sexta-feira, 17 de novembro de 2017

DÉCIMO QUARTO DIA.

domingo, 30/7/2000


- Tô mesmo numa sinuca de bico.
Encurralado. Esta é a palavra. A mais apropriada, a mais exata para este tipo de situação.
Amanhã é segunda e segunda é o dia da tal reunião importante lá na agência. E não tem truque, artimanha, manha, promessa pra Santo, reza pra Nossa Senhora que me livre de comparecer.
Hoje, às dezesseis horas e quinze minutos eu já estava sentado ao lado do telefone esperando a ligação dominical do meu colega Áureo.
É impressionante.
Trabalhamos juntos há, mais ou menos, uns seis anos. Talvez, oito. Eu ainda era casado quando conheci o Áureo. Quando entrei na agência ele já trabalhava lá.
Acho que o Áureo se apaixonou por mim a primeira vista.
Não, o Áureo não era gay, o Áureo era “nada”. Simplesmente, ele não se interessava por isso. É sério, ele não dava à mínima pra mulheres. Não tinha o menor interesse por homens.
Ele era nada.
O Áureo era um fofo. Era um querido.
Ele simpatizou comigo de cara. Me escolheu como centro de suas preocupações. Era como se ele não tivesse problemas, ou melhor, eu fosse o problema dele.
Eu estava voltando de São Paulo, com a esposa e dois filhos pequenos.
Áureo compadeceu-se da minha situação e já no primeiro domingo ligou preocupadíssimo comigo. “Tá bem instalado? Tá precisando de alguma coisa?  E os filhos? Já consegui uma escola?
O Áureo fez uma lista de endereços de cabeleireiros, shoppings e outros contatos de primeira necessidade que minha mulher poderia precisar.
E desde daquele longínquo domingo quando me ligou pela primeira vez às quatro e meia até hoje ele nunca falhou.
Não. Minto.
Falhou uma única vez quando a senhora mãe dele, que Deus tenha ao seu lado aquela Santa pessoa que tantas vezes ficou cuidando dos meus filhos para que eu e Júlia fossemos ao cinema, teve um ataque cardíaco às quatro e vinte da madrugada e ele teve que ocupar o telefone com algum assunto realmente importante e levar a mãe às pressas para o hospital.
Como diria Nelson Rodrigues, foi batata, as quatro e trinta, em ponto, o telefone tocou e do outro lado da linha estava ele, meu amigo Áureo.
O anjo da guarda protetor dos meus domingos.
Como sempre ele estava muito preocupado porque eu havia faltado uma semana inteira e os caras estavam enlouquecidos comigo. Contou os mínimos detalhes sobre os acontecimentos da semana passada. Enquanto ele falava os assuntos menos importantes pensei que durante todos estes anos suas ligações sempre duravam vinte minutos.
Isso me fez pensar que ele passava os domingos ligando para várias pessoas com as quais ele também se preocupava. Várias ligações de vinte minutos intercaladas com dez minutos para comer, ver tv, fazer xixi, e outras necessidades domingueiras básicas.
Confesso que fiquei um pouco aborrecido com estes pensamentos porque, caso fossem reais, eu deixaria de ser o protagonista das preocupações dele, deixaria de ser filho único para ser mais um soldado do batalhão.
Quando chegou ao relato dos fatos de sexta-feira, Áureo me contou que a reunião está pra lá de confirmada. “- Sai até debaixo de chuva forte. E você não pode faltar, senão o Braga te mata.”
Cada vez que ele repetia o bordão “tem que comparecer”, eu me sentia completamente encurralado e me dava muita, muita vontade de fumar.
Pensei que se eu fumasse hoje não precisaria ter medo de fumar amanhã. Então o negócio era sair agora mesmo e comprar um maço de cigarros, e amanhã chegar fumando na agência. Enganaria todo mundo.
Acho que o Áureo percebeu que eu não estava escutando totalmente as coisas que ele me dizia. Sacou que eu não estava prestando cem por cento de atenção na sua conversa. Só pode ser isso porque aos doze minutos e meio ele já estava se despedindo de mim.
Reclamei que faltavam praticamente oito minutos de telefonema. Ele tinha que compreender que eu estava passando por um período em que eu não conseguia fixar minha atenção em outra coisa. Só pensava na maldita vontade de fumar que eu sentia. Ele tinha que entender que eu não me sentia pronto para voltar à agência amanhã. Simplesmente, porque tenho certeza que vou fumar na primeira oportunidade que aparecer.
- Áureo, entenda, eu tô numa sinuca de bico.
Se eu não for na segunda perco meu emprego e acabo fumando por puro desespero. Se for na reunião, tenho certeza que vou sair de lá fumando.
É que todos querem ver? Eu volto ao trabalho e perco quase quinze dias de tortura? Será que ninguém compreende que eu quero parar de fumar? Será que ninguém percebe que já fracassei uma vez e não quero fracassar novamente?
Momento difícil.
Completamente estressante.
Se pelo menos eu pudesse fumar um cigarrinho pra pensar melhor à respeito do problema...
Áureo disse que entendia minha situação, mas a ordem é “tem que comparecer”. Deixou uma série de recomendações maternais. Gastou seus últimos dois minutos nas considerações finais e se despedindo.
Desligou dizendo: “- Te espero na segunda. Tem que comparecer.”
Olhando pelo lado Poliana, sei que tá havendo um avanço na minha situação duas coisas para dividir a atenção dos meus pensamentos: como não voltar a fumar e como escapar da reunião.
Devo fumar logo um cigarro ou arriscar resistir bravamente e enfrentar a reunião de segunda-feira?
Devo fugir do emprego e recomeçar minha vida de ex-fumante em outro lugar ou chegar na agência fumando e distribuindo pacotes de cigarros para meus colegas?
Para quem vem vivendo a quase quinze dias absolutamente focado num pensamento único e exclusivo, isso é mesmo um grande avanço. Uma enorme distração.
Será que eu devo fumar assim que eu pisar na porta da agência e aceitar o primeiro cigarro que me oferecerem?
Ou, devo sair agora de casa, comprar um táxi. Cortar o cabelo à moda moicano. Passar numa loja de armas e comprar duas metralhadoras automáticas e umas quinze caixas de balas?
Posso entrar na reunião atirando em todos. Mato os japoneses. Mato os alemães.
- Puxa, que pena, foram tantos tiros que acabei matando alguns colegas de trabalho.
Mato o meu superamigo Áureo. Aproveito e mato o Villas, metido a gênio da criação. Sem querer, vou até a mesa do Braga e do Aguiar e mato os dois. Só não mato a Guadalupe Moreno, a nossa secretária que é o protótipo da secretária gostosa. Um colírio.
No final me suicido.
Mas não fumo.

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