá de alarmantes.
A devastação das florestas destruirá o
planeta em tantos anos.
O buraco na camada de ozônio alcançara
o tamanho de um pequeno asteróide, fazendo com o aquecimento global aumente numa
taxa de 0,013 ao ano, o que significa que o planeta inteiro estará torrado no
ano de 2037.
O efeito estufa. O efeito glacial. El
niño. Os desodorantes spray. O gás carbônico.
Os índices não nos poupam nunca.
Por exemplo, nas eleições para
presidente, governador, no dia seguinte aos tele-debates, sempre aparecem os
índices que o candidato atingiu.
Na sua versão e na versão do oponente.
Desconfio que os índices já nascem
alarmantes.
Ou melhor, existe um acordo tácito
entre todas as agências de notícias do mundo no sentido de só divulgar os
índices alarmantes.
Todo índice que não for alarmante não
deve chegar ao conhecimento do público.
Porque vocês acham que não divulgam
quando existem 3.000 micosleão-dourado e só se fala no assunto quando estão em
extinção e são apenas dois no mundo inteiro?
Porque vocês acham que só sabemos do
tsunami depois que ele aconteceu?
Os cientistas passam o dia inteiro, a
noite inteira, monitorando cada canto do planeta e não sabem antecipar um
negócio desta magnitude?
É só pra depois ter um recorde de
alarmância.
A tabela dos ventos. As ondas foram as
maiores jamais vistas. A poder de destruição foi o maior já verificado na
escala Richter. E em todas as outras escalas já inventadas.
Os índices são alarmantes e pronto.
No que diz respeito ao cigarro, então,
nem se fala.
É a pior e mais inquietante relação de
prejuízos a humanidade jamais coletada e divulgada.
Em termos de alarmância disputa apenas
com o trânsito e o meio ambiente, o título de campeão de índices alarmantes.
Coisas como: no Brasil oitenta mil
fumantes morrem por ano. O vício do cigarro é responsável por 75% dos casos de
bronquite crônica e enfisema pulmonar. Setenta e cinco por cento.
Isso é ou não é alarmante?
Fumantes tem 400% a mais de chance de contrair infecções respiratórias.
Sim, eu disse quatrocentos por cento.
Escuta essa: “o fumo aumenta em até 800% o risco de derrames cerebrais.
Loucura. Oitocentos por cento.
Isso que é índice alarmante.
Agora, imaginem se o índice fosse de oito
por cento. Ninguém daria a menor importância. Mas como é oitocentos, a gente se
apavora.
Quanto mais apavorante, mais alarmante
o índice se torna.
E, desde que os americanos inventaram
as estatísticas, tem índice alarmante pra tudo: a violência na periferia de São
Paulo, a dengue, as endemias e epidemias, a concentração de CO2 na atmosfera, a
desigualdade social na América Latina, a umidade do ar em Araçatuba, o
desmatamento da Amazônia, a reprovação nos exames da OAB, a violência contra a
mulher em Curitiba, a escassez da água e...
Eu poderia ficar páginas e páginas
descrevendo índices alarmantes.
A maioria sobre ameaças e péssimas
notícias.
O único índice alarmante, positivo,
que fiquei sabendo são os que se referem a expectativa de vida em Andorra.
Sabem, onde fica Andorra?
Nem eu.
E isso já pode gerar mais um índice
alarmante: a quantidade de pessoas que não sabe onde fica Andorra.
São tantos índices alarmantes que a
gente nem dá mais bola pra maioria deles. Esquece-os no momento seguinte em que
se fica sabendo.
Ou vai me dizer que você vai guardar
na cabeça, por mais de cinco minutos, que os índices de mercúrio em pessoas que
moram em área de garimpo no município de Itaituba, no Pará atingem alarmantes
cinqüenta por cento dos habitantes devido ao hábito de comer peixes
contaminados pelo metal.
Pode repetir?
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