quinta-feira, 23 de novembro de 2017

“A” DECISÃO.

domingo, 28/05/2000

Três horas da madrugada.
No meio da festa, depois de uma dúzia de cervejas, e outros tantos goles de bebidas variadas, inclusive água, minha bexiga deu-me um ultimato: ou eu ia direto, sem escalas, ao banheiro ou ela explodiria ali mesmo, diante de todos os convidados.
Para evitar uma ruptura nas relações diplomáticas com o baixo abdome, e diante da superioridade das forças inimigas me decidi pela rendição imediata. Atravessei o salão de festas em busca do banheiro redentor. Com a agilidade de um atleta de pentatlo me esquivei dos ocasionais abraços. Driblei os convites para mais um brinde. Atravessei o salão de festas de ponta à ponta e em vinte e dois segundos cravados. Penetrei no banheiro.
No banheiro errado. Foi uma gritaria geral do mulherio que conversava, fumava e retocava a maquiagem. Algumas queriam que eu saísse imediatamente. Outras querendo que eu ficasse eternamente.
Envergonhado, pedi desculpas e entrei na porta ao lado: o banheiro masculino. Inconfundível. Não só pelo odor ardente, como também pela placa à moda antiga pendurada na porta mostrando uma cartola, uma bengala e um par de luvas.
Enfim, sós.
Ao aliviar todo aquele excesso de líquidos e impurezas tive que dar razão à bexiga: urinar, não só é absolutamente necessário, como também extremamente prazeroso.
Sacudi o pinto, acendi um cigarro e fui lavar as mãos. Sim, porque mesmo embriagado ainda conservo algumas normas elementares de higiene. Qual não foi a minha surpresa quando, ao levantar os olhos, dei de cara com o espelho e topei comigo mesmo. EU estava me encarando. Olhei bem pra mim mesmo. O cigarro no canto da boca meio torta. A fumaça entrando no olho esquerdo semicerrado. Esbocei um sorriso amigável, mas, juro, não houve retribuição. Pensei em puxar um papo qualquer pra quebrar o gelo, não adiantou. Sem complacência tive que ficar durante alguns intermináveis segundos olhando aquela cara séria, acusadora, que era a minha própria cara dentro do espelho.
Aquela cara que não se deixava enganar.
Tirei o cigarro da boca, esfreguei o olho lacrimejante, e, naquele exato momento, tomei a séria e irrevogável decisão:
- Vou parar de fumar.
Estou completando quarenta anos de vida, isso quer dizer que fumo há, mais ou menos, vinte e cinco anos. Num cálculo rápido, isto significa, aproximadamente, nove mil maços. Cento e oitenta mil cigarros.
Se fosse no Fantástico, o apresentador diria que colocando um cigarro atrás do outro, poderia construir uma estrada de mil e oitocentos quilômetros.
Eu estava com um nível alcoólico de estourar bafômetro, mas naquele momento gritei:
- Basta! Chega!
O fato de haver tomado esta decisão, em si, não quer dizer grande coisa.
Na virada do ano eu também tomei (entre outras coisas) esta firme resolução.
Mas, também, não foi a primeira vez. Na festa de dez anos do meu casamento eu também decidi parar de fumar. No aniversário de um ano da minha filha também. E no nascimento de meu filho também.
- Pensando bem, acho que já parei de fumar, pelo menos, umas dezenove vezes.
Pensando melhor ainda, percebo que é aí que reside o problema: sempre decido parar de fumar no meio de uma festa quando tomo também várias outras coisas. Decido parar de fumar exatamente quanto fico ansioso e excitado e fumo como louco.
Mas desta vez será diferente.
Já que me dei conta disso, decidi nunca mais decidir parar de fumar num dia de festa.
Abri a torneira com raiva e decisão e afoguei o que restava do cigarro. Lavei novamente as mãos e saí do banheiro sem olhar pro espelho.
Assim que saí do banheiro apagaram-se as luzes: hora do parabéns pra você. Aquela hora em que mesmo aos quarenta e cinco anos a gente morre de vergonha e felicidade. Fica com uma tremenda cara de bobo alegre. Com um sorriso idiota fixado no rosto. Tentando olhar para todo mundo. Louco que acabe logo a canção pra soprar as velas do bolo e retornar ao anonimato.
Concentrei-me num pedido importante (que nem me lembro mais), e assoprei com força. De uma só vez apaguei todas as quarenta e cinco velinhas que estavam enfiadas na torta de chocolate. Com certeza aquela torta estava envenenada. Imaginem quem a trouxe? Sim, ela mesma. A minha querida e solidária ex.
Acenei com as mãos pra silenciar os aplausos e assobios. E cometi um ato impensado.
Me senti o presidente dos Estados Unidos da América diante de uma comitiva de extraterrestres e discursei para todos os presentes. Em alto e bom tom, falei:
- Decidi que nunca, jamais, colocarei um cigarro na minha boca.
Acrescentei ainda que se, porventura, alguém me visse com um cigarro na boca poderia exigir imediatamente que eu tirasse completamente a roupa e rolasse pelo chão chamando pela polícia.
Empolgado, já visualizando a bandeira americana entupida de estrelas tremulando no alto do Empire State, terminei o discurso com um apoteótico: I’LL NEVER SMOKE AGAIN.
Dito isso acendi um cigarro e confirmei que a partir de amanhã começaria a parar de fumar.
Posso lhes dar um conselho? Jamais façam isso. Nunca anunciem nada para ninguém em hipótese alguma. Pare o que você quiser parar. Comece o quê quiser começar. Decida quando, onde e por que sem dar satisfação a ninguém, nem mesmo sob tortura. Mude qualquer hábito, desde aqueles mais inofensivos até aqueles mais íntimos, de ordem sexual, mas faça bem quietinho. Solitariamente.
Deixe pra comunicar somente quando e se você tiver conseguido seu intento. Infelizmente, aprendi esta saudável lição somente depois de ter cometido o pecado mortal (contra mim mesmo) de anunciar para uma população inteira de conhecidos e penetras que eles todos jamais me veriam com um cigarro na boca outra vez. Fui execrado na hora. Passei por fraco, mentiroso, incapaz, charlatão, falcatrua, pérfido, fanfarrão, um sete um, falso, vendido, traidor, inapto, falastrão, e cada um tinha um adjetivo pior para me classificar, sendo que a palavra final foi da minha mãe:

_ “Mas tu nunca cumpriu nenhuma decisão na tua vida, não vai ser agora.”

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