quarta, 06/12/2001
- Todo fumante é um amante do seu próprio
cigarro.
Dito assim até parece uma daquelas
teorias do dramaturgo Nelson Rodrigues. Ele dizia coisas o tipo “Num adultério, há homens que preferem ser o
marido, não o amante”, ou Os homens adoram ser traídos. Puro Nelson
Rodrigues.
Mas o que quero dizer é que todo fumante
é um amante do seu cigarro, no sentido que se apaixona perdidamente por uma
marca.
Muito rápido se apaixona e tá
completamente aprisionado pela marca de cigarro.
Jura de pés juntos que a propaganda
não lhe causa a menor influência:
- Propaganda? Comigo? Não, nem um pouco.
Propaganda não me pega.
Por dentro sabe que adora sentir no
seu corpo todas aquelas sensações que aparecem nos comerciais da sua marca
preferida de cigarro.
Trai a mulher, trai o pai, o irmão,
trai a própria mãe, mas não compra outra marca de cigarro nunca.
Caminha sem reclamar, tanto quanto for
preciso para encontrar a marca amada.
O homem vira escravo da relação.
É claro que o dinheiro é um fator
condicionante nesta relação pessoa/cigarro. Se você não tem dinheiro para
consumir um Benson & Hedges, ou uma marca importada, não adianta se
apaixonar por ele.
Vai ter que se contentar com um Free.
Só o nome Free já é a própria
propaganda enganosa, né?
E como vende. Vende como água.
Se você é uma pessoa pobre ou como se
diz hoje em dia cidadão economicamente desfavorecido, você tem que fazer
amizade com uma marca bem barata.
Tem que se apaixonar só pelas marcas
paraguaias. Andar de camelô em camelô implorando que ele tenha da mesma marca.
Quando a situação apertar, você pode comprar cigarro avulso.
Agora, se você não tem dinheiro nenhum,
e mesmo assim, insiste em ser um fumante, você tem, então, apenas duas opções.
Catar baganas.
Transformar-se na pior espécie de ser
humano: o filão de cigarros.
Indivíduo não muito raro, que surge em
todas as classes sociais. Um tipo nada especial de pessoas que desperta uma
cisma nos estudiosos deste tipo de comportamento humano.
De um lado há os que acreditam que o
filão, ou filador de cigarros apenas confundem-se com os chatos, mas eles pertencem
a outra família.
Outros cientistas julgam que eles são
os próprios chatos.
Na realidade, são piores que os chatos.
São mais caras-de-pau. Mais difíceis da gente conseguir se livrar deles.
Sempre, sem exceções, é melhor você
dar o cigarro logo e sair de perto.
Então, falando às claras, é assim que
se estabelecem as regras da relação entre o cigarro e a pessoa. Quer para ter o
cigarro de sua preferência, quer para ter qualquer cigarro, você tem que vender
alguma coisa sua. Tem que vender seu trabalho. Vender seu corpo. Sua arte. Enfim,
vender seu conhecimento.
Vender qualquer coisa, pra pagar aquela
coisa que te vicia e cada vez mais e te mata bem devagarzinho.
Tá no contrato que a parte pessoa tem que pagar pra parte cigarro uma quantia xis para ter a sua
companhia diária.
A gente se envolve num contrato
diabólico. É quase como se a gente vendesse nossa alma pro diabo. Só que quando
vende pro diabo a gente só entrega a alma depois de morrer.
Vendendo para as companhias de cigarro
a alma da gente vai sendo envenenada aos pouquinhos.
Tô sendo muito negativo.
Existe também um outro lado.
Existe uma relação saudável entre o cigarro
e a comida, por exemplo.
Um dos melhores momentos de fumar é
aquele logo após as refeições.
Existe uma relação saudável entre o
cigarro e o sexo.
Entre o cigarro e as neuroses em geral.
Existe até uma relação tremendamente
saudável entre o fumante e o cigarro.
Uma relação carinhosa pode-se dizer.
De amigos.
Terna.
O cigarro tá sempre ali ao seu lado.
Aconteça o que acontecer: na alegria e
na tristeza, na paz e na guerra...
Na mais miserável solidão, é só levar
a mão ao bolso, e ali está o seu fiel camareiro, o companheiro de todas as
horas: seu cigarrinho predileto.
Não fosse pelo dinheiro seria um
casamento perfeito.
Mas se alguém está casado por dinheiro
e fuma, vive a relação perfeita e não sabe.
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