domingo, 11/6/2000
QUINTO DIA.
A coisa está piorando sensivelmente.
Hoje ataquei o zelador do prédio.
Seu” Ércules. Coitado, de Hércules só
tem o nome, que ainda é escrito sem o agá. Quarto filho de uma família de seis
irmãos, cujo pai era fanático por mitologia grega devido a uma vaga e remota
origem genealógica oriunda da Grécia.
O irmão mais velho chamava-se Apolo.
Como o deus grego. Depois, nasceram os gêmeos: Rômulo e Remo. Por um lapso, o
nome dos dois era romano. Ele próprio veio no ano seguinte. Depois nasceram as irmãs Afrodite e a caçula Minerva.
Uma mistura de grego com romano. Como se vê os pais não entendiam muito de mitologia
grega.
Quanto ao “seu” Ércules, era apenas um
homenzinho do tipo inofensivo. Um sujeito franzino, sempre sorridente e amável.
Prefere me entregar os jornais pessoalmente. Porteiro discreto e muito
eficiente.
Pois foi esta santa criatura que se
transformou na minha vítima em potencial. Num instante odiei o seu sorriso
submisso. Quando ele me alcançou o volume de jornais tentei morder a sua mão.
É sério. Verdade.
Não resisti e tentei literalmente
morder a mão do velhinho.
O homenzinho ficou paralisado,
incrédulo. Não sabia se era uma brincadeira de mal gosto ou se eu estava tomado
por um espírito do mal. Tentou dizer qualquer coisa que não saiu de sua boca.
Virou de costas e quase correndo se safou da minha sanha assassina.
A vontade que eu tive foi de
alcançá-lo. Pular nas costas dele e estrangular aquele pescoço branco de garnisé
velho.
Controlei minha ira com dificuldade.
Fui rapidamente para o elevador
pensando em retornar logo para minha casa, minha fortaleza.
No segundo andar o elevador parou e (tremendo
azar), entrou uma senhora de mais ou menos cinquenta anos. Uma mulher bem
vestida. De banho recém-tomado. Envolta num inebriante perfume francês.
Só que por baixo do perfume tinha
aquela inconfundível catinga de cigarro. Ela exalava o cheiro por todos os seus
poros. Por cada fio de cabelo.
Um bonito cabelo negro, aliás.
Nos cabelos tinha um rodízio de
odores: o shampoo, o condicionador e o fixador. Por trás de tudo isso tinha
aquela teimosa e indisfarçável morrinha de fumaça de cigarro.
A porta do elevador fechou-se atrás dela
e num instante aquela cabina exígua encheu-se do odor abominável. Um bodum
subjacente que todos os fumantes transportam diariamente sem se dar conta.
Primeiro, tentei abstrair, fingir que
estava sozinho. Fingir que aquele cheiro não existia. Depois, enfiei o jornal quase
dentro do meu nariz e fiquei aspirando o cheiro da tinta.
No décimo andar, cogitei em
estrangular a mulher.
No décimo primeiro veio a idéia de
jogar aquele elegante zorrilho pelo fosso do elevador.
No andar seguinte minha raiva atingiu
o auge. Minha cólera chegou ao máximo de tensão. Algo iria, com certeza,
acontecer. Graças aos nossos anjos da guarda ela desembarcou.
Antes de descer no meu andar, espiei
para os dois lados, o corredor estava livre.
Avancei depressa para casa e tranquei
a porta com duas voltas de chave. Fiquei apavorado comigo mesmo.
Assustado com meu eu raivoso que nem
eu próprio conhecia.
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