quarta-feira, 22 de novembro de 2017

SEXTO DIA.

segunda, 12/6/2000

Julgando estar no auge da solidão e do desespero, coloquei um anúncio nos classificados:

“Quarentão solitário parando de fumar, procura pessoa para torturar, esganar e estrangular. Ótimo ambiente de trabalho. Não precisa prática. Não precisa referência.”

Não que eu seja um homem do tipo violento, nunca fui, mas sem o miserável do cigarro sinto tanta raiva que só penso em estrangular, sufocar, asfixiar, morder, afogar, rasgar, bater, soquear, furar, picar, decapitar, esmagar, torturar, triturar, destruir, maltratar, mutilar, machucar, decepar, reduzir, humilhar, todas as pessoas, qualquer pessoa que tenha a audácia, a tremenda ousadia de, simplesmente, passar pela minha frente.
- Sou uma máquina mortífera.
Olhar e sorrir para mim é uma ofensa mortal que deve ser punida com tortura chinesa e morte lenta.
Sinto um ódio secular acumulado dentro de mim, cuja chave para mantê-lo trancado em seu baú era o vício de fumar.
Uma raiva grossa, perigosa.
Um veneno.
Estou até pensando em ser doador de gosma venenosa para o Butantã produzir soro anti ofídico.
Esta contundente e preocupante situação destrutiva há até dois dias atrás era amenizada com o consumo diário de, mais ou menos, quarenta e dois chicletes.
Mas acontece que eu não suporto mais chicletes.
Estou com as gengivas machucadas de tanto mascar. Meus maxilares doem.
Meu estômago se contorce em cólicas e ânsias só de pressentir o cheiro de um chiclete a menos de dois quilômetros de distância.
Eu odeio chicletes.
Detesto chicletes.
- Eu odeio a família Adams.
Abomino todas as pessoas que gostam de chicletes. Tenho horror a todos os fabricantes de chicletes do mundo.
Descarreguei minha raiva sem dó nos últimos treze chicletes que eu tinha em casa.
Primeiro, rasguei as embalagens. Piquei as caixinhas coloridas. Rasguei os pacotinhos sedutores e coloquei fogo em tudo.
Senti um verdadeiro prazer em ver as embalagens se contorcendo e se transformando em cinzas.
Depois capturei os chicletes. Quebrei seus bracinhos e suas perninhas. Cravei pequenas estacas feitas com paus de fósforos no coração de cada odioso verme-chiclete. Depois ainda pisoteei cada um deles.
O que realmente não foi uma boa idéia, pois ficaram todos grudados nas minhas meias.
Tenho que procurar ajuda. Não consigo mais tolerar meus ataques de raiva. Já nem saio mais do apartamento para evitar o contato com meu novo gênio explosivo. Discuto até com as personagens da televisão.
Outro dia destratei a dona Hebe Camargo. Coitada, ainda bem que ela nem ficou sabendo de nada.
Ontem tive um violento acesso de raiva, fúria e desespero. O causador foi o Jô Soares. Ele não calava a boca no seu programa em que os convidados é que vão lá para serem entrevistados. Será que ele não sabe que é a opinião e a voz dos convidados que a gente gosta de ouvir?    
Não dá mais.
Não suporto mais.
Não me suporto mais. 

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