sexta-feira, 10 de novembro de 2017

PRIMEIRO DIA.


sexta, 30/11/2001

Pensaram que tinha acabado, né?
- Bem capaz!
Perdi umas batalhas, mas não perdi a guerra.
Não ta morto quem peleia é um ditado que me ensinaram desde piá.
Baixou o gauchismo. Barbaridade.
Sem brincadeira, admito que passei este tempo todo fumando.
Mas podem confiar em mim quando digo que não houve um só cigarro, uma só tragada que eu desse, que não me fizesse lembrar que eu desejava parar de fumar.
Parece que a cada dia eu estava me traindo comigo mesmo. Num dia continuava fumando. No dia seguinte ansiando com o dia de parar de fumar outra vez.
Interiormente, eu ficava ora pregando como um pastor, ora advogando como um rábula, tentando me convencer a marcar o dia “d”. O Desembarque da Normandia. O dia eu que eu começaria a parar de fumar novamente.
Demorei mas consegui.
Defini o dia de hoje e cá estou começando mais uma série de combates contra este o pior hábito que eu podia ter adquirido.
Podem acreditar que agora vai ser diferente.
Achei a solução.
Ontem fui no dentista. Cheguei no consultório peguei uma revista e fui fumar escondido no banheiro. Era uma revista médica. Destas revistas que os representantes de laboratórios farmacêuticos distribuem para toda área médica.
Minha ex-mullher sempre lê estas revistas quando vai a qualquer consultório. Ela diz que assim fica informada sobre os últimos lançamentos de toda indústria dos remédios. Conhece as novidades da indústria das próteses. Fica por dentro do top de linha da em matéria de Prozac.
Eu sempre dizia pra ela que ela devia informar-se, também, sobre a existência da enorme e variada linha geriátrica.
Piadinha interna.
Então, entre dentes, seios de silicone, remédios pra dor, fígados, gases e disfunções variadas, eu encontrei um artigo que chamou minha atenção: “AGULHAS MÁGICAS
Por um lapso de tempo cheguei a pensar o que uma matéria sobre tricô estava fazendo naquela revista.
Era um artigo sobre acupuntura.
O artigo teorizava sobre as propriedades anestésicas desta técnica milenar chinesa e sua aplicação no tratamento dentário. Lá pelo meio da página o autor descrevia brevemente outras doenças que poderiam ser tratadas com a introdução de agulhas em pontos precisos. Na lista de doenças tava o combate à dependência do fumo.
Em poucas linhas o artigo comprovava a eficiência deste método desde que o paciente estivesse realmente desejando parar de fumar.
Só isto já representava cinqüenta por cento da cura. Cinqüenta por cento do sucesso do tratamento através da acupuntura.
Era justamente o meu caso.
Depois das últimas tentativas frustradas, justamente o quê eu mais quero é parar de fumar.
Fumei mais um cigarro no meu esconderijo e voltei para a sala de espera.
Consultei as páginas amarelas do guia telefônico, desmarquei minha consulta dentária e fui direto procurar o especialista em acupuntura.
Na sala de espera semi-apertada, estavam sentados dois obesos, mas obesos mesmo, pra ninguém botar defeito. As poltronas de vime tavam arqueadas e de vez em quando soltavam um gemido que vinha da alma da taquara.
Tinha um cara em pé, mas completamente curvado, com problema no ciático.
Do lado contrário da sala aboletadas no sofá de couro velho tinha duas mulheres. Uma era loira e tava se abanando com um enorme leque espanhol comprado dos camelôs do Mercado Público. A outra parecia recordista do tricô, tal era a velocidade que ela imprimia nas agulhas e nos dedos.
As duas conversavam alegremente como se estivessem na casa de uma delas.
Com certeza, fazem visitas regulares ao acupuntor. Pela idade, talvez venham aqui para aliviar problemas relacionados com a menopausa.
O ambiente tinha uma decoração falsamente chinesa. De dentro de umas caixinhas de som muito antigas saia uma música ambiental de qualidade duvidosa que lembrava Quitaro ou algo semelhante. No ar tinha um leve e adocicado cheiro de incenso.
Observando aquele ambiente em seu conjunto, pensei que não podia dar certo.
Nunca!
Como poderia?
Era a cultura chinesa deslocada para o ocidente. Aqui nossa mente é cética. Temos a personalidade desconfiada.
Jamais um ocidental acreditaria que algumas agulhas enfiadas pelo corpo pudessem fazer com que aqueles dois obesos que estavam ali na minha frente, deixassem de atacar a geladeira sorrateiramente durante a sessão coruja
Ou que aquelas senhoras não mais sofressem crises de calorão ou outros achaques pertinentes a sua idade.
Ainda com estes pensamentos de ocidental incrédulo fui chamado pela assistente nissei coisa mais linda vestida com um indefectível quimono chinês que antes dela virar de costas pra mim eu já tinha certeza que teria um dragão nas costas.
Segui a moça levemente perfumada, por um longo corredor até a porta da sala do mestre acupuntor.
Aí, apareceu o cara do ciático estragado. Murmurou alguma coisa que nem eu, nem a japinha deciframos.
Ele tentou erguer as costas para falar com mais clareza.
Acho que exagerou na força, porque ele tentou endireitar o corpo, e caiu de joelhos no chão. Deu um urro. E falou pra mim:
- O Sr. Se importa se eu for atendido na sua frente?
Antes que ele não conseguisse mais caminhar de tanta dor nos quadris eu concordei. O rosto dele estava tão contraído de pavor que eu não pude recusar.
Ele entrou na sala com o auxílio da atendente japonesa. Ou chinesa, ou coreana.
Ou do Bairro Liberdade. Ou de Ivotí.
Ela era linda. Pensei que eu nunca tinha ficado com uma nissei.
Pensei até em simular uma terrível dor para que ela também fosse obrigada a me conduzir abraçada pelo longo corredor na ida e volta.
Aproveitei o tempinho da consulta de ciático para fumar o último cigarrinho da minha vida.
Juro que será o último.
Eu juro solenemente, aqui, diante de todos vocês, que jamais, nunca, never, acenderei um cigarro.
Never colocarei um cigarro na boca.
Jamais fumarei um cigarro na minha vida.
Ou não me chamo Modesto Fortuna.
Fumei até a base do filtro, saboreando aquela delícia de fumacinha que saía de dentro de mim e voltei para o consultório.
Enxagüei a boca na pia do banheiro e sentei. A enfermeira apareceu e pediu que eu a acompanhasse.
Ela não sabe, mas poderia ter me pedido o que bem quisesse.
Levou-me para uma salinha mais oriental ainda. Agora tinha uma luz tênue e apenas uma espécie diferente de maca.
Ela pediu que eu tirasse a roupa e colocasse um roupão de algodão.
Procurei com os olhos um biombo, uma porta, um lugar para trocar a roupa.
Não tinha.
Esperei um instante pra ver se ela se retirava.
Ela ficou parada.
Profissionalíssima.
Me aprontei na frente dela.
Ela, então, pediu que eu sentasse na beira da maca e saiu silenciosamente.
Foi então que entrou o mestre acupuntor. O cara não podia ser mais chinês.
Tinha uma cara que tanto poderia ser chefe de polícia em qualquer filme de kung-fu, classe b, quanto o próprio Confúcio num filme do Godard.
Um sorriso permanente iluminava sua face. Olhou-me com tanta sabedoria, e com um olhar tão agudo que parecia saber cada um dos meus pensamentos.
Com um gesto indicou que eu tirasse o roupão, com outro solicitou que eu deitasse de bruços na cama.
Não disse uma só palavra. Não me perguntou nada. Começou a preparar suas agulhas e logo a seguir senti um longo e levemente doloroso trajeto de picadas em minhas costas. Uma estrada de agulhas da nuca até o cóccix.
Fui sentindo um suave torpor, um formigamento dos membros inferiores e um adormecimento dos membros superiores.
Adormeci.
Quando acordei o mestre estava trabalhando em minha orelha esquerda. Conversava comigo como se já estivesse falando há algum tempo. Não entendi nada. Peguei a conversa andando.
Ele dizia que eu não deveria mais fumar. Que aquelas agulhas e sementes colocadas em minhas orelhas estimulariam alguns pontos que fariam com que eu tremesse de medo se chegasse a menos de três metros de um cigarro apagado.
Notem bem: apagado.
Fiquei sem saber se era brincadeira dele ou se ele estava fazendo um vaticínio e aquilo iria mesmo acontecer.
Saí de lá confiante e seguro.
Mas, por vias das dúvidas, peguei um táxi e fui direto para casa.
Evitei qualquer ideia ou encontro ou qualquer outro perigo das ruas da cidade.

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