sexta-feira, 17 de novembro de 2017

SÉTIMO DIA.

domingo, 23/7/2000

Jornal de domingo é uma coisa muito especial: é sempre igual.
Impressionante: é sempre igual.
Os cadernos se repetem. As matérias se repetem. Até as dicas se repetem.
Um tipo de matéria que sempre sai aos domingos é sobre cigarros e fumantes e estatísticas sobre o assunto.
Por exemplo, você sabia que no Brasil, morrem 80 mil fumantes por ano?
- Não? Eu também não sabia.
Mas fiquei sabendo pela Folha de São Paulo dominical.
Não, eu não assino a Folha de São Paulo.
Não sei se foi solidariedade ou pelo prazer de uma bela sacanagem. Não sei se foi por espírito de porco ou extremo senso de humor inglês.
Mas, o fato é que um vizinho (ou vizinha) teve uma brilhante ideia: passou um recorte de jornal por baixo da minha porta.
Recorte é maneira de falar.
Na verdade, era a página central de um antigo e amarelado exemplar dominical da Folha de São Paulo.
Talvez ele (ou ela) tenha achado que ler notícias apavorantes sobre o hábito de fumar seria estimulante na minha situação.
- Como a gente tem vizinhos bons, não é mesmo?
Pessoas amigas que se preocupam com a gente sem esperar nenhuma recompensa.
Realmente, pra que um sujeito como eu, fumante inveterado, viciado há anos e anos, se convencer que tem que parar de fumar precisa mesmo estar apavorado.
Pra levar adiante esta missão quase impossível tem que se entupir de estatísticas.
E a tal notícia era pra deixar qualquer um de cabelos em pé.
Uma matéria daquelas de jornalismo-verdade. Os dados são revelados cruamente. Dados estarrecedores sobre o que o cigarro faz com o fumante.
O texto era fartamente ilustrado por fotos terríveis. Fumantes em estado terminal.
As estatísticas eram alarmantes.
Os números eram de oitenta mil pra cima.
- Tô condenado, foi o que eu senti.
Quando encerrei a leitura da matéria eu já estava completamente deprimido.
Arrastei-me até o quarto.
Vesti meu terno preto de estimação.
Fechei as cortinas.
Acendi um par de velas sete dias.
Deitei na cama e fechei meus olhos.
Cruzei as mãos sobre o peito e, como um personagem de Nelson Rodrigues, morri.
Eu não tinha outra saída.
Às três da tarde ressuscitei porque o telefone tocou insistentemente.
Era o Áureo. Um colega da agência lembrando que minhas férias tinham acabavam hoje. E que eles tavam me esperando na agência na segunda-feira.
Agradeci a lembrança.
O Áureo ainda me disse que seria bom se eu vestisse alguma coisa amarela.
- Por que?
- Plutão tá em forte conjunção com...
Não ouvi mais.

Eu ainda não estava pronto para a agência.   

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