domingo, 28/05/2000
Três horas da madrugada.
No meio da festa, depois de uma dúzia
de cervejas, e outros tantos goles de bebidas variadas, inclusive água, minha
bexiga deu-me um ultimato: ou eu ia direto, sem escalas, ao banheiro ou ela
explodiria ali mesmo, diante de todos os convidados.
Para evitar uma ruptura nas relações
diplomáticas com o baixo abdome, e diante da superioridade das forças inimigas
me decidi pela rendição imediata. Atravessei o salão de festas em busca do
banheiro redentor. Com a agilidade de um atleta de pentatlo me esquivei dos
ocasionais abraços. Driblei os convites para mais um brinde. Atravessei o salão
de festas de ponta à ponta e em vinte e dois segundos cravados. Penetrei no
banheiro.
No banheiro errado. Foi uma gritaria
geral do mulherio que conversava, fumava e retocava a maquiagem. Algumas
queriam que eu saísse imediatamente. Outras querendo que eu ficasse
eternamente.
Envergonhado, pedi desculpas e entrei
na porta ao lado: o banheiro masculino. Inconfundível. Não só pelo odor
ardente, como também pela placa à moda antiga pendurada na porta mostrando uma
cartola, uma bengala e um par de luvas.
Enfim, sós.
Ao aliviar todo aquele excesso de
líquidos e impurezas tive que dar razão à bexiga: urinar, não só é
absolutamente necessário, como também extremamente prazeroso.
Sacudi o pinto, acendi um cigarro e
fui lavar as mãos. Sim, porque mesmo embriagado ainda conservo algumas normas
elementares de higiene. Qual não foi a minha surpresa quando, ao levantar os
olhos, dei de cara com o espelho e topei comigo mesmo. EU estava me encarando.
Olhei bem pra mim mesmo. O cigarro no canto da boca meio torta. A fumaça
entrando no olho esquerdo semicerrado. Esbocei um sorriso amigável, mas, juro,
não houve retribuição. Pensei em puxar um papo qualquer pra quebrar o gelo, não
adiantou. Sem complacência tive que ficar durante alguns intermináveis segundos
olhando aquela cara séria, acusadora, que era a minha própria cara dentro do
espelho.
Aquela cara que não se deixava
enganar.
Tirei o cigarro da boca, esfreguei o
olho lacrimejante, e, naquele exato momento, tomei a séria e irrevogável
decisão:
- Vou parar de fumar.
Estou completando quarenta anos de
vida, isso quer dizer que fumo há, mais ou menos, vinte e cinco anos. Num
cálculo rápido, isto significa, aproximadamente, nove mil maços. Cento e
oitenta mil cigarros.
Se fosse no Fantástico, o apresentador
diria que colocando um cigarro atrás do outro, poderia construir uma estrada de
mil e oitocentos quilômetros.
Eu estava com um nível alcoólico de
estourar bafômetro, mas naquele momento gritei:
- Basta!
Chega!
O fato de haver tomado esta decisão,
em si, não quer dizer grande coisa.
Na virada do ano eu também tomei (entre outras coisas) esta firme
resolução.
Mas, também, não foi a primeira vez.
Na festa de dez anos do meu casamento eu também decidi parar de fumar. No aniversário
de um ano da minha filha também. E no nascimento de meu filho também.
- Pensando bem, acho que já parei de
fumar, pelo menos, umas dezenove vezes.
Pensando melhor ainda, percebo que é
aí que reside o problema: sempre decido parar de fumar no meio de uma festa
quando tomo também várias outras coisas. Decido parar de fumar exatamente
quanto fico ansioso e excitado e fumo como louco.
Mas desta vez será diferente.
Já que me dei conta disso, decidi
nunca mais decidir parar de fumar num dia de festa.
Abri a torneira com raiva e decisão e
afoguei o que restava do cigarro. Lavei novamente as mãos e saí do banheiro sem
olhar pro espelho.
Assim que saí do banheiro apagaram-se
as luzes: hora do parabéns pra você. Aquela hora em que mesmo aos quarenta e
cinco anos a gente morre de vergonha e felicidade. Fica com uma tremenda cara
de bobo alegre. Com um sorriso idiota fixado no rosto. Tentando olhar para todo
mundo. Louco que acabe logo a canção pra soprar as velas do bolo e retornar ao
anonimato.
Concentrei-me num pedido importante (que
nem me lembro mais), e assoprei com força. De uma só vez apaguei todas as
quarenta e cinco velinhas que estavam enfiadas na torta de chocolate. Com
certeza aquela torta estava envenenada. Imaginem quem a trouxe? Sim, ela mesma.
A minha querida e solidária ex.
Acenei com as mãos pra silenciar os
aplausos e assobios. E cometi um ato impensado.
Me senti o presidente dos Estados
Unidos da América diante de uma comitiva de extraterrestres e discursei para
todos os presentes. Em alto e bom tom, falei:
- Decidi que nunca, jamais, colocarei
um cigarro na minha boca.
Acrescentei ainda que se, porventura,
alguém me visse com um cigarro na boca poderia exigir imediatamente que eu
tirasse completamente a roupa e rolasse pelo chão chamando pela polícia.
Empolgado, já visualizando a bandeira
americana entupida de estrelas tremulando no alto do Empire State, terminei o
discurso com um apoteótico: I’LL NEVER SMOKE AGAIN.
Dito isso acendi um cigarro e
confirmei que a partir de amanhã começaria a parar de fumar.
Posso lhes dar um conselho? Jamais
façam isso. Nunca anunciem nada para ninguém em hipótese alguma. Pare o que
você quiser parar. Comece o quê quiser começar. Decida quando, onde e por que
sem dar satisfação a ninguém, nem mesmo sob tortura. Mude qualquer hábito,
desde aqueles mais inofensivos até aqueles mais íntimos, de ordem sexual, mas
faça bem quietinho. Solitariamente.
Deixe pra comunicar somente quando e
se você tiver conseguido seu intento. Infelizmente, aprendi esta saudável lição
somente depois de ter cometido o pecado mortal (contra mim mesmo) de anunciar para uma população inteira de
conhecidos e penetras que eles todos jamais me veriam com um cigarro na boca
outra vez. Fui execrado na hora. Passei por fraco, mentiroso, incapaz, charlatão,
falcatrua, pérfido, fanfarrão, um sete um, falso, vendido, traidor, inapto,
falastrão, e cada um tinha um adjetivo pior para me classificar, sendo que a
palavra final foi da minha mãe:
_ “Mas tu nunca cumpriu nenhuma
decisão na tua vida, não vai ser agora.”
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