sexta-feira, 10 de novembro de 2017

QUINTO DIA.


terça, 05/12/2001
Como a vida pode ser tão sem graça?
- Ah, não acha?
Acha que é bobagem? Frescura minha?
Imagina então, se você tivesse que voltar pra primeira página deste livro e começar tudo outra vez?
Na página 1.
Legal, né? Pois é. Que saco!
Imagina então ter que voltar pra escola. Primeira série. Tudo de novo. Vovó viu a uva. The book is on the table.
Volte então para o primeiro emprego. O primeiro chefe. Já pensou? Aturar de novo o primeiro chefe?
Eu lembro exatamente do meu primeiro chefe. E olha que eu era muito jovem no meu primeiro emprego.
Era numa vídeo locadora que negociava também com hq. Eu era “o” expert em hq da locadora.
Meu pai, tão sensível quanto uma bigorna bávara, havia me dado um ultimato: ou eu deixava de ser o vagabundo que ficava o dia inteiro sem fazer nada lendo revistas que não prestam pra nada e botava um trabalho no corpo ou a verba para as revistas e para o cigarro estavam cortadas.
Mexeu em algo sagrado.
Ficar sem as revistas era algo inviável, inimaginável.
Então, comecei a procurar emprego todas as segundas-feiras. Domingo recortava da Zero Hora os anunciozinhos de emprego. Na segunda saia mais ou menos cedo para as entrevistas.
No meio de várias tentativas fui aprovado na locadora de vídeo. Meu pai teve que engolir essa. Ganhei o emprego justamente por causa da minha experiência de leitor assíduo das chamadas revistinhas. Ou os gibis.
Fui parar numa locadora devido a carga considerável de cultura inútil adquirida nas revistas em quadrinho.
Quando meu pai ficou sabendo, primeiro, não quis acreditar. Depois achou uma maneira de se gabar dizendo imaginava algo assim acontecendo. Disse que era por isso que ele incentivava o meu hábito de ler estas porcarias.
Na realidade, meu novo emprego calou a boca de meu pai por algum tempo.
Eu tava contratado. E era o contratado-especial (uma espécie de Ronaldinho) das hq. Tava no tima da Vídeo Locadora Top-list, a primeira locadora do seu coração.
E meu querido primeiro chefe, aliás, o criador deste precioso slogan, era um senhor que havia aderido ao programa de demissão voluntária do Banrisul.
Pegou uma grana e investiu num negócio da china: abrir uma locadora.
Ele podia ter comprado um táxi. Podia ter comprado uma van adaptada para cachorro-quente.
Ou qualquer outros destes que eram grandes negócios antes dos programas de demissão voluntária praticados pelo Banrisul, pela Caixa Estadual, pela CEEE, e por tantos outros órgãos públicos. Foi tanta gente embora que aconteceu uma verdadeira enxurrada de pequenos negócios.
Companhias de recargas de cartucho, lojas de xerox, lojas de um e noventa e nove, pizzarias tele entrega, cabeleireiros, etc.
Todos os tipos de negócio em que basta você ter um pouco de dinheiro para comprar o kit-negócio entregue na sua porta.
Um deles é a locadora de vídeo.
Até que era legal trabalhar na locadora, o problema é que o dono era completamente paranóico.
O cara, depois de trabalhar por quase trinta anos atrás de um guichê de caixa do Banrisul, simplesmente achava que todo mundo tava ali pra roubar dele. Desconfiava de qualquer um. De nós porque a gente trabalhava ali. E dos clientes porque ficavam pelos cantos olhando as caixas vazias das fitas de vídeo cassete.
Ele desconfiava também de um complô contra ele, armado por nós, os sete funcionários da Top List. Na certa, imaginava que iríamos assaltá-lo num final de noite de trabalho.
Paranóico total.
De certo o fato de ser caixa do banco era um peso tanta responsabilidade que deixou o cara doidão. Não entendia absolutamente nada de locadora, nem de vídeo, nem de negócio, nem de cliente. Tinha ido ao cinema no máximo umas duas vezes na vida. Fez um cursinho de empresário no Sebrae. Só que as aulas eram depois do almoço, então ele sempre tirava um cochilo no banheiro.
Acreditava piamente que sabia alguma coisa e podia mandar em nós porque éramos seus empregados. Ser empregado, na cabeça dele, era praticamente sinônimo de escravo.
Tal e qual ele fora no banco.
Eu tinha 14 anos.
Comecei a trabalhar porque queria juntar dinheiro pra comprar uma bicicleta de corrida e um lp do Paul McCartney. Foi nessa ocasião que comecei a me virar sozinho. Comecei a comprar minhas próprias roupas. Comecei a paquerar. Comecei a fumar.
- Claro, foi aí.
Eu tinha emprego, logo tinha dinheiro pra comprar cigarros e comecei a fumar.
Que absurdo. E eu tinha que pensar logo nisso.
Com tantas primeiras vezes pra acontecer eu tinha que pensar logo numa que acabava em cigarro.
Não podia ter pensado numa primeira vez mais gostosa.
Minha primeira namorada, por exemplo.
Minha primeira sogra, então?
Claro, devia ter pensado na minha primeira sogra. Ah! Que sogra. Vocês não podem imaginar o que era minha sogra.
Eu tinha catorze para quinze anos quando arranjei minha primeira namorada. Uma moreninha, coisa mais linda, que morava no Beco do Carvalho quando o Beco do Carvalho era longe pra... (parte interativa do livro, onde o próprio leitor deve completar a rima).
O namoro durou mais ou menos um mês. Terminei o namoro porque a casa dela era muito longe da minha casa que ficava no Jardim Botânico. Que, na época, era outro fim de mundo.
Hoje eu entendo que tudo era longe porque o mundo era muito mais devagar.
A minha namorada era apenas bonitinha, engraçadinha. Trocamos olhares, dançamos juntos, beijinhos, mãos dadas, e coisa e tal.
Ela tinha 13 anos e estava começando a fumar. Gostei da guria.
Mas quando conheci minha sogra é que eu me apaixonei.
Que mulher! Que sogra!
Vocês não imaginam a quantidade de punhetas que a minha sogra rendeu na minha adolescência.
Só pra vocês fazerem uma idéia, ela empatou com a Rita Cadillac e perdeu por pouco pra minha primeira (e única) professora de francês no ano seguinte quando eu já estava com quinze anos.
A minha sogra era um espetáculo. Mas minha professora de francês não ficava atrás.
Aliás, a derrière da minha professora de francês era simplesmente de babar. Era fulgurante, extasiante, de arrebentar. Ela era uma mulher avançada pra sua época. Andava com roupas justas, coloridas. Saias curtas e transparentes. Mas, além de tudo,  ela era a professora de francês. E isso era o maior fetiche que ela poderia exercer sobre mim.
A professora de francês, a minha primeira sogra e a Rita Cadillac foram meu trio de deusas da beleza no olimpo do banheiro da minha adolescência.
De todas, a que mais ficava ao alcance da minha mão boba era minha generosa sogra. Ela seguidamente encontrava um jeito de esbarrar em mim. E eu nela.
Minha sogra, simplesmente me deixava louco.
Eu ia pra casa da minha namorada e não queria sair de perto da minha sogra.
Ajudava-a em todas as tarefas da casa. Era o seu fiel escudeiro.
Quando chegava a esperada hora das despedidas ela, às vezes, vinha também para o portão, com a desculpa de fumar um cigarro à luz do luar.
Dava um pulinho de gata no cio, sentava-se no muro derramando gostosuras para todos os lados e ficava horas conversando comigo. Num delicadíssimo equilíbrio precário em cima do muro, minha sogra cruzava as pernas com falso medinho, deixando aparecer todos os seus volumes. Os recantos recônditos e curvas do pecado dos poetas. Os claros/escuros dos pintores.
Ela era linda.
E além de tudo minha sogra era uma revolucionária: fumava pra mostrar que era independente. Na maioria das vezes era legal, agradável ter a companhia dela. Só tinha um problema: eu não podia agarrar a filha por causa da mãe. E não podia agarrar a mãe por causa da filha.
E do pai. Porque às vezes o coroa achava tudo muito demorado e aparecia no patamar da casa. Soltava um pigarro. E até chamava as duas de volta pra casa. Ele rosnava dois ou três monossílabos e depois retornava pra frente da televisão.
A minha namorada falava pra mãe entrar antes dela:
- Vai na frente, mãezinha.
A sogra abanava a cabeça e se lamentava dramaticamente:
- Esse aí não dá mais. Um dia vou ter que me decidir... Venha, filha, vamos entrar, senão o cavalo do teu pai... já sabes, né...”
E entrava.
E levava a guria.
Eu não acreditava no que estava acontecendo.
A gente dava um beijinho mixuruca, dizia boa noite e fim.
Elas entravam em casa, a porta fechava e eu ficava louco de raiva e tesão.
Tinha que voltar sozinho do Beco do Carvalho para o Jardim Botânico.
De ônibus.
De pau duro.
Tinha que esperar até chegar em casa pra botar as mãos na minha sogra.
Mas, do que era mesmo que eu estava falando?

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