quarta, 26/7/2000
O barulho da chave na fechadura da porta
se fez mais audível.
E ela entrou.
Minha deusa: Dona Sucileyde, primeira
e única.
Abriu a porta, e adentrou o gramado
com seu charme e graça.
Entrou e ficou, inicialmente, me
olhando assustada, com os olhos meio arregalados. Ela queria se certificar que
aquele era eu mesmo.
Depois, foi ficando como o van damme
diante do inimigo, na defensiva. Pronta pra me golpear.
Não lhe dei tempo de reagir tal a
potência do meu golpe inicial. Eu tava tão fascinado com a presença dela que lhe
pulei em cima. Taquei-lhe um beijo bem pegado. Depois dancei com ela, pleno de
felicidade gritando e cantando em seu ouvido:
- Vai rolar a festa, vai rolar...
Ela tentou se desvencilhar
aplicando-me uma gravata.
Pulei sobre ela metendo-lhe ypon-sei-o-nague.
Sua proximidade fez eu sentir aquele cheirinho delicioso. Aquela catinga tão
conhecida das minhas narinas.
Ah! Que perfume de mulher!
Vacilei.
Ela me deu uma tesoura e me
imobilizou.
Bati.
- Me entrego.
Derrotado. Hoje é o décimo dia.
E, se Deus que é Deus, descansou no
sétimo dia, eu pelo menos ultrapassei esta marca e posso dizer que no décimo
dia eu... fracassei.
Admito: fracassei! Não tenho um pingo
de caráter e força de vontade. Sou uma barata. Sou um verme. Uma gosma. Podem
me escrachar. Podem denegrir o meu nome em praça pública. Podem me apedrejar se
quiserem. Que atire a primeira pedra aquele que nunca teve um momento de
fraqueza.
É insuportável.
Eu precisava muito de um cigarro.
Não estava nem raciocinando direito.
Reuni todas as minhas forças e pedi um
cigarro pra Dona Sucileyde.
Ela viu que eu não estava para
brincadeiras. Tirou o maço de cigarros de dentro da bolsa e me passou um
cigarro.
Ato contínuo pega o isqueiro e quando
vai acender eu grito:
- Não!
Corta!
Entra em cena a cavalaria
norte-americana com o General Custer à frente.
Eu acordo.
Caio na real.
Estou prestes a desperdiçar quase dez
dias de tremendo sacrifício. Não posso fazer isso comigo.
Está certo que não é sempre que eu me
amo, mas...
Piquei, espicacei, destruí o cigarro
enquanto pensava estas coisas.
Corri pro meu quarto e só sosseguei
quando ouvi que dona Sucileyde estava trancando a porta do quarto pelo lado de
fora.
Fiquei trancado enquanto ela trabalhava
nas outras peças da casa.
Lá pelas treze horas encostou na porta
e perguntou se eu estava mais calmo?
Respondi que sim.
Ela abriu a porta e me convidou para
almoçar.
Durante o tempo que fiquei na cozinha
ela limpou o quarto.
Depois, me levou pra sala. Me sentou
na poltrona. Colocou uma revista no meu colo. Limpou a cozinha e voltou na sala
pra se despedir.
Disse que tinha que ir embora mais
cedo porque ia passar no Conceição pra visitar a enteada da cunhada que tinha
sido operada.
Com um mal disfarçado sorriso sádico
no cantinho da boca tentou me convencer a ficar trancado de novo.
- Mais uma semana?
Eu me recusei a aceitar.
Tava livre e a sensação de liberdade é
algo indizível, inexplicável.
Parece até que saí do Carandiru depois
de vinte anos dividindo a cela com o Beira-Mar.
Tô livre. Livre para ir e vir. Posso
sair, entrar, ficar, levantar, andar, subir ao terraço, sentar, descer ao
jardim, passear na portaria. Posso escolher o quero ou não fazer. Posso ir no
super. Ir no shopping. Fazer compras. Posso comprar café, cerveja, cigarro...
Como assim comprar cigarro?
De onde me veio esta idéia maléfica?
Claro que não vou comprar cigarro.
Eu não fumo mais. Estou praticamente
livre deste hábito nefasto.
Vou dar uma caminhada pelo bairro,
encher meus pulmões de ar puro. Ir até o mercadinho da esquina e tomar um
refrigerante, um sorvete. Talvez até comer um pastel. Talvez pedir um
cigarrinho avulso. Fumar cada milímetro daquela fumacinha saborosa. Sentir o
prazer de fumar até queimar os dedos.
Droga.
Será que nunca mais vou esquecer do
cigarro?
Seria muito bom se eu soubesse fumar
um cigarro por dia.
Escolheria o melhor momento do dia.
Após o jantar. Depois de um banho de
mar.
Ah, que prazer eu teria.
Mas não é assim. Ou pelo menos comigo
não é assim.
Eu sou, ou melhor, eu fui um fumante
inveterado. Um fumante compulsivo. Daqueles que fuma um cigarro atrás do outro
de maneira insaciável e... compulsiva.
O que será que as fábricas de cigarros
enfiam dentro do produto para que a gente fique tão dependente?
Já começa que vendem cigarros em
maços. Carteiras com vinte cigarros.
Mas, olha só que ideia genial!
Como eles não pensaram nisso? As
fábricas deviam lançar um maço com quarenta cigarros: o maço-casal. Os casais escolhem
a marca de sua preferência juntos. Seria lindo. As companhias fariam promoções
no dia dos namorados. Ganhe uma camisinha na compra de um maço duplo. Os maços
de quarenta cigarros teriam uma embalagem apropriada para conquistar os casais
apaixonados de viciados. Um coração. E isso seria muito, muito romântico.
Mas poderia ser melhor ainda.
O lançamento do ano. Não, o lançamento
do século: o maço-família com cem cigarros. A família que fuma unida morre mais
cedo unida. Imaginem as famílias sentadas diante da tv, depois da janta. Cada
membro da família pegava um cigarro do maço-família. O pai acendia o isqueiro.
E todos fumavam juntos. Seria um momento coletivo de prazer e convivência.
Claro, como não pensaram nisto antes:
um cigarro infantil. Todas as crianças poderiam desde cedo aderir ao vício.
Como as crianças são excelentes consumidores no mundo capitalista, as empresas
faturariam alto com o kids-cigarette.
É claro que causaria um certo
probleminha ético. Mas as companhias de cigarros não estão muito preocupadas
com problemas éticos. Seus acionistas querem é ver os lucros crescerem. Querem
ver as ações subindo nas bolsas de valores.
Indo mais longe, percebo como a
indústria de cigarros tem sido conservadora. Há quantos anos não lançam novos
produtos?
Sim, eu sei que de vez em quando
acontece o lançamento de uma nova marca de cigarros. Mas não se trata disso.
Quero ver novos produtos.
Cigarros coloridos. Cigarros curtos
para anões. Cigarros sonoros para deficientes visuais. Cigarros à metro.
Nossa que idéia me ocorreu agora: eles
deviam inventar o cigarro à cabo.
Você escolhe um plano, faz uma
assinatura e recebe em casa com todo o conforto e vantagens adicionais a
quantidade de cigarro pré acertada.
Não seria fantástico?
Melhor do que isso só cigarros
invisíveis.
Isto sim, seria maravilhoso.
Você poderia fumar em qualquer lugar
sem que outros reparassem e lhe enviassem aqueles olhares fuzilantes. Olhares que
deixam o pobre fumante completamente constrangido. A gente se sente um condenado
no corredor da morte apenas por fumar um inocente cigarrinho.
Isso porque o mundo de malrboro é
dividido em fumantes e não fumantes.
As companhias cigarreiras deviam se
unir pra valer e declarar uma guerra ampla, geral e irrestrita, a todos os
não-fumantes. Tinham que deixar de paternalismos baratos e inventar um cigarro
que viciasse os não-fumantes. Em pouco tempo todos seriam fumantes. As empresas
lucrariam muito mais e nós fumantes seríamos a maioria. Aqueles que porventura
resistissem a ordem geral de fumar pelo menos dez cigarros por dia seriam
condenados a trabalhos forçados em plantações de fumo na Sibéria ou na
Groenlândia ou no Crato.
Empresas burras.
Precisariam apenas criar um cigarro
dez vezes mais sedutoramente poderoso. Um cigarro que, um simples aspirar de
fumaça, fizesse com que a pessoa atingida se sentisse tão bem, tão poderosa,
tão confiante em si mesma, que quisesse experimentar mais e mais vezes esta
sensação de poder.
Algo, mais ou menos assim, como os
políticos que se agarram aos cargos e vantagens e mutretas e falcatruas, para
se manter no poder.
Como os políticos, as companhias de
cigarros poderiam transformar os fumantes em cabos-eleitorais. Cada pessoa
seria um agente disseminador de pesadas cargas de fumaça no meio ambiente e provocar,
assim, uma corrida às tabacarias.
Mas o que é isso?
O que estou pensando?
Tô entregando o tesouro pros bandidos.
Tô fornecendo munição aos inimigos. Emprestando capital aos piores capitalistas
do mundo.
Eu não sou mais fumante.
Agora sou da classe dos quase ex
fumantes.
Uma categoria especial e nobre de
pessoas que estão em busca da regeneração. Se um dia trilhei o caminho do mal
foi porque fui induzido pelo demônio do vício. Fui pego pela sedução da
propaganda. Fui uma vítima inocente, já que sempre se começa a fumar bem antes
dos dezoito anos.
Pensei tudo isso parado diante da
porta aberta e nem vi a Dona Sucileyde ir embora.
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