segunda, 12/6/2000
Julgando estar no auge da solidão e do
desespero, coloquei um anúncio nos classificados:
“Quarentão solitário parando de fumar,
procura pessoa para torturar, esganar e estrangular. Ótimo ambiente de
trabalho. Não precisa prática. Não precisa referência.”
Não que eu seja um homem do tipo
violento, nunca fui, mas sem o miserável do cigarro sinto tanta raiva que só
penso em estrangular, sufocar, asfixiar, morder, afogar, rasgar, bater,
soquear, furar, picar, decapitar, esmagar, torturar, triturar, destruir,
maltratar, mutilar, machucar, decepar, reduzir, humilhar, todas as pessoas,
qualquer pessoa que tenha a audácia, a tremenda ousadia de, simplesmente,
passar pela minha frente.
- Sou uma máquina mortífera.
Olhar e sorrir para mim é uma ofensa
mortal que deve ser punida com tortura chinesa e morte lenta.
Sinto um ódio secular acumulado dentro
de mim, cuja chave para mantê-lo trancado em seu baú era o vício de fumar.
Uma raiva grossa, perigosa.
Um veneno.
Estou até pensando em ser doador de
gosma venenosa para o Butantã produzir soro anti ofídico.
Esta contundente e preocupante
situação destrutiva há até dois dias atrás era amenizada com o consumo diário
de, mais ou menos, quarenta e dois chicletes.
Mas acontece que eu não suporto mais
chicletes.
Estou com as gengivas machucadas de
tanto mascar. Meus maxilares doem.
Meu estômago se contorce em cólicas e
ânsias só de pressentir o cheiro de um chiclete a menos de dois quilômetros de
distância.
Eu odeio chicletes.
Detesto chicletes.
- Eu odeio a família Adams.
Abomino todas as pessoas que gostam de
chicletes. Tenho horror a todos os fabricantes de chicletes do mundo.
Descarreguei minha raiva sem dó nos
últimos treze chicletes que eu tinha em casa.
Primeiro, rasguei as embalagens. Piquei
as caixinhas coloridas. Rasguei os pacotinhos sedutores e coloquei fogo em
tudo.
Senti um verdadeiro prazer em ver as
embalagens se contorcendo e se transformando em cinzas.
Depois capturei os chicletes. Quebrei
seus bracinhos e suas perninhas. Cravei pequenas estacas feitas com paus de
fósforos no coração de cada odioso verme-chiclete. Depois ainda pisoteei cada
um deles.
O que realmente não foi uma boa idéia,
pois ficaram todos grudados nas minhas meias.
Tenho que procurar ajuda. Não consigo
mais tolerar meus ataques de raiva. Já nem saio mais do apartamento para evitar
o contato com meu novo gênio explosivo. Discuto até com as personagens da
televisão.
Outro dia destratei a dona Hebe
Camargo. Coitada, ainda bem que ela nem ficou sabendo de nada.
Ontem tive um violento acesso de
raiva, fúria e desespero. O causador foi o Jô Soares. Ele não calava a boca no
seu programa em que os convidados é que vão lá para serem entrevistados. Será
que ele não sabe que é a opinião e a voz dos convidados que a gente gosta de
ouvir?
Não dá mais.
Não suporto mais.
Não me suporto mais.
Nenhum comentário:
Postar um comentário