terça, 05/12/2001
Como a vida pode ser tão sem graça?
- Ah, não acha?
Acha que é bobagem? Frescura minha?
Imagina então, se você tivesse que
voltar pra primeira página deste livro e começar tudo outra vez?
Na página 1.
Legal, né? Pois é. Que saco!
Imagina então ter que voltar pra
escola. Primeira série. Tudo de novo. Vovó viu a uva. The book is on the table.
Volte então para o primeiro emprego. O
primeiro chefe. Já pensou? Aturar de novo o primeiro chefe?
Eu lembro exatamente do meu primeiro
chefe. E olha que eu era muito jovem no meu primeiro emprego.
Era numa vídeo locadora que negociava
também com hq. Eu era “o” expert em hq da locadora.
Meu pai, tão sensível quanto uma
bigorna bávara, havia me dado um ultimato: ou eu deixava de ser o vagabundo que
ficava o dia inteiro sem fazer nada lendo revistas que não prestam pra nada e
botava um trabalho no corpo ou a verba para as revistas e para o cigarro
estavam cortadas.
Mexeu em algo sagrado.
Ficar sem as revistas era algo
inviável, inimaginável.
Então, comecei a procurar emprego
todas as segundas-feiras. Domingo recortava da Zero Hora os anunciozinhos de
emprego. Na segunda saia mais ou menos cedo para as entrevistas.
No meio de várias tentativas fui
aprovado na locadora de vídeo. Meu pai teve que engolir essa. Ganhei o emprego
justamente por causa da minha experiência de leitor assíduo das chamadas
revistinhas. Ou os gibis.
Fui parar numa locadora devido a carga
considerável de cultura inútil adquirida nas revistas em quadrinho.
Quando meu pai ficou sabendo,
primeiro, não quis acreditar. Depois achou uma maneira de se gabar dizendo
imaginava algo assim acontecendo. Disse que era por isso que ele incentivava o
meu hábito de ler estas porcarias.
Na realidade, meu novo emprego calou a
boca de meu pai por algum tempo.
Eu tava contratado. E era o
contratado-especial (uma espécie de
Ronaldinho) das hq. Tava no tima da Vídeo Locadora Top-list, a primeira
locadora do seu coração.
E meu querido primeiro chefe, aliás, o
criador deste precioso slogan, era um senhor que havia aderido ao programa de
demissão voluntária do Banrisul.
Pegou uma grana e investiu num negócio
da china: abrir uma locadora.
Ele podia ter comprado um táxi. Podia
ter comprado uma van adaptada para cachorro-quente.
Ou qualquer outros destes que eram grandes
negócios antes dos programas de demissão voluntária praticados pelo Banrisul,
pela Caixa Estadual, pela CEEE, e por tantos outros órgãos públicos. Foi tanta
gente embora que aconteceu uma verdadeira enxurrada de pequenos negócios.
Companhias de recargas de cartucho, lojas
de xerox, lojas de um e noventa e nove, pizzarias tele entrega, cabeleireiros,
etc.
Todos os tipos de negócio em que basta
você ter um pouco de dinheiro para comprar o kit-negócio entregue na sua porta.
Um deles é a locadora de vídeo.
Até que era legal trabalhar na
locadora, o problema é que o dono era completamente paranóico.
O cara, depois de trabalhar por quase
trinta anos atrás de um guichê de caixa do Banrisul, simplesmente achava que
todo mundo tava ali pra roubar dele. Desconfiava de qualquer um. De nós porque
a gente trabalhava ali. E dos clientes porque ficavam pelos cantos olhando as
caixas vazias das fitas de vídeo cassete.
Ele desconfiava também de um complô
contra ele, armado por nós, os sete funcionários da Top List. Na certa,
imaginava que iríamos assaltá-lo num final de noite de trabalho.
Paranóico total.
De certo o fato de ser caixa do banco
era um peso tanta responsabilidade que deixou o cara doidão. Não entendia
absolutamente nada de locadora, nem de vídeo, nem de negócio, nem de cliente. Tinha
ido ao cinema no máximo umas duas vezes na vida. Fez um cursinho de empresário
no Sebrae. Só que as aulas eram depois do almoço, então ele sempre tirava um
cochilo no banheiro.
Acreditava piamente que sabia alguma coisa
e podia mandar em nós porque éramos seus empregados. Ser empregado, na cabeça
dele, era praticamente sinônimo de escravo.
Tal e qual ele fora no banco.
Eu tinha 14 anos.
Comecei a trabalhar porque queria
juntar dinheiro pra comprar uma bicicleta de corrida e um lp do Paul McCartney.
Foi nessa ocasião que comecei a me virar sozinho. Comecei a comprar minhas
próprias roupas. Comecei a paquerar. Comecei a fumar.
- Claro, foi aí.
Eu tinha emprego, logo tinha dinheiro
pra comprar cigarros e comecei a fumar.
Que absurdo. E eu tinha que pensar
logo nisso.
Com tantas primeiras vezes pra
acontecer eu tinha que pensar logo numa que acabava em cigarro.
Não podia ter pensado numa primeira
vez mais gostosa.
Minha primeira namorada, por exemplo.
Minha primeira sogra, então?
Claro, devia ter pensado na minha
primeira sogra. Ah! Que sogra. Vocês não podem imaginar o que era minha sogra.
Eu tinha catorze para quinze anos
quando arranjei minha primeira namorada. Uma moreninha, coisa mais linda, que
morava no Beco do Carvalho quando o Beco do Carvalho era longe pra... (parte interativa do livro, onde o próprio
leitor deve completar a rima).
O namoro durou mais ou menos um mês. Terminei
o namoro porque a casa dela era muito longe da minha casa que ficava no Jardim
Botânico. Que, na época, era outro fim de mundo.
Hoje eu entendo que tudo era longe
porque o mundo era muito mais devagar.
A minha namorada era apenas bonitinha,
engraçadinha. Trocamos olhares, dançamos juntos, beijinhos, mãos dadas, e coisa
e tal.
Ela tinha 13 anos e estava começando a
fumar. Gostei da guria.
Mas quando conheci minha sogra é que
eu me apaixonei.
Que mulher! Que sogra!
Vocês não imaginam a quantidade de
punhetas que a minha sogra rendeu na minha adolescência.
Só pra vocês fazerem uma idéia, ela
empatou com a Rita Cadillac e perdeu por pouco pra minha primeira (e única) professora de francês no ano
seguinte quando eu já estava com quinze anos.
A minha sogra era um espetáculo. Mas
minha professora de francês não ficava atrás.
Aliás, a derrière da minha professora
de francês era simplesmente de babar. Era fulgurante, extasiante, de
arrebentar. Ela era uma mulher avançada pra sua época. Andava com roupas
justas, coloridas. Saias curtas e transparentes. Mas, além de tudo, ela era a professora de francês. E isso era o
maior fetiche que ela poderia exercer sobre mim.
A professora de francês, a minha
primeira sogra e a Rita Cadillac foram meu trio de deusas da beleza no olimpo
do banheiro da minha adolescência.
De todas, a que mais ficava ao alcance
da minha mão boba era minha generosa sogra. Ela seguidamente encontrava um
jeito de esbarrar em mim. E eu nela.
Minha sogra, simplesmente me deixava
louco.
Eu ia pra casa da minha namorada e não
queria sair de perto da minha sogra.
Ajudava-a em todas as tarefas da casa.
Era o seu fiel escudeiro.
Quando chegava a esperada hora das
despedidas ela, às vezes, vinha também para o portão, com a desculpa de fumar
um cigarro à luz do luar.
Dava um pulinho de gata no cio,
sentava-se no muro derramando gostosuras para todos os lados e ficava horas
conversando comigo. Num delicadíssimo equilíbrio precário em cima do muro,
minha sogra cruzava as pernas com falso medinho, deixando aparecer todos os
seus volumes. Os recantos recônditos e curvas do pecado dos poetas. Os
claros/escuros dos pintores.
Ela era linda.
E além de tudo minha sogra era uma
revolucionária: fumava pra mostrar que era independente. Na maioria das vezes
era legal, agradável ter a companhia dela. Só tinha um problema: eu não podia
agarrar a filha por causa da mãe. E não podia agarrar a mãe por causa da filha.
E do pai. Porque às vezes o coroa
achava tudo muito demorado e aparecia no patamar da casa. Soltava um pigarro. E
até chamava as duas de volta pra casa. Ele rosnava dois ou três monossílabos e
depois retornava pra frente da televisão.
A minha namorada falava pra mãe entrar
antes dela:
- Vai na frente, mãezinha.
A sogra abanava a cabeça e se
lamentava dramaticamente:
- Esse aí não dá mais. Um dia vou ter
que me decidir... Venha, filha, vamos entrar, senão o cavalo do teu pai... já
sabes, né...”
E entrava.
E levava a guria.
Eu não acreditava no que estava
acontecendo.
A gente dava um beijinho mixuruca,
dizia boa noite e fim.
Elas entravam em casa, a porta fechava
e eu ficava louco de raiva e tesão.
Tinha que voltar sozinho do Beco do
Carvalho para o Jardim Botânico.
De ônibus.
De pau duro.
Tinha que esperar até chegar em casa
pra botar as mãos na minha sogra.
Mas, do que era mesmo que eu estava
falando?
Nenhum comentário:
Postar um comentário