quarta-feira, 8 de novembro de 2017

DÉCIMO PRIMEIRO DIA.

segunda, 11/12/2001
Não sei se vocês já repararam que, via de regra, todos os índices são alarmantes.
Eu nunca vi um índice que fosse alarmante.
Em ecologia, por exemplo, nunca se encontram índices normais de alguma coisa.
Jamais.
Todos são pra lá de alarmantes.
A devastação das florestas destruirá o planeta em tantos anos.
O buraco na camada de ozônio alcançara o tamanho de um pequeno asteróide, fazendo com o aquecimento global aumente numa taxa de 0,013 ao ano, o que significa que o planeta inteiro estará torrado no ano de 2037.
O efeito estufa. O efeito glacial. El niño. Os desodorantes spray. O gás carbônico.
Os índices não nos poupam nunca.
Por exemplo, nas eleições para presidente, governador, no dia seguinte aos tele-debates, sempre aparecem os índices que o candidato atingiu.
Na sua versão e na versão do oponente.
Desconfio que os índices já nascem alarmantes.
Ou melhor, existe um acordo tácito entre todas as agências de notícias do mundo no sentido de só divulgar os índices alarmantes.
Todo índice que não for alarmante não deve chegar ao conhecimento do público.
Porque vocês acham que não divulgam quando existem 3.000 micosleão-dourado e só se fala no assunto quando estão em extinção e são apenas dois no mundo inteiro?
Porque vocês acham que só sabemos do tsunami depois que ele aconteceu?
Os cientistas passam o dia inteiro, a noite inteira, monitorando cada canto do planeta e não sabem antecipar um negócio desta magnitude?
É só pra depois ter um recorde de alarmância.
A tabela dos ventos. As ondas foram as maiores jamais vistas. A poder de destruição foi o maior já verificado na escala Richter. E em todas as outras escalas já inventadas.
Os índices são alarmantes e pronto.
No que diz respeito ao cigarro, então, nem se fala.
É a pior e mais inquietante relação de prejuízos a humanidade jamais coletada e divulgada.
Em termos de alarmância disputa apenas com o trânsito e o meio ambiente, o título de campeão de índices alarmantes.
Coisas como: no Brasil oitenta mil fumantes morrem por ano. O vício do cigarro é responsável por 75% dos casos de bronquite crônica e enfisema pulmonar. Setenta e cinco por cento.
Isso é ou não é alarmante?
Fumantes tem 400% a mais de chance de contrair infecções respiratórias.
Sim, eu disse quatrocentos por cento.
Escuta essa: “o fumo aumenta em até 800% o risco de derrames cerebrais.
Loucura. Oitocentos por cento.
Isso que é índice alarmante.
Agora, imaginem se o índice fosse de oito por cento. Ninguém daria a menor importância. Mas como é oitocentos, a gente se apavora.
Quanto mais apavorante, mais alarmante o índice se torna.
E, desde que os americanos inventaram as estatísticas, tem índice alarmante pra tudo: a violência na periferia de São Paulo, a dengue, as endemias e epidemias, a concentração de CO2 na atmosfera, a desigualdade social na América Latina, a umidade do ar em Araçatuba, o desmatamento da Amazônia, a reprovação nos exames da OAB, a violência contra a mulher em Curitiba, a escassez da água e...
Eu poderia ficar páginas e páginas descrevendo índices alarmantes.
A maioria sobre ameaças e péssimas notícias.
O único índice alarmante, positivo, que fiquei sabendo são os que se referem a expectativa de vida em Andorra.
Sabem, onde fica Andorra?
Nem eu.
E isso já pode gerar mais um índice alarmante: a quantidade de pessoas que não sabe onde fica Andorra.
São tantos índices alarmantes que a gente nem dá mais bola pra maioria deles. Esquece-os no momento seguinte em que se fica sabendo.
Ou vai me dizer que você vai guardar na cabeça, por mais de cinco minutos, que os índices de mercúrio em pessoas que moram em área de garimpo no município de Itaituba, no Pará atingem alarmantes cinqüenta por cento dos habitantes devido ao hábito de comer peixes contaminados pelo metal.
Pode repetir?

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