sábado, 27/05/2000
É hoje !
Acordo , salto
da cama e sinto um arrepio que me causa uma forte sensação. Escuto uma voz
interior que
me diz: “Este
não será um
dia comum .”
É claro ,
hoje é meu
aniversário , ora .
A voz
insistiu: “Não é só
por isso ,
seu idiota ,
algo de muito
importante está determinado
para acontecer com você no decorrer
deste dia .”
Realmente, os sinais
eram claros : primeiro não precisei procurar meus chinelos pelo apartamento
inteiro . Fiquei assombrado. Espantosamente , meus
chinelos estavam ali , perfeitamente arrumados ao lado
da cama . Depois ,
quando acabei de me secar me dei conta de que ninguém havia ligado durante o
banho e, é claro, como eu estava me secando quando pensei nisso, percebi que (pasmem),
não me esqueci de levar
a toalha para
o banheiro . Realmente ,
algo iria acontecer .
Passei o dia
me ocupando em
revisar tudo ,
examinar cada
detalhe. Confirmei e recebi entregas. Assinei, dolorosamente, alguns cheques. Decidi
a cor das toalhas
de rosto para
os banheiros. E tinha ainda que convidar de última hora aqueles que
foram quase esquecidos.
Somente lá pelas cinco e meia da tarde,
quando , completamente
exausto, mas inteiramente feliz ,
pensei em começar a me preparar para receber
meus convidados, ouvi o interfone
tocando. Com certeza , não seria nenhum
dos convidados. Nem minha mãe chegaria tão cedo numa festa de quarenta e cinco
anos.
Por um instante voltei a lembrar daquela estranha
sensação que
me havia tocado ao acordar :
aquele não
seria um dia
comum . Eu
pressentia que algo
místico estava definido . Lembrei-me dos sinais ... E percebi que
não era o interfone, era a campainha e ela estava tocando pela
quarta vez .
Acordei dos meus
pensamentos e fui, alegremente ,
atender a porta
envergando meu sorriso
mais brilhante ,
o famoso trinta e dois
dentes , sorriso
Kolynos, verdadeira propaganda de revista de produtos
odontológicos.
Mais um
sinal surpreendente
vinha comprovar
que aquele
não seria um
dia insignificante. Emoldurada pela porta
estava a minha ex-esposa enfiada num ma-ra-vi-lho-so vestido vermelho-escândalo.
Estava radiante. Ela também estava usando um
sorriso último
tipo. O vestido era imitação de um Gaultier que ela tinha visto uma atriz usando no
Oscar. Pela coleira, ela estava trazendo o seu
novo namorado. Sim: novo. Pelo menos uns vinte anos mais jovem do que eu.
Eu bem que tentei salvar o sorriso, mas ele já havia trincado.
A ex entrou, largou a bolsa numa poltrona ,
o namorado na outra
e disse que ia no banheiro. Totalmente dona
da minha casa foi-se, com seus grandes olhos
de fiscal de imobiliária, vistoriando e
reprovando todo o ambiente .
Fiquei eu
e o rapaz na sala .
E agora ? Que
situação ! Conversar
o quê ? Loucura ,
este tempo ,
não é mesmo ?
Às vezes faz frio ,
às vezes faz calor ...
Hoje , por
exemplo ...
- Ah! Com
licença , (graças a Deus, me salvei) o interfone ... Deve ser o pessoal .
Falei e corri até
a cozinha . Atendi ansioso .
Era o homem do gás. Ou era o carteiro.
Não. Agora lembrei: era o carteiro, quer dizer, era o porteiro do prédio
dizendo que estava na portaria o carteiro com uma encomenda especial para mim.
- Pode receber pra mim? Estou muito
ocupado.
- Não posso. Tem que ser o senhor mesmo.
O carteiro disse que é o regulamento.
Pedi licença para o namorado e desci
eufórico. Pensei que poderia ser algum presente antecipado. Podia ser uma
lembrança de algum amigo dado a surpresas.
Quando cheguei lá embaixo o carteiro
já tinha ido embora e no lugar do porteiro tinha um bilhete dizendo já volto.
Subi.
Quando retornei ao apartamento é claro
que o porteiro já tinha descido, mas como era um cara inteligente deixou a
encomenda: um grande envelope pardo contendo uma coleção de prospectos de uma
rede de hotéis.
Fiquei parado com o pacote nas mãos
pensando no absurdo da situação. Pensei no tempo que eu tinha perdido. Pensei porque
um monte de propaganda é enviado como encomenda? Porque o homem cercou sua vida
cotidiana de grandes e pequenas armadilhas? Uma extensa rede de
armadilhas que se criam sozinhas, e se infiltram no dia a dia das pessoas.
Minha reflexão filosófica foi
interrompida por um rosnado feroz ao lado do meu ouvido. Era a voz inconfundível
da minha querida
ex jararaca. Com sua fúria, conseguiu me
arrancar dos meus elevados pensamentos.
- "Não
está escutando a campainha , querido ".
O querido
foi dito assim
como um
sinônimo de idiota .
Antes de atender
a porta , decidi que
jamais iria me
casar outra vez , nem nesta,
nem nas próximas quinze encarnações .
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