quarta-feira, 22 de novembro de 2017

QUINTO DIA.

domingo, 11/6/2000

QUINTO DIA.

            A coisa está piorando sensivelmente.
Hoje ataquei o zelador do prédio.
Seu” Ércules. Coitado, de Hércules só tem o nome, que ainda é escrito sem o agá. Quarto filho de uma família de seis irmãos, cujo pai era fanático por mitologia grega devido a uma vaga e remota origem genealógica oriunda da Grécia.
O irmão mais velho chamava-se Apolo. Como o deus grego. Depois, nasceram os gêmeos: Rômulo e Remo. Por um lapso, o nome dos dois era romano. Ele próprio veio no ano seguinte.  Depois nasceram as irmãs Afrodite e a caçula Minerva. Uma mistura de grego com romano. Como se vê os pais não entendiam muito de mitologia grega.
Quanto ao “seu” Ércules, era apenas um homenzinho do tipo inofensivo. Um sujeito franzino, sempre sorridente e amável. Prefere me entregar os jornais pessoalmente. Porteiro discreto e muito eficiente.
Pois foi esta santa criatura que se transformou na minha vítima em potencial. Num instante odiei o seu sorriso submisso. Quando ele me alcançou o volume de jornais tentei morder a sua mão.
É sério. Verdade.
Não resisti e tentei literalmente morder a mão do velhinho.
O homenzinho ficou paralisado, incrédulo. Não sabia se era uma brincadeira de mal gosto ou se eu estava tomado por um espírito do mal. Tentou dizer qualquer coisa que não saiu de sua boca. Virou de costas e quase correndo se safou da minha sanha assassina.
A vontade que eu tive foi de alcançá-lo. Pular nas costas dele e estrangular aquele pescoço branco de garnisé velho.
Controlei minha ira com dificuldade.
Fui rapidamente para o elevador pensando em retornar logo para minha casa, minha fortaleza.
No segundo andar o elevador parou e (tremendo azar), entrou uma senhora de mais ou menos cinquenta anos. Uma mulher bem vestida. De banho recém-tomado. Envolta num inebriante perfume francês.
Só que por baixo do perfume tinha aquela inconfundível catinga de cigarro. Ela exalava o cheiro por todos os seus poros. Por cada fio de cabelo.
Um bonito cabelo negro, aliás.
Nos cabelos tinha um rodízio de odores: o shampoo, o condicionador e o fixador. Por trás de tudo isso tinha aquela teimosa e indisfarçável morrinha de fumaça de cigarro.
A porta do elevador fechou-se atrás dela e num instante aquela cabina exígua encheu-se do odor abominável. Um bodum subjacente que todos os fumantes transportam diariamente sem se dar conta.
Primeiro, tentei abstrair, fingir que estava sozinho. Fingir que aquele cheiro não existia. Depois, enfiei o jornal quase dentro do meu nariz e fiquei aspirando o cheiro da tinta.
No décimo andar, cogitei em estrangular a mulher.
No décimo primeiro veio a idéia de jogar aquele elegante zorrilho pelo fosso do elevador.
No andar seguinte minha raiva atingiu o auge. Minha cólera chegou ao máximo de tensão. Algo iria, com certeza, acontecer. Graças aos nossos anjos da guarda ela desembarcou.
Antes de descer no meu andar, espiei para os dois lados, o corredor estava livre.
Avancei depressa para casa e tranquei a porta com duas voltas de chave. Fiquei apavorado comigo mesmo.
Assustado com meu eu raivoso que nem eu próprio conhecia.

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