segunda, 24/7/2000
Ficar trancado em casa até que não é
tão ruim.
Pelo menos realmente não tenho como
encerrar minhas férias e ir trabalhar.
Liguei pra agência e pedi mais uma
semana.
- Uma semaninha e tô pronto.
Falei com uma voz tão sorumbática que
aceitaram na hora.
Excelente.
Continuo na minha prisão particular.
Aliás, hoje em dia com a Internet, o
orkut, o google, nem dá pra dizer que é uma prisão. A gente mantém o contato
direto com o planeta inteiro sem sair de casa.
Bem que tentei, mas não consigo.
Basta me aproximar a menos de setenta
centímetros do computador que já me acomete uma irresistível vontade de fumar.
É como se a tal “vontade de fumar”
estivesse ali, sentada na minha cadeira de trabalho. Fica só esperando eu me
aproximar pra me atacar.
Não é brincadeira.
Em todas aquelas situações nas quais
você sempre fumava, antes de cometer a insanidade de querer parar de fumar, estará
por perto a maldita “vontade de fumar”.
Às vezes, sentadinha na sua cadeira
preferida como um afável cãozinho de estimação. Sempre pronto pra pular no seu
colo.
Outras vezes, de tocaia atrás do
telefone como uma cascavel pronta pro bote. Se esconde numa estante, dentro dum
livro. Uma caixa de Pandora que contamina o ar inteiro assim que você abre.
E aí, você, cavaleiro Jedi, sente o
apelo do lado negro da força.
É chamado a esquecer tudo, jogar pelos
ares esta idiotice de querer parar de fumar.
Se todo mundo fuma porque logo você é
que tem que parar?
Logo você, cujo avô fumou até morrer
aos noventa e sete anos de idade.
Por que você não esquece essa história
de uma vez e agarra o primeiro cigarro que passar perto de você?
Pegue logo o primeiro que der bobeira
na sua frente.
Vamos, homem, faça isso agora.
Afinal de contas você é homem ou uma
barata?
- Chega!
Eu sou um homem e estou trancado em
casa.
Se pelo menos eu fosse uma barata
passaria por baixo da porta. Desceria até o primeiro subsolo e andaria com
minhas patinhas de barata até o depósito de lixo orgânico.
Com as minhas mãozinhas de barata eu
ia pegar a melhor bagana que eu encontrasse. Voltaria pra casa e fumaria até
queimar meus dedinhos de barata.
Baratas têm dedos?
Baratas fumam?
Tenho que ver a programação da tv à
cabo pra saber se tem algum programa sobre a vida das baratas.
Assim como estou, voluntariamente
trancado em casa, não tenho como me aproximar de um cigarro de maneira nenhuma.
Só se algum destes pássaros que pousam
no terraço trouxer uma bituca no bolso pra me oferecer.
Venci.
A crise está passando. O suor está
secando.
Venci só porque sou um cara
inteligente.
Claro.
Foi por pura inteligência e prevenção
que fiquei aqui prisioneiro de mim mesmo.
Questão de esperteza, autoconhecimento
e conhecimento da natureza humana.
E se eu comprar cigarros pela
Internet?
Isso é uma possibilidade real. Posso
me conectar agora mesmo e entrar no site de algum supermercado e pedir um maço
de cigarros.
- Hum... e se eles não quiserem vender
um maço de cigarros pela Internet?
Ora, venderão um pacote. Dez pacotes.
Ora, quanto mais pacotes melhor.
Melhor ainda.
Terei dez milhões de desculpas para
fumar cada uma das dez mil carteiras de cigarro inteirinhas.
Eu poderia também mandar e-mails para
toda minha lista de endereços e lançar uma campanha humanitária pedindo que
todos depositassem um cigarro na minha caixa de correio.
Depois ligaria para o “seu” Ércules, o
porteiro, e pediria que ele encaminhasse as doações por baixo da porta.
O plano é bom.
Quem negaria um cigarro para um
desesperado ex-viciado arrependido?
Quem conseguiria passar um cigarro
para mim se estou trancado em casa?
Se eu chamasse os bombeiros?
Se eu ligasse pra polícia e
denunciasse meu próprio seqüestro por mim mesmo. Podia pedir dez pacotes de
cigarro como resgate.
E se eu for agora mesmo pra janela do
prédio e ameaçar pular se alguém não me trouxer um cigarro aceso agora mesmo?
E se eu...
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