sexta-feira, 17 de novembro de 2017

QUINTO DIA.

sexta, 21/7/2000

Hoje, quando acordei, às três e quinze da madrugada, decidi que, a partir de agora, vou caminhar todas as manhãs.
Dizem que apenas uma hora de caminhada ajuda quem está parando de fumar. Diminui a ansiedade e dá mais resistência ao organismo. Ao mesmo tempo, que aumenta a oxigenação do seu corpo e faz com que ele transpire.
Caminhando você estaria colocando para fora uma porção de porcarias ingeridas pelo organismo quando você fuma.
Caminhando você poderia distrair-se do maldito hábito de fumar.
Por enquanto vou ter que caminhar dentro de casa mesmo, já que estou trancafiado.
Ainda não me sinto preparado para sair às ruas.
Claro que não. Eu teria que enfrentar hordas de fumantes. Eles andam por aí soltos. Sem a menor preocupação sopram quilos de fumaça no nariz dos não-fumantes.
E, o que é pior, dos aspirantes a ex-fumantes, como eu.
- Pobre de mim!
Só de pensar em ser atingido por uma baforada carregada de cheiro de cigarro já sofro. Seria como ser atingido por um inebriante e hipnótico perfume feminino de alta qualidade.
Ou como nos desenhos animados: sempre que a vovó (sempre é a vovó) coloca suas tortas de framboesa ou de amoras (sempre as tortas são de framboesas ou de amoras) na janela pra esfriar, o que acontece?
O Zé Colméia, ou o Pica-Pau, ou o Gansolino sentem o cheiro da torta. E o”voam” pela trilha da fumaça até a janela. São carregados pelo faro.
Eu também tenho um nariz de tamanho avantajado. Eu poderia alargar ao máximo minhas narinas e seguir a trilha deixada pela fumaça de qualquer cigarro. Andar quilômetros aspirando a trilha deixada pelo fumante.
Posso acionar meu poderoso nariz walita e absorver cada centímetro cúbico e linear daquele delicioso e cativante odor cigarrífero. Poderia caminhar a manhã inteira trocando de um fumante para outro. Seguindo fumantes até que apagassem o cigarro.
Eu, Forrest Gump, caminhando pelas três Américas, seguindo fumantes. Colecionando os diferentes sabores de cigarros.
Não, ainda não estou preparado para sair de casa.
Melhor é caminhar aqui dentro mesmo.
Ando da cozinha para a sala, passo pelo quarto, faço a curva no banheiro. Volto, subo até o terraço, contorno a churrasqueira, desço, atravesso a sala e cá estou eu.
- Uma volta.
A volta se completa quando eu chego na geladeira e paro para abastecer.
A cerveja desce redondo e gelada pela minha garganta. Belisco algumas coisinhas. Umas três ou quatro bolachinhas recheadas.
Abandono o pit-stop e lá vou eu para a segunda volta.
Sinto que para conseguir o efeito desejado eu teria que caminhar por uns duzentos e dez dias seguidos.
Caminhar realmente é muito bom.
Mas é um pena que engorda.

A cada volta quando abasteço no pit-stop engordo uns três quilos e seiscentos.

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