sexta, 21/7/2000
Hoje, quando acordei, às três e quinze
da madrugada, decidi que, a partir de agora, vou caminhar todas as manhãs.
Dizem que apenas uma hora de caminhada
ajuda quem está parando de fumar. Diminui a ansiedade e dá mais resistência ao
organismo. Ao mesmo tempo, que aumenta a oxigenação do seu corpo e faz com que
ele transpire.
Caminhando você estaria colocando para
fora uma porção de porcarias ingeridas pelo organismo quando você fuma.
Caminhando você poderia distrair-se do
maldito hábito de fumar.
Por enquanto vou ter que caminhar
dentro de casa mesmo, já que estou trancafiado.
Ainda não me sinto preparado para sair
às ruas.
Claro que não. Eu teria que enfrentar hordas
de fumantes. Eles andam por aí soltos. Sem a menor preocupação sopram quilos de
fumaça no nariz dos não-fumantes.
E, o que é pior, dos aspirantes a
ex-fumantes, como eu.
- Pobre de mim!
Só de pensar em ser atingido por uma
baforada carregada de cheiro de cigarro já sofro. Seria como ser atingido por
um inebriante e hipnótico perfume feminino de alta qualidade.
Ou como nos desenhos animados: sempre
que a vovó (sempre é a vovó) coloca
suas tortas de framboesa ou de amoras (sempre
as tortas são de framboesas ou de amoras) na janela pra esfriar, o que
acontece?
O Zé Colméia, ou o Pica-Pau, ou o Gansolino
sentem o cheiro da torta. E o”voam” pela trilha da fumaça até a janela. São
carregados pelo faro.
Eu também tenho um nariz de tamanho
avantajado. Eu poderia alargar ao máximo minhas narinas e seguir a trilha
deixada pela fumaça de qualquer cigarro. Andar quilômetros aspirando a trilha
deixada pelo fumante.
Posso acionar meu poderoso nariz
walita e absorver cada centímetro cúbico e linear daquele delicioso e cativante
odor cigarrífero. Poderia caminhar a manhã inteira trocando de um fumante para
outro. Seguindo fumantes até que apagassem o cigarro.
Eu, Forrest Gump, caminhando pelas três
Américas, seguindo fumantes. Colecionando os diferentes sabores de cigarros.
Não, ainda não estou preparado para
sair de casa.
Melhor é caminhar aqui dentro mesmo.
Ando da cozinha para a sala, passo
pelo quarto, faço a curva no banheiro. Volto, subo até o terraço, contorno a
churrasqueira, desço, atravesso a sala e cá estou eu.
- Uma volta.
A volta se completa quando eu chego na
geladeira e paro para abastecer.
A cerveja desce redondo e gelada pela
minha garganta. Belisco algumas coisinhas. Umas três ou quatro bolachinhas
recheadas.
Abandono o pit-stop e lá vou eu para a
segunda volta.
Sinto que para conseguir o efeito
desejado eu teria que caminhar por uns duzentos e dez dias seguidos.
Caminhar realmente é muito bom.
Mas é um pena que engorda.
A cada volta quando abasteço no
pit-stop engordo uns três quilos e seiscentos.
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