quinta-feira, 23 de novembro de 2017

A SEGUNDA DECISÃO.

sábado, 27/05/2000

É hoje! Acordo, salto da cama e sinto um arrepio que me causa uma forte sensação. Escuto uma voz interior que me diz: “Este não será um dia comum.”
É claro, hoje é meu aniversário, ora.
A voz insistiu: “Não é por isso, seu idiota, algo de muito importante está determinado para acontecer com você no decorrer deste dia.”
Realmente, os sinais eram claros: primeiro não precisei procurar meus chinelos pelo apartamento inteiro. Fiquei assombrado. Espantosamente, meus chinelos estavam ali, perfeitamente arrumados ao lado da cama. Depois, quando acabei de me secar me dei conta de que ninguém havia ligado durante o banho e, é claro, como eu estava me secando quando pensei nisso, percebi que (pasmem), não me esqueci de levar a toalha para o banheiro. Realmente, algo iria acontecer.
Passei o dia me ocupando em revisar tudo, examinar cada detalhe. Confirmei e recebi entregas. Assinei, dolorosamente, alguns cheques. Decidi a cor das toalhas de rosto para os banheiros. E tinha ainda que convidar de última hora aqueles que foram quase esquecidos.
Somente lá pelas cinco e meia da tarde, quando, completamente exausto, mas inteiramente feliz, pensei em começar a me preparar para receber meus convidados, ouvi o interfone tocando. Com certeza, não seria nenhum dos convidados. Nem minha mãe chegaria tão cedo numa festa de quarenta e cinco anos.
Por um instante voltei a lembrar daquela estranha sensação que me havia tocado ao acordar: aquele não seria um dia comum. Eu pressentia que algo místico estava definido. Lembrei-me dos sinais... E percebi que não era o interfone, era a campainha e ela estava tocando pela quarta vez.
Acordei dos meus pensamentos e fui, alegremente, atender a porta envergando meu sorriso mais brilhante, o famoso trinta e dois dentes, sorriso Kolynos, verdadeira propaganda de revista de produtos odontológicos.
Mais um sinal surpreendente vinha comprovar que aquele não seria um dia insignificante. Emoldurada pela porta estava a minha ex-esposa enfiada num ma-ra-vi-lho-so vestido vermelho-escândalo. Estava radiante. Ela também estava usando um sorriso último tipo. O vestido era imitação de um Gaultier que ela tinha visto uma atriz usando no Oscar. Pela coleira, ela estava trazendo o seu novo namorado. Sim: novo. Pelo menos uns vinte anos mais jovem do que eu.
Eu bem que tentei salvar o sorriso, mas ele havia trincado.
A ex entrou, largou a bolsa numa poltrona, o namorado na outra e disse que ia no banheiro. Totalmente dona da minha casa foi-se, com seus grandes olhos de fiscal de imobiliária, vistoriando e reprovando todo o ambiente.
Fiquei eu e o rapaz na sala. E agora? Que situação! Conversar o quê? Loucura, este tempo, não é mesmo? Às vezes faz frio, às vezes faz calor... Hoje, por exemplo...
- Ah! Com licença, (graças a Deus, me salvei) o interfone... Deve ser o pessoal.
Falei e corri até a cozinha. Atendi ansioso. Era o homem do gás. Ou era o carteiro. Não. Agora lembrei: era o carteiro, quer dizer, era o porteiro do prédio dizendo que estava na portaria o carteiro com uma encomenda especial para mim.
- Pode receber pra mim? Estou muito ocupado.
- Não posso. Tem que ser o senhor mesmo. O carteiro disse que é o regulamento.
Pedi licença para o namorado e desci eufórico. Pensei que poderia ser algum presente antecipado. Podia ser uma lembrança de algum amigo dado a surpresas.
Quando cheguei lá embaixo o carteiro já tinha ido embora e no lugar do porteiro tinha um bilhete dizendo já volto.
Subi.
Quando retornei ao apartamento é claro que o porteiro já tinha descido, mas como era um cara inteligente deixou a encomenda: um grande envelope pardo contendo uma coleção de prospectos de uma rede de hotéis.
Fiquei parado com o pacote nas mãos pensando no absurdo da situação. Pensei no tempo que eu tinha perdido. Pensei porque um monte de propaganda é enviado como encomenda? Porque o homem cercou sua vida cotidiana de grandes e pequenas armadilhas?hoje em diaequenasvia perdido,mo o homem cercou-se de armadilhas : um grande envelope pardo contendo uma colee descer Uma extensa rede de armadilhas que se criam sozinhas, e se infiltram no dia a dia das pessoas.
Minha reflexão filosófica foi interrompida por um rosnado feroz ao lado do meu ouvido. Era a voz inconfundível da minha querida ex jararaca. Com sua fúria, conseguiu me arrancar dos meus elevados pensamentos.
- "Não está escutando a campainha, querido".
O querido foi dito assim como um sinônimo de idiota.

Antes de atender a porta, decidi que jamais iria me casar outra vez, nem nesta, nem nas próximas quinze encarnações.

Nenhum comentário:

Postar um comentário