quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A PRIMEIRA DECISÃO

quarta, 17/05/2000
Sábado, dia 27 é o meu aniversário.
Completo quarenta e cinco anos muito bem vividos.  
Na verdade, nada de espetacularmente inusitado aconteceu comigo nestes quarenta e poucos anos. Nem de extraordinariamente bom, tampouco de admiravelmente ruim.
Repassando os anos vividos, percebo que não há nada que seja realmente digno de nota. Tive uma infância comum e divertida em que os dias eram tão longos quanto a nossa imaginação. Dias em que se brincava de mocinho e bandido, de soldado e ladrão, de carrinho, de bicicleta, pião, bolinhas, pandorga e muito futebol.
Uma vez ou outra perdi a unha do dedão jogando bola de pés descalços. Caí muitas vezes da bicicleta porque sempre esquecia que não era pra olhar para a roda da frente. Eu ficava magnetizado pela roda da frente. Ah, teve a morte do cachorro de estimação. Teve também aquela vez que recebi um olhar distraído da menina que eu amava em segredo, é claro. Afora estes pequenos eventos, nunca aconteceram comigo, nada que fosse diferente do que acontecia a todo ser vivente daquela época em que as crianças eram apenas crianças e até tinham espaço para isso. 
Depois veio a adolescência. Período bastante complicado que deixa marcas em todos, e igualmente comigo que fui um estudante mediano um jogador de futebol medíocre e um amante bastante prejudicado pela timidez.
Entrei na universidade, no curso de Medicina como meu pai sempre desejou.
Aliás, isto sim é digno de nota: enquanto todos os pais e mães costumam perguntar aos seus filhos: “O que você quer ser quando crescer, filhinho?", e tentam exercer suas apostas e influências, meu pai afirmava descaradamente: “Este menino, quando crescer, vai ser médico cardiologista. Não tem escolha. Temos que ter um cardiologista na família. Cardíacos já temos demais.”
 Bem que tentei, mas desde criança era fissurado por histórias em quadrinhos, lia desde as histórias infantis até as fotonovelas da minha mãe. Colecionava vários títulos. Adorava cinema e mais do que isso, sempre fui apaixonado pelos anúncios das revistas, as propagandas de Fatos & Fotos, O Cruzeiro, Realidade, Manchete, e todas as publicações que frequentavam nossa casa naqueles tempos pré-históricos, anteriores ao advento de sua majestade a televisão.
Então, quando ficou comprovado que eu não havia nascido para a medicina, pude me dedicar ao que sempre gostei: publicidade gráfica e visual. Depois cresci, casei e tive um casal de filhos. Mais normal do que isso impossível.
Somente relato estas breves passagens da minha vida para mostrar que vivo uma vida tão comum como tantas outras. Não que me queixe disso, aliás, estou plenamente convencido de que, se por acaso, neste momento (bato na madeira), o comando central, o chefão que tudo vê e tudo pode, decidir passar a régua (bato com mais veemência na madeira), com certeza, não me encontrará no vermelho.
Assim, com a convicção de que estou no lucro, decidi comemorar meu aniversário convidando parentes, clientes, amigos, simpatizantes, conhecidos, companheiros partidários, o pessoal do futebol de salão, colegas, amigos, e, principalmente, amigas, muitas amigas e as amigas das amigas, para uma festinha em minha própria homenagem.
Afinal de contas, não é todos os dias que a gente faz quarenta e cinco anos.
 Como, aliás, também não é todos  os dias que a gente faz quarenta e um, ou quarenta e dois ou oitenta e quatro. Isto prova duas coisas: primeiro, que esta é uma frase idiota e, segundo, que a gente sempre valoriza mais os números redondos como se eles fossem divisores da nossa existência.
Com a decisão tomada e a data marcada, parti, imediatamente, para a ação. Em primeiro lugar o planejamento Depois, agendar o salão de festas. E então, a divulgação e produção: contatos, anotações, telefonemas, e-mails, e-flyers, scraps, buscas, guias telefônicos, sugestões, convites. Tudo tem que ser pensado. Tudo planejado em minúcias. Os comes & bebes, som e iluminação, músicas, decoração, atração especial...
Minha nossa. Quanta coisa. Como dá trabalho organizar uma festinha.

Vou até fumar um cigarro.

Nenhum comentário:

Postar um comentário