sexta-feira, 17 de novembro de 2017

DÉCIMO DIA.

quarta, 26/7/2000

O barulho da chave na fechadura da porta se fez mais audível.
E ela entrou.
Minha deusa: Dona Sucileyde, primeira e única.
Abriu a porta, e adentrou o gramado com seu charme e graça.
Entrou e ficou, inicialmente, me olhando assustada, com os olhos meio arregalados. Ela queria se certificar que aquele era eu mesmo.
Depois, foi ficando como o van damme diante do inimigo, na defensiva. Pronta pra me golpear.
Não lhe dei tempo de reagir tal a potência do meu golpe inicial. Eu tava tão fascinado com a presença dela que lhe pulei em cima. Taquei-lhe um beijo bem pegado. Depois dancei com ela, pleno de felicidade gritando e cantando em seu ouvido:
- Vai rolar a festa, vai rolar...
Ela tentou se desvencilhar aplicando-me uma gravata.
Pulei sobre ela metendo-lhe ypon-sei-o-nague. Sua proximidade fez eu sentir aquele cheirinho delicioso. Aquela catinga tão conhecida das minhas narinas.
Ah! Que perfume de mulher!
Vacilei.
Ela me deu uma tesoura e me imobilizou.
Bati.
- Me entrego.
Derrotado. Hoje é o décimo dia.
E, se Deus que é Deus, descansou no sétimo dia, eu pelo menos ultrapassei esta marca e posso dizer que no décimo dia eu... fracassei.
Admito: fracassei! Não tenho um pingo de caráter e força de vontade. Sou uma barata. Sou um verme. Uma gosma. Podem me escrachar. Podem denegrir o meu nome em praça pública. Podem me apedrejar se quiserem. Que atire a primeira pedra aquele que nunca teve um momento de fraqueza.
É insuportável.
Eu precisava muito de um cigarro.
Não estava nem raciocinando direito.
Reuni todas as minhas forças e pedi um cigarro pra Dona Sucileyde.
Ela viu que eu não estava para brincadeiras. Tirou o maço de cigarros de dentro da bolsa e me passou um cigarro.
Ato contínuo pega o isqueiro e quando vai acender eu grito:
- Não!
Corta!
Entra em cena a cavalaria norte-americana com o General Custer à frente.
Eu acordo.
Caio na real.
Estou prestes a desperdiçar quase dez dias de tremendo sacrifício. Não posso fazer isso comigo.
Está certo que não é sempre que eu me amo, mas...
Piquei, espicacei, destruí o cigarro enquanto pensava estas coisas.
Corri pro meu quarto e só sosseguei quando ouvi que dona Sucileyde estava trancando a porta do quarto pelo lado de fora.
Fiquei trancado enquanto ela trabalhava nas outras peças da casa.
Lá pelas treze horas encostou na porta e perguntou se eu estava mais calmo?
Respondi que sim.
Ela abriu a porta e me convidou para almoçar.
Durante o tempo que fiquei na cozinha ela limpou o quarto.
Depois, me levou pra sala. Me sentou na poltrona. Colocou uma revista no meu colo. Limpou a cozinha e voltou na sala pra se despedir.
Disse que tinha que ir embora mais cedo porque ia passar no Conceição pra visitar a enteada da cunhada que tinha sido operada.
Com um mal disfarçado sorriso sádico no cantinho da boca tentou me convencer a ficar trancado de novo.
- Mais uma semana?
Eu me recusei a aceitar.
Tava livre e a sensação de liberdade é algo indizível, inexplicável.
Parece até que saí do Carandiru depois de vinte anos dividindo a cela com o Beira-Mar.
Tô livre. Livre para ir e vir. Posso sair, entrar, ficar, levantar, andar, subir ao terraço, sentar, descer ao jardim, passear na portaria. Posso escolher o quero ou não fazer. Posso ir no super. Ir no shopping. Fazer compras. Posso comprar café, cerveja, cigarro...
Como assim comprar cigarro?
De onde me veio esta idéia maléfica?
Claro que não vou comprar cigarro.
Eu não fumo mais. Estou praticamente livre deste hábito nefasto.
Vou dar uma caminhada pelo bairro, encher meus pulmões de ar puro. Ir até o mercadinho da esquina e tomar um refrigerante, um sorvete. Talvez até comer um pastel. Talvez pedir um cigarrinho avulso. Fumar cada milímetro daquela fumacinha saborosa. Sentir o prazer de fumar até queimar os dedos.
Droga.
Será que nunca mais vou esquecer do cigarro?
Seria muito bom se eu soubesse fumar um cigarro por dia.
Escolheria o melhor momento do dia.
Após o jantar. Depois de um banho de mar.
Ah, que prazer eu teria.
Mas não é assim. Ou pelo menos comigo não é assim.
Eu sou, ou melhor, eu fui um fumante inveterado. Um fumante compulsivo. Daqueles que fuma um cigarro atrás do outro de maneira insaciável e... compulsiva.
O que será que as fábricas de cigarros enfiam dentro do produto para que a gente fique tão dependente?
Já começa que vendem cigarros em maços. Carteiras com vinte cigarros.
Mas, olha só que ideia genial!
Como eles não pensaram nisso? As fábricas deviam lançar um maço com quarenta cigarros: o maço-casal. Os casais escolhem a marca de sua preferência juntos. Seria lindo. As companhias fariam promoções no dia dos namorados. Ganhe uma camisinha na compra de um maço duplo. Os maços de quarenta cigarros teriam uma embalagem apropriada para conquistar os casais apaixonados de viciados. Um coração. E isso seria muito, muito romântico.
Mas poderia ser melhor ainda.
O lançamento do ano. Não, o lançamento do século: o maço-família com cem cigarros. A família que fuma unida morre mais cedo unida. Imaginem as famílias sentadas diante da tv, depois da janta. Cada membro da família pegava um cigarro do maço-família. O pai acendia o isqueiro. E todos fumavam juntos. Seria um momento coletivo de prazer e convivência.
Claro, como não pensaram nisto antes: um cigarro infantil. Todas as crianças poderiam desde cedo aderir ao vício. Como as crianças são excelentes consumidores no mundo capitalista, as empresas faturariam alto com o kids-cigarette.
É claro que causaria um certo probleminha ético. Mas as companhias de cigarros não estão muito preocupadas com problemas éticos. Seus acionistas querem é ver os lucros crescerem. Querem ver as ações subindo nas bolsas de valores.
Indo mais longe, percebo como a indústria de cigarros tem sido conservadora. Há quantos anos não lançam novos produtos?
Sim, eu sei que de vez em quando acontece o lançamento de uma nova marca de cigarros. Mas não se trata disso. Quero ver novos produtos.
Cigarros coloridos. Cigarros curtos para anões. Cigarros sonoros para deficientes visuais. Cigarros à metro.
Nossa que idéia me ocorreu agora: eles deviam inventar o cigarro à cabo.
Você escolhe um plano, faz uma assinatura e recebe em casa com todo o conforto e vantagens adicionais a quantidade de cigarro pré acertada.
Não seria fantástico?
Melhor do que isso só cigarros invisíveis.
Isto sim, seria maravilhoso.
Você poderia fumar em qualquer lugar sem que outros reparassem e lhe enviassem aqueles olhares fuzilantes. Olhares que deixam o pobre fumante completamente constrangido. A gente se sente um condenado no corredor da morte apenas por fumar um inocente cigarrinho.
Isso porque o mundo de malrboro é dividido em fumantes e não fumantes.
As companhias cigarreiras deviam se unir pra valer e declarar uma guerra ampla, geral e irrestrita, a todos os não-fumantes. Tinham que deixar de paternalismos baratos e inventar um cigarro que viciasse os não-fumantes. Em pouco tempo todos seriam fumantes. As empresas lucrariam muito mais e nós fumantes seríamos a maioria. Aqueles que porventura resistissem a ordem geral de fumar pelo menos dez cigarros por dia seriam condenados a trabalhos forçados em plantações de fumo na Sibéria ou na Groenlândia ou no Crato.
Empresas burras.
Precisariam apenas criar um cigarro dez vezes mais sedutoramente poderoso. Um cigarro que, um simples aspirar de fumaça, fizesse com que a pessoa atingida se sentisse tão bem, tão poderosa, tão confiante em si mesma, que quisesse experimentar mais e mais vezes esta sensação de poder.
Algo, mais ou menos assim, como os políticos que se agarram aos cargos e vantagens e mutretas e falcatruas, para se manter no poder.
Como os políticos, as companhias de cigarros poderiam transformar os fumantes em cabos-eleitorais. Cada pessoa seria um agente disseminador de pesadas cargas de fumaça no meio ambiente e provocar, assim, uma corrida às tabacarias.
Mas o que é isso?
O que estou pensando?
Tô entregando o tesouro pros bandidos. Tô fornecendo munição aos inimigos. Emprestando capital aos piores capitalistas do mundo.
Eu não sou mais fumante.
Agora sou da classe dos quase ex fumantes.
Uma categoria especial e nobre de pessoas que estão em busca da regeneração. Se um dia trilhei o caminho do mal foi porque fui induzido pelo demônio do vício. Fui pego pela sedução da propaganda. Fui uma vítima inocente, já que sempre se começa a fumar bem antes dos dezoito anos.

Pensei tudo isso parado diante da porta aberta e nem vi a Dona Sucileyde ir embora.

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