domingo, 30/7/2000
- Tô mesmo
numa sinuca de bico.
Encurralado.
Esta é a palavra. A mais apropriada, a mais exata para este tipo de situação.
Amanhã é
segunda e segunda é o dia da tal reunião importante lá na agência. E não tem
truque, artimanha, manha, promessa pra Santo, reza pra Nossa Senhora que me
livre de comparecer.
Hoje, às
dezesseis horas e quinze minutos eu já estava sentado ao lado do telefone
esperando a ligação dominical do meu colega Áureo.
É
impressionante.
Trabalhamos
juntos há, mais ou menos, uns seis anos. Talvez, oito. Eu ainda era casado
quando conheci o Áureo. Quando entrei na agência ele já trabalhava lá.
Acho que o
Áureo se apaixonou por mim a primeira vista.
Não, o Áureo
não era gay, o Áureo era “nada”. Simplesmente, ele não se interessava por isso.
É sério, ele não dava à mínima pra mulheres. Não tinha o menor interesse por
homens.
Ele era
nada.
O Áureo era um fofo. Era um querido.
Ele
simpatizou comigo de cara. Me escolheu como centro de suas preocupações. Era
como se ele não tivesse problemas, ou melhor, eu fosse o problema dele.
Eu estava
voltando de São Paulo, com a esposa e dois filhos pequenos.
Áureo compadeceu-se
da minha situação e já no primeiro domingo ligou preocupadíssimo comigo. “Tá
bem instalado? Tá precisando de alguma coisa?
E os filhos? Já consegui uma escola?
O Áureo fez
uma lista de endereços de cabeleireiros, shoppings e outros contatos de
primeira necessidade que minha mulher poderia precisar.
E desde daquele
longínquo domingo quando me ligou pela primeira vez às quatro e meia até hoje
ele nunca falhou.
Não. Minto.
Falhou uma
única vez quando a senhora mãe dele, que Deus tenha ao seu lado aquela Santa
pessoa que tantas vezes ficou cuidando dos meus filhos para que eu e Júlia
fossemos ao cinema, teve um ataque cardíaco às quatro e vinte da madrugada e
ele teve que ocupar o telefone com algum assunto realmente importante e levar a
mãe às pressas para o hospital.
Como diria
Nelson Rodrigues, foi batata, as quatro e trinta, em ponto, o telefone tocou e
do outro lado da linha estava ele, meu amigo Áureo.
O anjo da
guarda protetor dos meus domingos.
Como sempre
ele estava muito preocupado porque eu havia faltado uma semana inteira e os
caras estavam enlouquecidos comigo. Contou os mínimos detalhes sobre os
acontecimentos da semana passada. Enquanto ele falava os assuntos menos
importantes pensei que durante todos estes anos suas ligações sempre duravam
vinte minutos.
Isso me fez
pensar que ele passava os domingos ligando para várias pessoas com as quais ele
também se preocupava. Várias ligações de vinte minutos intercaladas com dez
minutos para comer, ver tv, fazer xixi, e outras necessidades domingueiras
básicas.
Confesso que
fiquei um pouco aborrecido com estes pensamentos porque, caso fossem reais, eu
deixaria de ser o protagonista das preocupações dele, deixaria de ser filho
único para ser mais um soldado do batalhão.
Quando
chegou ao relato dos fatos de sexta-feira, Áureo me contou que a reunião está
pra lá de confirmada. “- Sai até debaixo de chuva forte. E você não pode
faltar, senão o Braga te mata.”
Cada vez que
ele repetia o bordão “tem que comparecer”, eu me sentia completamente
encurralado e me dava muita, muita vontade de fumar.
Pensei que
se eu fumasse hoje não precisaria ter medo de fumar amanhã. Então o negócio era
sair agora mesmo e comprar um maço de cigarros, e amanhã chegar fumando na
agência. Enganaria todo mundo.
Acho que o
Áureo percebeu que eu não estava escutando totalmente as coisas que ele me
dizia. Sacou que eu não estava prestando cem por cento de atenção na sua
conversa. Só pode ser isso porque aos doze minutos e meio ele já estava se
despedindo de mim.
Reclamei que
faltavam praticamente oito minutos de telefonema. Ele tinha que compreender que
eu estava passando por um período em que eu não conseguia fixar minha atenção
em outra coisa. Só pensava na maldita vontade de fumar que eu sentia. Ele tinha
que entender que eu não me sentia pronto para voltar à agência amanhã.
Simplesmente, porque tenho certeza que vou fumar na primeira oportunidade que aparecer.
- Áureo,
entenda, eu tô numa sinuca de bico.
Se eu não
for na segunda perco meu emprego e acabo fumando por puro desespero. Se for na
reunião, tenho certeza que vou sair de lá fumando.
É que todos
querem ver? Eu volto ao trabalho e perco quase quinze dias de tortura? Será que
ninguém compreende que eu quero parar de fumar? Será que ninguém percebe que já
fracassei uma vez e não quero fracassar novamente?
Momento
difícil.
Completamente
estressante.
Se pelo
menos eu pudesse fumar um cigarrinho pra pensar melhor à respeito do
problema...
Áureo disse
que entendia minha situação, mas a ordem é “tem que comparecer”. Deixou uma
série de recomendações maternais. Gastou seus últimos dois minutos nas
considerações finais e se despedindo.
Desligou
dizendo: “- Te espero na segunda. Tem que comparecer.”
Olhando pelo
lado Poliana, sei que tá havendo um avanço na minha situação duas coisas para
dividir a atenção dos meus pensamentos: como não voltar a fumar e como escapar
da reunião.
Devo fumar
logo um cigarro ou arriscar resistir bravamente e enfrentar a reunião de
segunda-feira?
Devo fugir
do emprego e recomeçar minha vida de ex-fumante em outro lugar ou chegar na
agência fumando e distribuindo pacotes de cigarros para meus colegas?
Para quem
vem vivendo a quase quinze dias absolutamente focado num pensamento único e
exclusivo, isso é mesmo um grande avanço. Uma enorme distração.
Será que eu
devo fumar assim que eu pisar na porta da agência e aceitar o primeiro cigarro
que me oferecerem?
Ou, devo
sair agora de casa, comprar um táxi. Cortar o cabelo à moda moicano. Passar
numa loja de armas e comprar duas metralhadoras automáticas e umas quinze
caixas de balas?
Posso entrar
na reunião atirando em todos. Mato os japoneses. Mato os alemães.
- Puxa, que
pena, foram tantos tiros que acabei matando alguns colegas de trabalho.
Mato o meu
superamigo Áureo. Aproveito e mato o Villas, metido a gênio da criação. Sem
querer, vou até a mesa do Braga e do Aguiar e mato os dois. Só não mato a
Guadalupe Moreno, a nossa secretária que é o protótipo da secretária gostosa.
Um colírio.
No final me
suicido.
Mas não
fumo.
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